Chegamos ao destino, O centro da colina. Havia um acampamento no local que estava protegido por um tipo de campo de força, conforme nos aproximando vi que tinha uma cúpula maior em torno da que protegia o acampamento. Tinha quase certeza que este maior cercava todo o espaço da reserva, o que mais pra frente descobri sendo uma verdade.
No momento que atravessei o campo de força menor percebi que parei de sentir a necessidade de estar naquele lugar. Era estranho o quanto isto era forte dentro de mim. Também não sentia mais o mal me perseguindo. Que tipo de energia era aquela? Outra coisa que me agradava é que eu era dono de mim novamente. Sentia-me eu mesmo. Meu corpo obedecia meus comandos.
No acampamento havia várias barracas, contei dez, deveriam ter espaço para poucas pessoas dormir, no máximo umas oito. E estavam em formato de U em torno de uma barraca que era um pouco maior que as outras, caberiam umas doze. Elas lembravam iglus, eram brancas e todas elas havia um tipo de toldo na entrada. A porta de entrada era grande, ocupando a frente inteira, do tamanho de uma porta dupla. Não conseguia ver seu interior, havia um tipo de cortina que me impedia.
Segui com o coelho até esta barraca maior, seguido pelos tralhos.
“- Não se assuste, mas acredite em mim, isto vai te assustar.” Afirmou o coelho de uma maneira brincalhona. Foi a primeira vez que o vi relaxado. Pelo menos, aparentemente estávamos seguros. Não entendi a piada, mas mesmo assim, o segui.
Já na entrada da barraca fiquei imaginando se caberíamos nós quatro lá dentro. Já sabia a resposta, aquela barraca iria ser muito pequena. Os tralhos eram enormes, nem tinha certeza se caberia na barraca. O que poderia ter de interessante no lado de dentro? Não podiam explicar o que estava havendo aqui fora mesmo?
E como o coelho disse, quando entrei, me surpreendi. Surpreendi mesmo. Por esta eu não esperava. Dentro da barraca era muito maior do que do lado de fora. Na verdade, muito maior de verdade. Era um salão com muitas mesas formando um grande circulo e centenas de pessoas sentadas em torno delas. É! Centenas. Percebi que uma coisa desta só poderia ser feita com magia. Até agora, nunca tinha visto nada parecido. Alguém muito poderoso tinha feito aquilo tudo. Olhei em torno da tenda e percebi que tinha decoração nas extremidades. Tudo estava ornamentado, o local havia sido decorado com vasos floridos em tons claros que combinavam com a mobília. As mesas eram de madeira clara, no chão havia um piso uniforme, embora do lado de fora da tenda fosse gramado.
Tinha ganhado umas poucas explicações que ainda não faziam muito sentido, ainda tinha muita coisa a ser esclarecida, perguntas que nem havia pensado em fazer ainda. Era muito para absorver. Acho que a mais importante naquele momento era o que eu estava fazendo aqui? Dei uma boa olhada no salão e vi que tinham mais homens coelhos, homens tralhos (mas que criatura era um tralho?), mais elfos, mais ursos, anões e muitos humanos, pelo menos aparentemente. Agora já não tinha certeza de mais nada.
Olhando em meio à multidão, percebi que muito deles olhavam em minha direção também, pra falar a verdade, a grande maioria. Tentei achar um rosto conhecido, já que os únicos que conhecia naquele lugar era um coelho gigante e dois tralhos que tinha conhecido a menos de uma hora atrás, mas nada. Continuei a procurar na tenda quando de repente algo familiar me chamou a atenção.
Era ela! Comecei a andar em sua direção, mas pude perceber que havia algo de diferente. Algo que realmente não entendia. Passei por alguns grupos que ainda não estavam acomodados e pude ouvir os comentários em relação a minha pessoa quando passava por eles. Mas não me importei, não depois de ver um rosto conhecido em meio à multidão, algo que me confortava e era exatamente o que eu precisava naquele momento. Precisava conversar com alguém, alguém normal que não fosse um coelho gigante, nem um urso. Nada contra, mas.......
Enquanto passava, alguém se dirigiu a mim e me fez parar.
“- Seja bem vindo príncipe Davi? Você será nossa salvação, nosso líder!” Disse uma voz ainda com certa distância.
