Gasolina

19 Talk Dirty To Me


Notas iniciais
Demorei, mas cheguei. Os comentários do anterior irei responder depois, li todos e os amei muito. Esse capítulo ficou um pouco longo, até pensei em divido-lo, mas perderia totalmente o foco. Desculpem-me caso existam erros. Boa leitura.

O que eram para serem quinze minutos se transformaram em 13 minutos, 45 segundos e 0.059 milésimos, contados perfeitamente com um cronômetro a partir do momento em que respondi a Sasuke. Uma resposta trêmula, nervosa e duvidosa. Eu tinha medo de duas coisas quando o respondi 1) como ele iria entrar e 2) o que seria de meus genes caso meus pais descobrissem que eu estava trazendo meu professor para minha cama.

Contudo, foi a coisa mais louca e inteligente que já fiz:

—Já saiu de casa? – Perguntei apertando a banheira, de olhos fechados e, louca para senti-lo em mim.

Aqueles minutos foram suficientes para que eu repensasse meu ato zilhões de vezes, era errado, mas valeria à pena (esperava) e eu queria muito. Ainda naqueles minutos, pensei no que vestiria, não queria parecer desesperada e terrivelmente sensual, mas também não usaria uma calcinha bege de vovó. Então, como uma luz no momento lembrei-me de minha, aparente, inocência e resolvi usar isso a meu favor.

Hidratei-me, passei perfume e então vesti uma calcinha de renda que fazia parte de um jogo de lingerie, dei uns pulinhos tentando me acostumar com aquele fio entrando em meu bumbum, algumas caretas aqui e acolá e então uma camisola. Minha camisola era a réplica perfeita de um exemplo absurdo de uma adolescente que gosta de dormir confortável e que não se importa em usar bonequinhas ou ursinhos, era branca com um desenho de uma boneca abraçada a um ursinho que dizia “I Love You”, enquanto por baixo uma calcinha fio-dental preta rendada com detalhes nas laterais em roxo.

Chega a ser paradoxo.

Enfiei a cabeça pela janela pela décima vez nos últimos minutos e finalmente vi o que queria: um carro prateado estacionando do lado oposto ao de minha casa. Peguei meu celular e sai de meu quarto com passos leves, desci as escadas e destranquei a porta apenas esperando a aproximação dele:

Sasuke Uchiha: Cheguei.

Vi-o pelo olho mágico da porta e a abri, ele ergueu uma sobrancelha e cochichou:

—Pela porta da frente?

—Não percebeu que estou ousada hoje?

Ele sorriu de canto e entrou, fechei a porta, tranquei-a e chamei-o escada acima. Meu corpo tremia, eu temia meus pais abrirem a porta de seu quarto e o vissem ali comigo a essa altura da noite caminhando para meu quarto. O que eu iria dizer? Que ele falou que aulas de Biologia Anatômica são melhores a noite? Lógico que não.

Conseguimos entrar no quarto sem realizarmos desgraças, tranquei a porta e encostei-me a ela. A essa altura eu soava frio, minhas mãos tremiam como nunca, meu coração batia acelerado e mesmo assim eu só conseguia deslizar meus olhos por seu corpo mordendo o lábio pensando no que seria de mim essa noite.

Sasuke aproximou-se, encostou seus lábios em minha testa, deslizando-os para a ponta de meu nariz chegando a minha boca. Beijando-me.

Senti-me completamente entregue a ele com o simples toque de sua boca com a minha. Era como uma explosão interna que transbordava o mais impuro desejo. Um professor e uma aluna desleixada, quem diria.

Minhas mãos subiram por seu corpo, enlaçando meus braços em seu pescoço, enquanto isso, ele percorria suas palmas por minhas pernas, chegando a meus quadris e continuando pela montanha-russa que só subia. De repente, afastou nossos lábios, abaixou seu rosto e subiu minha camisola, sorriu de canto e aproximou-se de meu rosto.

—Você me surpreende cada vez mais. – Fechei meus olhos deliciando-me com seu cheiro amadeirado, seu hálito fresco, sua voz remexendo todos meus instintos.

