Gelo e Cinzas

7 O Destino Brinca com Você


Notas iniciais
Este capítulo faz referência ao prólogo. Quando o escrevi, por volta de 2016-2017, decidir por mantê-lo como estava. No entanto, neste capítulo a cena foi reformulada, mas ainda assim preservando o mesmo significado.

Tremia de frio encolhida no chão, abraçada ao próprio corpo e temporariamente incapaz de aquecer-se. A fogueira apagara há tempos e ao despertar encontrou-se sozinha, no escuro. Com os olhos voltados para a pouca luz da entrada, tiritando de frio, não saia da cabeça que esteve diante dois membros da Akatsuki, totalmente vulnerável, e não fora morta.

Fui incumbido de salvá-la. O homem de pele azulada havia falado.

Então Itachi estava na praça na hora da execução, constatou. Não o vira em meio aquelas tantas pessoas e teria o reconhecido de imediato caso o visse. Um rosto familiar, embora não querido, em meio a tantos desconhecidos hostis.

Teria implorado pela ajuda dele? Não sabia dizer ou não queria admitir a si mesma que sim, iria.

O frio se intensificava, penetrando em seus ossos e tornando cada movimento doloroso. Sua mente estava uma confusão de pensamentos e lembranças, com o rosto de Itachi sempre voltando à tona. Por que ele a salvara?

Apoiou-se nos cotovelos para sentar-se, mas praguejou ao mover a perna. O ferimento estava aberto, mas o veneno fora extraído, pelo menos. Não sentia efeito dele e agradeceu mentalmente pelo fato do veneno em que a shuriken estava embebida, não fosse mortal.

— Não foi desta vez... — murmurou, levando a mão ao bolso e apertando o colar com força. — Devo agradecer ou lamentar?

Ignorando as pontadas de excruciante de dor, calçou as botas e capengou até a saída da caverna.

A luz exterior cegou-a por um instante. Quando seus olhos se ajustaram, estagnou com o cenário horrendo diante de seus olhos. Corpos desmembrados, árvores cortadas e queimadas, kunais, shurikens e espadas por todo lado. Um verdadeiro cenário de carnificina.

Levou a mão a boca, o estômago revirando. Não conseguia desgrudar os olhos daqueles corpos sem vida e desconectados. As peças de roupas lembravam lhe muito a dos ninjas que haviam a perseguido.

Abandonou-os, capengando, seguindo a direção contraria ao qual viera. Se permanecesse paralisada, impressionada com a cena de horror, seria ela a próxima a ser desmembrada.

Yamato, onde você está?

A capa de frio lhe foi retirada, as armas, os suprimentos também e com a neve apertando seus passos, cada movimento era uma punhalada de dor. Estava sozinha em meio a vastidão branca da neve, seguindo nada além da própria orientação para achar algum lugar. Naquele momento, o frio não a incomodava mais, e enquanto não usasse sua Kekkei Genkai as piores das nevascas sequer lhe fariam cocegas. Entretanto, sem armas seria complicado não usa-la.

A visão de uma vaca magrela após a andança trouxe esperança a Youko. O animal pastava, remexendo a neve em busca de grama. Cautelosa, a kunoichi foi até o animal e alisou seu corpo ossudo. Os olhos grandes do bovino a miraram.

— Cadê seu dono, bichinho? — Não houve resposta. — Eu também estou com fome.

O chão que o animal remexia não tinha nada além de neve e terra seca. Tinha esperança de encontrar ao menos um punhado de grama para espantar a fome. O animal não se incomodaria em dividir.

— Afaste-se da vaca! — Esbravejou alguém, a surpreendendo. — Ou arranco suas duas mãos e faço você come-las!

Youko virou-se em direção a voz. Pôs as mãos no alto para mostrar que não tinha armas e que não representava ameaça, entretanto, sorriu ao ver um garoto de não mais que dez anos, embrulhado num manto de pele esfarrapado, brandindo uma espada de madeira.

— Quem é você?! — Cuspiu ele.

Youko arqueou uma sobrancelha.

— Os menores perderam os respeitos pelos mais velhos?

