Gelo e Cinzas
10 O Preço da Paz Nunca é Pequeno
Notas iniciais
— O clã? — Indagou ela enojada. — Você massacrou o próprio clã e abandonou Sasuke a própria sorte! Isso é o que Shisui teria querido?
O Uchiha desviou a atenção da fogueira. Seus olhos escuros, por fim, encontraram os dela.
— Sim.
A resposta seca detonou algo dentro dela. Youko ergueu-se num movimento brusco e desengonçado, as pernastrêmulas pela exaustão, mas a raiva bombando em suas veias como pólvora acesa.
— Mentira! — O grito ecoou nas paredes da caverna, fazendo Kisame levantar uma sobrancelha interessado. — O que realmente aconteceu com ele, Itachi? O corpo nunca foi encontra! Ele jamais ia escrever aquele bilhete. Ele não...
Itachi a interrompeu sem alterar o tom.
— Estou com os olhos dele.
O mundo parou. Youko sentiu as pernas amolecerem.
— O quê...? — sussurro saiu arranhado, como se a própria voz a estivesse cortando por dentro. Os olhos se arregalaram, vasculhando o rosto impassível do Uchiha em busca de uma mentira, uma piada cruel. — Você... você roubou os olhos do seu melhor amigo?
O Uchiha não pestanejou e para Youko aquilo foi estopim. Num impulso cego, ela se lançou sobre ele. O impacto os derrubou no chão, Youko montada em seu peito, as mãos cerrando seu pescoço com força suficiente para deixar marcas. Itachi não demonstrava dor, nem medo, nem surpresa. Seu corpo aceitou o impacto e a agressão com uma passividade perturbadora.
— Você o matou! — ela gritou, os dedos pressionando com mais força, buscando sentir o ar faltar nele, buscar qualquer reação, um gemido, uma luta, qualquer coisa que quebrasse aquele gelo insuportável. — Foi você! Foi você!
— Se continuar assim, — ele disse, sua voz um pouco rouca pela pressão em sua garganta, mas ainda controlada. — não entenderá nada. Você quer respostas ou vingança?
Aquelas palavras cortaram o coração de Youko como uma lâmina. O corpo de Itachi estava sob o dela, vulnerável em aparência, mas completamente impenetrável em espírito. Sua calma absoluta era um combustível que a deixava ainda mais furiosa, mais perdida.
— Eu poderia congelar seu pescoço, — sibilou, deixando o chakra fluir para as mãos, deixando-as mais frias que o normal. — arrancar tua cabeça e exibir ela para toda a Aldeia. —Uma lágrima teimosa escorreu, congelando antes de atingir o queixo. — Mas o que eu ia ganhar com isso, não é? Nada disso vai trazê-lo de volta
Shisui tinha sido tudo para ela. Saber que seu corpo nunca fora encontrado e que seus olhos estavam agora nas mãos de Itachi fazia com que uma mistura de traição e tristeza a consumisse.
— Por que...? — A voz de Youko começou a falhar. — Por que ele confiaria em você com algo tão importante?
Itachi, mesmo com as mãos dela ainda ao redor de seu pescoço, falou com uma calma sobrenatural.
— Ele confiou em mim porque era o único jeito de salvar a aldeia. — Seus olhos não se desviaram dos dela. — Ele sabia que a guerra que se aproximava destruiria tudo o que ele amava.
Ela recuou, as mãos vazias e inúteis. Itachi ergueu-se devagar, massageando o pescoço. em olhar para trás, ele se pôs de pé e caminhou em direção à entrada da caverna.
— Venha comigo.
Kisame, que havia se afastado ligeiramente para dar espaço à tensão entre os dois, observava em silencio. Seus olhos astutos analisavam cada movimento e expressão de ambos.
Youko suspirou e o seguiu para fora. Não nevava mais, mas o chão permanência branco. Um silencio fúnebre os envolvia. Itachi parou sob uma árvore esquelética, onde um corvo solitário observava. Um defeito na pureza branca.
