Gateway - Camping Green hil
27 Isto tinha que parar!
Notas iniciais
Cheguei à tenda principal para o jantar e percebi vários rostos conhecidos. A despedida de Laila me fez atrasar no jantar com os tralhos, o que acarretaria em encontros indesejáveis. Respirei fundo e me obriguei a enfrentar meus problemas. Teria que fazer isto mais cedo ou mais tarde. Enquanto procurava um lugar disponível vi Kevin do lado oposto da mesa. Ele sorriu alegremente para mim. Muito cínico! É claro que ignorei.
Não avistei Elizabeth, nem Demétrius, nem minha mãe em lugar nenhum. Vi João o príncipe de Hudego e segui a seu encontro. Enquanto me sentava ele me apresentou sua namorada, Evelin. Uma pessoa agradável e simpática. Não olhei mais na direção em que o coelho estava sentado e tive um jantar tranqüilo.
Segui em direção a árvore na lateral da tenda para pensar em Elizabeth e relembrar os momentos que passamos juntos, já que parecia que eu não a veria por um bom tempo, mas me surpreendi quando avistei uma garota lá. Usava um vestido solto até os joelhos, caramelo. Ela estava de costas e o cabelo preso num rabo de cavalo. Era da cor do de Elizabeth, mas era demais eu achar que ela estaria ali, no nosso lugar. Quem seria esta garota?
Aproximei-me e me permiti ter esperanças. Como eu era idiota. A garota se virou com minha aproximação acendendo um luminoso dentro de mim, era Elizabeth. Achei que ela me expulsaria, mas continuei andando lentamente com um leve sorriso no rosto esperando a hora em que ela passaria por mim ignorando minha presença. Mas desta vez eu estava errado e ela baixou o olhar para suas mãos quando cheguei mais próximo, hesitando e depois virou fitando além da árvore.
“-Está tudo bem?” Perguntei quase num sussurro esperando a reação de raiva, mas ela continuava a me surpreender.
“-Faz alguns dias que conheci minha mãe. Eva é boa, me contou tudo o que passou depois que eu nasci e como foi obrigada a me deixar. Ela esteve no alojamento e ficamos juntas por três dias. Além da vida dela, me disse muito sobre sua vida, sua infância e sobre minha irmã. Como elas cuidavam de você, como te amavam. Como Paula era obrigada a te rejeitar por causa desta regra que fomos feito um para o outro. Ela sofria sabia? Minha irmã sofreu a vida inteira e ainda sim acabou morta.”
Eu pensei em responder alguma coisa, mas percebi que ela ainda não havia acabado e resolvi esperar.
“-Ela não era perfeita, tinha muitos defeitos, mas nada justificava acabar com sua vida. Você foi imprudente. Não sei e nem quero saber o que ela fez para você a odiar tanto, mas acho que merecia o mínimo de consideração. Uma segunda chance. Todos merecem. Não quero nem imaginar como deve estar minha mãe agora. Se eu me sinto traída, me sento apunhalada pelas costas, deve imaginar como ela deve estar sentindo. Você era um filho pra ela.”
Não foi assim que aconteceu. Eu não decidi matar Paula. Ela se matou, mas Elizabeth estava magoada e por mais que fizesse sentido tudo o que aconteceu, ela não entenderia. A culpa sempre seria minha. Não creditaria que a irmã invejava sua vida e que a odiava, era má. Mas não seria eu a dizer isto, não agora.
Embora eu amasse Elizabeth sentia-me frio, meus sentimentos intensos estavam trancados bem longe de meu coração, isolados. O sofrimento não permitia mais trazê-los à tona com tanta facilidade e resolvi substituir o assunto Paula pela vida de tia Eva.
“-Ela é minha mãe e foi por toda minha vida. Tenho um carinho muito grande por tia Eva. E sinto muito pela perda dela.”
“-Eu nem a conheci, sabia?” Ela disse com lágrimas rolando pela face, falando sobre Paula.
Tentei me aproximar, mas ela tirou o corpo me evitando.
“-Sinto muito por sua perda também Elizabeth. Vejo que está sofrendo.”
Ela me devolveu um olhar cético.
“-Sente? É assim que sente a perda? Matando?”
“-Sinto sim. E sinto por mim também. Você não pode se esquecer que Paula ocupava um lugar importante em minha vida. Você não a conheceu, mas eu vivi dezessete anos de minha vida a seu lado.”
“-Tenho medo de você. Se quando você gosta você age assim, não quero nem pensar o que você faria com um inimigo.”
Aquela conversa era inútil. Ela tinha decidido que eu era o culpado e qualquer coisa que eu falasse, ela arrumaria uma maneira de me culpar novamente. Então tentei ignorar seus argumentos e acabar com esta conversa antes que nossa situação ficasse pior ainda.