Congelei! Do que ele estava falando? Enquanto pensava não tirei meu olhar dela, era Paula, mais linda do que nunca. E nesse breve momento nossos olhares se cruzaram. Eu sorri explicitamente, mas pude constatar a rejeição em seu olhar. O que havia de errado? Tinha algo de diferente nela, mas não podia negar que era Paula.
Consegui me concentrar na voz que vinha ao meu encontro e resolvi me virar para responder. Acho que teria mais respostas, já que Paula não tinha sido tão receptiva comigo quanto eu esperava, resolvi tratar disto num segundo momento.
“-O que você disse?” Questionei virando em direção a voz pela primeira vez.
“- Nosso líder, príncipe Davi.” Um senhor barbado, de cabelo curto, grisalho aparentando seus quarenta e cinco anos repetiu o que havia dito. Estava vestindo uma longa túnica verde cobrindo os braços e sandálias franciscanas. Parecia um padre, um sacerdote....
“- Por que me chamou de príncipe? E líder de quem? Devem estar me confundindo com outra pessoa. Sou uma pessoa normal.”
“- Você só parece uma pessoa normal, mas não é. Tem um destino a cumprir. Não nasceu neste planeta e se você buscar no seu íntimo, não é uma pessoa tão normal assim.”
Analisei aquelas palavras por alguns momentos e pude notar que havia verdade entre elas, principalmente nesta última hora, estava sentindo coisas estranhas, na verdade, agindo de uma maneira diferente, não natural. Quem fugiria a pedido de um coelho gigante? Como sabia a direção correta a tomar se nunca tinha vindo para este lugar? O normal era fugir para o conhecido, não era? Quem não tinha plenos controles sobre o corpo?
“- Não posso dizer que está totalmente errado Senhor, mas ainda estou muito confuso.” Concordei com o senhor.
“- Davi.” Outra voz se juntava a nós. “- Desculpe, mas durante toda esta confusão não consegui me apresentar corretamente. Sou Kevin, príncipe de Krones.” O coelho estendeu a mão em minha direção.
“- Hum, prazer em conhecê-lo....” Disse meio arrependido do espanto que tive do coelho ser um príncipe. Pareceu rude da minha parte. Mas era obvio. O jeito que se vestia, o modo de falar, tinha que ser um príncipe. Estendi a mão com certo atraso para cumprimentar o coelho.
Nós três rimos da minha rudeza, então me virei em direção ao Senhor, desta vez em silêncio, para não cometer outra grosseria.
“- Sou o Ministro das dimensões, meu nome é Demétrius, muito prazer em revê-lo.” Apertamos as mãos.
“- O prazer é meu, mas não pude deixar de notar que você disse “rever”. O que quer dizer?”
Ele sorriu: “- Sim, você nasceu em meu mundo e está aqui para se juntar a nos como líder da próxima batalha entre as forças do bem e o mal.”
“- O que?” Soltei sem pensar.
“- Acho que te devo algumas respostas, correto?”
Assenti.
“- Acredito que Kevin já deve ter te dado uma breve introdução sobre a guerra entre o bem e o mal. Que a cada centenário eles são expulsos de um mundo e exterminados em outro mais preparado para fazer tal façanha. E que mais esporadicamente ainda, sem um tempo determinado, há uma falha nos portais dimensionais que escolhem apenas uma dimensão para mandar todo o mal de várias outras, certo?”
Assenti novamente.
“- Então, este tempo chegou e para isto nos reunimos na dimensão a ser afetada para salvá-la das forças do mal. A dimensão desta vez é o mundo o qual você vive hoje e foi por isto que você foi mandado para ele assim que nasceu para crescer e se adaptar.”
“- E meus pais? Sabem desta história toda? Explique-me melhor.” Pedi.
“- Como disse você não é deste mundo, nasceu em mundo chamado Napta, que fica na galáxia Dagui há anos luz de distâncias. Embora não saibamos de quanto em quanto tempo ocorre a falha nos portais, sabemos deste alguns anos antes dele acontecer e qual será a dimensão afetada. Assim, temos tempo para preparar um líder com a ajuda do vigente ministro dos portais que reina como se fosse o rei dos reinos e com a ajuda da rainha maior que tem o poder supremo da magia. Foi assim que você foi induzido para cá.”
