Gatos Guerreiros - Ameaças da Floresta [1]
6 Dia de caça
Notas iniciais
Algumas luas haviam se passado desde aquele dia, a amizade de Pata de Tubarão e Pata de Águia estava restabelecida e Pata Escura mal conversava com alguém.
Pata de Águia pulou em cima da pedra e levantou o queixo.
– Pata de Águia, você não deveria fazer isso — ele disse, imitando a voz de Brilho Lunar — Também não deveria fazer aquilo, nem o menos pisar pra fora do acampamento, e nem pense em respirar.
Pata de Tubarão riu.
– Mas não estamos de fora do acampamento? — ele advertiu — deveríamos entrar, por mais que ninguém tenha acordado.
– Tá com medinho, é? Vai que um gato do Clã do Orvalho ataca a gente, né? Nós acabaríamos com ele — Pata de Águia disse.
De repente um gato irreconhecível de pelagem alaranjada pulou na frente dos dois, passando ambas as garras dianteiras alguns centímetros de distância de seus olhos. Era Pelo de Brasas.
– Se eu fosse um gato de outro clã, vocês provavelmente estariam cegos... Vocês ainda tem muito que aprender, vocês nem sabem o básico de como ser guerreiros, admiro vocês terem ganhado daqueles dois do Clã da Morte, mas ainda tem muito o que aprender. Mudando de assunto, Estrela Noturna contou que vocês vão caçar pra gente hoje?
– Mas... mas... já? — Pata de Águia olhou para ele desanimado.
– Vocês já estão com 3 luas de treinamento! Estão mais que atrasados para começar a caçar para o clã. Pata Escura caçava, lembra? Agora ela está quase pronta pra ser uma guerreira.
– Pata Escura está mais adiantada que nós dois? — Pata de Tubarão perguntou.
– Bem mais. — Pata de Brasas respondeu. — Se quiserem começar mais cedo, para voltarem e descansarem mais cedo.
Os dois se entreolharam e saíram correndo pra floresta.
– Não se esqueçam, o clã sempre em primeiro lugar! — ele gritou para os dois aprendizes.
Os dois subiram em uma árvore.
– Então, você acha que deveríamos fazer um desafio para nós mesmos? — Pata de Águia perguntou.
– Como assim?
– Caçaremos no Clã do Salgueiro.
– Você tá doido?? Podemos fazê-los ficar com raiva e atacarem o acampamento!
– Vem, vai ficar pra trás e perder toda a diversão?
Pata de Tubarão suspirou. – Ok, eu vou.
Eles saíram correndo e aproximadamente uns 10 minutos eles já estavam na fronteira entre os dois territórios.
– Talvez seria melhor não irmos — Pata de Tubarão disse.
– Medroso, é?
– Esse não é o problema... O problema é que eu não quero que mais ninguém morra por minha causa.
– Largue de tolice! Pata Malhada não foi sua culpa!
– Claro que foi.
– Me escuta aqui, Tubarão. — Pata de Águia ficou de frente pra ele, colocando as patas dianteiras em seus ombros, o encarando com seus olhos Preto-Acastanhados.
– Você não teve culpa — Pata de Águia disse pausadamente — Se o Clã das Estrelas quis assim, assim foi. Agora pare de se culpar por coisas que não são sua culpa, tá entendido?
– Mas...
Pata de Águia o interrompeu. – Pelo amor do Clã das Estrelas, pare de se culpar por isso! É passado, acabou, passou! Passado é passado, presente é presente!
– Mas o passado influencia no presente.
– Não é só por isso que você precisa viver se corroendo de culpa eternamente. Tá entendido? — ele saiu andando em direção ao território do Clã do Salgueiro — Você vem?
– Eerm, ok... — Ele saiu correndo para alcançá-lo. Andaram no território e acharam perto da Trilha do Relâmpago uma casa de Duas-Pernas.
– Por que os gatos desse clã deixam Duas-Pernas fazerem um abrigo dentro do território deles? — Pata de Águia perguntou.
– Vai saber...
– Olha... tem galinhas ali... Você está pensando o mesmo que eu?
– Eu tô pensando em dormir, estou pensando o mesmo que você? — Pata de Tubarão zombou.