“-Desculpe” Disse abaixando o olhar.
Ela deu um passo em direção a árvore e voltou que nem uma bomba, já estava passando por mim. Não agüentei e segurei seu pulso puxando-a de volta em minha direção.
“-Desta vez não, Davi. Não vai funcionar.” Ela disse olhando-me nos olhos amargamente, seus olhos verdes estavam frios. Com um tranco soltou de meu aperto e saiu correndo em direção as barracas do alojamento.
Eu me senti péssimo. Não tinha mais o que fazer. Embora Paula não tivesse morrido por minhas mãos eu me sentia um pouco culpado por sua morte. Repassei o seqüestro de Juan um milhão de vezes tentando achar finais possíveis que não acabassem em sua morte, mas isto de nada adiantaria. Ela estava morta e exterminada e o tempo não voltaria.
Há três dias da batalha final comecei a me preocupar de verdade. Daqui pra frente teríamos reuniões diárias de estratégias. Não haveria mais treinamentos. A batalha aconteceria dentro do perímetro do campo de força maior. Todos que não lutariam partiriam.
Na reunião daquela manha foi decido unir todo o alojamento em uma só barraca, sem os colaboradores que partiriam, era mais fácil a organização de tudo e todos. Além de evitar transito externo que ajudava a ficarmos menos visíveis para as trevas. Era provável que o mal tentasse ataques tentando nos cansar nos próximos dias.
Embora fosse apenas uma barraca, os diferentes reinos ficavam agrupados. Era visível a divisão entre eles. A barraca era simples, nada de cachoeiras, lagos, pedras, ou flores, nada que usasse muita magia. As paredes internas eram de tijolos claros. A claridade tomava conta do ambiente. No fundo havia uma pequena queda d’água aquecida para os banhos, um tipo de vestiário e ao lado direito um refeitório pequeno. A gastronomia era difícil até de descrever, além de sementes, frutas estranhas, carne de animais que nunca vi, um macarrão escuro que quando me aproximei se mexia, era um tipo de minhoca gigante. Quem será que comeria aquilo?
Não havia mais computadores. Tinha perdido meu acesso a internet, já que eu era o único do planeta terra. E provavelmente vários seres perderam regalias específicas. E mais importante era que dentro dos mundos ainda havia uma separação, entre homens e mulheres, cada um dormia no oposto do outro. Era como se fosse baias, no dormitório havia espaço para a cama, um armário pequeno e alguns banheiros que eram compartilhados.
Soube que meu pai chegaria à véspera da batalha. Estava ansioso para vê-lo. Precisava contar sobre a traição de Demétrius e Kevin. Ele me ajudaria, embora eu confiasse na voz dentro de minha cabeça que várias vezes frisava que eu deveria esperar. Eu não entendia o porquê, mas muita coisa eu não entendia também e depois de algum tempo faziam sentido. Embora eu me sentisse meio cético.
Neste dia tivemos três ataques, outro dragão, um exército de quinhentos soldados negros e cinco gigantes. Eram do tamanho de um prédio de dez andares. Foi fácil exterminá-los. Não tivemos baixa para o nosso lado.
Nosso exército continha mil e quinhentos tralhos mais cem soldados de cada um dos sete reinos, o que dava um total de dois mil e duzentos soldados e eu. Nunca tinha me dado conta de tudo isto, era muita gente para eu liderar e ha três dias da batalha eu nem sabia como iria fazê-lo.
No jantar naquela noite, Jake não pode me acompanhar, pois era o líder dos tralhos e estava preparando a estratégia. Cada reino faria a sua e na manha seguinte teríamos a reunião somente com os líderes de reino para conhecermos todas e definirmos uma estratégia em comum. Como eu era líder de todos, eu não liderava diretamente nenhum reino, nem o de Napta que era liderado pela rainha. Achei estranho não ser Demétrius, mas agradeci. Assim interagiria menos com ele.
As mesas do refeitório eram bem menores do que as da tenda principal, como as da minha antiga escola, compridas e ordenadas em filas. Estavam lotadas, não consegui identificar nenhum rosto conhecido. Peguei uma bandeja na mesa principal que já estava arrumada. As fadas preparavam e as deixava servidas prontas para comermos. Estava quente, não esfriava nunca, mas não duvidava que tivesse alguma magia mantendo a comida aquecida. Sentei-me em um canto. A cadeira ao meu lado estava vazia, mas antes de acabar a refeição, alguém a ocupou. Estava tão concentrado que não levantei os olhos para ver quem era, mas a pessoa falou:
“-Você está se sentindo bem?”
Meus músculos se retesaram, o reconhecimento da voz me fez perder o apetite, mas somente a voz em minha cabeça me fez não reagir. Esperar, agora não é o momento, depois da batalha.
