Gelo e Cinzas
8 Conclave da Geada
O silêncio desceu sobre a estalagem até então ruidosa e barulhenta. O dono jogou o pano velho do ombro sobre a mesa e voltou para trás do balcão. Seu rosto severo, de poucos amigos, seguia os membros da Akatsuki, vendo-os sentar-se numa mesa próxima a lareira.
Ele gritou por um funcionário e obrigou-o, sobre protesto, a atender os dois.
— Quanto é um quarto? — Youko perguntou em voz baixa.
O barman demorou a responder, os olhos ainda fixos nos dois homens sentados perto da lareira. Por fim, avisou que com cinco moedas teria um quarto pequeno no segundo andar. Dadas as moedas, recebeu a chave.
Era uma cama baixa, de madeira velha com o cheiro de mofo. O colchão era fino, duro, e a cobertor mais duro ainda. Travesseiro não havia, mas não tinha problema. Trancou a porta e, sem tirar as botas e mochila das costas, deitou-se na cama . Levou a mão ao bolso da calça. Me ajude a encontrar o Yamato, pediu, apertando o colar com força.
Não ia dormir e não podia tendo Itachi e Kisame tão perto. Seu corpo ainda exalava o frio residual de seu jutsu, um farol silencioso para qualquer sensor treinado. Itachi certamente notaria, se já não tivesse notado. Entretanto, não sabia por que o temia. Ele não a matou quando teve oportunidade e por que agora se importaria com ela? Por questões obvias, ela tinha de evitá-lo. O que responderia caso fosse reconhecida como Kunoichi de Konoha e não matasse o nukenin de seu País?
Seu corpo arqueou sob o dele, os músculos tensos de treinamento ninja agora relaxados apenas para ele. As mãos dele, ágeis como lâminas, deslizavam por sua pele, deixando fogo no rastro dos dedos.
— Shisui... — Seu nome saiu como um suspiro quebrado, misturado com o som úmido de seus lábios se encontrando.
Ele riu, o calor do hálito dela contra seu pescoço.
— Tão impaciente, Yo.
Ela o puxou mais perto, as pernas envolvendo seus quadris. A dor inicial agora derretia em ondas de prazer, cada movimento dele dentro dela mais profundo, mais certo.
— Mais... — Ela gemeu, os dedos enterrando-se em suas costas, sentindo os músculos dele se flexionarem sob sua pele.
Shisui sorriu, aquele sorriso de canto que a deixava louca, e obedeceu. Seus quadris bateram contra os dela com um ritmo que a fez ver estrelas.
Ela olhou para ele, presa entre o êxtase e algo mais profundo.
— Podemos ficar assim para sempre?
A pergunta saiu mais vulnerável do que pretendia.
Shisui parou, os olhos negros brilhando no escuro. Ele inclinou-se, seus lábios encontrando os dela.
E então, quando seus corpos estavam mais conectados do que nunca, ele sussurrou:
— Eu tô morto, Yo.
Um calafrio percorreu sua espinha ao despertar. O corpo estava encharcado de suor, e o coração batia descompassado contra as costelas, um tambor ecoando os resquícios de um pesadelo. Não devia ter dormido. Não devia ter sonhado. Passou as mãos pelo rosto, tentando afugentar as imagens que teimavam em persistir, e um rubor quente subiu-lhe às faces. As pontas dos dedos ardiam, quando deveriam estar geladas.
Não soube dizer a quanto tempo estava dormindo, mas a algazarra no andar de baixo havia cessado. Espreitou pela porta o corredor antes de sair, verificando se tinha alguém por perto, mas o único vestígio dos demais hospedes eram as luzes que saiam por debaixo das portas.
Nenhum mal haveria em deixar a estalagem sem se despedir, contanto que devolvesse a chave. O quarto já estava pago, afinal. Mas ao descer e adentrar o salão principal, deparou-se com um cenário de fim de festa: mesas cobertas de copos vazios, cadeiras viradas, o ar pesado com o odor pungente de álcool barato. E um trio reunido perto da lareira, longe de qualquer outra alma. As vozes eram baixas, as cabeças, juntas, num debate que parecia sério.
Ficou na penumbra da escada, longe das vistas.
