Pata de Tubarão voltou ao acampamento com três pintassilgos e um camundongo presos nos dentes. Soltou-os na pilha e saiu correndo para a toca de Focinho de Carvão.

Chegou lá e procurou o curandeiro nas sombras com o olhar.

– Veio a procura do seu amigo? — ele perguntou, saindo de um lugar na parede onde estavam plantadas algumas plantas com folhas de um formato estranho.

– Sim...

– Me desculpe, mas ele está dormindo, venha mais tarde. — ele disse, passando a pata no chão. — Mas se é isso que quer saber, ele está bem, não irá acontecer nada demais.

Pata de Tubarão suspirou de alívio.

– Poderia falar algo para ele por mim, quando acordar?

– Claro, por que não?

– Diga a ele para me encontrar do lado de fora do acampamento.

Focinho de Carvão fez um aceno positivo de cabeça e Pata de Tubarão se retirou.

Foi até a pilha, mas se deparou com o enorme guerreiro marrom de orelha cortada que tinha visto no seu primeiro dia no clã. O vendo, se lembrou que até hoje não sabia o seu nome, mas ele não parece querer conversa... tipo, hora nenhuma. O gato esbarrou nele propositalmente, o fazendo recuar.

– Olhe aonde o senhor anda, gatinho de gente asqueroso. — ele miou rudemente os dentes.

Pata de Tubarão ignorou, observando o gato ir até sua toca com um dos pintassilgos que tinha caçado.

Fala mal de mim e come a comida que eu cacei. Mal agradecido.

Pata de Tubarão pegou um camundongo e correu para a frente do acampamento, se deitando para comê-lo.

Escutou passos e olhou para trás, mas não era Pata de Águia, mas sim Pata Escura. A gata negra se sentou do seu lado, lambendo os beiços.

– As vezes eu sinto muito falta dele. — ela disse, olhando o farfalhar das folhas, causado pelo vento.

– Quem não sente? Ele era um bom amigo.

– Ele era mais que um amigo pra mim, era como se fosse um irmão. Crescemos juntos, desde filhotes. Filhote Escuro e Filhote Malhado. Bons tempos que brincávamos de briga, foi uma surpresa quando Estrela Noturna chamou ele para a Árvore Caída para nomeá-lo, fiquei com inveja na época. Agora... bem, acho que lá em cima ele deve sentir inveja de mim por estar aqui.

Pata de Tubarão se levantou e tocou o pescoço dela com o seu focinho.

– Ele ainda está vivo, Pata Escura. Só não está conosco, está no Clã das Estrelas, nos observando nesse momento.

– N-nesse momento? — ela disse, olhando prara o céu.

– Sim, eu consigo sentir.

– V-Você consegue?

– Bem, mais ou menos, vamos dizer que sim.

Ambos ficaram olhando para o céu estrelado durante minutos em silêncio, até Pata de Tubarão quebrá-lo:

– Você sabe qual é aquele guerreiro marrom com a orelha cortada? Ele quase não conversa com ninguém e nunca sai da toca, quando sai, vai pegar comida e volta pra lá.

– Está falando de Casca de Pinheiro?

– Deve ser.

– Ele realmente é bem quieto e rude, mas não acho que seja mau.

– Quieto, rude, frio, arrogante e provocador. E o que ele tanto faz naquela toca fedida?

– Deve ficar brincando com uma bolinha de musgo ou algo do tipo. — ela riu. — Mas o que ele disse pra você?

– Me chamou de gatinho de gente, só isso...

– Não entendo pra que tanto preconceito. Quem liga pra origem de um gato se ele é fiel ao clã?

Pata de Tubarão esfregou sua cabeça na pelagem da gata, corado.

– Ficou sabendo que os filhotes de Lua Sangrenta já estão com 6 meses? Amanhã ou hoje Estrela Noturna vai fazer a cerim...

Antes que Pata Escura terminasse de falar, a líder convocou os gatos para a Árvore Caída.

Ambos correram para lá até encontrarem com Pata de Águia saindo da toca de Focinho de Carvão. Pata de Tubarão correu até o amigo, tocando sua bochecha com o focinho. Depois analisou sua orelha, a cheirando.

– Sinto muito... — ele disse, de cabeça baixa.

– Ah, nem é tão ruim assim, eu vou acostumar. — ele disse dando os ombros, balançando a orelha em todas as direções possíveis.

Eles correram para alcançar Pata Escura, que se dirigia ao lado de Redemoinho de Fúria.