Respirei fundo vestindo minha máscara de falsidade que não estava muito acostumado a usar e respondi:
“-Sim”
A voz em minha cabeça insistiu.
Ignore os fatos, agora ele te ajudará.
De onde vinha aquela voz? Como comandava minhas ações deste jeito? Será que realmente era o Oráculo? Eu não conseguiria ser imparcial com um traidor, não mesmo e me preparei para levantar, mas como da última vez que resolvi contrariar a voz, paralisei. Não me mexia, não falava, mal respirava. Está bem! Se é assim que quer, serei imparcial.
É importante!
A voz estava conversando comigo?
Demétrius percebeu que eu estava diferente.
“-Você tem certeza que está bem?”
Esperar. Repeti mentalmente. Se era tão importante, eu o faria.
Saí do estado paralisado e consegui continuar o diálogo:
“-Tenho. Estou bem sim.”
“-Muito bem. Como você sabe, não serei líder de Napta.”
Isto não era uma pergunta, então esperei.
“-Estarei ao seu lado para ajudá-lo no que for necessário para liderar as tropas.”
Isto também não era uma pergunta. O que me fez ficar desanimado. Mas desta vez não precisei da voz para me lembrar, esperar, ser imparcial.
“-Ainda tenho meu escritório montando, gostaria de discutir alguns detalhes com você.”
Eu assenti e depois do jantar fui ao seu escritório discutir sobre a batalha. Depois que me convenci que não tinha que pensar no assunto sobre o chantageador, consegui conversar quase que normalmente com Demétrius. Tínhamos um mapa do perímetro do campo de força. O que nos ajudou a decidir onde nossas tropas estariam localizadas.
Embora eu já soubesse que o mal também tinha portal dimensional, fiquei surpreso em saber que haveria sete portais que se abririam para o mundo deles. Foi a principal razão da escolha de sete reinos para defender. Cada reino lutaria em um portal. E ao contrário do que eu imaginava também, as fadas lutariam. Tínhamos o dobro de fadas do que tínhamos de guerreiros para cada mundo. Cem lutariam no portal, suportadas por tralhos, e as outras cem estariam divididas no perímetro da batalha com o pó do extermínio.
Os sete portais estavam escondidos em baixo dos lagos, na parte mais funda e sairiam por uma espécie de fenda do centro deles. Os lagos foram feitos propositalmente para as pessoas da Terra não acharem os portais com facilidade quando fossem atraídas. Embora as trevas não pudessem passar pelo portal e se o fizessem a água não faria qualquer diferença para os humanos. As águas os impediam de entrar, pois quando os molhava o choque da água as faziam sair do transe.
Demétrius era muito inteligente e sabia muitas fraquezas das trevas. Também me mostrou que, quando assumiam uma forma concreta, embora eles tivessem apenas um ponto de extermínio, o olho em destaque, os mais poderosos conseguiam simular vários olhos para confundir seu inimigo. Mas que eu não deveria me preocupar com isto, pois o gene desperto em mim era forte o suficiente para impedir esta ilusão.
Conversamos por horas e eu quase consegui esquecer a traição, quase, pois todas as vezes que me lembrava, doía fundo em meu peito. Embora pra mim, meu pai fosse Francisco, eu gostava de Demétrius. Ele me ensinou muita coisa e além de tudo era meu pai de verdade, sentia um carinho por ele. Mas traidor é traidor e depois da batalha não haveria voz que me segurasse.
Na manha seguinte tive mais uma noite sem sonho. Já completava sete dias sem qualquer sonho. Começava a ficar preocupado e ao contrário do inicio, de quando queria ser normal, eu estava preocupado em ficar sem este poder. Será que havia quebrado regras em interagir nos sonhos? Perde-se o poder usando-o demais? Francisco não havia mencionado nada a respeito. Parei de pensar no assunto para não ficar paranóico e fui em direção a sala de reunião do conselho.
O lugar era um dos poucos cômodos que ficavam isolados no grande alojamento pré batalha. Era parecido com o anterior, só que bem menor. Havia dez cadeiras em torno da mesa oval. Todas ocupadas, Jake, João, Kevin, Gabriel de Ethyn substituindo Ramon, Palemon representante de Ugre, Geovana, Leonor representando Napta, Demétrius e para minha alegria, Francisco que representava Metamonia, embora nos últimos anos ele não tenha vivido lá. Neste instante percebi que não havia conhecido o príncipe de Metamonia. Onde será que estava? Será que existia? Deixei pra lá. Pra variar eu era o último a chegar, chegando dez minutos antes da hora marcada. Que horas estas pessoas chegavam para reunião, ninguém conseguia cumprir um horário?