— Eu vi o corpo! — Pôde ouvir a voz de um deles alterada. Com força, bateu o copo de metal da mesa. Instintivamente, Youko encolheu-se mais na sombra.
— Quem não viu, otário? Ta repetindo isso toda hora, já ta cansando. — Outro reclamou.
— Aquele cara... ele falou da mulher que fugiu da forca... Vocês lembram? — O terceiro perguntou com receio. — E se for ela?
Youko levou a mão ao pescoço sentindo a marcar da corda. Então sua fuga da morte já se espalhara.
— E se for, qual é o problema? — O primeiro voltou a perguntar. — Não passa apenas de uma qualquer de Konoha, não é? Aqueles malucos estão arruinando tudo, é mais do que obvio que Konoha viria investigar.
— Burro! Quem mencionou Konoha aqui? O que estou tentando falar é se... se foi alguém que fez aquilo sem a máquina maluca do Nezu...
Houve uma risada.
— Está ficando louco igual aqueles adoradores? Que decadência, cara...
Outra risada.
— Todos sabem que foram mortos. Não há sobreviventes.
— Mas... Até hoje não foi encontrado o corpo de Tomoe.
— Ah, me poupe!
— Todos sabem que está de baixo do templo da mansão. Eu lembro que alguém falou isso com meu pai quando eu era menor. É uma área toda congelada, cheia de monstros e cadáveres. Dizem que fede até hoje, e que o corpo de Tomoe é impossível de ser reconhecido. O pior é que dizem que ela não foi morta, né. Mas já que os ninjas de Konoha mataram todos os remanescentes do clã, não tinha ninguém para salvá-la daquele buraco.
— Não seja idiota... Se ela tivesse presa com certeza ia sair rapidamente. Sem ajuda de ninguém.
— De qualquer forma, vocês acreditando ou não, para mim foi alguém que matou aqueles guardas. E sabem mais? A mulher da forca tem alguma coisa com isso.
— A mulher da forca é uma criminosa qualquer! Uma ninja de outro Pais, só isso. Vocês estão um porre hoje. — Pôde ouvir o som da cadeira arrastando, e alguém saindo para o frio da noite.
Dois permaneceram na mesa, em silencio, a beber. Youko ousou sair das sombras e se aproximar deles. Seus passos não fizeram sequer um barulho contra o chão de assoalho. Concentrados de mais nas chamas da lareira e da bebida ruim dos copos, não notaram a presença dela até ouvi-la pigarrear.
De cenho franzindo, um dos homens a olhou de cima a baixo, e xingou.
— Não tenho dinheiro não. Vá procurar lá fora!
A kunoichi puxou a cadeira e sentou-se com eles. Ambos os homens a olharam com estranheza.
— Você é doente, cara? É surdo?!
— Ouvi o que estavam conversando a pouco — disse. Mantinha a cabeça baixa, pois, mesmo com o capuz na cabeça, não queria que eles sequer a reconhecessem como mulher. — Poderiam dividi-la comigo?
— Vai se foder! — Praguejou. O som inconfundível de moedas rodando sobre a mesa o fez muda de expressão e sorrir. — Perdão, colega, deve ser novo por aqui, certo? — Pegou as três moedas lançadas por Youko na mesa, e jogou uma ao amigo ao lado.
— Certo... — Respondeu ela, aquiescendo. — Ouvir falarem de uma arma. Então é verdade? O que aconteceu a Kori não foi uma avalanche?
Um riu com escarnio.
— Se aquilo foi uma avalanche eu sou uma princesa. Foram os maldito da Conclave da Geada. — O homem se inclinou, o cheiro de álcool e podridão saindo de seus poros. — Já ouviu falar deles? Não? São uns loucos.
— Loucos que estão fazendo mais por nós do que o próprio daimio — disse o segundo. — O País da Neve está uma ruína, colega. Não temos dinheiro, emprego ou segurança. O engomadinho fica no castelo protegendo só a capital, e esquece de nós, os pobres coitados aqui.
— Não faz sentido... — observou Youko, ponderando. — Se eles fazem mais por vocês, então por que estão congelando as aldeias?
O primeiro deu um longo suspiro.
— O daimio prometeu prender e tortura qualquer criminoso em praça pública, mas nunca fez isso. O Conclave, por outro lado, quando são questionados, eles mostram porque não devemos fazer isso. — Explicou o primeiro homem, virando o copo de cerveja na boca. — Não é sobre ajudar. É sobre governar pelo medo.