– Não, não, estava pensando em caçar uma daquelas galinhas... com certeza uma galinha alimenta mais do que simples camundongos.
– Tem razão... Mas não acha que deve ter Duas-Pernas aí dentro?
– Aposto um peixe que eles nem vão nos ouvir entrando, afinal, eu sou um mestre do silêncio! – Pata de Águia se gabou.
Pata de Águia tentou escalar o muro de arame e com custo chegou ao topo.
– Certo, mas tenha cuidado na hora de desc... — Antes de Pata de Tubarão terminar o que iria dizer, Pata de Águia escorregou e caiu do lado de dentro do viveiro, em cima de uma das vasilhas de água das galinhas, fazendo um alto barulho de metal. As galinhas se assustaram, e voaram para todos os lados do pequeno quintal.
– Oops...
– Você me deve um peixe, senhor Mestre do Silêncio.
– Faça você então. – Pata de Águia disse entre os dentes.
Pata de Tubarão olhou em volta do viveiro cuidadosamente, achando uma fresta no arame, decidiu passar por ela. Quando passou sua cabeça, a sua coleira garrou e começou a enforcá-lo quanto mais ele tentava ir para frente. Tentou voltar, mas não conseguia também. As únicas opções eram arrancar a coleira ou morder o arame até entortar.
Garrou seus dentes em uma parte do arame, puxando, já ficando sem fôlego em poucos segundos. Tentou novamente e começou à entortar um pouco, já dando espaço para ele respirar normalmente, fazendo com que ele pudesse entrar no viveiro.
– Ta dam!
– Deu certo, depois de você ter quase se enforcado ali.
– E o senhor quase quebrou o pescoço. E de brinde, o focinho também.
– Qual a gente pega?
– Aquela branquinha ali, talvez?
– Ok. – Pata de Águia saiu correndo em disparada atrás da galinha.
– Não, seu besta! Deveríamos cercá-la contra um canto!
– Ah é. – Pata de Águia parou em um instante. – Eu vou pela direita, beleza?
– Beleza.
Cercando a galinha, Pata de Tubarão pulou e mordeu seu pescoço, deixando-a agonizar no chão. Então, nesse momento, se ouviu um avoaçar de penas, quando eles olharam para trás, havia um galo furioso os observando com os olhos ardendo em fúria.
– Vish, ferrou. — Pata de Águia disse, recuando de orelhas baixas.
– Você, o tão corajoso Pata de Águia recuando? Vai chover granizo hoje. – Pata de Tubarão disse, arrepiando os pelos encarando o galo. – Mas talvez, a melhor opção seja fugir mesmo.
Pata de Águia correu agilmente para a parte do arame que podia subir, passando perto do galo que tentou o bicar no percurso, enquanto Pata de Tubarão correu em direção à fresta.
Por favor coleira, não agarre dessa vez, se agarrar, eu estou ferrado., ele pensou, olhando entre os ombros, mas parecia que o galo tinha corrido atrás de Pata de Águia.
Passou se encolhendo no buraco e saiu ofegante para fora, esperando Pata de Águia, que estava pendurado por uma pata tentando puxar a galinha.
– Pata de Águia, larga isso! Vamos fugir!
– Eu fujo, mas não de patas vazias — ele vociferou entre os dentes, segurando a galinha.
Nesse momento o galo voou encima dele, machucando sua orelha com a espora. Por instinto, Pata de Tubarão escalou agilmente o arame e pulando encima do galo, o arrastando no chão, mordendo sua asa como aviso.
Pata de Águia pegou a galinha e a carregou para fora, Pata de Tubarão o ajudou.
Arrastaram a galinha correndo até se distanciarem do abrigo dos Duas-Pernas.
Pata de Tubarão olhou ofegante para Pata de Águia, havia perdido quase metade da orelha, que sangrava muito.
– Pata de Águia, você está bem?
– Melhor impossível.
– Tem certeza? Você está com um ferimento gigante em uma das orelhas, que está sangrando.
P.O.V. PATA DE ÁGUIA.
