Gelo e Cinzas
9 Para Konoha... e para o clã
Sempre sentira curiosidade pelas habilidades dos pássaros usados para entregar correspondência. Uma carta era amarrada em suas patas, um nome sussurrado, e então eram soltos ao vento. Podiam voar por dias e encontrariam o destinatário ou alguém de confiança para receber a mensagem.
Por isso, naquela tarde, enquanto colocavam explosivos na entrada de uma caverna usada por inimigos, Youko se perguntou como o pássaro de seu avô a encontrara, mesmo estando a dias de distância de Konoha.
Seus colegas de missão continuaram o trabalho, enquanto ela retirava o pequeno bilhete amarrado à perna da ave. Deu um agrado ao animal antes de soltá-lo. Como jounin, sabia que ninguém a repreenderia por parar para receber correspondência do avô. Todos sabiam o quanto o patriarca do clã Satozuke estava debilitado.
A letra era inconfundivelmente dele. Mesmo cego, seu avô ainda conseguia escrever. Dizia que era o que mais gostava de fazer na infância. As letras estavam tortas e desalinhadas, mas eram legíveis. O velho Satozuke não escrevia para dizer que sentia saudades da neta, nem para pedir que trouxesse algo quando voltasse. Não desejava sucesso na missão, nem pedia que tivesse cautela.
Escreveu para anunciar a morte de Uchiha Shisui.
O Uchiha não a respondeu. Seus olhos ônix assistia as lagrimas que teimosamente insistiam em descer pelo rosto de Youko. Ela soltou o pulso dele.
Limpou as lagrimas do rosto com a costa da mão. Estava revoltada e envergonhada. Sua revolta por esta diante de um velho amigo que cometera um crime hediondo. Envergonhada por saber que independente do tempo falar da morte de Shisui ainda doía muito.
Decidida a confrontar o Uchiha com o que acontecera a seu amado, a porta do recinto foi quebrada com um chute.
Os três olharam surpreso para o que sobrara da porta. Dois homens trajados com a versão branca do uniforme de Yukigakure estavam parados no umbral. O primeiro tinha um sorriso presunçoso no rosto, enquanto o segundo, carregava uma maça no ombro.
— Atrapalhei a reunião? — Arqueou as sobrancelhas o primeiro. Seus olhos passearam pelos três. — Péssimo lugar para se esconder.
O Uchiha permaneceu imóvel e em silêncio, encarando os intrusos com olhar frio. O homem com o sorriso presunçoso deu um passo à frente e observou primeiro Youko e depois Itachi, com olhar crítico.
— Que maravilhoso achado — declarou, abrindo os braços como um pregador. — Um nukenin e uma ninja de Konoha. Dois coelhos com uma cajadada só. Embora... — Seu olhar deslizou para Itachi. — Eu não tenha nenhum problema com você. — Dirigiu-se a Itachi.
Youko permaneceu imóvel e silenciosa analisando a situação. O homem com a maça no ombro se moveu para a esquerda, cortando qualquer rota de escape. Sua desvantagem era grande: quatro contra um. Não confiava em Itachi tampouco em Kisame.
Youko sentia o peso do colar sobre peito como uma corrente pesada. Agora, diante de dois intrusos armados, sua busca por resposta teria de ser deixado de lado, suas prioridades agora era outra. O homem com a maça girava o objeto no ar, pronto para atacar a qualquer segundo, enquanto o outro com o sorriso presunçoso apenas observava.
— Parece que alguém está em apuros, não é? — disse o homem sorridente, dando outro passo à frente. — Não dificulte as coisas, gracinha. Venha conosco.
Youko respirou fundo. Não deixaria transparecer que estava com medo.
— Posso saber pra onde? — Arqueou as sobrancelhas.
— Pra forca! — Ele riu, como se fosse obvio.. — De onde você nunca deveria ter saído.
Youko olhou de soslaio para Itachi. O Uchiha não mostrava nenhuma reação diante da intrusão dos dois homens. Kisame não era exceção. Ela estava sozinha.
— Sair da forca para dar lugar a vocês dois — retrucou ela, sua voz firme, embora o medo queimasse por dentro. — Não sabem com quem estão lidando.
O sorriso do homem com a maça se alargou.
— Oh, sabemos exatamente com quem estamos lidando. Vamos acabar de vez com os boatos e trazer justiça aos nossos irmãos. — Ele olhou-a de cima a baixo. — Você até que é um belo prêmio, mas terá que morrer.
O homem com a maça, cansado da esperar, deu um passo agressivo à frente e balançou sua arma com um movimento rápido e devastador. Youko se abaixou, rolando para o lado e sacando sua kunai do coldre. A maça rugiu no ar, esmagando o piso onde Youko estivera um segundo antes. Madeira estilhaçada voou, como ossos quebrados.
