Gateway - Camping Green hil
26 Outra vez não!
Notas iniciais
“-Ei, voltando a assuntos do passado, você disse que me diria quem era o chantageador de Elizabeth. Vc conseguiu descobrir alguma coisa?”
“-Ah! Sim, descobri!”
Fiquei curioso. Ele provavelmente não tinha descoberto corretamente. Se descobrisse a tanto tempo que era o ministro já tinha o denunciado, não tinha? A curiosidade passou para ansiedade.
“- Sei o que prometi, mas talvez não seja uma boa hora para te contar.”
“- Sempre é Kevin. Desde quando você sabe?”
“-Você lembra quando disse sobre minhas suspeitas?” Assenti controlando a ansiedade. “Naquela época eu já sabia, só precisava confirmar e depois daquele dia não tivemos mais oportunidades de conversar.” Ele sabia que era meu pai e nunca me contou? Oportunidades? Deixou que ele continuasse a chantagear Elizabeth?
“- Como assim? Que tipo de amigo você e?” Disse um tom acima da nossa conversa.
Ele me olhou com olhos confusos, abriu a boca para falar alguma coisa, mas eu o cortei. Na verdade, descarreguei sobre Kevin toda a tensão dos últimos acontecimentos.
“-Ele estava chantageando Elizabeth. Ela estava apavorada achando que e eu ia morrer se ficássemos juntos. Tinha medo de olhar pra mim. De ser pega comigo. Vc tem idéia do que é isto? E você estava esperando uma boa oportunidade pra dizer que era Demétrius o chantageador?”
Disse a última frase apontando o dedo em sua direção, estava aos gritos. Ele se recompôs, respirou fundo e se defendeu.
“-Estava esperando uma boa oportunidade, sim! E concordo com ele. As circunstâncias pediam isto, Davi. Não existem apenas coisas boas no mundo, sabia?! Às vezes se perde para ganhar depois. Você precisa entender o lado dele. Você está agindo com imaturidade pensando somente no presente.”
Por esta eu não esperava. Ele estava apoiando Demétrius em me afastar de Elizabeth. Ele também estava me traindo? Meu melhor amigo? Por quê? Pela primeira vez vi expressões diferentes no semblante de Kevin, a máscara de serenidade, autoconfiança e maturidade havia caído. Ele olhou dentro dos meus olhos e parecia chocado com a minha reação, se voltou para a barraca dele e me deixou no meio do gramado, não havíamos chegado à área de treinamentos ainda.
Eu fiquei tão chocado, pego de surpresa que não consegui ter qualquer reação. Não sabia o que fazer. Se eu continuava andando? Se treinaria? Se o seguia para exigir explicações? Se culpava Demétrius por aquilo? Eu tinha que fazer alguma coisa.
Pela primeira vez, eu não sabia o que fazer e continuei parado ali por alguns minutos.
Resolvi procurar a única segurança da vida real, meu pai Francisco. Além de me ajudar a pensar com clareza, nós tínhamos marcado para falar de mais teorias do sonho. Eu também não podia sair por aí lutando contra todo mundo sozinho. Embora eu estivesse tentado a fazê-lo. Que droga! Eu era um adolescente, será que ninguém via isto? Aquela pressão toda estava difícil, mas eu tinha que analisar a situação. Com certeza havia uma explicação plausível que eu não estava entendendo agora.
Cheguei ao dormitório de Francisco e estava vazio. Ele não estava lá. Não havia nenhum pertence seu, seu armário estava vazio. O que será que havia acontecido? Ele não poderia ter me abandonado, ou teria? Não teria, deve ter tido uma boa razão para ir embora sem se despedir. Será que foi raptado novamente? Eu precisava investigar.
Fui para meu quarto e me deitei tentando dormir para sonhar, mas estava agitado. Rolei de um lado para o outro na cama. Concentrei-me em Francisco, mas nada. Só conseguiria através dos sonhos e pra isto tinha que dormir. Pedi ajuda ao Oráculo, mas também não havia resposta alguma. Não conseguiria dormir três horas depois de ter acordado. Então, resolvi me cansar.
