Gatos Guerreiros - Aliança
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Pata de Rio se levantou com o murmúrio no Acampamento do Clã da Fumaça. Os seus companheiros de toca também já não estavam mais lá, salvo por Pata de Águia, que dormia ao seu lado. Pata de Rio observou sua barriga ir para cima e para baixo regularmente, ainda estava em um sono profundo. Perguntou-se como ele conseguia dormir até tão tarde. Dando uma leve risadinha, observou o aprendiz por um tempo.
Pata de Águia fora seu primeiro amigo, desde que eram filhotes. O gato amarelado de olhos âmbar-escuros foi o único que aceitou sua presença, diferente dos dois irmãos, que, apesar de não odiá-lo, não conversavam com ele muito — nem com Filhote de Águia conversavam, preferiam conversar entre si.
Pata de Rio foi encontrado quando ainda era um filhote perambulando por aí por uma patrulha do Clã da Fumaça, nunca se soube por certo, mas achavam que ele era filhote de algum isolado. Assim, como havia uma rainha que teve filhotes há um quarto de lua, decidiram que seria uma boa escolha trazê-lo para o clã. Foi difícil aceitá-lo para alguns dos gatos do clã, mas o pequeno filhote parecia mostrar traços de um bom caçador desde que conseguiu sair do Acampamento. O que não o falhou, ele realmente se mostrou como um ótimo caçador. Agora já fazia duas luas que estavam em treinamento.
O aprendiz prateado saiu da toca e observou sua mentora, Folha de Bordo, uma gata atartarugada, com mais presença de alaranjado em seu corpo. Ela estava conversando com Brilho de Lago, um guerreiro totalmente branco.
Pata de Rio ainda se lembrava claramente por que motivos Folha de Bordo foi escolhida para ser sua mentora. A gata salvara sua vida. Pata de Rio, quando era um filhote, era muito curioso. Um dia, ele havia saído do berçário para explorar os arredores do Acampamento — com a aprovação da sua mãe adotiva, obviamente. O problema é que ele acabou se perdendo e não sabia como voltar. Já anoitecia e nada de algum guerreiro procurá-lo.
Quando menos esperava, sentiu um cheiro não-familiar — eram outros gatos, mas não se tratava de gatos do seu clã. O gatinho se encolheu contra uma árvore, esperando que não fosse localizado — nada aconteceu por um tempo, mas um dos gatos, o menor, tentou saltar nele.
Filhote de Rio desviou por pouco, mas pôs-se a correr para a primeira direção que vira antes que o outro gato se recuperasse. Nem sequer olhou para trás ou para onde estava indo. Ofegante, ele desacelerou por um tempo — apenas para que o outro gato fosse capaz de o pegar. O gato negro com alguns pelos já esbranquecidos o pegou pelo cangote com os dentes e o jogou para longe, onde o gatinho bateu contra uma árvore, depois de passar por alguns arbustos. O filhote ouviu um movimento de vegetação além dos dois gatos de outro clã, mas não se importou — o seu foco era sobreviver. O gato preto saltou sobre ele e depois de imobilizá-lo, levantou a pata esquerda para atingi-lo. Porém, algo tirou o gato de cima dele.
Filhote de Rio apenas observou o borrão alaranjado com preto lutando ferozmente contra o gato negro. O outro gato de clã inimigo, o maior, aparentava não estar por perto, já que não ajudou-o. Depois de levar uma surra, o gato fugiu para a direção de onde haviam vindo.
Folha de Bordo trouxe o filhote novamente para o Acampamento e desde então, começou a seguir a vida do filhote. Quando chegou sua vez de ser aprendiz, Estrela Noturna decidiu escolhê-la como sua mentora — nada mais justo.
— Pata de Rio? — Uma voz o fez acordar da sua transe de memórias. Era a voz de Pata de Águia, que aparentava ter acordado. Virando-se, observou o gato se espreguiçar no seu ninho, depois deitar de barriga pra cima. — O que raios você estava fazendo aí? Ficou parado encarando o nada por séculos. Foi até um pouco medonho.
— Ah, eu só estava perdido em lembranças, desculpa se te assustei. — O aprendiz prateado comentou, dando um leve sorriso.
— Ah... — O outro aprendiz deitou a cabeça novamente, mas depois de alguns segundos, levantou-a novamente, assustado. — Que horas são?
Pata de Rio observou o céu. — Falta menos de uma pata de coelho para ser Sol Alto. Por quê?