“- Então este líder sou eu? Meus pais sabiam de tudo isto? Digo, esta história?” Perguntei mais confuso ainda. Sentia-me traído por meu pai nunca ter mencionado nada a este respeito.
“- Sim, você é o líder.” Percebi que pulou a parte de falar sobre meus pais.
Era muita coisa para absorver. Não consegui processar mais nada. Que rainha era aquela que me induzia para aquele lugar? E cadê a rainha? Quanta confusão em minha mente.
Então mais rápido que meu cérebro pudesse processar, antes que ele aceitasse mais esta maluquice e pirasse de vez, não disse nada e disparei em direção à saída. Minha cabeça estava atordoada, esbarrei em algumas pessoas ou animais, sei lá...... Não conseguia ver direito, escutei chamarem meu nome em diferentes vozes, mas foi fácil ignorar e com um alívio avistei a saída e consegui sair daquela tenda cheia de malucos, precisava respirar ar puro, talvez me ajudasse a digerir toda bagunça que estava minha vida.
Do lado de fora dei uma trombada de frente com alguém que entrava na tenda e fomos parar no chão. Percebi que era uma mulher pela quantidade de cabelo em meu rosto. Ela estava em cima de mim, seu cabelo também cobria parte do rosto, mas pude ver que estava assustada. Fixei o olhar em seus olhos e percebi o que estava diferente em Paula. Ela aparentava muita mais nova do que de fato era, tinha a aparência de uma adolescente, não os vinte e cinco anos, tinha a minha idade, uns dezesseis ou dezessete no máximo. Encaramo-nos por alguns segundos antes de eu me desculpar:
“- Me desculpe Paula, estava fugindo daquele lugar. Por que você está aqui?”
Ela levantou-se apressadamente dos meus braços, pude notar seu vestido rosa, um corpete decotado que abaixo da cintura se abria numa linda saia em renda como uma noiva....... Na verdade, não era bem uma noiva...... Era como uma princesa. Enquanto eu admirava sua beleza que estava mais estonteante do que eu me lembrava nesta idade, ela se levantou enraivecida.
“- Não sou Paula, sou Elizabeth, princesa de Napta e a propósito, não te interessa porque estou aqui.” Ela disse num tom rude e voltou em disparada para dentro da tenda.
Fiquei ali no chão por alguns momentos, olhei para o céu e percebi que estava esfriando, estávamos no meio do outono. Na floresta estava mais frio que na cidade, mas acho que devia ser por causa dos lagos e a mata. Mesmo assim não devia estar tão frio. A região que eu morava era relativamente quente, mesmo no inverno. Enquanto estava analisando o tempo, realmente estava louco, tanta coisa pra absorver e eu analisava o tempo, me sentei e não consegui pensar por muito tempo até que Kevin veio ao meu encontro.
“- Realmente estou ficando maluco.” disse a ele.
“- Vi que conheceu Elizabeth.” Falou meio a um sorriso. “– Linda, não é? Pena que é arisca e arredia, mas no fundo é uma boa menina, vai aprender a conhecê-la melhor, na verdade..... deixa pra lá, por hora você já tem informação demais para digerir.”
Deixei passar a parte do “deixa pra lá” e entendi que tinha mais palavras escondidas atrás daquela expressão, mas realmente deixei pra lá, tinha muita informação mesmo na minha cabeça.
“- Vamos para a barraca nos acomodar. Por hora, a grande missão de hoje era conhecer o Ministro das dimensões. E esta foi cumprida.”
Assenti seguindo-o até uma daquelas barracas menores. Sabia que não iria encontrar um par de colchões como parecia caber dentro de cada uma. Elas tinham a entrada alta, dava para passar tranquilamente pela porta sem tocar a cabeça no teto. Mas de perto agora, o formato não era o mesmo do iglu, eram caixas brancas, mais altas que iglu e feitas de lona, pelo menos do lado de fora.
Como eu imaginava, o interior da barraca era gigantesco, era feito de alvenaria por dentro, mas não fiquei pensando que tipo de magia podia existir com aquilo tudo. Havia várias divisões onde provavelmente serviriam de abrigo a todas aquelas pessoas. Caminhamos para a área que parecia ser os dormitórios, eram grandes corredores com portas de ambos os lados. No corredor que eu estava devia ter umas dez portas de cada lado. Imaginei que cada um deveria ser um quarto. Era tudo muito claro e limpo. Paramos em frente a um que Kevin me apresentou como meu quarto.