Saí correndo pela Colina, ainda dentro do campo de força. Quando dei por mim, estava passando por lagos distante do alojamento. Precisava esfriar a cabeça. Tudo estava virado novamente. Num dia tudo bem, Elizabeth me amava, sem ataques, minha mãe apareceu, meu pai Francisco estava expressando sentimentos. Mas no dia seguinte havia perdido tudo, não tinha mais Elizabeth, as pessoas tinham me traído, meu pai desaparecido ou me abandonado.
Corri por horas e quando meu corpo sentiu muito calor, pulei no lago e nadei sem parar, me sentia exausto demais e naquele momento, poderia dormir. Deitei-me à sombra, fiquei olhando o céu e o topo das arvores. Estava faminto, mas não podia voltar ao alojamento. Já era tarde, meu corpo doía, tinha me exercitado além do limite. Mas só assim eu dormiria com toda esta agitação que estava fervendo dentro de mim. Pensei em meu pai e adormeci.
Acordei ainda sob a árvore, estava muito escuro. Devia ser madrugada. Demorei um pouco para me lembrar o que estava fazendo ali. Mas assim que consegui me senti frustrado. Cadê o sonho que eu devia ter? Tinha dormido para sonhar não para descansar. Será que tinha perdido o poder também? Era só o que me faltava.
O que fazer?
“-Pense Davi”
“-Pense Davi”
“-Pense Davi”
Disse em voz alta, várias vezes, para ver se me forçava a ter um pensamento que fosse útil e que pudesse me ajudar de alguma maneira.
Olhei para a floresta negra e de repente escutei algo. Tenha paciência, não tome nenhuma ação precipitada. Espere a resposta.
Procurei de onde vinha aquela voz e me dei conta que era da minha cabeça. Estava falando dentro da minha cabeça. Mas qual o sentido nelas? Era o Oráculo. Eu também não agüentava mais suas charadas e gritei em direção a floresta escura para ser ouvido por sei lá mais quem.
“- Por que devo esperar?”
Esperar a resposta.
Disse o Oráculo em minha cabeça como se fosse eco da primeira frase que havia falado. Eu respirei profundamente para me acalmar por alguns minutos e logo escutei o barulho de um passo pisando sobre folhas do outro lado da árvore. A árvore em que eu tinha deitado para dormir era enorme, aquelas centenárias, que tem os troncos tão grossos que dá para uma pessoa morar dentro. Empunhei minhas espadas lentamente. Mais um passo dado. Alguém chegando devagar deste jeito só poderia querer me atacar. Quem seria dentro do campo de força? Não tinha inimigos aqui.
Na verdade até tinha, mas deixei pra lá. Logo iria saber quem era meu visitante. Outro passo. Contornei a árvore, tentando pegar meu oponente de surpresa. Dei um ultimo passo que me deixaria de frente ao oponente e enquanto erguia a espada para o ataque vi Jake que também tinha sua espada em punho. Ele tinha um olhar alerta.
“-Você faz muito barulho” Ele disse rindo.
“-Eu? Escutei você andando pelas folhas e eu que faço muito barulho?”
Ele me deu um soco no braço que quase me lançou em direção à árvore.
“-Você estava gritando. O que você tem que esperar?”
Eu ri meio frustrado. Era pura verdade, eu estava gritando feito maluco.
“-Estava em minha ronda e o ouvi..... Sabe que já está quase amanhecendo?
“-Eu dormi tanto assim?” Disse mais para mim do que fiz uma pergunta a Jake.
“-Desde quando está aqui?”
“-Sei lá, desde ontem, às....” Eu não tinha certeza “ainda tinha sol.” Dei de ombros.
Vigésimo sexto dia– falta quatro dias
Esperar.
Faltavam quatro dias para a batalha. E isto que eu fazia desde que cheguei aqui.
Fiquei com esta palavra rondando minha cabeça pelos últimos três dias e foi o que eu fiz mais uma vez.
Esperar.
Nada mudou.
Não sabia onde Francisco estava. Mas sabia que estava bem, pois quando voltei a meu quarto, da minha fracassada tentativa de induzir um sonho, havia um bilhete dizendo que precisaria sair em missão e que voltaria logo. Logo quando? Mas não tinha o que fazer senão esperar.
Eu fui treinar. Como não queria ver Kevin treinei em outras áreas. Passei pela dos ursos, depois dos anões e por último a dos Elfos.