O homem com a maça, irritado por ter errado, girou a arma novamente com força e correu em direção a Youko. Em um movimento rápido, ela lançou uma kunai diretamente na direção dos olhos do oponente. Ele desviou o rosto, instintivamente jogando a cabeça para trás, o aço raspou em sua têmpora. Sangue escorreu, mas não foi suficiente.
Foi o instante que Youko precisava. Plantando o pé esquerdo com força no chão, ela girou seu corpo como um redemoinho, canalizando todo o peso no chute direito que atingiu o lado do joelho do homem com um estalo satisfatório. A articulação cedeu para dentro num ângulo antinatural.
— ARGH! Filha da!
Ele cambaleou, o rosto contraído em uma máscara de dor. A maça escapou de seus dedos entorpecidos, esmagando uma cadeira em pedaços ao cair.
— Boa tentativa, gracinha — murmurou o homem com o sorriso presunçoso, já avançando para ela com uma lâmina curta em mãos. — Mas será que tem mais truques?
Ele cortou o ar com rapidez, forçando Youko a recuar, enquanto corria atrás dela. Youko saltava para trás, pulando sobre as mesas e cadeiras, desviando-se do segundo homem sedento por seu sangue. Ele era rápido e por um triz sentiu o fio da espada passar a centímetros de seu rosto.
Desviava, pulava e atacava. Vez ou outra olhava para Itachi na esperar de um ataque dele contra ela, mas, surpreendentemente, os dois mantinham-se parados.
Afastada o suficiente de seu oponente, ela parou e esticou as mãos a sua frente. Sentiu a energia fluir através de seu corpo, como um rio frio e cortante, e a temperatura ao redor começou a cair rapidamente. Itachi observava com seus olhos atentos, enquanto Kisame cruzava os braços, agora curioso.
Partículas de gelo cintilavam no ar em torno dela. Dentro daquele espaço fechado, flocos de neve começaram a cair. Com um gesto rápido, Youko conjurou lâminas de neve compactada, afiadas como vidro, que pairaram ao seu redor antes de serem disparadas contra os homens.
— O que é isso?! — O homem da maça gritou, esquivando-se às pressas. Mas as lâminas o atingiram, rasgando carne como se fosse papel. Ele recuou, surpreso com a intensidade do ataque e pela dor enquanto o sangue escorria.
O outro, de sorriso presunçoso, também hesitou. Seus olhos arregalaram-se ao ver os cortes nas mãos e os furos na roupa, onde o sangue começava verter.
— Tomoe... — Murmurou, assombrado, mirando os olhos de Youko. Seus ajoelhos fraquejaram, e ele caiu. — Não é possível...
Com mais uma sequência de movimentos, bateu as palmas da mão no chão e a velha madeira do piso congelou num instante. Os inimigos tentaram se manter de pé, mas escorregaram. O da maça sequer se esforçava para manter-se de pé com o sangue colorindo o gelo ao redor. Entanto, o primeiro não tinha mais o sorriso no rosto, olhava com espanto para Youko, balbuciando.
— Interessante — Kisame comentou com um sorriso mais largo. — Isso está ficando divertido.
Youko sabia que o gelo não os manteria afastados por muito tempo, caso sobrevivessem aos ferimentos. Mas ela não precisava de muito tempo, apenas o suficiente para escapar. Virou-se para Itachi e Kisame, a respiração ofegante, a pele azulada e os membros trêmulos. O frio que a fortalecia agora a traía, enrijecendo seus movimentos.
— Você me deve uma resposta — apontou o dedo em riste para Itachi. — Ou será o próximo a ser congelado. — Virou a cabeça com dificuldade para Kisame. O frio que penetrava seu corpo fazia seus movimentos travarem Você também. — Vamos sair daqui.
Não soube por que deu a ordem para que a seguissem. Em sã consciência teria fugido para longe deles, mas o frio a dificultava pensar com clareza.
Lá fora, a nevasca intensificara-se. A neve acumulada sob seus pés sugava-lhe o calor residual. Ao olhar para trás, viu Itachi e Kisame seguindo-a, silenciosos. Mas então, ao dar mais um passo, tombou.
O corpo colapsou na neve, que o recebeu como um sudário silencioso. Seus olhos fecharam-se, a exaustão arrastando-a para a escuridão. A tempestade rugia, cobrindo-a com um véu branco. Itachi e Kisame pararam, observando-a, enquanto o mundo ao redor se tornava cada vez mais frio.
A neve acolheu seu corpo como uma cama fria e silenciosa. Seus olhos se fecharam, e sua mente, exausta, começou a se desligar da realidade. A nevasca ao redor aumentava a intensidade, cobrindo-a rapidamente com uma camada fina e gelada. Itachi e Kisame pararam por um momento, observando-a.