E era grande mesmo, maior que meu quarto em minha casa, tinha uma cama de casal de madeira e um guarda roupa branco. Uma porta da lateral que imaginei ser um banheiro. Era tudo tão claro e limpo quanto os corredores, o único contraste era a roupa de cama que tinha um azul celeste. Fiquei pensando em como conseguia ser tão claro se não havia janelas e nem lâmpadas, mas não me preocupei com isto. Também havia uma escrivaninha com um notebook do lado aposto a cama, ao lado da porta.
Fiquei impressionado, entrei no quarto e Kevin se apressou a dizer:
“- Deve ser perfeito pra você, pois quando cheguei aqui também ganhei um quarto adaptado com tudo que eu preciso. Como se eu tivesse em meu mundo.”
“- Muito bom mesmo! Tirando tudo que está errado até agora, é muito bom mesmo.” Disse sorrindo. Kevin sorriu comigo e acrescentou.
“- Já está pronto para voltar?”
Sinceramente estava confuso e não sabia se queria ir lá novamente. Ver Paula, quer dizer Elizabeth e todos aqueles seres me encarando, mas em contra partida estava curioso demais para ficar aqui remoendo as poucas das muitas prováveis informações que ainda estavam por vir. Neste momento, me lembrei que havia umas duas horas que havia levantado da minha cama e que eu vestia um moletom gasto, uma camiseta preta desbotada e chinelos, estava um trapo perto das pessoas da grande tenda. Olhei para mim mesmo ao mesmo tempo em que Kevin percebeu o que eu realmente precisava. Antes de eu dizer qualquer coisa.
“- Faz o seguinte, troque suas roupas que eu te espero na tenda principal antes do almoço. No armário encontrará o que precisa e aquela porta é o lugar para cuidados pessoais.”
“- Está bem, te encontro lá então!” Respondi ainda confuso.
“- O almoço é servido ao meio dia em ponto, você terá um bom tempo para descansar e pesar sobre todos os últimos acontecimentos, não se atrase.”
Assenti. Kevin se retirou do meu quarto fechando a porta atrás de si.
Fui em direção a porta e entrei no banheiro. Havia uma banheira espaçosa, escova de dente, xampu e mais alguns itens de cuidados pessoais. Por alguns momentos imaginei o que teria no quarto do Kevin. Duvido que ele se barbeie, ri comigo mesmo. Como será que usava o banheiro? Da mesma forma dos humanos? Mas isto não era um assunto importante agora.
Embora toda aquela história que eu era um príncipe, que ia liderar alguma coisa que não lembrava... O que ocupava a maior parte da minha mente era Elizabeth e estranho é que eu estava mais apaixonado por ela do que era por Paula, pode ser porque ela era algo mais próxima do meu mundo real, tínhamos uma idade compatível. Ri sozinho novamente.... Ela era muito parecida mesmo, os mesmos cabelos claros, castanhos, com o mesmo tom leve de vermelho que caiam no meio das costas em ondas perfeitas.... os olhos... eram verdes como esmeraldas, pele clara e também dona de um corpo escultural. Uma beleza estonteante!
Algo estava me intrigando, tinha algo em Elizabeth que não entoava comigo. Tinha a impressão que ela não gostava muito de mim, na verdade, que sentia inclusive o oposto, raiva.... isto me entristecia. Será que eu estava imaginando coisas? O que haveria de errado comigo? Eu ainda me perguntava se estava sonhando, acreditava que em poucos momentos iria acordar em meu quarto, com meu velho pai e trovão, meu cachorro, lambendo-me a cara.
A propósito, onde estaria meu pai? Será que estava seguro? Muitas perguntas, pouquíssimas respostas. Isto me encorajou a voltar à grande tenda o quanto antes e me apressei a me arrumar. Tomei um banho e no guarda roupa encontrei roupas descentes, mas não eram da minha época, eram vestimentas como trajavam os homens na tenda principal.
Escolhi uma camisa clara com um estilo bem antigo e uma calça preta feita de um tecido que, com certeza, não tinha em meu armário. Que roupas eram aquelas? Tudo cabia perfeitamente. Todas as roupas eram do mesmo estilo. O que eu estava fazendo aqui? Perguntei novamente a mim mesmo. Mas antes que a minha confusão mental recomeçasse, eu enfiei as botas pretas nos pés e saí.

