Gatos Guerreiros - Aliança
1 Prólogo
Desde filhotes, os gatos do Clã da Fumaça são ensinados a respeitar os outros clãs e as suas decisões. Somos considerados fracos por esse motivo, mas eles enganam-se em nos tachar assim — somos mais fortes do que possa parecer. Apenas não somos agressivos e tentamos não matar nossos inimigos, e isso é exatamente o que se espera que acontecesse em uma sociedade de seres que pensam, mas eles preferem viver como criaturas. Somos um Clã totalmente pacífico e isso parece incomodar o seu sistema e modo de agir, o que é bem irônico. Eu vivo no Clã da Fumaça e posso falar claramente sobre isso.
Meu nome é Listra de Cedro e eu sou uma anciã do Clã da Fumaça. Já vi, ouvi e vivi muita coisa que muitos não acreditariam se eu contasse. Sempre tentei resolver tudo na conversa e é por isso que sou incapacitada de ser uma guerreira hoje, não é por idade. Eu tenho apenas 52 luas, o que é uma idade mediana, já que normalmente os anciãos têm mais de 100 luas.
"Por que eu estou na Toca dos Anciãos então?", você pode perguntar. É, em resumo, eu fui recentemente atacada por um grupo de isolados e por muito pouco não morri. Atualmente, minhas duas orelhas foram esfarrapadas e perdi uma das minhas patas dianteiras, além das várias cicatrizes de cortes profundos pelo corpo, como uma que corta o meu rosto, marcando-o com um fino corte que atravessa todo o focinho e vai até o queixo. Me colocaram como "Incapacitada" e me jogaram na Toca dos Anciãos. Não posso reclamar, ser um ancião é uma grande honra, mas eu sinto falta de ajudar meu clã sem ser um peso morto que precisa ser alimentado e sem capacidade de me proteger. Eu tentei convencê-los de que eu conseguiria continuar sendo uma guerreira, mas mesmo que eu tentasse, eu não conseguia. Até hoje, andar ainda é difícil.
De todo jeito, esses dias tivemos uma presença estranha no clã. Em plena luz do dia, o líder do Clã da Água, escoltado por três gatos, no qual um deles aparentava ser apenas um aprendiz, veio até o Acampamento perguntando por Estrela Noturna, nossa líder, dizendo que queriam uma aliança para expulsar o Clã da Neblina do território.
Estrela Noturna convidou-o para entrar na Toca do líder que eles poderiam discutir melhor sobre isso tudo. O representante, Pelo de Brasas entrou junto, garantindo que eles não atacariam a líder.
Nosso clã sempre foi neutro nessa batalha que o Clã da Água e o Clã da Neblina travam desde tempos ancestrais, não seria agora que ajudaríamos. Bem, era isso o que esperávamos. Vários gatos estavam fora de seus ninhos, ansiosos pela decisão que a líder faria.
O olhar de satisfação do líder do Clã da Água quando saiu em direção à frente do Acampamento já estragava a surpresa — Estrela Noturna aceitara.
Em seguida, ela convocou todos os gatos capazes de caçar a própria presa — Obviamente, eu estava de xereta. — e contou-nos as novidades. Ela fizera isso apenas para o bem do clã, eles haviam oferecido um compartilhamento de metade dos territórios de caça e já que a Estação das Folhas-Secas logo chegaria e com isso, a presa ficaria escassa... Ela considerava isso uma boa ideia.
Eu concordava com Estrela Noturna nessa parte.
Ela contou que havia feito uma aliança parcial com eles. Nós não ajudaríamos nas batalhas, apenas falaríamos que apoiamos eles.
Logo, um guerreiro totalmente branco, levantou-se e falou:
— Estrela Noturna, perdoe-me por discordar, mas creio eu que isso não trará boas coisas para o Clã, mas pelo contrário — apenas causará discórdia. Todos nós sabemos como o Clã da Neblina é agressivo e como... eles têm um código diferente.
— Estou ciente disso, Brilho do Lago, mas eu acho que é uma oportunidade que não podemos deixar passar. Depois de todas essas luas, a chuva já está começando a ficar escassa, isso não é normal. Passaremos uma estação de Folhas-Secas inteira sem uma gota de chuva. Dividir territórios de caça pode ser uma vantagem.
Alguns gatos aparentemente não haviam gostado da ideia, mas vários concordaram que poderia ser visto pelo lado bom. Não houve nenhuma discussão sobre isso.
Naquela noite, eu não consegui dormir. Logo eu, que nunca perco uma boa noite de sono! Depois de vários minutos observando uma pequena mariposa procurar algum lugar para pousar, me levantei e fui, com certa dificuldade, até um pequeno córrego ao lado do Acampamento para saciar minha sede. A lua estava sendo refletida no fino curso de água, o que me chamou a atenção para o céu, que era facilmente visível, graças ao fato das árvores no cerrado serem distanciadas e de tamanho consideravelmente baixo e tortuoso. Não havia nenhuma nuvem no céu e as estrelas brilhavam em conjuntos. Virei-me para voltar quando observei que havia dois pares de olhos me observando no topo da árvore que estava ao meu lado. Congelei no mesmo instante e tirei as garras, no exato momento que dois gatos saltaram para minha frente. Pelo cheiro, percebi que eram gatos do Clã da Neblina e eles pareciam agressivos.
Concluí que não estavam lá para conversa, pois o menor deles, um gato branco e preto, pulou para me atacar, mas consegui desviar por um golpe de sorte. Eu não tinha chance com uma pata a menos, principalmente se se tratavam de dois deles. Sem opções, tentei correr de volta para o Acampamento, porém o outro, uma gata castanho-avermelhada, mordeu uma das minhas patas traseiras, me puxando de volta.
Antes que eu tivesse alguma reação, o gato branco já havia saltado novamente. Ele me derrubou e rolamos pelo chão, mas no final, ele estava em cima de mim, me fitando com seus olhos âmbar.
A única coisa que eu pude fazer foi morder a pata que me prendia, de nada adiantou, pois ele apenas arranhou meu rosto com a outra. A gata se aproximara, aparentava ser sua mentora. Seus olhos verdes brilhavam de satisfação e ela deu um leve sorriso ao ver como o aprendiz lutara, sem se importar do quão covarde lutar contra uma anciã era. O gato que me prendia olhou-a, como se esperasse algum comando e ela deu um leve aceno de cabeça.
Ele virou-se de volta para mim e levantou uma das patas para o alto, com as garras a mostra, enquanto prendia a única pata que me sobrara com a outra. Estava prestes a me matar — E eu sabia disso. Mas ele parecia hesitar, o que deixava sua mentora levemente irritada.
— Você não quer se tornar um guerreiro, Pata de Serpente? — Ela disse, em um tom hostil.
Ao ouvir essas palavras, os olhos do aprendiz brilharam de motivação. Ele desceu a pata na direção do meu pescoço, mas não em um corte horizontal, mas sim um corte vertical, aprofundando-se pela pele. A dor era insuportável e parecia espalhar-se por todo meu corpo. Minha visão estava totalmente turva e a conversa parecia abafada, mas consegui ouvir que a mentora parecia estar clamando a vitória do aprendiz. A última coisa que consegui ver foi o meu próprio sangue sujando toda a terra ao redor antes de tudo mudar para o preto.
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