— Cale a boca! Saia de perto da vaca... — trincou o maxilar. — ... você não será o primeiro que mato...

Era uma criança adorável para Youko. Estava sozinho, percebeu, e sua postura, embora seu linguaja fosse sujo, não demonstrava nenhuma ameaça ou transmitia confiança no que ousava dizer.

— Duvido que houve um primeiro — deu um sorriso cansado. — Não sou uma ladra de animais. Me chamo Youko. E você?

— Então o que faz aqui? — Exigiu saber. — Meu pai não vai ter medo de ter cortar em pedaços e dar para os cães.

Youko apalpou a barriga.

— Devo está mais magra que sua vaca, então não valera de nada para você e nem seu pai. Seja educado e me diga seu nome. Ou, ao menos, onde fica uma vila próxima. Ah, e por favor, se for ameaçar alguém, ameace com uma arma e não com um pedaço de pau.

O garoto franziu o rosto e afastou alguns passos, receoso.

— O que uma mulher sabe sobre armas? Nada! Agora suma daqui!

Youko suspirou e pendeu os braços ao lado do corpo, cansada. Capengou até o garoto que, assustado com a aproximação repentina, apontou a espada de madeira a ela. o movimento foi rápido demais para seus olhos acompanharem. Seu pulso torceu-se sob os dedos de Youko, a dor arrancando um guincho. A espada caiu na neve com um baque mudo.

— Assim — ela sussurrou, pegando o "brinquedo”, —é como se segura uma arma.

O garoto esfregava o pulso, os olhos marejados.

— Agora eu mando aqui e não vou ter medo de rachar sua cabeça — séria, foi a vez dela apontar a espada para o garoto. — Onde fica sua casa? Não quero roubá-la ou ferir sua família, quero saber onde estou e onde fica a vila mais próxima. E conversar com seus pais, se possível.

Com os ombros encolhidos e os olhos marejados, ele a olhou com ar de arrependido. Fez um bico com a boca e sua voz, anteriormente alta e autoritária, saiu chorosa.

— Promete?

Youko deu um sorriso de canto. Era uma criança corajosa e valente, mas ainda assim uma criança.

— Prometo.

A aldeia era pequena, com cinco casas e um cercado para os animais de pasto. Das chaminés, saiam fumaça e o cheiro convidativo de guisado despertava o estomago de Youko.

O menino a acompanhou até sua humilde casa. Ele caminhou com os ombros curvados, a cabeça baixa o caminho todo, decepcionado pela perda fácil de compostura ao chorar diante dela.

Ao abrir a porta, o calor que os recebeu era um abraço aconchegante e o cheiro da comida era quase maternal.

Ele a levou ao fundo da casa onde ficava a cozinha, ao abrir a porta de correr encontrou um homem adulto muito bem agasalhado, de avental na cintura, mexendo na panela no fogo alto.

— Souto! — Ele gritou em plenos pulmões ao ver o filho, mas ao reparar em Youko seu rosto escureceu. Em dois passos estava entre eles, puxando Souto para trás e erguendo uma faca de cozinha. — Não temos nada de valor! Por favor, não nos faça mal.

— Que coincidência, também não tenho nada de valor. — Seu olhar desviou para a panela borbulhante no fogão. — Mas se puder me dar algumas informações e um pouco de comida, eu aceito.

**

A sopa era rala, com mais água do que carne e verdura, porém era gostosa. Sentados no chão, em volta de uma mesa velha, compartilhavam a comida.Pai e filho comiam devagar, como quem conta cada garfada. Ela também.

Quando terminou, o vazio na tigela a perturbou mais que o vazio no estomago. Após ter terminado, Youko ficou ressentida em ter pedido comida a eles. Era nítido que era somente pai e filho que moravam ali e a comida era escassa.

Entanto, após se conhecerem, os dois apreciaram a companhia da Kunoichi. O pai disponibilizou ataduras limpas e unguento para passar em sua ferida.

— Kori é longe daqui — informou o pai, ao vê-la dar um nó na atadura e calçar a sandália. — Mas nada vai encontrar lá.

— Não procuro nada em especial lá, só quero ir — respondeu, sem erguer os olhos.

O homem suspirou.