— Há um pessoal que acredita em Tomoe. Eles têm ligação?
— Um pouco. — Disse o segundo. — O Conclave criou uma arma inspirada na Kekkei Genkai de um clã antigo daqui. Os doidinhos apenas andam pra lá e pra cá proclamando o que aconteceria se Tomoe não fosse morta.
Era o suficiente. Afastou a cadeira e os agradeceu pelas informações antes de sair. Agora seus inimigos tinham um nome.
De volta ao quarto, matutava em como seguir a diante com a missão. Não tinha como parar para procurar por Yamato, não sem uma pista concreta do seu paradeiro. Conclave da Geada, pensou enojada, nome ridículo. Apertou o colar no bolso. Seremos eu e você novamente, meu bem.
Um sorriso triste e fugaz cruzou seus lábios. Nunca tivera a oportunidade de realizar uma missão ao lado de Shisui. Enquanto ele ascendia nas fileiras da ANBU, ela ainda iniciante como jounin, e seus caminhos raramente se cruzavam. Agora, via-se reduzida à dolorosa ironia de encontrar conforto na fria lembrança de um objeto, uma presença tenra de algo que jamais voltaria.
Amanheceu nevando. Youko desceu para aproveitar o quer que fosse oferecido de café da manhã na estalagem. Não encontrou o trio da noite passada e nem Itachi entre os presentes no ressinto. Comeu um peixe frito e bebeu chá, que lhe mais parecia água fervida.
Quando saiu, a neve caia intensa e o vento uivava. Avançava pela estrada a passos rápidos, mesmo com dor. Pelas informações dadas a contragosto pelo estalajadeiro, havia uma aldeia próxima, onde teria mais pessoas e obteria informações mais concisas.
Por onde seguia, o cenário era de desolação. As árvores altas cobertas de neve, o chão branco com marcas de pegadas humanas, de cascos de cavalos e carroças, todos no sentido aposto ao seu, rumo a ilusória segurança da capital.
Então, parou. Uma presença aproximava-se, sutil mas persistente. Percebera-a logo ao deixar a aldeia, uma sombra à distância que agora se materializava. A mão encontrou a kunai em seu coldre, os dedos envolvendo o cabo com a familiaridade de um velho amigo.
— Em choque? — A voz ecoou através da nevasca que começava a intensificar.
Youko ficou tensa, reconhecendo-o de imediato. Ela se virou lentamente e olhou para os dois homens a sua frente.
— Não. É que o cheiro de peixe podre me enjoa — disse à provocação de Kisame.
O nukenin emitiu uma risada baixa, um som rouco que se perdeu no vento. Itachi mantinha o rosto impassível, seus olhos escuros fixos nela como se pudessem ver através de sua alma.
— Você não deveria estar aqui. — O Uchiha disse.
— Eu poderia dizer o mesmo sobre vocês. — Retrucou. Youko manteve a mão no punhal, sem abaixar a guarda. — Não é segredo que a Akatsuki está na mira da maioria dos países. Vocês não deveriam estar aqui.
Kisame riu, enquanto Itachi permaneceu impassível, uma estátua com os olhos escuros fixos nela.
— Por que não? — Kisame perguntou. — Você está aqui, não está?
Youko franziu o cenho, os dedos contraindo-se involuntariamente em torno da kunai.
— Isso é diferente. — retrucou. — Eu não sou procurada por estar na lista dos mais perigosos criminosos do mundo.
— Oh-ho — Kisame riu, divertindo-se com a situação. — Essa foi boa, Itachi. Mas já encontramos cartazes de procura-se seu. Estamos no mesmo patamar agora.
A neve se intensificava mais e mais. Youko poderia permanecer o dia todo sem se incomodar, mas duvidava que os dois a sua frente fossem capazes disso. Com movimentos rápidos de mãos poderia atacá-los, aproveitar a pouca visibilidade causada pela tempestade e congelá-los. Que honrarias receberia por levar Itachi morto para Konoha?
No entanto, a mão relaxou. O olhar de Itachi sobre ela não carregava a intenção letal de um predador. Ele não a matara na floresta, quando tivera toda a oportunidade. Não o faria agora, numa estrada aberta. Era um risco monumental confiar na lógica quando se tratava de dois assassinos, mas era a única moeda que tinha.