— Parece que sua amiguinha chegou ao limite. — Kisame comentou, ainda com o mesmo sorriso malicioso. — E então? Vamos deixá-la congelar aqui?
Itachi permaneceu em silêncio. Seus olhos vermelhos fixaram-se no corpo inerte de Youko, onde a neve já começava a cobrir seus contornos como um manto pálido. Sem uma palavra, inclinou-se e ergueu-a com um movimento fluido, ajustando seu peso contra o peito. O frio do corpo dela penetrava até mesmo através de seu manto, mas ele não pareceu notar.
— Onde vamos levá-la, então? — Kisame perguntou, cruzando os braços e observando a cena com um misto de curiosidade e divertimento.
— Para um lugar seguro — respondeu Itachi, carregando Youko. — Ela ainda é útil.
**
Despertou com o corpo pesado, como se estivesse submersa em gelo. A primeira coisa que percebeu foi o frio, característico de seu kekkei genkai, que agora parecia tê-la consumido por dentro. Aos poucos, seus sentidos voltaram: o cheiro de madeira queimada, o crepitar da fogueira, as sombras dançantes nas paredes da caverna.
Algo mais quente do que seu habitual manto a envolvia. Ao mover-se com dificuldade, percebeu: era o manto da Akatsuki.
Seus olhos ajustaram-se à penumbra. Kisame estava encostado na parede oposta, a postura relaxada, a cabeça inclinada para frente como se dormisse. Mas ela conhecia shinobis demais para acreditar que ele estivesse realmente desatento. A Samehada, envolta em bandagens, repousava ao seu lado como um animal adormecido.
Ela percebeu, então, que estava sozinha com ele ali. Itachi não estava à vista. Ela precisava entender por que Itachi e Kisame a estavam ajudando, mesmo depois do confronto com os homens do Conclave.
O silêncio era quase opressivo, quebrado apenas pelo fogo. Ela tentou sentar-se, mas os músculos queimavam de exaustão. O uso excessivo de seu kekkei genkai deixara seu corpo vazio, como um rio congelado até o leito.
— Finalmente acordou.
A voz rouca e arrastada de Kisame cortou o ar antes mesmo que ela terminasse de se mover. Ele não abrira os olhos, mas um brilho afiado espreitava por entre as pálpebras semicerradas.
— Por que...? — Ela engoliu a seco, a garganta áspera como vidro moído.
Ele deu de ombros, descruzando os braços.
— Não podia deixar você virar um cubo de gelo, não é? — Sua fala carregava um tom casual, mas ela percebeu um leve traço de zombação em seu olhar — Seria um desperdício.
Ela não respondeu. Em vez disso, puxou o manto da Akatsuki com mais força ao redor dos ombros, sentindo o resíduo de calor de outra pessoa grudado no tecido.
— Eu... obrigada. — A gratidão em sua voz era sincera, mas também relutante. Eles não estavam juntos por escolha, mas sim por circunstâncias. — Onde está Itachi?
— Ah, ele saiu para resolver algumas coisas — Kisame deu de ombros. — Mas não se preocupe, ele volta logo. — Ele se levantou devagar, andando até a fogueira e estendendo as mãos para o calor das chamas. — Enquanto isso, acho que podemos nos conhecer melhor, não é?
Youko não respondeu de imediato. Seus instintos diziam para não confiar, para ficar alerta, mas ela também sabia que não tinha muita escolha naquele momento. Antes que Youko pudesse responder, uma sombra surgiu na entrada da caverna. Itachi estava de volta, e seus olhos a observavam com uma intensidade que fazia o ar parecer mais denso.
Notou com enrubescimento que o Uchiha usava camiseta e calça pretas. O manto com qual envolvia o corpo era dele. Sem uma palavra, Itachi sentou-se próximo ao fogo. Kisame esboçou um sorriso irônico, os olhos saltando entre os dois.
— Eu quero saber o que aconteceu com ele — ela disse de repente, quebrando o silêncio que chegara com o Uchiha. Sua voz mais firme agora. — Você sabe do que estou falando, Itachi. Shisui não se matou... Não podia ter se matado.
Itachi permaneceu em silêncio, seus olhos mirando o fogo, como se estivesse em outra realidade. A fogueira crepitou suavemente, e Kisame suspirou de leve. O silêncio se prolongou até que Itachi finalmente falou. Sua voz um sussurro carregado de uma profundidade que Youko não esperava.
— Shisui tomou uma decisão — Seus dedos entrelaçaram-se lentamente. — Para Konoha... e para o clã.
Fale com o autor