Despertei de cara com o travesseiro, minhas mãos apertavam o lençol da cama e meu estômago estava embrulhado. Eu até poderia fechar meus olhos e voltar ao sonho, mas eu precisava fazer algo antes. Pulei da cama e fui para meu banheiro, tranquei a porta e encarei meu reflexo, meu rosto amassado, meu cabelo desgrenhado, respiração ofegante e uma feição não muito contente.

Coloquei meu cabelo para trás e bati no vidro.

—VOCÊ É RETARDADA, SAKURA?! – Perguntei para meu reflexo. – PUTA QUE PARIU, SUA ANTA! VOCÊ TERIA A MELHOR NOITE DE SUA VIDA!

Andei pelo banheiro e parei em frente à banheira, entrei nela e pulei tentando de alguma forma descontar minha raiva naquela parte de minha casa, bati nas laterais, na parte externa e até cuspi. Sai tropeçando e voltei a gritar comigo mesma.

Se disser que sim, em quinze minutos terá sua aula.

Engoli em seco, tentada a aceitar sua proposta, tamborilei meus dedos na parede, deixei o telefone de lado e balancei meu rosto, levantei-me, enrolei-me na toalha e falei em meio a muitos gaguejos e nervosa com aquilo:

—Vou dormir, Sasuke. Boa noite.

Boa noite.

Bati minha cabeça na parede e voltei a gritar com meu reflexo.

Eu queria me enfiar dentro de um buraco e ficar por lá pelo resto de minha vida. Eu queria morrer. Eu simplesmente neguei a, possível/futura, melhor foda de minha vida com o gostoso de meu professor de Física. QUE. DESGRAÇA.

QUE DESGRAÇA!!!! EU DEVO FUMAR BOSTA 24 HORAS POR DIA! COMO EU DISSE QUE IA DORMIR?! COMO EU DOU UM FORA NO PROFESSOR DE FÍSICA MESMO QUERENDO CONHECER CADA CANTO DO FÍSICO DELE?!?!?!

Você é uma anta. Sou uma anta! Meu Deus, meu Deus, meu Deus, como eu fui deixá-lo duro – sem ainda saber como fiz isso. — e depois dou uma réplica de um fora muito mal bolado e que provavelmente destruiu o desejo dele por mim.

E FILHO DE OHM E MURPHY, ESSA É A SEGUNDA VEZ QUE TOMO CONSCIÊNCIA QUE O DEIXEI DURO! Como eu faço isso duas vezes e não alivio o coitado? Eu preciso de um Rivotril, preciso ficar calma e lembrar que apesar de tudo ele continua a ser meu professor.

Pro-Fes-Sor. Meu professor de Física que eu quero dar. Eu devo achar que minha vagina é cofre para viver trancada, só não deve ter teia de aranha porque eu sou uma pessoa higiênica, eu vou morrer cabaçada!

EU VOU SER A PROTAGONISTA DO PRÓXIMO SUCESSO HOLLYWOODIANO: A VIRGEM, SAKURA HARUNO. É claro! Vou vender minha história e ser rica lamentando todos os tristes dias de minha vida, a noite que dispensei o gostoso do professor. E sabe o que é pior? Sabe? Não?! Eu digo, mas antes, preparem-se aqui vem bomba.

EU. GOSTO. DELE.

Me matem. Eu desisto. Acho que to me apaixonando por meu professor de Física. Meu Deus, que desgraça. Murphy e Ohm, meus amores eu desisto de ir contra suas leis. Eu desisto mesmo, eu me rendo.

—Sakura?! – Sai do banheiro e vi minha mãe arrumada demais para um Domingo de manhã.

—Aonde vai?

—Uma velha amiga me chamou para relembrarmos os velhos tempos. – Franzi e esperei-a continuar. – Vamos fazer o almoço hoje, vá se arrumar.

Preferi apenas concordar. E me arrumar para ir para a tal casa descobrir se a “amiga” era da onça para colocar eu e mamãe para cozinharmos ou se a amiga é amiga e vai cozinhar com minha mãe.

Entrei no chuveiro e tentei conter toda minha frustração. Caramba, eu poderia acordar ao lado dele, de conchinha que nem nos filmes! Poderia ter tido uma noite romântica e fofa, perdido minha virgindade e ainda realizar meu sonho de ter feito uma loucura com meu professor gostoso.

