Gelo e Cinzas
6 A Promessa
A água gelada atingiu seu rosto como um soco. Youko arquejou, o corpo sacudindo bruscamente para frente, os sentidos desorientados tentando se reconectar com o mundo. Praguejou ao sentir as mãos amarradas atrás das costas, mais uma vez. Mas agora havia um nó forca apertando seu pescoço.
Estava no meio de uma plataforma de execução. A direita havia dois homens também com laço no pescoço, mas um deles já pendia sem vida, o pescoço quebrado em um ângulo grotesco, os pés imóveis. O segundo respirava em rápidos golpes, os olhos esbugalhados de terror.
Yamato...?!
Por um instante de pânico, visualizou Yamato naquele cadáver. Por sorte não era ele. Nenhum dos homens que lhe fazia companhia na plataforma eram conhecidos.
O murmúrio da multidão a alcançou como um enxame de vespas. A maioria era civis com os rostos pálidos, obrigados a assistir aquelas execuções. Colados a plataforma havia homens vestidos com o mesmo traje de ninja elite de Yukigakure, mas as cores eram cinzas. Procurou na multidão o rosto de Arisa, mas não a encontrou.
O som do banco sendo chutado ecoou como um tiro. O homem ao seu lado convulsionou, a corda rangendo sob seu peso, os pés chutando o ar em uma dança horrível. Youko assistiu, paralisa. Ela engoliu em seco, um grio mortal subiu por sua espinha, misturando-se ao suor que escorria sob suas roupas. Precisava se concentrar para sair dali viva.
Tocou nas amarras do pulso com um dos dedos, fechou os olhos e concentrou para congelar a corda. Com as mãos soltas teria chance de lutar decentemente.
— Isso acontece com ladrões e traidores! — Berrou o carrasco, apontando para os corpos. — O próximo que nos desafiar não terá nem esse privilégio.
Ele caminhou pela plataforma em direção a Youko. A multidão o seguia com o os olhos vazios. A kunoichi não usava sua bandana, não tinha nada que a caracterizava como ninja de Konoha, então por que estava ali?
O banco sob seus pés tremeu. Não, ela tremia. As lágrimas queimavam seus olhos. Já enfrentara a morte incontáveis vezes. mas nunca sentira tanto medo.
Aos poucos o gelo se infiltrava na corda, cristalizando as fibras uma a uma, mas não sabia se teria tempo o suficiente antes do seu banco também ser removido. Ao menos Yamato está vivo, pensou, amargamente. Ele daria u enterro digno a seu corpo. Isso, é claro, se fosse encontrado.
— Eu conheço Arisa! — Sua voz irrompeu, tomada pelo desespero. — Chamem ela!
— Silêncio! — O carrasco avançou, seu hálito quente e cheirando a peixe atingiu seu rosto. Entre a multidão, os homens de cinza sorriam, como espectadores de um espetáculo.
O rapaz que jogara água em Youko aproximou-se e a esbofeteou com força. O impacto fez seu maxilar estalar, o gosto de sangue enchendo sua boca. Ela praguejou, os dedos contraindo-se involuntariamente, acelerando o gelo na corda. A queimadura do frio misturava-se à dor do golpe.
— Eu não fiz nada! Sou inocente! — Seu grito fez a corda apertar mais o pescoço
— Cala a boca!
Ela esperou outro golpe, mas o rapaz ficou parado perto de mais do banco. O carrasco virou-se para multidão e Youko rezou para que algum rosto ali fosse familiar, que alguém compadecesse de sua situação.
— Esta mulher... — O dedo dele a acusou. — Invadiu nosso país, matou nossos irmãos e fez uma recém. Digam-me, ela merece a forca?
A multidão sem muito entusiasmo concordou, gritando um sonoro “sim!”
— Ela fingiu ser quem não é. — Sua mão mergulhou no bolso na calça remendada, e quando ergueu o pingente de Youko, o mundo parou. — O brasão do clã Uchiha! Ela veio de Konoha para nos destruir! Hoje, enviaremos seu corpo de volta ao Pa´si do Fogo como aviso.
O choque foi como um golpe no estômago. Youko debateu-se contra as amarras, os músculos tensionando até doer.
— NÃO!
A corda gelada estalou. Seu braço livre voou em direção ao colar, mas tarde demais.
O banco foi chutado.
O ar escapou de seus pulmões. Seus pés chutaram o vazio, os dedos arranhando a corda que a estrangulava. O mundo se estreitou a pontos brancos, a dor explodindo em sua garganta, suas veias ardendo sob a pele.
Então o impacto veio. Seu corpo desabou no chão. O laço da forca estava frouxo, mas a sensação de morte, não. Tudo girava. A dor martelava seu crânio. As vozes se tornaram murmúrios distantes, e os rostos ao redor, apenas borrões cinzentos sob o céu branco.