O costumeiro burburinho baixo tomava o ambiente. Sentei entre Leonor e Demétrius. Acredito que a cadeira estava propositalmente vaga para mim. Demétrius pediu a palavra e apresentou todos os representantes, até chegar ao final e me apresentar como líder tendo o ministro como conselheiro. Foi bom termos conversado ontem, pois eu já sabia de toda a estratégia e pude concentrar-me nas estratégias de cada reino. Embora a divisão de pessoas e as técnicas de luta fossem diferentes o posicionamento de todas era igual. Aguardariam a abertura do portal em torno de cada lago. Empurrando o mal para um extremo, cercando-o e lutando até o fim.
No meio da reunião, sentimos o familiar tremor que vem antes de um ataque. Todos estavam preparados para levantar, inclusive eu, mas minha intuição dizia que não lutaríamos desta vez, embora meu corpo já estivesse se preparando para isto. Antes que qualquer um levantasse da mesa Demétrius ergueu a mão sinalizando para pararem e disse:
“-Esperem. Sentem em seus lugares.” Depois indicou Leonor como se desse a permissão a ela e acrescentou gentilmente: “Por favor!”
Leonor fechou os olhos, ergueu os braços e o tremor cessou.
Os olhares cruzaram de um para outro na mesa, ninguém se atreveu a falar nada, até que Demétrius esclareceu:
“-Hoje não lutaremos. Precisamos nos preparar para a grande batalha. Os seres estão preparados para os ataques que se intensificarão até amanhã. Já foram informados sobre isto.”
Ninguém ousou falar, eu não gostei de ficar fora da luta, mas fazia sentido, se lutássemos não nos reuniríamos para definir as estratégias.
Francisco foi o próximo a falar:
“- Estive fora duas vezes desde que resolvemos investigar nosso inimigo. Temos vários informantes e descobrimos um pouco sobre o lado das trevas. Alguns trabalham há anos. Descobrimos que o Líder e seu principal homem foram enviados pelo portal dimensional das trevas, vivos.”
O espanto foi maior do que a noticia de que não lutaríamos. Os olhares se cruzaram novamente, ninguém falava. Esta eu havia perdido totalmente e depois de poucos segundos, Leonor explicou.
“-Geralmente as trevas influenciam as pessoas a se corromperem e só depois que o corpo morre que eles eliminam a parte positiva transformando todo o corpo em sombra ficando apenas a negativa.”
Até ai eu sabia, mas ela deu uma pausa e continuou:
“-Mas nos caso de corpos vivos, eles usam um portal dimensional móvel, um tipo de objeto. Só ouvimos sobre eles em lendas, nunca ninguém achou um. O ser ainda vivo é enviado para o lado das trevas muito mais forte, pois a parte positiva não é morta, mas sim transformada em negativa, o que intensifica muito o poder, a inteligência, o que explicaria a ordenação dos ataques, a capacidade de ficar mais tempo materializado e de lidar com magia. É um ser muito poderoso.”
Agora eu estava preocupado e perguntei ainda pensando sobre o portal das trevas.
“-Mas quem são eles?”
“-Não descobrimos nada sobre o líder, só como o chamam, Ares, o que representa o Deus da Guerra e é sedento por derramamento de sangue. Bem original! Mas descobrimos a identidade da mulher. Ela é de Ethyn. Foi capturada há quase trinta anos. Seu nome é Sabrina.”
A ficha caiu e em dose dupla. A bolsa que sonhei era o portal dimensional das trevas e uma mulher a segurava. Alguma coisa me dizia que era Sabrina.
“-Como é esta Sabrina?” Interrompi Francisco com um tom acima da conversa, ele estava explicando a história de Sabrina, de seu desaparecimento, mas não consegui me conter. Isto explicava por que ela ficou surpresa e satisfeita por eu não a reconhecer. Pois confirmava que eu não sabia quem estava do lado do mal. Ela era um elemento surpresa e seria se Francisco não tivesse descoberto. Pobre Ramon! Sinto alívio por ele não estar aqui para ver no que sua mãe se transformou. No principio Francisco hesitou em responder, mas percebeu que era importante e disse:
“- Ela tinha a pele muito branca que contrastava com os cabelos muito negros até a altura da cintura, falando em idade aqui na Terra, ela aparentava em torno dos trinta e cinco anos e tinha olhos azuis. Por que Davi?”
Olhei para ele ainda sem ter certeza se poderia falar do sonho na frente de todos, então resolvi pular esta parte.
“-Soube que ela estava com um portal dimensional” Disse encarando Francisco que entendeu que eu tinha o visto a história em um sonho.
“-O que era o portal?” Agora Leonor perguntava.
“-Uma bolsa preta, de pano amarrada na boca.”
Ninguém questionou minhas fontes nem a informação e a reunião seguiu com mais alguns detalhes e fiquei preso em quem seria o Líder.
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