— Você não entendeu — O pai tentava tirar com um palito um pedaço de carne entre os dentes. — Kori não existe mais, por isso não vai encontrar nada lá. Está congelada.

Youko congelou também. Seus olhos arregalaram-se, a mão esquecendo-se do nó da atadura. Cheguei tarde demais.

O silêncio caiu como uma pá de gelo.

— Você é de lá? — Souto inclinou a cabeça, comovido com sua reação.

Ela negaceou. Tinha a esperança de encontrar Yamato lá e pôr um fim na maldita organização, mas eles agiram primeiro.

— E a vila mais próxima?

— Ao norte. Quatro horas de viajem daqui. Posso levá-la amanhã na carroça,

— Agradeço — Pôs-se de pé, o peso do corpo toda na perna sã. — Preciso ir hoje. Agora.

Pai e filho ficaram surpresos, insistiram na permanência de Youko na casa ao menos para dormir e para cuidar do pé machucado, mas a kunoichi declinou o convite. Sua ânsia de encontrar Yamato e concluir a missão era mais importante.

Mesmo com pouco, os dois foram gentis com ela ao lhe darem um manto para o frio, uma mochila com pedaços de carne seca e queijo. Enrolada no manto, com o capuz sobre a cabeça, agradeceu-os mais uma vez e partiu.

O caminho que seguiu encontrou-se com um número razoável de pessoas saindo de suas aldeias em busca de refúgio. Todos a olhavam com desconfiança, tal como ela os olhava, mas seguiam seus caminhos em silencio. Será que Arisa sabe disso quando prega sobre o clã? Não... e provavelmente nem o daimyo.

Não havia sol, apenas as espessas nuvens brancas. Entretanto, quando as nuvens passaram a ter um tom acinzentado, soube que o fim da tarde se aproximava.

Seu caminho foi interrompido na entrada de um bosque. Dois homens com uniforme surrados, as armas bem cuidadas, faziam guarda na entrada, o que indicava que estava no caminho certo. Sua mão voou instintivamente ao pescoço, onde as marcas da corda ainda latejavam sob o tecido o capuz.

— O que você quer aqui? — O primeiro guarda inclinou a cabeça, tentando enxergar o rosto escondido nas sombras do capuz.

— Ir pra casa, senhor. — Respondeu com a voz baixa.

O segundo cruzou os braços.

—Tem que pagar.

— Ela sabe disso — o primeiro deu um sorriso presunçoso, mostrando os dentes amarelos. — Ou não teria vindo por aqui. Cadê seu pai, gracinha?

Youko cerrou os punhos sob o manto.

— Meu marido me espera — respondeu. — Se eu demorar, ele vem atrás de mim.

— Te protegemos dele. — O primeiro gracejou, avançando. — Se não tiver como pagar, eu e meu amigo somos gentis e adoramos uma coisinha quente...

Youko encolheu os ombros e recuou.

— Calma... — o segundo pediu, dando um sorriso nojento. — Olha o lado bom das coisas... Meu amigo e eu somos abençoados por Tomoe. Seu marido deve estar ansioso por um filho, imagina se nascer com nossa Kekkei Genkai — olhou de lado para o amigo e ambos começaram a rir.

Youko riu com eles, um som gelado que fez o primeiro guarda hesitar. Então puxou o capuz para trás, revelando seu rosto. Os dois não a pouparam de elogios vulgares e famintos. Youko ignorou, olhando rapidamente para a estrada deserta.

— Não se preocupe, gracinha, ninguém vai nos incomodar.

— Que bom — sussurrou. Por debaixo do manto fez os movimentos com as mãos devagar, não havia necessidade de pressa. — Não quero ser incomodada.

O primeiro se aproximou com sorriso nos lábios e as mãos em direção ao cordão de seu manto, mas estagnou com a mão no ar. A mão de Youko estava em sua barriga, congelando-o. Por um instante, ele apenas pestanejou até o gelo começar a se espalhar por suas vísceras. Seus olhos arregalaram-se quando percebeu que não podia gritar, nem respirar.

— Ei! — O segundo gritou. Sacou a kunai da vestimenta e investiu contra a kunoichi. Com destreza, ela se esquivou, moldando a neve em estacas afiadas que perfuraram sua perna.