Youko arrancou o manto do corpo com fúria e arremessou para ele. O Uchiha o apanhou no ar, e o vestiu novamente com a mesma calma habitual. Youko respirava pesadamente, tentando controlar as emoções que ainda borbulhavam dentro dela.
— Seja homem e conte a verdade, Itachi. — Sua voz soou áspera.
O corvo crocitou. Então, o mundo O corvo crocitou, um som áspero e solitário que ecoou na paisagem silenciosa.
E então, o mundo desmoronou.
Asas negras explodiram do nada, um enxame de sombras gritantes que a envolveram. Youko girou sobre si mesma, os braços batendo cegamente contra penas e bicos que se dissipavam como fumaça ao toque. Era como lutar contra fantasmas, contra a própria mente.
A sensação de ser observada, manipulada, tomou conta dela. Aquilo não era um ataque físico, mas algo muito mais profundo e sinistro. Sua visão começou a distorcer, os corvos misturando-se em um vórtice de escuridão.
— Genjutsu... — engasgou, os pulmões colapsando sob um peso invisível.
Itachi observava, impassível, enquanto os corvos giravam ao redor dela, seu Sharingan emitindo um brilho sinistro.
Então, uma sombra surgiu do chão ao lado do Uchiha, ganhando aos poucos uma forma humanoide. Traços, cabelos e roupas que um dia foram de Uchiha Shisui.
Os olhos de Youko se arregalaram ao ver a figura de Shisui se materializar. Uma miragem cruel. O coração dela acelerou, dividido entre a esperança desesperada e a compreensão sombria de que aquilo não passava de uma ilusão perversa.
A figura de Shisui permaneceu em silêncio, observando-a com aquele olhar calmo e gentil que ela tão bem conhecia, mas que agora parecia vazio.
— Você quer a verdade, Youko? — A voz de Itachi não vinha de sua boca, mas zumbia dentro do seu crânio, ecoando em seus ossos como um trovão distante. — A verdade é que o caminho que escolhi não tem volta. A morte do Shisui... o massacre do clã... tudo foi necessário para evitar algo muito pior.
Shisui veio em sua direção, tão calmo e descontraído como andava todas as vezes que marcavam em sair escondidos, quando vinha a sua casa à noite ficar sob os lençóis.
Ele se aproximou, e o mundo de dor e neve pareceu recuar. Estendeu a mão para ela, a palma voltada para cima, num gesto tão familiar que uma pontada de agonia cortou Youko ao meio. Cada fibra do seu ser gritava para ceder, para se jogar naquela ilusão, para abraçar o fantasma do homem que amava.
Youko ficou tentada a segurar, a tocar ele mesmo sabendo que era uma ilusão.
Mas então, os dedos dele, tão familiares, começaram a se distorcer. A pele suave se transformou em um material áspero e marrom, torcendo-se, entrançando-se. As cordas surgiram de dentro da ilusão, crescendo, se esticando em sua direção como serpentes.
A corda de cânhamo ao redor de seu pescoço apertava, cortando sua respiração e quebrando os ossos. A visão de Shisui, antes uma lembrança de conforto, agora se transformava em algo macabro e distorcido. Ele, o homem que ela tanto amara, observava impassível enquanto ela lutava inutilmente.
— Shisui me confiou os olhos dele. Foi o único modo de tentar impedir o destino trágico do clã Uchiha. — A voz de Itachi era calma, mas havia um peso insuportável por trás de cada palavra. — Ele acreditava que o sacrifício dele poderia trazer paz.
A dor era excruciante. O peso da ilusão não apenas esmagava seu pescoço, mas também sua vontade de lutar. Ela podia sentir o calor das lágrimas escapando de seus olhos e escorrendo pelo rosto, apenas para se perder no cânhamo áspero, misturado com a sensação úmida e sufocante do suor e do desespero.
— Não pode ser...— ela arquejou, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. — Shisui jamais teria feito isso... Não sem lutar. Não sem buscar uma outra solução.
