Gelo e Cinzas

13 A Oferenda de Tomoe


A aldeia não era grande, mas fervilhava. Não era a agitação de um mercado ou a alegria de um festival; era um burburinho baixo e fervoroso, um zumbido de preces sussurradas e passos apressados em direção a um grande galpão de madeira. Youko se fundiu com a sombra de uma casa, observando.

Vestidos com mantos simples de cor branca, os devotos de Tomoe se moviam com uma serenidade que beirava a transe. Seus rostos eram sombrios, marcados por uma devoção intensa. Foi então que uma mulher mais velha, com olhos amendoados e profundos, se aproximou.

— Não precisa se esconder, filha... Veio ouvir sobre Tomoe? — a mulher perguntou, inclinando a cabeça e a olhando com gentileza. — Todos são bem-vindos para ver e ouvir.

Youko manteve a cabeça baixa, puxando o capuz ainda mais para frente.

— Eu... ouvi falar. Vim observar.

— Observar é o primeiro passo para crer — a mulher disse com um sorriso sereno. — Entre. A cerimônia está prestes a começar. Tomoe guiará seu coração.

Sem mais cerimônias, a mulher a conduziu para dentro do galpão. O interior era vasto e frio, iluminado por tochas que projetavam sombras dançantes nas paredes de madeira. Devotos estavam reunidos, cantarolando uma melodia baixa e repetitiva.

— A senhora Arisa estará aqui hoje? — Perguntou. — Ouvir dizer que suas palavras são... inspiradoras.

A idosa balançou a cabeça em negativa.

— Nossa porta-voz se feriu dias atrás em uma... queda, pelo que foi informado. Mas está bem, não se preocupe. Ela se recupera em casa. O importante é que sua mensagem ecoa através de nós.

Youko nunca havia parado para pensar que, assim como ela própria parara na forca, Arisa poderia ter tido um destino igual ou pior após o primeiro encontro delas. O Conclave sumirá com os moradores de Kori, indiferentes se os moradores eram crianças ou idosos. Eram monstros que congelavam vidas e aldeias inteiras. Que garantia havia de que poupariam uma idosa religiosa, por mais influente que fosse entre seus seguidores? A "queda" cheirava a uma mentira conveniente, uma história inventada para acalmar as ovelhas enquanto o lobo assumia o controle do rebanho.

Antes que ela pudesse perguntar mais, os cânticos cessaram subitamente. O local encheu, e Youko fora obrigada a ir para frente com o empurra-empurra frenético dos devotos para estar próximo ao palco.

E foi então que Youko reparou na figura que subia ao palco e o reconheceu imediatamente. Seu carrasco.

Seu rosto ainda carregava a mesma crueldade entalhada, mas agora um tampão preto cobria o olho que ela cegara durante a fuga. Ele não vestia as peças de um carrasco, mas um manto branco imaculado, semelhante ao dos devotos.

Seu único olho bom perscrutou a multidão com a lentidão de um abutre escolhendo sua carniça. O olhar percorreu os rostos expectantes, desprezando a devoção deles, até que, por um instante que fez o coração de Youko parar, pareceu focar nela. Apenas por uma fração de segundo. Apenas o suficiente para os cantos de sua boca se curvarem em um sorriso medonho. Ele a reconhecerá. Mesmo encapuzada, no meio da multidão, ele a reconhecerá.

E então, o olhar passou adiante, como se ela não fosse mais importante que qualquer outro naquele momento.

O carrasco ergueu uma das mãos pedindo silêncio. Youko engoliu em seco. Sua voz, um rosnado familiar cheio de ódio, soou pelo salão, agora tingido de uma falsa piedade:

— Irmãos! Irmãs! O inverno da dúvida termina! — Clamou. — O verdadeiro inverno da purificação se aproxima! Tomoe não está morta, clamam os hereges! Que ela dorme no gelo, aguardando o momento de despertar! Mas esse despertar... — seu único olho percorreu a multidão, faminto, até se fixar na figura encapuzada de Youko. —... exige sacrifício! Sacrifício de sangue! Sacrifício de traidores! Como esta mulher, — Ele rugiu, apontado diretamente para ela. — que escapou da forca, que derramou o sangue dos nossos homens e que se esconde entre nós como uma serpente de nosso pior inimigo! Ela é a prova viva da corrupção de Konoha! Do ódio que condenou Tomoe a cova.

O sorriso dele foi lento e horrível.

— Peguem-na!

