Notas iniciais
Um pouco diferente, saindo um pouco do foco... Ou será que não?

Os gatos do Clã da Morte se juntaram em volta de algo,no centro do acampamento rodeado por várias urtigas.

Pata Retaliadora, um dos jovens aprendizes do clã, havia chegado e observou aquilo, curioso. Tentou fazer passagem entre os gatos, em vão. Levantou o pescoço para tentar ver mas escutou uma voz familiar perto dele, que o chamava. Era Pata de Espinho, outro aprendiz, que era seu amigo.

– Pata Retaliadora! Estrela de Quartzo está querendo torturar outro gato!

Pata Retaliadora fez cara de nojo. Era horrível a cena que se lembra da última vez que o líder torturou um gato até a morte.

– É de algum outro clã? — o aprendiz perguntou, ainda com a expressão de nojo na cara, porém olhando para a roda de gatos.

– Ouvi falar que é do Clã do Orvalho. — Pata de Espinho fez uma pausa — Bem, vou me embrenhar nos gatos para ver, quer também?

Pata Retaliadora hesitou, mas respondeu que sim, seguindo o amigo.

Ao chegarem na frente , observaram bem o que acontecia.

O líder cinza e preto estava observando o invasor com cautela um pouco de longe, ele sorria, deixando suas presas manchadas de sangue recente. Então, Pata Retaliadora olhou para o gato intruso, que era bem menor que o líder. Ele mal conseguia ficar em pé, estava sangrando muito e haviam vários cortes em sua pele e um ferimento fundo em sua jugular, o gato não aguentaria muito tempo.

Pata Retaliadora olhava aquilo espantado. Sabia que intrusos merecem ser punidos, mas não a ponto de virar tortura e muito menos morte.

O gato ficou deitado no chão de lado, respirando ofegante o que provavelmente eram seus últimos segundos de vida. E eram mesmo.

Estrela de Quartzo firmou a pata em seu pescoço com força, o sufocando cada vez mais. O gato olhou todos os guerreiros do clã rapidamente e firmou seus olhos tristes em Pata Retaliadora, sua boca abriu, mas nenhum som saía da garganta do gato. Logo então, seus olhos se fecharam, finalizando sua dor.

Aquele gato queria falar algo para mim, pensou Pata Retaliadora.

O líder olhou para o gato por alguns segundos e então, enfiou seus dentes no lombo do animal, arrancando um pedaço e o comendo.

Pata Retaliadora teve ânsia de vômito, e então, saiu correndo para o mais longe possível pela floresta que mais parecia uma planície meio seca.

Olhou para o céu.

O que será que aquele gato queria falar para mim....?, ele pensou, lembrando da triste cena.

Uma brisa bateu em seu rosto, mexendo seus pelos. Fechou os olhos e sentiu sua cauda se arrepiar. Os abriu e Filhote de Cascalho, seu irmão morto, estava em sua frente, sentado, porém do mesmo tamanho dele.

Filhote de Cascalho riu baixo.

– Você se questiona tanto não é, Pata Retaliadora? Sempre curioso querendo saber das coisas...

Pata Retaliadora olhou o irmão, espantado.

– Apenas siga seu coração, irmão. Escolha seu caminho com sabedoria quando eles se bifurcar em sua frente. Isso é, infelizmente, tudo o que tenho a lhe dizer.

A imagem de Filhote de Cascalho foi sumindo devagar com o vento, enquanto o gato sorria de olhos fechados.

Pata Retaliadora olhou em volta. Lembrou que tinha que voltar para o acampamento, pois seu estômago rugia de fome. Mas um pássaro-tesoura machucado chamou sua atenção. O gato branco e amarelo olhou para a criatura que tentava voar. Era apenas um filhote que havia caído do ninho alto da árvore. Teve uma sensação estranha e não conseguiu ignorar a pobre criatura mexendo no chão. Isso seria pena? Compaixão? Não, ele era um guerreiro do Clã da Morte e não deveria ter compaixão de ninguém. Compaixão é uma palavra que não tem definição no nosso clã.

Observou a criatura piando desesperadamente no chão.

Os pios do pássaro atravessaram seus ouvidos, o fazendo virar sua cabeça em direção à ave. Mordeu-a devagar pelas asas e escalou a árvore, tentando procurar onde era o ninho onde ela teria caído.

Deixou-a em um oco da árvore e desceu em um pulo.

O que tinha feito não era algo comum para um gato nascido no Clã da Morte. Qualquer um do clã acharia isso até um indício de traição. Esqueceu o assunto e voltou andando até o clã.

Pata de Espinho o esperava na frente do acampamento.

– O que te deixou tão abalado para sair correndo daquele jeito, Pata Retaliadora?

– Nada. — ele disse, com o olhar distante ficando em algo.

– Você está meio diferente... Eu posso saber o que é?

Pata Retaliadora hesitou. Confiava no amigo, mas e se ele desconfiasse dele?

– Sabe... É meio que... Eu ando tendo visões de Filhote de Cascalho...

– Filhote de Cascalho!? O que ele disse para você?

– Nada. — mentiu — Ele só aparece sorrindo.

– Ah, então deve ser alguma lembrança, apesar do que, era seu irmão... Ou falta de sono mesmo, você parece cansado.

– Não Pata de Espinho, não é cansaço, é algo mais do que isso...

– Por que você não decide ir dormir?

– Não estou com sono. — Pata Retaliadora espreguiçou, se deitando — Só ando tendo muitas coisas no que pensar...

– Te entendo. Vou pra dentro, mais tarde conversamos na toca. — ele disse, entrando na vegetação de urtigas habilmente.

Não, você não entende. Você é totalmente fiel ao clã, pensou Pata Retaliadora, observando o amigo se distanciando.

Deitou-se sobre as patas, observando a grama que balançava levemente com o vento. O sol estava se pondo, o que deixava a grama alaranjada. Lembrou-se do filhote de pássaro, será que estava bem? Será que sua mãe havia o achado? Pensou nos guaxinins e texugos que poderiam estar tentando comê-lo. Tirando a chance dos outros gatos também tê-lo achado. Apagou esses pensamentos rapidamente. Esqueça daquele pássaro. É só um pássaro idiota que caiu da árvore. Nada aconteceu naquele momento.

Entrou para o acampamento e apanhou um camundongo da pilha de presas para si, levando para o lado de fora do berçário e comendo lá. Exatamente onde comia quando seu irmão estava vivo e ambos ainda eram pequenos filhotes miúdos.

Lembrou-se das palavras de seu irmão. Ele realmente estava com uma pata em cada mundo. Um caminho que tinha uma bifurcação estava à sua frente. Tinha que escolher qual trilhar sabendo que não irá ter retorno.

Notas finais
Quis fazer um capítulo sobre como é no Clã da morte para vcs terem uma ideiazinha...