Mais uma hora havia passado, mas faltava muito para o meio dia. Estava ansioso demais para esperar, mas acabei ligando o computador e checando meus e-mails. Tentei pesquisar alguma coisa na internet, evidente que não encontrei nada, ficar ao computador por duas horas sem encontrar nada de interessante foi angustiante. Tentei me entreter, mas não conseguia. Chequei minhas páginas, alguns blogs e acabei voltando a minha caixa de e-mails, tinha decidido escrever um e-mail para meu amigo Juan. Era meu melhor amigo na escola, ele também jogava basquete comigo. Mas depois percebi que se escrevesse alguma coisa do que tinha acontecido ele iria pirar ou pensar que pirei de vez. Então, desisti de escrever desligando o computador e assim segui meu caminho.
Em direção a tenda, comecei a me preocupar em como encontrar Kevin, mas logo na entrada me deparei com o ministro que se dirigiu a mim e perguntou:
“- Se sente melhor, meu filho?”
“- Sim. Obrigado” Respondi.
“- Terá mais algumas repostas após a refeição, vamos nos acomodar e depois conversamos mais uma pouco.”
Assenti.
Sentei-me ao lado do Ministro Demétrius. A minha esquerda estava Kevin, já o considerava um amigo, naquele lugar em que não conhecia ninguém. A direita do ministro estava Elizabeth que mal olhava em minha direção. A mesa era enorme mesmo, pude vislumbrar que aproximadamente uma centena de pessoas sentava-se a sua volta. O interior dela era vazado e as pessoas nos serviam pela frente da mesa.
Havia muitas espécies que se sentavam entre os seus, elfos com elfos, ursos com ursos e coelhos..... Percebi que havia mais uns trinta da espécie de Kevin, o estranho é que eram diferentes entre si, além da variação da cor da pelagem, tinham expressões diferentes e proporções no corpo. Uns mais fortes, outros mais magros, outros com os olhos maiores, muitas proporções, como eram os humanos. Seria diferente de colocar trinta coelhos juntos da mesma cor e tentar achar qual era qual. Que estupidez meu raciocínio..... sem querer comecei a encará-los e pra variar, Kevin percebeu que eu estava intrigado e me disse:
“- Cada espécie é de uma dimensão diferente e como te disse, foram recrutados os príncipes e os melhores guerreiros de cada reinado. De meu mundo veio eu e mais quarenta kroneanos para te ajudar na grande batalha.”
Neste momento corri os olhos na mesa e vi que não havia tralhos dentro do salão.
“- E os tralhos?” perguntei curioso.
“- Os tralhos são guerreiros do bem, sua existência é necessária para manter o equilíbrio entre o bem e mal. Eles existem em todos os mundos, geralmente eles se juntam aos guerreiros do mundo atingido para ajudar a enfrentar o mal banido a cada centenário. Só aqui há uns trezentos desta espécie e devem chegar mais. Agora há três barracas só para eles. São como se os tralhos fizessem parte do seu exército, já que não há muitos guerreiros em seu reúno original. O restante das barracas é para cada um dos sete reinos convocados para a batalha final.”
Continuei escutando atentamente e a cada definição eu dava mentalmente o nome que eu conhecia para as espécies.
“- Eu como você sabe sou de Krones.” Os coelhos. “- Aqueles seres escuros e peludos são de Ugre.” Ursos. “- Aqueles humanos de orelhas pontudas são de Ethyn.” Elfos. “– Os homens pequenos são de Hudego.” Os anões. “– As mulheres ali são de Fetraz.” Fiquei tentando decifrar o que elas eram e percebi que haviam delicadas asas encolhidas a suas costas, será que eram fadas, não perguntei e ele continuou. “- Elas voam sim.” Ele acrescentou com um sorriso. “– Aqueles homens ali são de Metamonia.” Interrompi.
“- O que eles são? Humanos?”
“- Não, eles são metaformos, humanos que se transformam em vários animais selvagens. Aqui, são humanos somente os do reino do ministro que é o mesmo que Elizabeth e o seu de origem, que se chama Napta, você já ouviu, não é?”
“- Sim, mas falando em Elizabeth? O que há de errado com ela?” Finalmente perguntei.