Não tinha morrido. Ainda não. Youko arrastou-se para frente, os cotovelos tremendos, a visão turva. A corda não se partira com o peso, fora cortada, e ali, cravada no chão como uma sentença, estava uma kunai.
O carrasco permanecia imóvel, ainda segurando seu colar. Os olhos dele refletiam o mesmo terror que começava a se espalhar na multidão. Alguém a salvara.
Youko agiu antes mesmo de pensar. Arrancou a kunai do chão e a cravou no olho direito do carrasco. Seu grito ecoou pela praça, o sangue jorrando entre seus dedos enquanto ele cambaleava. Ela arrancou o colar de sua mão antes que ele caísse.
A multidão a sua frente a olhava espantados, os ninjas aos pés da plataforma, até então sorridentes, congelaram em choque com o acontecimento e ela também. Entretanto, o rápido movimento entre as árvores fez Youko perceber que alguém estava ali. Alguém que cortou a forca e jogou a kunai a ela. Yamato, pensou com alívio.
Ela correu pela plataforma, saltou para o chão, empurrou com força quem estivesse em seu caminho. Corpos tombaram, gritos se ergueram. E então ela sumiu entre as árvores, atrás do vulto que liderava a fuga.
Yamato ia frente numa velocidade que Youko era incapaz de alcançar devido o enforcamento. Seus pulmões ardiam, a garganta latejava onde a corda a estrangulara. Não demorou para os ninjas de Yukigakure surgissem atrás dela. Então mais uma ador a atingiu.
Algo quente e afiado cravou-se me em sua panturrilha esquerda. Uma shuriken envenenada. Youko caiu de joelhos, os denes cerrados para noa gritar. O veneno se espalhou como fogo em suas veias, mas ela não tinha tempo para parar.
Virou-se. Os perseguidore estavam apenas a poucos metros de distancia. Com um gesto rápido, ela formou selos e bateu no chão.
Uma muralha de gelo explodiu atrás dela, bloqueando o caminho. Só precisava de tempo. Arrancou a shuriken com um pixão brusco, o sangue jorrando. Capengando, correu atrás de Yamato. Viu o momento em que ele entrou numa caverna que tinha sua entrada coberta por neve. La dentro, uma fogueira tremeluzia, lançando sombras dançantes nas paredes úmidas.
Youko desabou diante das chamas, o veneno dançando em suas veias.
— Obrigada... — A voz saiu em um sopro, as mãos tremendo ao tocar as marcas profundas da corda no pescoço. —Achei que... o pior tinha acontecido a você. — Engoliu em seco, sentido a fraqueza dominar o corpo. — Desculpa ter lhe abandonado. Nedzu é o líder.
Soltou um suspiro antes de fechar os olhos.
— Deve está me confundido, moça. — A voz masculina pronunciou. E não era de Yamato. — Não sei do que está falando.
Youko ergueu a cabeça tão rápido que o pescoço doeu.
— Quem... quem é você? — perguntou com dificuldade.
Uma risada baixa ecoou na caverna.
— Um amigo, eu acho. — respondeu. — Fui incumbido de salva-la.
— Por quem? — Youko franziu o cenho, sem entender. — Por que não mostrar seu rosto?
A pessoa sentada no fundo da caverna só tinha os pés amostra, iluminado pela chama da fogueira. De pé, o homem caminhou até a luz. O rosto dele Youko nunca vira, embora já tivesse ouvida falar de sua aparência, mas o manto que usava era inconfundível. As nuvens carmesins sobre um céu preto.
Youko engoliu em seco e prendeu a respiração.
— Por quê?
O homem tinha aparência de um tubarão de um tom azul acinzentado, os olhos eram pequenos e redondos e as marcas em seu rosto assemelhava a brânquias.
— Também quero saber. Seu amigo deve lhe responder melhor que eu.
— Yamato? — perguntou com urgência, os dedos contraindo no chão.
— Ah, esse não. — Respondeu, dando de ombros. — Não faço ideia de onde ele esteja.
Apoiou-se nos cotovelos para se sentar, embora a tontura a dificultasse se mexer. Pôs a mão no bolso para sentir o colar. Era a única coisa que trazia consigo. Sua mochila ficara em Hyomura, junto com sua bandana, algumas armas e pílulas. Ao menos o colar estava seguro.
O homem se sentou em frente a fogueira e estendeu a mão para se aquecer, Youko tirou as sandálias, puxou a barra da calça e apertou o local da ferida, expelindo sangue e veneno junto.
Se ele não a matara até aquele momento, presumiu que não faria mal algum a ela. Contudo, o veneno em seu corpo não seria tão indulgente quanto aquele membro da Akatsuki.
— Está resistindo bem a isso aí. — os olhos pequenos do homem estavam fixos no sangue escuro escorrendo pelo tornozelo — Não deve ser mortal pra ta viva até agora. Posso ver?
— Não! — Ela rosnou, os dedos pressionando a ferida com força. O sangue jorrou, levando consigo traços do veneno. — O que vai acontecer quando eu apagar?