E sem dó de gastar todo fôlego de minhas cordas vocais e ainda engolir algumas mL’s de água: gritei o mais alto que conseguia.

Que desgraça! Que desgraça.

Não, eu juro que nunca mais olho na cara de Sasuke. Meu Deus, como eu quase me toquei daquela forma para meu professor, eu acho que estava bêbada, chapada ou... não sei, mas...

Que droga.

Sai do banheiro, arrumei-me, fiz uma maquiagem, prendi meu cabelo em um rabo-de-cavalo que deixava a parte de cima fofa – algo do tipo anos 60 -, vesti uma saia justa de listras branca com preta e uma t-shirt preta de uma banda de rock dos anos 80. Eu estou paradoxa hoje, cabelo anos 60, saia curta século XXI e blusa anos 80, isso tudo por causa de um cabaço não perdido. Calcei Vans brancos e peguei meu celular.

Tô linda. E quem negar vai conhecer a fúria de uma Sakura zangada.

Sai de meu quarto e encontrei meus pais conversando na sala, meu pai com uma cara nem tão boa e minha mãe com um sorriso de orelha a orelha. Não entendi porque toda essa alegria, mas tudo bem... a vida não é filme e nem todos são obrigados a terem raiva de minha burrice.

Só todo mundo que já ta de saco cheio de seu cu doce. Eu também estou frustrada, me deixem.

Joguei-me no banco de trás e fiquei encarando o teto re-avaliando meus atos enquanto ouvia tocar na rádio a digníssima música perfeita para a ocasião precedente que deixou geral puto.

—When yo’ talk dirty to me. – Sim, isso sou eu cantando.

Minutos depois, apenas cantarolando essa música apesar de já ter terminado há tempos, isso pelo simples fato de “fale safadezas para mim” ter lembrado perfeitamente o que aconteceu na noite passada. Que desgraça. Eu nunca mais olho para Sasuke, mas nem fodendo!!! Talvez assim, mas não!!! Deus me livre, amém!

Desci do carro e vi uma casa enorme. Tipo, ENORME! A frente azul marinho, portas e janelas de mogno, um jardim bem cuidado e telhas BRANCAS! Eu juro por Deus, telha branca. Só rico tem telha branca, gente.

Minha mãe tocou a campainha e me entregou uma sacola com alguma coisa, fiquei atrás de meus pais observando aquele jardim tão bem cuidado e aqueles carros ricos estacionados na frente. Um Jeep, um das bolinhas que não sei o nome e outro que parece uma estrela que eu também não sei nome. E sim, só sei o Jeep porque o nome ta na frente JEEP.

—Mãe, quem é essa sua amiga? – Perguntei encarando aquele carro prateado.

Porra, eu conheço uma pessoa com esse carro e eu espero que não seja que seja que eu não quero que seja. Então, como o Iluminismo após a Idade das Trevas, conhecida como Idade Média, a qual posso aludir com meu momento uma hora e meia atrás, eu percebi que diferente de Rousseau, Voltaire e Montesquieu eu possuía um carro para me fazer perceber que a desgraça está feita. E, analogamente, aos franceses no século XVIII esses carros/filósofos estão aqui para exaltar a nobreza perante a corte, e se for ver por um lado, meus queridos, os plebeus plantados na porta estão fodidos perante toda riqueza que será esbanjada.

Em suma: eu estou na casa dos Uchiha.

—Mikoto! – Exclamou Mebuki, me virei e vi as duas se abraçando.

Abaixei meu rosto fazendo séries de respiração tentando controlar tanto meus batimentos quanto meu nervosismo momentâneo.

Eu já falei que desisto, mas Murphy e Ohm não desistem de mim, não sei se fico lisonjeada ou puta da vida. Dois nomes da Física me seguindo e ao mesmo tempo dois encostos, irônico e paradoxal.

Estou fazendo a linha “paradoxo” hoje, não entendo.

A mulher que aparenta ter 25 cumprimentou meu pai e então perguntou:

—Cadê a Sakura? Faz tempo que não a vejo.