A resposta não veio de Kevin....... identifiquei a voz de Demétrius que também não respondeu minha pergunta:
“- Rapazes, vamos nos alimentar, preciso de vocês fortalecidos ao final da tarde. Faremos uma grande reunião que explicarei todas as estratégias daqui pra frente.”
Assentimos. O almoço estava muito bom, vários tipos de carnes e bebidas variadas. Pude notar que vários adolescentes tomavam um liquido amarelo com espuma em cima, parecia com cerveja. Experimentei de tudo, estava faminto. O liquido realmente era cerveja, mas tinha um gosto diferente. Era saborosa e mais suave. Tirando que eu estava louco sentado a mesa com seres totalmente bizarros, completamente apaixonado por uma garota que me odiava, não tinha certeza se era filho de meus pais, parecia tudo tranqüilo.
A conversa no almoço foi tranqüila, eu quase não interagi, mas observei. Após a refeição, cada ser foi em direção a sua barraca para um descanso. Kevin me acompanhou até a entrada da barraca e pude perceber que estava alojado na barraca ao lado e não na mesma como eu pensava.
Na porta do meu quarto dei um longo suspiro e entrei. Estava exausto mentalmente, confuso e precisava ficar em silencio com meus pensamentos. Precisava reorganizá-los e tentar reformular alguns questionamentos. Mas ao abrir a porta tive uma grande surpresa. Deparei-me com a figura bela e esguia sentada em minha cama. Dei um sorriso e para minha surpresa maior cheguei a ver um esboço de sorriso no rosto de Elizabeth em retorno, mas só durou um milésimo de segundo, pois no segundo seguinte ela se levantou e veio como uma fera em minha direção. Tive a impressão que ia me atacar e foi o que ela fez.
Empurrou-me com sua força e tentou passar por mim sem nada a dizer. Estava cansado de não entender nada e bloqueei sua passagem. Ela continuou a me empurrar e acrescentou alguns palavrões para eu sair da frente e alguns que não gostaria de repetir, tentei segurá-la e percebi que era mais forte do que eu imaginava. Eu a travei em meus braços tentando acalmá-la e dizendo que não iria falar com ela se ela não quisesse, mas percebi que mentia e com um ímpeto que não sei de onde veio, segurei-a fortemente pelos braços, afastei-a levemente, olhei-a nos olhos e a puxei ao meu encontro cobrindo sua boca com a minha.
No começo ela resistiu ao beijo, ela era forte, mas eu era mais, muito mais e a segurei como uma selvagem que se apresentou ser. Acho que a peguei de surpresa, pois foi cedendo ao nosso beijo e se entregou até ficar mais intenso. Sentia seu gosto, seu corpo junto ao meu, minha mão passeava em seu cabelo e em sua cintura, até que percebi seu corpo se retesar, sua razão voltar.... Ela me afastou com um empurrão forte em meu peito e não forcei mais, apenas cedi com um sorriso bobo no rosto.
“- Você está louco?” Ela gritou me acusando.
“- Você gostou.” Afirmei com um sorriso bem irônico e uma pitada de raiva.
“- Não, claro que não e não mesmo.” Ela gaguejou e saiu sem dizer por que tinha vindo.
Deitei na cama e fiquei refletindo tudo, mais em Elizabeth do que outra coisa. Não entendia tudo ainda, mas estava começando a gostar daquela parte.

Primeiro dia

Quando acordei no final da tarde me dei conta que não estava sonhando e que eu realmente tinha passado por tudo aquilo. Sentei ao computador para pesquisar qualquer coisa que me desse alguma pista sobre os mundos ou seres que tinha acabado de conhecer, mas percebi que aquilo tudo não deveria estar disponível no Google. Não fazia o menor sentido, era maluquice minha.
Aproveitei para consultar meu e-mail mais uma vez. Mas já havia feito isto antes do almoço e nada mudara, nenhuma mensagem. Comecei a lembrar do meu mundo antes do despertar desta manhã. Minha maior dificuldade era estudar para a prova de Física. Era tudo fácil, normal, o treino de basquete, minha música, meus amigos. Se eu contasse o que se passava comigo agora não iriam acreditar. Nem eu acreditava!
Sai de meu transe interno e percebi que já estava na hora de nos encontrar na tenda principal de novo. E foi para onde me dirigi.