— Brilho de Lago me pediu para falar com ele assim que fosse Sol Alto! — O gato disse, se levantando e saindo correndo para fora da toca, tropeçando e quase caindo duas vezes enquanto corria na direção do guerreiro branco.
Pata de Rio não deixou de dar uma risada do amigo. Então, levantou-se e seguiu-o, correndo para alcançar seu passo. Assim que chegaram onde Folha de Bordo e Brilho de Lago estavam, os aprendizes prestaram um pouco de atenção na sua conversa.
— (...) foram gatos do Clã da Neblina, já que ela estava sem um dos dentes. — Folha de Bordo falava, enquanto os aprendizes chegaram, com dois sorrisos falsos, parecendo duas aves que caíram do ninho. — Vocês quase se atrasaram novamente, não é? Tudo bem, eu não me importo. — A gata deu de ombros, mas Brilho de Lago parecia um pouco zangado.
— Sorte de vocês que não haverá treinamento por enquanto. — Brilho de Lago comentou, colocando a cauda em volta das suas patas.
— Por quê? — Pata de Águia adiantou-se em perguntar.
— Mataram Listra de Cedro. Desconfiamos que seja algum gato do Clã da Neblina. Sabemos o quão estranho são os seus costumes. — O gato comentou. — Apenas não sabemos por que ela estava fora do Acampamento, mas talvez tenha apenas saído para fazer suas necessidades ou algo assim. Nenhum dos anciãos a ouviu sair da toca.
— Oh. — Pata de Rio arrepiou os pelos do ombro ao se lembrar que poderia ter tido o mesmo destino. O gato que quase o matou quando filhote era um gato do Clã da Neblina. — Pobre Listra de Cedro, primeiro perde o parceiro, em seguida uma pata, junto da sua carreira de guerreira, depois a vida. Só teve azar.
— Já perceberam que eles só pegam gatos desprotegidos? — Brilho de Lago comentou. — Filhote de Poça, Pata de Rio quando era um filhote, Listra de Cedro... Tentam sempre matar filhotes ou anciãos, nunca algum guerreiro. E nunca estão sozinhos, podemos confirmar isso pela presença de dois pelos de coloração diferente onde Listra de Cedro morreu e pelo relato de Pata de Rio.
— Algo de errado está acontecendo... — Folha de Bordo continuou. — O que aqueles Cérebros de Rato estão pensando em fazer?
— Algo bom não pode ser. — Pata de Águia disse, com a cauda de pelos longos balançando impacientemente. — Isso só mostra o quão covardes eles são.
Brilho de Lago concordou com a cabeça. — Acho que a aliança com o Clã da Água pode ter piorado a situação. Foi realmente uma boa ideia?
— Talvez. Estrela Noturna sabe o que está fazendo. Se ela acha que foi o melhor, realmente foi o melhor. — Folha de Bordo falou e se levantou em seguida. Deu um longo suspiro, pois Listra de Cedro fora sua mentora quando ainda era uma aprendiz insolente. A jovem aprendiz era animada com tudo de novo que aprendia a fazer e a mentora era tão animada quanto quando ensinava algum novo golpe de batalha.
Sempre visitava Listra de Cedro na toca de anciãos depois do acidente com os isolados. Tratava de levar pessoalmente uma presa para a anciã em suas visitas, de preferência uma que ela própria havia caçado. A anciã retribuía o carinho como se a guerreira atartarugada fosse sua filha.
— Que horas vamos treinar? — Pata de Rio, que estava em silêncio todo esse tempo, perguntou.
— Assim que eu terminar de pagar a vigília para Listra de Cedro. Não vou demorar tanto... Se quiser, pode me esperar abaixo da Árvore Torta, cace enquanto me espera, pois hoje irei lhe ensinar alguns golpes de luta.
— Certo!
Pata de Rio observou a gata atartarugada se levantar e seguir em direção onde os gatos pagavam vigília, no fundo do Acampamento.
— Pata de Rio? — Ouviu Brilho de Lago chamá-lo e virou-se em sua direção. — Não dê muito trabalho para ela hoje. Ela não está bem e ainda sim não vai faltar ao seu treino, enquanto podia muito bem ter faltado. Ela se dedica muito à você, não a desaponte. — O gato branco fitou-o bem nos olhos, o que intimidava um pouco o aprendiz. — Pata de Águia? Vamos, hoje irei te ensinar alguns golpes também.
— Hum? Tudo bem. Até mais, Pata de Rio!
O aprendiz prateado observou mentor e aprendiz saírem pela entrada do Acampamento, enquanto pensava no que Brilho de Lago havia dito. Será que ele estava desapontando a mentora?
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