Apareci no meio deles e acenei. O que eu não esperava era a surpresa estampada nos olhos da mulher:

—Sakura... Haruno? Claro!

Certo que Sakura é um nome bastante comum no Japão, mas eu garanto que não são muitas que possuem o cabelo rosa e namoram professores, “namoram”.

Sorriu largamente e olhou para trás, então me abraçou.

—Não acredito que é você. – Afastou-se de mim e explicou as duas criaturas progenitoras de meu ser atrás de mim. – Sakura é uma cliente assídua da minha doceria.

Espero que ela não esteja falando da doceria figurativa, e sim da literal.

...

Que desgraça?! Por que eu to pensando em Sasuke?! Ta, eu adoro dar uns beijos naquela boca deliciosa e com hálito de menta, apertar aqueles músculos e os cabelos que tem cheiro de Pantene... quê?

Tô nervosa.

Chamou-nos para entrar. Fato sobre a casa dos Uchihinhas: É enorme! Passamos pelo vestíbulo, atravessamos a sala de TV, de janta, de estar e sei lá de quê mais, então ultrapassamos um portal SIM, PARA OUTRO MUNDO! PORRA QUE DESGRAÇA!

E minha boca se escancarou com aquela cena em minha frente.

—Kizashi! Mebuki! Há quanto tempo. – O coroa bonitão se aproximou e cumprimentou meus pais para então parar em minha frente.

Gente, pelo amor de Deus, que família de gente bonita é essa, como faz pra fazer parte? Já quero. Olha que chique o sogro bonitão, a sogra bonitona, o cunhado bonitão e o melhor: os dois Uchihas-filhos são lindos, ou seja, qualquer um serve pra ser cunhado!

—Sakura, lembra de mim?

Acredite, eu lembraria. Rapaz, que homem é esse?! Aqui tá calor?! Ou eu to com fogo mesmo? Tem alguma coisa remexendo lá embaixo, meu Deus, acho que me apaixonei por meu genro, Pode?

Neguei balançando a cabeça. Tive medo de abrir a boca e acabar gaguejando e engolindo palavra e falando rápido, resumindo, se eu abrisse a boca sairia uma desgraça.

—É, já faz um tempo. – Concordei e desci os olhos para o ser atrás dele.

DESGRAÇA! Puta que pariu! Ele quer me foder. Ele QUER me foder! Ele quem? Itachi. É sério. Esse desgraçado tá rindo de minha cara, porque ele ta rindo? Ainda não fiz nenhuma desgraça digna da risada dele? Ou fiz?

Franzi e ele gargalhou alto, caindo da banqueta e chamando a atenção de todos para si. Por um lado agradeço, tirou os olhos negros dessa família de mim e levou para ele. É um meninão.

—OI FUTURA FAMÍLIA!

Eu to muito lascada. Eu vou rir pra não chorar. Dei uma volta e vi a destruidora de lares, juízos e purezas.

—Akemi! – Exclamou Itachi sentando-se no chão.

—Sakura, vadia!

Dá tempo correr, Sakura. Aproximou-se de mim e me abraçou, apalpando minha bunda, afastou-se e enlaçou meu braço no seu, cochichando:

—Veio de lingerie, gostei.

Minha cara se fechou no mesmo instante. Eu juro que... eu só... eu não tinha calcinha bege para usar com essa saia branca! Achei uma sem nada e usei. Isso ficou podre, não me julgue, mas funciona usar fio-dental com saias brancas, não aparece nada e a bunda fica até bonita.

Akemi me deu uma piscadela e cumprimentou o pessoal.

—Eu sou a melhor amiga da Sakura. – Disse a meus pais. – Ajudo ela na reciclagem de alimentos.

E eu só não cai pra trás porque algum ser me segurou e quando eu levantei minhas vistas para ver quem era meu anjo da guarda, eu vi que estava muito, muito, muito, muito, x10, lascada.

—Pro-pro-professor?! – Afastei-me e arrumei meu cabelo. Sim, eu arrumei meu cabelo, só não chequei meu hálito porque tomei consciência da merda que estava fazendo e achei melhor ficar quieta, com as mãos abaixadas e com um sorriso de uma aluna dedicada que adora as aulas com o físico do professor. De Física*.

