Gateway - Camping Green hil
4 Treinamento
Segundo dia
Na manhã seguinte acordei bem cedo e quando saí do quarto, notei a listagem com nomes de todos e a qual grupo deveriam se juntar. Nem consegui consultar, pois quando me aproximei, Kevin me chamou e nos dirigimos ao grupo de espadas, o qual ele era responsável e instrutor. O treinamento era ao ar livre, num gramado afastado dos alojamentos. Grandes grupos se formavam, via-os a distância, mas não era possível identificar quem se juntava a eles. Os instrutores orientavam os auxiliares em como proceder com o treinamento. E assim, os alunos também foram orientados
Iniciamos com espadas de madeira para não haver o risco de ninguém se machucar, mas mesmo assim não evitava me deixar repleto de hematomas. Tivemos a refeição na hora do almoço com direito a trinta minutos de descanso. Aproveitei o tempo livre para explorar o lugar. Embora o sol estivesse alto, o tempo estava frio o que ajudava andar no meio do dia sem derreter com o calor. Era maior do que esperava. Nesta caminhada, não saí de dentro do campo de força e não passei por nenhum lugar repetidamente. Fiquei pensando se realmente conseguiria passar pelo campo de força com a mesma facilidade que entrei quando cheguei ontem, não tentei testar. Encontrei pelo menos uns cincos lagos, um deles era bem grande mesmo. Caberia um navio cargueiro atravessado. Na margem do campo de força estava a mata fechada que parecia continuar em silêncio.
Na parte da tarde, continuei treinando com as espadas, treinei com Troy, o coelho amigo de Kevin. Ele era muito bom com espadas. Pude ver a evolução do meu treinamento, eu melhorava a cada exercício. Até que no final eu consegui derrubar e desarmar Troy. Fiquei orgulhoso e até mesmo surpreso comigo mesmo. Eu estava me dedicando, estava sentindo meus músculos inchando e tomando forma. Mas fiquei orgulhoso demais de mim mesmo e em menos de um minuto Troy se levantou e me derrubou sem muito esforço.
“-Sempre preste muita atenção Davi. Só relaxe se tiver absoluta certeza que seu oponente está derrotado e fora de combate.” Disse Troy.
Assenti e me pus de pé, ainda orgulhoso de mim mesmo, eu já tinha o derrubado e ser contra-atacado não perdia isto.
Parecia loucura eu falar isto no primeiro dia de treinamento, mas era como eu realmente me via e me sentia. Assim, conforme os dias passavam, eu ia me fortalecendo e a rotina seria a mesma. Acordaríamos bem cedo, passaríamos a manhã toda em treinamento com o grupo escolhido e a tarde com um grupo diferente que era determinado no quadro de avisos na saída do alojamento.
Eu tinha certeza que minha afinidade seria com as espadas, mas precisava freqüentar os outros grupos. Tínhamos que aprender de tudo um pouco, treinar onde tínhamos a maior afinidade de luta e depois trocar de grupo para sabermos como nos virar em outras modalidades, no caso de algum imprevisto.
No primeiro dia de treinamento eu tinha passado no grupo de luta livre. Usava-se o próprio corpo como arma, os afins deste grupo eram ursos e a maioria dos tralhos que eram enormes, era surpreendente o quanto eram fortes, sentia-me confiante. Além da força bruta, eles sabiam as técnicas e é o que passavam para nós, já que não tínhamos mais de dois metros de altura como eles. Pra mim, as técnicas, eram muito valiosas, pude perceber que realmente estava ficando forte, será que tinha a ver com o gene que estava despertando em mim? Não sei, mas era mais fácil lutar aqui do que quando fazia isto em minha vida normal. Seria mais mágica?
Terceiro dia
No terceiro dia, treinei na tenda de magia que era ministrada pelas fadas, foi muito interessante. Os duendes ajudavam no treinamento e estavam em todos os lados esclarecendo pequenas dúvidas e trazendo elementos. Um deles distribuía um saco a todos, que mais pra frente fui saber que era reconhecido como bolsa de magia, era pequena e tinha a boca amarrada. Orientou-nos que deveríamos carregá-la conosco todo o tempo e que não deveríamos usar o que não tínhamos aprendido ainda.
Dentro dela havia alguns vidros com líquidos coloridos, outros com pós e umas bolas coloridas. Nada estava identificado com nomes, não sei como iríamos usar aquilo, mas guardei.
Elas manipulavam os elementos, fogo, água, terra e ar, eram seres encantadores, belíssimas com uma doçura diabólica. Elas fazem tudo como se estivessem dançando e suas vozes soavam como sinos repicando nos ouvidos.