Alguém na multidão gritou com a ordem do carrasco e uma onda de devotos avançou sobre Youko. Ela mal teve tempo de reagir antes que mãos ásperas a agarrassem. Um deles puxou com força o capuz, revelando seus cabelos escuros e o rosto marcado pela tensão. Outro, mais audacioso, rasgou a gola de seu manto e o puxou, expondo os sulcos das cicatrizes profundas e irregulares da forca em seu pescoço. Um murmúrio de reconhecimento e horror percorreu a multidão, confirmando as palavras do carrasco.

— É ela! A fugitiva! — alguém gritou, e a fúria dos devotos redobrou.

Com um movimento rápido e fluido, ela girou, desvencilhando-se do aperto de dois homens. Seu pé direito chicoteou no ar, atingindo o peito de um devoto com um chute preciso que o fez cambalear para trás, sem quebrar ossos, mas com força suficiente para tirar-lhe o fôlego. O outro, que tentava agarrá-la por trás, recebeu uma cotovelada firme no queixo, caindo de joelhos com um gemido.

Youko se esquivava golpes desajeitados e empurrava os agressores com uma força surpreendente. Não havia intenção de matar em seus movimentos, apenas a necessidade urgente de criar espaço e neutralizar a ameaça. Ela era uma ninja, e aqueles eram civis, por mais fanáticos que fossem. Um homem tentou agarrar suas pernas, mas Youko saltou sobre ele, usando o impulso para empurrar outro devoto que se aproximava com um pedaço de madeira. O impacto o jogou contra a parede, e caiu inconsciente.

De repente, uma voz trovejou acima do tumulto:

— BASTA! Afastem-se! Ela não pertence a vocês! É uma oferenda para Tomoe! — Sorriu. — Dêem espaço!

A multidão, atordoada, hesitou por um instante, e Youko aproveitou a brecha para se afastar dos últimos devotos que ainda a cercavam. O carrasco, com um salto ágil desceu do palco, aterrissando com um baque surdo no chão empoeirado. Seus olhos, antes famintos, agora ardiam com uma fúria assassina, fixos em Youko.

A multidão recuou intimidada com sua presença, alguns correndo para fora. O carrasco sacou uma lâmina pesada e curva de sua cintura.

— Você pode ter enganado esses tolos, mas não a mim, sua imunda! Hoje, a purificação será completa!

Ele avançou, a lâmina pesada zunindo no ar em um arco mortal. Youko, que até então havia se contido, sacou a kunai de seu coldre, pronta para lutar. Ela se esquivou por um triz, o vento do golpe roçando seu rosto. A lâmina do carrasco atingiu o chão com força, levantando poeira e pequenas pedras. Youko sabia que não podia subestimá-lo.

O carrasco era uma montanha de músculos e fúria, seus golpes eram brutais e diretos, visando esmagar sua oponente. Youko, por outro lado, era a personificação da agilidade. Ela girava, saltava e deslizava, usando a força do carrasco contra ele mesmo.

Um golpe horizontal do carrasco a forçou a se agachar, e ela aproveitou para deslizar por baixo de seu braço estendido, desferindo um chute poderoso na parte de trás do joelho dele. O carrasco cambaleou, mas não caiu, soltando um grunhido de dor e raiva. Ele girou, tentando acertá-la com a empunhadura da lâmina, mas Youko já estava fora de alcance, movendo-se como uma sombra. A luta era um balé macabro de força bruta contra velocidade e técnica. O som do metal contra metal ecoava no galpão, enquanto a multidão observava em silêncio atônito, hipnotizada pela violência intensa. A cada movimento, Youko procurava uma abertura, um ponto fraco, enquanto o carrasco, com seu único olho fixo nela, tentava prever seus padrões, determinado a encerrar a vida dela de uma vez por todas.

Em um instante de descuido, ou talvez de pura exaustão, Youko não conseguiu desviar a tempo. A lâmina do carrasco, em um movimento inesperado de baixo para cima, atingiu-a no flanco, rasgando o tecido de sua roupa e a pele. Não foi um corte profundo, mas o impacto a desequilibrou, jogando-a ao chão com um baque. Antes que pudesse se recuperar, o carrasco estava sobre ela, imobilizando-a com seu peso colossal. A lâmina pesada e fria foi pressionada contra seu pescoço, bem acima das cicatrizes da forca.

— Seu sangue — sibilou o carrasco, seu hálito quente e fétido no rosto dela.— É uma pena ter de arrancar uma cabeça tão bonitinha..., Mas seu sangue valera de alguma coisa.