— Ele lutou, Youko. — A voz de Itachi era firme. A imagem de Shisui ao seu lado virou-se e olhou para ele, e um sorriso triste e orgulhoso tocou seus lábios ilusórios. — Mas ele sabia que não havia outra maneira. O clã estava condenado, e se ele não agisse, a guerra civil teria consumido Konoha.
As palavras de Itachi ecoavam na escuridão de sua mente, pesadas, cheias de uma verdade que ela não queria aceitar. Isso não pode ser real, pensou ela, lutando contra o genjutsu.
— Shisui sabia que, ao destruir seus próprios olhos, ele não apenas impediria que caíssem nas mãos erradas, mas também acabaria com chance de qualquer um usar o Kotoamatsukami para causar ainda mais destruição. Ele confiou a mim sua visão. — Itachi a encarou de forma penetrante, parecendo ver através de sua dor e diretamente na alma. — Você pode odiar minhas escolhas, Youko, pode me amaldiçoar ate o fim dos seus dias. Mas tudo que o que fiz foi para honrar a confiança que ele depositou em mim.
A mão ilusória de Shisui tocou o ombro de Itachi, um gesto solidário e pesado.
— Você não entende o que foi necessário, — Itachi continuou, os olhos de Sharingan girando levemente. — O sacrifício dele... e o meu... foram por algo maior do que qualquer um de nós. Eu fiz o que era necessário.
— Você fala de sacrifício como se fosse algo nobre, — ela cuspiu, a voz carregada de uma amargura tão profunda que envenenava o ar. Segurava a corda com força, tentando ganhar um centímetro de espaço para respirar, para falar. — Mas o que você realmente fez foi condenar todos ao seu redor. E agora você quer que eu acredite que tudo foi por um bem maior? — Seus olhos marejados olharam os inexpressivos de Shisui. Ele estava ali, na frente dela, mas ao mesmo tempo estava longe. Aquela visão do homem que ela amava, observando-a sufocar sem fazer nada, era uma tortura que cortava mais fundo que qualquer lâmina. — Shisui confiou em você. E você o traiu..
Itachi deu um passo à frente, sua presença dominadora, mas sua expressão permaneceu inalterada.
— Traição? Eu cumpri o desejo dele. Proteger a vila... era o que ele mais queria.
— A que custo, Itachi? — A voz de Youko quase falhou, mas ela não recuou. — A que custo você protegeu Konoha? Destruindo tudo o que amava?
A tensão no ar era palpável. A kunoichi olhava para Itachi como se tentasse enxergar algo além da máscara fria e impenetrável que ele sempre usava. Itachi deu um leve suspiro, e, por um breve momento, um lampejo de algo mais profundo passou por seus olhos.
— O preço da paz nunca é pequeno, Youko. — Sua voz soou distante. — Mas alguém tinha que pagá-lo.
A ideia de que Shisui havia aceitado seu próprio sacrifício sem buscar outra solução, era algo que Youko recusava a conceber. Ele era o ninja mais talentoso que ela conhecera, sempre encontrando uma saída, sempre acreditando na esperança, por menor que fosse.
— Não pode ser... — ela sussurrou, sentindo o peso do desespero, seus pensamentos ofuscados pelo genjutsu. — Shisui jamais teria desistido assim...
O mundo ao seu redor desmoronou em câmera lenta. Youko debatia-se contra a corda ilusória, os dedos arranhando a própria garganta até sulcos vermelhos e sangrentos aparecerem em sua pele, quando a visão mudou abruptamente.
De repente, ela não estava mais na floresta, mas à beira do Rio Nakano, sob um céu crepuscular. E à sua frente, de costas para ela, estava Shisui. Seus ombros estavam tensos, e seus dedos tremiam levemente enquanto se elevavam em direção aos próprios olhos.
— Shisui...? — sua voz ecoou, irreconhecível para si mesma.
Ele se virou lentamente. Youko engasgou, um grito preso em sua garganta.
Sangue escorria de suas órbitas vazias, pintando linhas vermelhas em seu rosto pálido. Mas o que a atingiu como uma kunai no peito foi seu sorriso. Aquele mesmo sorriso tranquilo, sereno, como se estivessem em um de seus encontros secretos sob as estrelas.