A verdadeira razão da morte de Ramon foi escondida de todos para não gerar tumulto de termos um traidor dentro do alojamento. O que eu não concordei, porque na verdade não era só um traidor, mas havia mais dois deles. Kevin e Demétrius. Mas como tive que esperar, não pude dizer ao conselho quais eram meus argumentos para expor a traição de Ramon. Então me calei, ninguém sabia do envolvimento dos dois.
Pensei em procurar minha mãe, mas provavelmente estaria na companhia constante de Elizabeth. Sempre que estava com raiva de mim ficava isolada com a rainha. Não queria me ver nem pintado de ouro por estar envolvido na morte de Paula. Preocupava-me bastante, já que Demétrius também deveria estar em sua companhia.
Tentei enviar bilhetes a ela para conversarmos, esclarecer as coisas, acabarmos com as magoas, mas acabei recebendo de volta os bilhetes de Leonor dizendo para eu esperar as coisas se acalmarem. Elizabeth estava magoada e minha presença iria prejudicar nossa relação. Eu nem sei se tínhamos uma ainda. Leonor nem os entregava a Elizabeth. O último veio com uma observação no final que dizia: Neste momento ela precisa mais de mim do que você, assim que puder te procuro. Seja forte! Com Amor, sua mãe.
Seja forte? Nestes dias me sentia frio, sem sentimentos. Estava só levando a vida. Se chovesse estava bom, se fizesse sol também. Embora o clima aqui fosse sempre o mesmo frio com sol de outono.
Para não enlouquecer, eu tinha Jake que virou meu melhor amigo. Ele me acompanhou nos treinamentos, me ensinou bastantes técnicas de luta sem armas, além disto, me fazia companhia nas refeições. Como eu o seguia, comíamos em horários dos tralhos, diferentes do que eu estava acostumado. Os tralhos podiam comer a qualquer hora, mas sempre faziam as atividades entre os seus. Não havia percebido isto antes. Por isto me sentia em outro lugar, as pessoas mudaram. Não tinha Laila, Caroline, Demétrius, nem ninguém conhecido além de tralhos e mais uma multidão de tralhos. Eles eram divertidos.
À noite a barraca deles era uma festa. Bebida, comida a vontade e depois dormiam. Arrumavam uma cama vazia e dormiam, em qualquer lugar. Não tinha um quarto com guarda roupa e seus pertences. Eles carregavam as próprias coisas, andavam armado todo o tempo, quando se banhavam passavam num guarda roupa comum onde pegavam roupas limpas e estavam prontos. Todos eram do mesmo tamanho e se vestiam com roupas iguais.
Neste dia, até que enfim consegui ficar bêbado com esta bebida fraca para amenizar as coisas ruins e dormi na primeira cama que achei na barraca dos tralhos. Mas não adiantou, no dia seguinte estava tudo de volta a mente com uma dor de cabeça infernal. Jake me disse depois que a bebida dos tralhos era bem mais forte. Fiquei dois dias sem tomar banho. Simplesmente esqueci. Vivia como um tralho.
Ontem à noite quando me dei conta que não havia tomado banho, pela primeira vez me preocupei com a aparência. Cheguei a meu quarto e o reflexo no espelho mostrava um Davi que não conhecia. Tinha barba grande com fios espetados para todos os lados, os cabelos desgrenhados, os olhos fundos no rosto envolto por profundas olheiras. Não podia continuar assim, estava com a aparência horrível, nem um tralho chegava a este ponto. Tomei um longo banho e fiz a barba. Tinha me cansado dela, mesmo antes quando a deixava curta e limpa já queria me livrar do ar sério. De volta ao espelho, realmente me senti limpo, um moleque que sempre fui.
Continuei minha vida com os tralhos, mas de um jeito mais higiênico do que estava fazendo anteriormente.
No dia seguinte, sentei-me em frente ao computador para ver se haveria notícias de Juan. Queria saber se a história inventada por Jake tinha colado e se estava tudo bem com ele. Como eu já esperava, estava tudo bem. Ele me escreveu um e-mail que pedia novidades e falava de Sophia ser Paula e como ele tinha conseguido se apaixonar por uma maluca. Nunca mais queria mulheres mais velhas. Eu ri. Iria sentir saudades de meu amigo. Agradeceu-me por chamar a polícia e falava que seu pai havia aparecido no dia seguinte e estava mesmo com a amante, mas inventou uma história para a mãe e ficou tudo bem. Nem perguntei a Jake o que tinha acontecido com o pai de Juan, mas pelo visto tinham mudado a mente dele para parecer tudo normal, pois tinha certeza que ele era prisioneiro de Paula também. Fiquei feliz por pelo menos a vida de Juan ter voltado ao normal.