Hesitei em responder, minha orelha ardia e lampejava como se estivesse em chamas, mas não queria preocupar Pata de Tubarão, então decidi apenas fazer uma mentira, uma pequena mentira.
– Certeza. – disse, sorrindo.
– Ok então. – ele disse. – Apenas me deixe carregar a galinha então.
– Nananinanão, eu já disse, eu estou bem, acredite em mim.
Ele deu uma risadinha disfarçada. – Eu te conheço Pata de Águia, sei que não está bem.
Corremos até a fronteira dos dois clãs.
– Será que nos descobriram nesse tempo que estivemos lá?
– Não sei, espero que não, não quero que o clã se ferre.
– Deveria ter pensado isso antes de irmos caçar lá. Vamos levar para Pelo de Brasas, mas antes, se esfregue em algum lugar para te deixar com o cheiro do Clã da Neve.
– Eu sei. – grunhi, me esfregando em uma árvore.
Sem querer, passei a orelha machucada contra a árvore, o que me fez me remoer de dor no chão. Agora a dor pulsava constantemente, fazendo com que eu andasse devagar involuntariamente.
Chegando ao acampamento, olhei em volta, percebi que estava perdendo o foco da visão, mas ainda consegui distinguir Pelo de Brasas do ambiente, correndo em nossa direção.
– Aqui, achamos essa galinha. – Pata de Tubarão disse.
– Onde uma galinha? – Pelo de Brasas perguntou desconfiado.
– Aqui no território do Clã, ela estava toda perdida.
– Bom, bom. Vocês sabem que isso não é o suficiente para todo o clã, né?
– Sim, sabemos. – falei de voz baixa.
– Pata de Águia, o que aconteceu com sua orelha? – ele perguntou espantado, senti ele se aproximando mais ainda de mim.
– Nad...
– Ele perdeu parte dela na briga com a galinha. – Pata de Tubarão disparou.
– Bem, vá ver se isso é algo demais com Focinho de Carvão. Enquanto isso, Pata de Tubarão, vá caçar.
Estrela Noturna havia acordado. A pelagem negra da gata brilhava de cor de fogo enquanto a aurora da manhã refletia nela.
– O que os dois aprontaram dessa vez? – ela disse, passando por nós dois, nos analisando com seu olhar esmeralda.
– Caçamos uma galinha que estava perdida, só isso.
– E qual é o motivo dessa orelha metade arrancada? – ela miou severa.
– A galinha arrancou. Só isso. – falei, tímido perante o olhar intimidador da líder.
– Bom que não tenha nos metido em encrenca.
– Não nós metemos em encrenca não, Estrela Noturna, pode ficar calma. – Pata de Tubarão disse.
Quando percebi que ela se distanciou, fui em direção à toca de Focinho de Carvão.
– Boa sorte, espero que não seja algo tão grave.
“Espero que não seja algo tão grave”? Estou sem metade da minha orelha e ele espera que não seja algo tão grave??
– Boa sorte também. – disse, acumulando minha raiva apenas para mim mesmo. Da última vez que falei o que pensava, fiz merda.
Entrei na caverna e logo o cheiro das plantas entrou nas minhas narinas.
– Então, veio me visitar? – ele disse, sentado encima de uma pedra, segurando uma folha comprida e fina em sua boca.
– Não senhor, perdi uma parte da orelha em uma briga. – disse timidamente.
– Briga? Com quem? — ele perguntou espantado.
– Uma galinha.
– Bem, deixe-me ver isso de perto.
Ele desceu, soltando a folha e em um salto, estava do meu lado.
– Sinto muito, não vai dar para repor, mas... eu posso fazer com que não inflame.
– Por favor. – disse com voz fraca.
– Espere, eu já volto. – ele disse, sumindo nas sombras.
Me sentei, colocando a cauda em frente as patas. Isso foi tudo culpa minha, não posso botar a culpa em Pata de Tubarão, além do mais, ele até tentou me impedir.
Deitei, descansando a cabeça nas patas. A dor ia passando aos poucos, estaria Focinho de Carvão cuidando de mim?
Olhei para cima e não vi nada, apenas que tudo ficava mais escuro... Estava zonzo? Só podia ser. Voltei a me deitar, e então tudo ficou em trevas total.
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