Seus olhos, selvagens e insanos, brilhavam com uma luz estranha. A lâmina pressionou mais fundo. Uma pontada aguda, seguida pelo calor úmido de sangue escorrendo pelo pescoço.

O desespero invadiu Youko com o cheiro de ferro junto a iminência da morte. Mas algo não a deixava se mover, e não era o peso do carrasco sobre seu peito. Algo deslizava como agulhas por dentro de seu corpo procurando uma saída.

Ao mesmo tempo que sentia a lâmina entrar sobre sua pele, sentia agulhas querendo sair. E as deixou sair.

Seus olhos se arregalaram em um esgar de dor. Com uma força bruta, involuntária, Youko se moveu. Agarrou o pulso do carrasco com força, afastando a lâmina. Com a direita, onde sentia as agulhas saírem por entre seus dedos e poros, bateu com força contra o peito do carrasco, empurrando-o de cima dela. Rapidamente, ergueu-se, ficando agachada.

O carrasco tropeçou para trás, perplexo. Seus olhos, antes insanos, baixaram para seu próprio peito, onde um frio impossível começava a se espalhar. Cristais brancos brotaram do tecido de sua roupa, serpenteando sobre a pele com velocidade sobrenatural. A carne sob o gelo tornou-se pálida, rígida, morta. Um urro escapou de seus lábios.

Ele batia desesperadamente contra o próprio peito, tentando esmagar o inverno que o consumia. Foi então que Youko percebeu que seu próprio braço também estava sucumbindo. Uma coloração azulada e translúcida subira de seus dedos até o pulso, e uma dor lancinante, como se seus ossos estivessem rachando de frio por dentro, percorreu o membro que, incontrolável, tremia.

Os devotos, que momentos antes estavam eufóricos pela luta, agora estavam em silêncio, horrorizados, Foi nesse momento de pausa que o destino interveio.

Um assobio fino cortou o ar.

A kunai não veio de Youko. Ela voou de algum lugar nas sombras do galpão, perfeita e mortal, encontrando seu alvo na testa do carrasco. Os olhos dele se arregalaram, o espanto substituído pelo estupor da morte. Seu corpo, já parcialmente enrijecido, caiu para trás como uma estátua de gelo e carne, golpeando o chão com um baque surdo.

Sem forças para levantar e segurando o braço direito com o esquerdo, Youko mal compreendia o que se passava. Não conseguia erguer o olhar, concentrada na dor que sentia, mas percebeu as sandálias que tocaram o chão à sua frente, levantando uma pequena nuvem de poeira

A sombra que se projetava à sua frente era inconfundível.

Itachi Uchiha não olhou para Youko, tampouco para o homem que acabara de matar. Seus olhos varriam o círculo de devotos paralisados, congelando-os no lugar com o puro peso de sua presença.

— Saiam daqui — sua voz cortou o silêncio, calma e impiedosa. — Se ainda quiserem viver.

Sem demoras, saíram às pressas, correndo e empurrando. Somente quando o último deles desapareceu porta a fora, é que Itachi finalmente se virou para Youko.

Seu olhar percorreu o corte grosso no pescoço, o sangue escorrendo pela roupa, o tremor incontrolável que a sacudia. Não houve preocupação em seu olhar e nem alívio. Apenas analisava os danos causados.

Ela tentou se levantar, tentou falar, tentou erguer a cabeça, mas estava fraca de mais para qualquer ação. Suava frio, suportando a dor e o choque do jutsu que a esmagava de dentro para fora. Com um breve suspiro, pendeu para frente.

Itachi não hesitou. Ele fechou a distância entre eles em dois passos silenciosos. Um braço passou por debaixo de seus joelhos, o outro ao redor de suas costas, sustentando-a contra seu peito. Ela era leve demais, uma pena em seus braços, um farrapo humano tremendo de frio e choque.

Youko apoiou contra o ombro dele, sua testa encostando na lateral fria de sua jugular. O cheiro dele a invadiu: poeira de estrada, chá preto e o leve cheiro de remédio.

— Quando foi que virou idiota? — sua voz era de reprovação.

Ela não respondeu. Suas pálpebras pesadas fecharam-se, a escuridão finalmente a reivindicando. Os últimos fragmentos de sua consciência registraram o movimento rítmico dos passos do Uchiha, o balanço suave de ser carregada, e a fria e inegável segurança que aqueles braços lhe davam.