Pata de Tubarão olhou para a Árvore. Lá estavam Estrela Noturna confiante, uma gata avermelhada, que pensou ser Lua Sangrenta e dois filhotes. Um era cinza forte, que lembrava a cor das manchas da mãe, e tinha listras negras em sua cauda felpuda. A outra, era marrom-avermelhada com uma das patas dianteiras metade preta.

– Hoje, esses dois filhotes têm idade suficiente para se tornarem aprendizes. Esses gatos irão aprender o Código dos Guerreiros por aproximadamente 6 luas com algum de nossos guerreiros. — ela passou um olhar rápido nos gatos. — A partir de hoje, você será chamado pelo seu nome de aprendiz, que é Pata de Guaxinim. — ela deu uma lambida na testa do gato cinza, que balançou a cauda. — E você — ela olhou para a gata avermelhada. — será chamada a partir de agora de Pata Silenciosa. — a gata mal se continha de felicidade.

A líder andou e se sentou na ponta da Árvore.

– Agora, para seus mentores, quero que compareçam até a Árvore, Casca de Pinheiro e Cauda Peluda.

Pata de Tubarão gelou ao ouvir o nome do gato que o odiava. Observou o gato se mover até a Árvore resmungando, seguido de uma gata branca com manchas pretas pelo corpo.

– À Pata de Guaxinim, concebo Cauda Peluda como sua mentora. Cauda Peluda, está pronta para ensinar a esse jovem tudo o que foi ensinado pelo falecido Garra Cinza?

A gata olhou para o céu, fechou os olhos e os abriu para encarar a líder.

– Sim. — ela respondeu firmemente.

– Então, a partir de hoje, Pata de Guaxinim é seu aprendiz. — a líder sorriu.

A gata branca e preta tocou seu focinho com o do novo aprendiz, que logo desceu, esperando a irmã.

– À Pata Silenciosa, concebo Casca de Pinheiro como seu mentor. Casca de Pinheiro, está pronto para ensinar tudo o que lhe foi ensinado pelo falecido Vento Feroz?

O gato olhou para a aprendiz, de cara fechada, depois fitou a líder e disse, com um tom desanimado:

– Sim.

– Então, a partir de hoje, Pata Silenciosa é sua aprendiz.

O gato desceu da Árvore, sendo seguido por Pata Silenciosa, que encontrou o irmão e correu até ele, se despedindo de Casca de Pinheiro, que nem respondeu.

Cauda Peluda apontou para os três aprendizes, que observavam Estrela Noturna com a esperança de que ela os chamassem para dar-lhes seus nomes de guerreiro, mas nada aconteceu, a gata conversava com Pelo de Brasas calmamente.

– Oh, quase me esqueci. Estão dispensados. — a gata miou, envergonhada.

Os dois novos aprendizes correram até Pata de Tubarão, Pata de Águia e Pata Escura.

– Oi, quais são os nomes de vocês? — Pata de Guaxinim disse, animado.

– Eu sou Pata de Tubarão, esse é Pata de Águia e essa é Pata Escura.

– É verdade que você é Gatinho de Gente? — Pata Silenciosa perguntou, tímida.

– Já fui, mas é passado agora. Agora sou fiel ao Clã da Neve. — Pata de tubarão miou, balançando os bigodes.

– Vocês vem? — Pata Escura perguntou, indo para a toca dos aprendizes.

– Vamos, vamos. — Pata de águia disse, convidando os novatos com um sinal de cauda.

Os cinco seguiram até a toca. Pata de Tubarão se deitou aonde costumava e Pata de Águia ao seu lado.

– Onde podemos deitar? — Pata Silenciosa perguntou, envergonhada.

– Qualquer lugar. — Pata Escura respondeu, sonolenta.

Alma de Outono enfiou a cabeça na toca e diss, feliz:

– Sejam bem-vindos ao clã como aprendizes. — e então saiu.

Pata Silenciosa e Pata de Guaxinim se entreolharam confusos.

– Minha mentora. Ela é assim. — Pata de Tubarão riu.

Pata de Tubarão se enroscou a ponto de virar uma pequena bolinha de pelos cinza.

Estava em casa, em cima da cama dos seus donos, que o afagavam. Porém, sentia o cheiro familiar dos gatos do clã também. Se sentiu confuso e levantou a cabeça. Pata Malhada estava lá, o observando em cima de um dos móveis. Pata de Tubarão saiu correndo para abraçá-lo, mas parecia estar numa corrida sem fim, então tudo mergulhou em trevas pouco a pouco.

Estava suando frio deitado na toca dos aprendizes. Pata de Águia estava em um sono profundo do seu lado e a lua iluminava a toca pelo buraco da entrada.

Fôra apenas um pesadelo. Ou uma visão?