— Você sempre soube que eu não fugiria disso, Youko — disse ele, estendendo a mão para segurá-la.
Ela recuou, assustada.
— Não... — a palavra saiu como um gemido, um último e frágil suspiro de negação. — Você não faria isso... Não assim.
Mas então as memórias a atingiram, uma após outra, como ondas quebrando contra rochas.
Então viu, tão nítido quanto se estivesse acontecendo naquele exato momento, ela e Shisui, sentados no alto do monumento Hokage, compartilhando um dango em um raro momento de paz. O sol se punha, tingindo Konoha de laranja. Ela riu de algo que ele disse, e ele sorriu de volta, mas então seu olhar se desviou para a vila abaixo. O sorriso dele não sumiu, mas se tornou... pesaroso. Sua mão, que segurava o palito do dango, apertou-se levemente.
— Às vezes, — ele disse, sua voz suave, quase para si mesmo, — o preço de ver essa paz todos os dias é maior do que imaginamos.
Na época, ela pensou que ele falava do momento descontraído entre os dois. Agora, ela entendia.
— Você... já tinha decidido.
Lentamente, as imagens ao seu redor começaram a se dissipar. A figura de Shisui, tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante, começou a se dissolver em uma névoa de corvos. O sufocamento cedeu, e o frio da clareira voltou a envolvê-la, substituindo a angústia anterior.
Ela caiu de joelhos na neve, ofegante, sentindo o gosto amargo da liberdade após escapar da escuridão mental. Seu corpo tremia de exaustão. O peso do genjutsu a deixara emocionalmente esgotada, mas ainda assim, algo dentro dela se recusava a ceder.
Itachi, ainda com seu Sharingan ativo, se aproximou a passos lentos, ajoelhando em frente à ela.
— Acredita em mim? — Ela não o respondeu. Seu peito doía pela verdade descoberta. — Você pode odiar o que fiz, — Sua voz estava mais próxima, quase sussurrando diretamente em seu ouvido — Mas Shisui acreditava que essa era a única maneira de evitar algo muito pior.
Youko levantou o rosto, ainda ofegante, seus olhos ardendo com raiva, dor e confusão.
— Mas por que Shisui teve que sacrificar tanto? — sua voz tremia, cheia de emoção avassaladora. — Ele tinha um futuro. Ele tinha... tinha a nós.
A palavra ecoou entre eles como um kunai cravado na madeira. Itachi não recuou, mas seus olhos piscaram.
— O que você fez... — ela murmurou, a voz trêmula. — O que Shisui fez... Não consigo aceitar. Não agora. Não assim.
— Não espero que aceite ou entenda, — respondeu ele, a frieza retornando à sua voz. — Mas você precisa saber a verdade. O que eu fiz, o que Shisui fez... tudo foi para proteger a vila.
Youko sentiu um nó se formar em sua garganta. Parte de sua mente queria acreditar nele, mas outra parte ainda resistia.
— Talvez um dia eu entenda, — murmurou Youko, aceitando que as lagrimas fluíssem. — Mas agora...isso dói demais.
A neve começou a cair suavemente ao redor deles, cobrindo a clareira em um manto branco e silencioso, quase como se o próprio mundo estivesse tentando acalmar a dor e o caos que preenchia o coração de Youko. Ela olhou para cima, observando os flocos de neve caírem lentamente, sentindo o frio tocar seu rosto, misturando-se às lágrimas que deslizavam por suas bochechas.
Itachi permaneceu ali, imóvel, como uma sombra, observando-a com uma expressão indecifrável. O corvo saiu do galho e pousou sobre o ombro do Uchiha.
— Eu só queria que as coisas fossem diferentes, — sussurrou ela, olhando para o chão coberto de neve. — Queria que Shisui — ergueu o olhar para Itachi, direto para os olhos escuros dele. — ... que você... tivessem encontrado uma saída sem tanto sofrimento...
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