Na tenda pude notar que estavam todas as espécies dos reinos mais os tralhos. A tenda estava cheia de gente e não havia mais as mesas em que almoçamos hoje. Não caberiam todos sentados a mesa como estávamos dispostos na hora do almoço. O ministro estava em cima de um pequeno palco numa parte central da tenda. Procurei por Kevin ou Elizabeth, mas não os encontrei por perto. Não havia ninguém que tivesse conhecido até aquele momento.
Um tralho aproximou-se.
“- Davi? Prazer em revê-lo. Meu nome é Jake.”
“- Prazer em conhecê-lo Jake” Respondi reconhecendo-o como o tralho que me despertou naquela manha junto com Kevin.
Enquanto eu o encarava esperando por mais alguma informação ele acrescentou: “-Sou o responsável por sua guarda.”
Arregalei meus olhos e perguntei.
“- Mas porque eu precisaria de uma?”
“- Você já vai descobrir.” Ele disse com um sorriso. “- Vou tentar não me fazer muito visível, mas sempre estarei de olho em você” Jake concluiu.
O Ministro iniciou o discurso. A voz era ouvida como se saísse em auto falantes, procurei-os pela tenda, mas não os encontrei, nem o microfone em sua mão, ou lapela ou qualquer que seja o lugar. Provavelmente mais mágica.
“- Boa Noite. Quero desejar boas vindas a todos que chegaram nestes últimos cinco dias. Acredito que a maioria de vocês já saiba o porquê de estar aqui. Vamos alinhar as informações compartilhando as estratégias para os próximos dias.”
“Já estamos com os sete reinos reunidos e não devemos receber mais nenhum guerreiro além dos tralhos que virão de outros mundos. Todos sabem que os portais dimensionais irão se abrir daqui a um mês. E depois de abertos, teremos vinte quatro horas para fazer o equilíbrio entre o bem e o mal, e até lá precisamos treinar todos capazes de lutar. Na verdade, despertar o instinto de luta que há em cada um vocês, tendo o gene responsável por isto ou não.”
“O mal é habilidoso e pode se transformar em todas as formas possíveis. Ele acha o ponto fraco de cada um e usa para aterrorizar o inimigo ao máximo, no caso cada um de vocês. Eles jogam pesado e temos que estar sempre em guarda. Embora tenhamos a magia a nosso favor, não conte somente com isto, pois não resolverá se você estiver de posse do inimigo. Além disto, temos que contar com nossas desvantagens também, como por exemplo, este mundo não ser ciente que outras dimensões existem e muito menos que há seres de diferentes espécies. Por isto, eles não podem nos ajudar na luta e nem podemos correr o risco de deixar que saibam da nossa existência. Isto é parte do que eles são e é para seu próprio bem, sua própria evolução.”
“Fizemos um campo de força que está protegendo toda a Colina Verde, acredito que há espaço suficiente para a batalha. Enviamos todos os protetores que viviam nesta floresta, vigilantes do portal junto com alguns representantes de outras dimensões para esclarecer aos habitantes deste mundo e juntar-se a eles caso falharmos em nossa missão, seria como um plano alternativo que espero sinceramente não utilizar.”
Neste momento senti uma mão em meu ombro e vi Kevin se juntando a mim para ouvir o discurso do Ministro. Olhei ao meu redor ainda procurando por Elizabeth e não consegui encontrá-la. Foi quando escutei meu nome sendo dito pelo Ministro que continuou.
“- Davi irá nos liderar, nasceu para isto, ainda não despertou seu gene de liderança e luta, mas no momento certo ele saberá exatamente o que fazer e como recorrer aos recursos disponíveis.”
A maioria das pessoas presentes se virou para onde o ministro dirigia o olhar e é claro que era em minha direção. Sorri levemente envergonhado e continuei a prestar atenção no discurso.
“O Treinamento começará na manhã seguinte, cada reino irá ensinar o que melhor sabe fazer e irão revezar entre si para aprender todos os tipos de treinamentos possíveis. Aquele que melhor se adaptar a um tipo de luta irá se juntar a este grupo específico. Sendo assim, vamos dividir da seguinte maneira: Os elfos são...”
Virei para Kevin perguntando qual seria sua especialidade:
“- Em que você é especialista?”
De imediato, percebi que de alguma maneira já sabia o que ele responderia:
“- Espadas.” Kevin assentiu com um sorriso.