Era fim de tarde e escrevi o e-mail dizendo que estava tudo bem no alojamento, contei sobre a bebedeira, meu novo amigo Jake e que tinha treinamentos de artes marciais aqui. Achei suficientemente verdadeiro e enviei.
Fui tomar um banho para me preparar para jantar mais cedo, com Jake como era costume, mas de dentro do banheiro enquanto vestia roupa escutei a porta se abrir, passos e alguém sentar-se em minha cama. Quem entraria aqui? Minhas armas estavam do lado de fora do banheiro, precisava me lembrar de deixá-las o mais perto possível da próxima vez. Por que não as trouxe ao banheiro? Tinha vacilado!
Depois, nada. Nenhum barulho. Concentrei em minha audição e só ouvi uma respiração e o coração que parecia estar em velocidade normal. Deveria estar acelerado se pretendesse me atacar, pois a adrenalina corre rápido nas veias antes de uma luta. Isto me permitiu ter esperanças. Poderia ser Elizabeth, me senti o mesmo estúpido apaixonado de antes, só em pensar nela em meu quarto novamente. Ela era o amor da minha vida, não podia ficar longe de mim. Dei-me conta de quanto estava sofrendo por não vê-la. Ela provavelmente veio resolver de uma vez por todas a história comigo e deve ter caído na real que Paula foi uma invejosa que não merecia sua consideração, nem depois de morta. Abri a porta.
Controlei-me muito para não parecer frustrado. Afinal de contas, Laila tinha salvado minha vida. Diferente das outras vezes, ela estava vestida e com um ar sereno no rosto. Ela ficava mais bonita quando não queria parecer uma cadela vulgar. Sorri.
“-Teríamos dado certo!” Ela começou.
“-Talvez! Mas você sabe meu destino.”
“-E há algum?” Agora ela quem sorria.
Ergui os ombros, não sabia de mais nada.
“-Vim ver se está bem. E a propósito, prefiro com a barba.”
Eu ri novamente respondendo.
“-Estou bem e você como está? Saiu hoje do hospital?”
“-Não. Saí no mesmo dia. Eu só desmaiei quando bati a cabeça.”
Respirei fundo e me aproximei dela.
“-Obrigado. Você salvou minha vida” Dei-lhe um abraço de agradecimento.
“-Ganhei apenas uns segundos para você, não foi nada. Você teria dado um jeito.”
“-Tento acreditar que sim. Aquela passou perto. Mesmo assim, te devo uma.”
Ela se afastou de meu abraço e ainda em meus braços me olhou demoradamente com o familiar sorriso diabólico. Fiquei apavorado, pois rejeitar uma menina que me perseguia era uma coisa, mas uma que salvou minha vida era bem diferente.
Acho que ela percebeu minha expressão de pânico, sorriu saindo de meus braços e me deu um soco de leve no peito.
“-Estou brincando.”
Sorri aliviado.
“-Mas que bem que poderia ter dado certo, a isto podia!” Como continuei sorrindo sem dizer nada ela completou. “Você sumiu! Só vim ver se está bem mesmo e me despedir, já vou embora!”
“-Vai pra onde?”
“-Para meu mundo. Não tenho o gene e não ajudarei na luta. Vim para ser ajudante e os treinamentos estão acabando. Minha ajuda não é mais necessária aqui.”
“- Você pode ajudar! Pode usar o pó de extermínio depois das lutas. É tão importante quanto lutar.”
“-Mas já tem fadas demais com esta função e estou com saudades de meus pais e minha irmã.”
Família? Por esta não esperava. Laila tinha uma família. Claro que tinha, era uma pessoa normal. Por que achei que era sozinha no mundo? Estava somente passando por maus momentos devido ao namorado paranóico que a empurrou para mim. Ela era absolutamente normal. Olhei em seus olhos com o sorriso chegando até eles, segurei-a pelos ombros e gentilmente encostei meus lábios aos dela com um beijo de despedida rápido.
“-Está bem. Volte para sua família e seja feliz. Se precisar de qualquer coisa, me procure”
“-Até um dia” E Laila se foi.
Fale com o autor