— Por mim, estaria morta no momento em que fechasse os olhos. — respondeu, indiferente. — Mas meu amigo, bem, eu não sei... talvez ele a mate pessoalmente. Creio que ele seja muito galante para ver mulheres enforcadas. Você sabe o que acontece com um corpo pendurado, não é? Não importa quão bonita seja, é uma morte feia de se assistir.
Youko deu de ombros, o ferimento em seu pé precisava de atenção.
— E eu posso saber seu nome? — Focada em expelir o veneno, não o olhou ao perguntar. — Se vou morrer, quero ao menos saber seu nome e do seu amigo, assim posso persegui-los do outro lado.
Ele sorriu com os dentes afiados brilhando a luz do fogo.
— Engraçada, você. Me chamo Kisame Hoshigaki. — Seus olhos desviaram-se para entrada da caverna onde alguém acabava de entrar, fazendo sombra da pouca luz natural que invadia o local. — Quanto a ele... Melhor que se apresente.
Os olhos de Youko demoraram no rosto impassível que acabara de surgir. Os olhos dele miravam o dela com indiferença, mas havia reconhecimento. O tempo não fora muito cruel com ele, ainda tinha a mesma aparência da adolescência, os mesmos cabelos longos e as profundas olheiras.
Entanto não era o Itachi Uchiha que um dia chegou a conhecer e, sim, um nukenin.
Youko sabia que, em condições normais, já estaria morta. Ferida, envenenada e sem recursos, era presa fácil. Seu único recurso era o frio. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou o chakra fluí, fazendo a temperatura despencar.
— Ei, demorei pra fazer essa fogueira! — Protestou Kisame, incomodado com o frio repentino. — Conversa com sua amiga, Itachi, antes que ela congele isso aqui.
Ele tinha a mão pousada na abertura de seu manto, de modo displicente, e caminhou até ela. Youko se afastou, se arrastando, atpe colidir com a parede da caverna, os dedos enterrando-se na terra. Quando ele se agachou à sua frente, ela cerrou os olhos, esperando o sharingan.
— O que Konoha quer aqui? — Indagou ele. Sua voz rouca soou perto de seu ouvido, mas ela não o respondeu, com medo. — Youko, — Seu nome naquela voz fez seus olhos se abrirem de repente.— o que Konoha quer aqui?
— ... Não é da sua conta. — disse temerosa, esperando pelo momento que o sharigan seria ativado e engolida por um genjutsu.
Ele ergueu-se e se afastou, dando-lhe as costas. O coração de Youko batia descompassado no peito. Mas ele não a matara, percebeu, e fora ele que mandara Kisame salvá-la da forca.
— Por quê? — Franziu o cenho, mas ele não respondeu nem a olhou.
— E aquele colar, hein? Foi você que deu a ela, Itachi? — Kisame jogou alguns gravetos ao fogo para mantê-lo vivo. — Não é todo mundo que tem uma belezinha dessa como amiga. — Youko ergueu a cabeça para olha-lo. — A minha tive que matar.
— Não fui eu. Ela não deveria usá-lo.
Youko levou a mão ao bolso e apertou o colar entre os dedos. A kunoichi já não aguentava o efeito da substância em seu corpo, encostou a cabeça na parede e fechou os olhos. A escuridão avançava em sua visão, seus sentidos se dissipando como fumaça.
— Se forem me matar... — Ela engoliu, a voz sumindo. — Me deixem com o colar, ao menos...
Não demorou para ela desmaiar. Os dois homens ainda permaneceram no local, sendo aquecidos pelo fogo e atacados pelo frio vindo do corpo de Youko
— Por que salvou essa daí? — indagou Kisame, indicando com o queixo para a mulher desfalecida.
Itachi não respondeu imediatamente. Seus olhos estavam fixos em Youko, nos cortes em seu pescoço, no sangue em sua perna, no jeito que seus dedos ainda se curvavam em torno do colar.
— Fiz uma promessa.
— Promessa? — Kisame repetiu com ceticismo na voz. — Não sabia que você ainda se importava com essas coisas.
Itachi ficou em silêncio por um longo momento.
— Algumas promessas são feitas para serem cumpridas.
Kisame deu uma risada seca, mas não insistiu no assunto. Ele sabia que Itachi raramente explicava suas motivações e que era melhor não o pressionar. Manteve-se ocupado com a fogueira e lançando olhares ocasionais para a mulher desacordada.
Com o tempo, o único som da caverna era o crepitar da fogueira e a suave respiração de Youko. Entanto, um som distante ecoou pela floresta, alertando os nukenin de presenças indesejadas. Itachi e Kisame puseram-se de pé.
— Parece que temos companhia — observou Kisame. — O que faremos?
Itachi olhou uma última vez para Youko. Cumpri minha promessa, Shisui, pensou ele.
— Vamos recebê-los.
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