— O que vocês querem? — Questionou Youko, baixando a guarda um pouco. De qualquer forma tinha que permanecer firme perante aqueles dois.
— Conversar. — Itachi finalmente deu a resposta, simples e direta, mas que soou como a coisa mais absurda que Youko já ouvira na vida.
A surpresa tirou-lhe o fôlego por um segundo, deixando-a sem palavras. Conversar? O que o Itachi Uchiha, o carniceiro do clã, poderia querer conversar com uma jounin de Konoha? Ele não deu tempo para que ela processasse ou retrucasse. Virou-se e começou a andar, com Kisame seguindo-o com sua passada larga e desleixada.
Itachi parou diante de uma cabana de madeira decadente, isolada na borda do povoado. Kisame posicionou-se ao seu lado, como um cão de guarda sombrio, enquanto Youko permaneceu alguns passos atrás, a desconfiança a ferver em suas veias.
O Uchiha puxou a porta, que se abriu com um rangido alto, revelando uma sala escura. Kisame entrou primeiro, sem hesitar, enquanto Youko permaneceu no vão da porta, observando o interior com cautela. A sala era pequena e tinha pouca mobília. Havia algumas cadeiras velhas e uma mesa no centro. Na parede, algumas velas estavam acesas, iluminando o cômodo com sua luz fraca.
— Estamos sozinhos agora — observou ela. Cruzou os braços. — O que querem conversar?
Youko manteve a expressão impassível, tentando manter a calma. Ela podia sentir o olhar de Itachi sobre ela, como se procurasse algo.
— O que Konoha quer aqui?
Youko revirou os olhos, não crendo da pergunta do ex-ANBU.
— O que não lhe interessa! — Retrucou. — Agradeça que eles não me mandaram atrás de você, senão estaria morto. Os dois!
— Tem certeza disso? — Kisame perguntou, emitindo um riso baixo. — Ou estaria pendurada na corda até apodrecer?
Youko trincou o maxilar.
— O que eles querem? — Itachi repetiu. — Tem a ver com seu clã, não é?
— Não — Disse, de forma evasiva. Seu clã era o Satozuke e nada tinha a ver com qualquer coisa com o caos em Yukigakure. — O que você sabe para supor isso?
— Sei sobre o Conclave.
Merda. O pensamento surgiu, claro e gelado. Se a Akatsuki estava interessada no Conclave, a situação era muito maior e mais perigosa do que qualquer relatório em Konoha poderia sugerir.
— Ah, é? — Ergueu o queixo, tentando parecer desdenhosa. — E por isso matou aqueles homens na floresta?
— Eles não acreditam que você seja do clã Yukiryuu — ignorando a pergunta dela, ele continuou a falar, a deixando espantada. — Talvez nem você mesma. Seu clã é o Satozuke, não é?
— Não sei se deveria ficar surpresa por você lembrar disso. De qualquer forma, o que tem esse clã comigo?
— Você sabe. — ele insistiu, seus olhos escuros parecendo ver direto através de suas mentiras e negações.
— Sei tão pouco quanto você... Se você sabe algo sobre o Conclave, fale logo e não me faça perder tempo!
— AH, sabemos bastante sobre eles.... — começou Kisame, satisfeito. — E também sabemos que a querem morta. A protegemos naquele dia e nem fomos agradecidos. Tudo por causa de uma promessa idiota que o Itachi fez.
Itachi lançou um olhar assassino em direção ao companheiro, um clarão de genuína fúria rompendo sua impassividade por uma fração de segundo. Mas a palavra já escapara.
— Que promessa? — a voz de Youko saiu como um sussurro áspero, todos os seus sentidos focados no Uchiha. Ela avançou um passo. Seu coração batia com tanta força que parecia querer escapar de seu peito. — Que promessa?
Itachi virou nos calcanhares, encerrando a conversa. Youko esticou a mão e agarrou seu pulso, forçando-o a parar e a se virar para encará-la.
A força de sua pegada surpreendeu até ela. Seus olhos, sérios e intensos, brilhavam com as lágrimas teimosas que começavam a se formar.
— Como ele morreu, Itachi?
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