O treinamento era mais calmo, tínhamos que meditar e limpar a mente antes de fazer qualquer magia. Naquele dia aprendemos a duplicar a nós mesmos, ajudaria a confundir o inimigo, mas o feitiço durava apenas alguns segundos, de cinco a quinze dependendo da habilidade do manipulador. Era muito mais difícil do que lidar com espadas ou lutas livres.
No final do dia estava cansado de me concentrar. Mas me sentindo muito satisfeito, falei comigo mesmo que a batalha estava quase ganha e Jake, que treinava naquele grupo, acabou escutando.
“- Não se engane Davi, o mal é habilidoso e também tem todos os recursos que temos aqui.” Afirmou Jake, o tralho que disse ser da minha guarda.
Dei um meio sorriso em resposta. Nos dias de treinamentos, eu era seguido por Kevin na parte da manhã e por Jake na parte da tarde, já que Kevin era um dos responsáveis pelo treinamento com espadas não ia comigo a outras áreas para treinar.
Até agora nada de encontrar Elizabeth, será que estava fugindo de mim? Odiava-me tanto a ponto de voltar para seu reino e desistir de defender o mundo para nunca mais me ver? Ainda me perguntava o que tinha feito a ela?
Quarto dia
No dia seguinte fomos para a área dos Elfos, eram ótimos arqueiros, escutei que quase nunca erravam um alvo. O treinamento começou com a parte teórica, como todos os outros, sobre o peso da flecha, o comprimento e a concentração do arqueiro que a manejava, quase não pegamos nos arcos. Aprendemos a respirar corretamente e a identificar o alvo antes de qualquer coisa. Embora eu achasse que tivesse teoria demais nas aulas, eram muito interessantes. Quando me dei conta, tinha acabado. Virei para afastar-me do grupo quando a notei e pude perceber o porquê não a via em outros lugares nos dias anteriores. Estava procurando a Elizabeth que conheci, com um vestido de princesa com fitas do cabelo, era quase impossível perdê-la de vista naqueles trajes. Como fui tolo, claro que ela não treinaria vestida daquela maneira, estava com uma calça justa preta, bota escura e uma camisa branca. Seu corpo era melhor do que eu imaginava, as pernas torneadas eram visíveis embaixo da calça preta. Fiquei boquiaberto admirando-a, mas ela não estava me vendo, quando Jake me surpreendeu:
“- E aí? Já acostumou com a idéia de se casar com Elizabeth? Ela é bela, mas o que tem de bela tem de teimosa e durona. Não vai ser fácil.”
Congelei com mais aquela novidade, olhei de Elizabeth para Jake e depois para Elizabeth tentando organizar meus pensamentos.
“- Desculpe.” Jake disse de imediato. “- Vejo que você não sabia desta... hum” E saiu sussurrando algo parecido com “falei besteira”, ou algo do tipo.
Naquele momento ela veio até mim, com um ar de superioridade e orgulho, não tinha mais traços de raiva em sua face.
“- Sofrendo nos treinamentos?”
Continuei encarando-a sem dizer nada, ainda estava chocado com o que Jake disse e ela prosseguiu:
“- Você viveu num mundo sem lutas e treinamentos, aposto que não tem prática com armas, não deve lutar melhor do que uma donzela indefesa, isto tudo é demais pra você, não é?” Ela disse com um sorriso de deboche no rosto.
Saí do estado de torpor e esqueci temporariamente a novidade de casamento passando para a raiva num passe de mágica, ela era metida demais e não deixei barato.
“- Você sabe que tenho o gene dos reis e que não há esforço algum da minha parte para lutar. Simplesmente sou bom em tudo que faço Elizabeth.” Falei a última frase calmamente dando sentido ambíguo a palavra, dando a entender nosso ultimo encontro e nosso beijo, o que ela percebeu rapidamente. Vi seu rosto de triunfo se transformar em desdém e virou-se em direção as barracas para se afastar de mim. Num impulso, dei um passo a frente pegando seu braço segurando-o com força bem próximo a meu corpo. Seu braço estava encostado em meu peito e muito devagar disse perto do seu ouvido.
“- Sonhando comigo Elizabeth? E disso que tem tanta raiva? Está se lembrando do meu beijo? Se quiser te dou outra amostra grátis?” Enquanto falava roçava meus lábios em seu pescoço subindo em direção a mandíbula. Ela recuou olhando em minha direção com os olhos semi fechados de pura raiva. Seus lábios estavam pressionados em uma linha reta, percebi que tinha alcançado meu objetivo, pois ela parecia muito irritada. Quase sorri com o gosto da vitória, mas segurei. Ela se soltou de meu aperto com um tranco e saiu quase correndo em direção as barracas.
Naquele momento percebi que poderia ser isto mesmo. Ela estava gostando mais de mim do que gostaria. Mas qual era o problema? Ainda não entendia. Na maioria das vezes eu não era cínico e um canalha, mas Elizabeth me tirava do meu estado de normalidade.
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