— Quem... Quem é você? — Gaguejou ele, desabando em um crescente vermelho na neve.

Youko o chutou no peito com força, fazendo-o urrar de dor e permaneceu com o pé sobre o moribundo. Olhou-o fixamente. Queria que a última lembrança fosse seu rosto.

— A verdadeira benção de Tomoe — disse, embora as palavras a enchessem de nojo.— Avise aos mortos que ela regressou.

Sua fuga através das árvores foi um turbilhão de pânico e dor. O corpo agora traía ela: calafrios percorrendo sua espinha, membros pesados como chumbo. Cada passo era uma agonia, cada respiração uma facada no peito. O frio que ela conjurara agora a consumia por dentro, e as sombras entre as árvores pareciam se esticar como dedos famintos.

A visão do portão da vila surgiu como através da nevasca que começava cair. Youko forçou seus passos a desacelerarem, misturando-se ao fluxo de transeuntes, com o capuz puxado para frente contra os olhares curiosos. Seguia entre eles capengando, pois cada pisada uma agonia de dor.

As moedas que pegara dos homens lhe dariam, ao menos, um boa noite de descanso. Parada sob a placa de uma estalagem, Youko entrou sem pensar duas vezes. A porta rangeu como um gemido de protesto quando ela entrou, liberando uma onda de ar viciado que cheirava a álcool rançoso, suor envelhecido e algo indescritivelmente azedo. O interior era um caos organizado de vozes embriagadas entoando canções obscenas, o tinir metálico de copos batendo em madeira lascada, risadas que mais pareciam grasnados de corvos.

Ela escolheu um banco no canto mais escuro, as costas contra a parede, os olhos escaneando o ambiente sem mover a cabeça.

O homem atrás do balcão não pareceu feliz ao receber mais um cliente.

— Quero algo quente, fervido, por favor... — pediu, encolhendo-se no banco.

O homem cuspiu no chão antes de desaparecer na cozinha. Quando retornou, o copo fumegante de leite parecia uma piada de mau gosto em meio àquele antro. Youko envolveu o recipiente com dedos que começavam a ganhar um tom azulado sinistro, o calor aliviando momentaneamente a dor que lhe corroía as articulações.

Bebeu com sofreguidão, limpando a boca com a costas das mãos e pediu por mais uma. O barman a olhou com estranheza e até ela compreendia, quem, em um lugar daquele, aceitaria de bom grado beber leite ao invés de bebida barata e de gosto duvidoso?

— Eu vou pagar! — exclamou, jogando algumas moedas manchadas de sangue no balcão. O barman ergueu uma sobrancelha, mas o tilintar do dinheiro falou mais alto.

Foi então que o inferno estourou.

Um grupo de bêbados começou a brigar por uma bolsa de moedas perto da lareira. Socos voaram, garrafas se estilhaçaram no chão encharcado de cerveja, e alguém caiu sobre uma mesa, esmagando-a como papelão. Youko nem pestanejou, os olhos fixos no seu copo vazio.

— Que merda é essa! — esbravejou o barman, saindo detrás do balcão furioso com uma barra de madeira na mão. — Vão briga lá fora seus inúteis! Lá fora, seus anima...

O grito morreu em sua garganta. Um silêncio repentino caiu sobre a estalagem, tão abrupto quanto um golpe de lâmina.

Curiosa, a mulher seguiu o olhar coletivo para a entrada e sentiu o frio corporal aumentar. Eram só dois homens na entrada, e pela expressão do barman eram conhecidos ali.

Puxou mais o capuz sobre o rosto e voltou a atenção a sua bebida.

— É a Akatsuki... — Alguém murmurou com pavor.

Youko soltou um suspiro. Ela sabia que precisaria manter a calma. Se a Akatsuki estava ali, provavelmente tinham negócios a resolver. Youko esperou que os dois não a reconhecessem, mas sabia que isso era apenas uma esperança vã. Ela continuou a beber seu leite que agora começava a esfriar rápido demais, ao mesmo tempo em que tentava ignorar a sensação de que o destino estava brincando com ela.