—Olá, Sakura. – Olhou para meus pais e os cumprimentou. – Senhor e senhora Haruno.

Nisso, Itachi e Akemi rindo igual dois retardados. Fugaku olhou feio para o filho mais velho — aparentemente mais velho, né? — e chamou meu pai para o escritório conversar alguma coisa que não me interessei em ouvir.

Mikoto puxou minha mãe e elas entraram na cozinha conversando algo, Akemi e Itachi se aproximaram com sorrisos maliciosos:

—Eu juro que eu vou tirar suas tripas com um cutelo, Akemi. – Ameacei.

—Tire.

—Ei, vocês quatro. – Olhamos para Mebuki e Mikoto. – Venham cortar cenouras.

Aproximamo-nos delas e ficamos encostados a bancada esperando o anúncio do almoço:

—Hoje vocês irão descobrir como conquistamos os pais de vocês. – Mikoto disse e mamãe continuou:

—Como aperitivos: torradas de queijo brie com salmão defumado.

Querem me engordar. Acho que vou ter que dizer que não posso engordar agora, principalmente que to de caso com o filho de uma delas, além disso, não posso deixar o encanto sumir só porque eu como feito ogra. Hashtag Fiona.

—Prato principal: tornedor ao roti com risoto de fungui e parma crocante.

—Em japonês. – Sasuke pediu.

As duas se olharam e Mikoto traduziu:

—Carne com molho, arroz de cogumelo e um presunto crocante.

Parece ser gostoso. Muito. Deu até fome. Debrucei-me na bancada e esperei a continuação:

—Também um... – Entortou a boca, Mebuki, parecendo refletir sobre como explicar a esses meros mortais que não entendem nada sobre o famoso à La carte – Um embrulhado de frango temperado, com bacon, vagens e um macarrão de abobrinha.

Fome.

Contudo, a vida não é filme e de acordo com aquelas duas mães nós quatro iríamos sair daquela cozinha recitando de co e salteado como realizar tais pratos, e rolando.

Enquanto eu ralava a abobrinha em tiras, uma pergunta voltou a minha mente:

—O que será a sobremesa?

—Se pegarmos uma banda de sua bunda é doce suficiente, Saky. – Akemi disse.

Ergui uma sobrancelha olhando para a morena, Akemi separava as vagens e as lavava e eu a encarei com todas minhas forças canalizadas para fazê-la ter algum ataque com aqueles vegetais estranhos e ruins.

Para você que achou que eu iria ficar em silêncio, apenas engolindo Akemi lançar indiretas de todos os portes em cima de minha pobre alma, condenada a passar o resto de minha infeliz vida caçando encosto no inferno, saiba que eu fiz do pensamento de Locke uma verdade.

Só podemos saber se as coisas são reais quando as provamos, de modo Empírico, então eu vou provar a Akemi de modo mais que Empírico que eu também sei dar respostas e fazê-la, conseqüentemente, engolir umas verdades.

—Engraçado dizer isso, Akemi, sabe, caso fosse necessário fazer algo salgado garanto que o óleo de seu cabelo serviria.

Akemi me deu língua rindo e então foi seguida por todos naquela cozinha, abaixei meus olhos para a abobrinha e depois olhei para a brasileira, ela piscou pra mim sorrindo e sorri de volta.

—Saky. – Olhei para minha mãe que passava alguma coisa em uma peça de carne. – Não pode ter a bunda muito doce não, hein. Às vezes o proibido é mais gostoso.

E eu morri. Eu juro! Eu morri ali, naquele instante! Depois de ouvir minha mãe proferir as palavras exatas que meu professor costuma me dizer quando eu estou prestes a desistir de tudo isso.

Como assim?!

Akemi arregalou os olhos para Itachi, o mais velho virou o rosto para Sasuke e eu me apoiei no mármore branco da cozinha para não desmoronar no chão. Sasuke colocou uma fatia de tomate na boca e olhou para os três, sorriu de canto e deu de ombros.

—MÃE?! – Não, isso foi Itachi gritando. – Sua bocuda!

—Okay, eu jogo verde e ganho isso?! – Mebuki puxou um pano de prato, secou as mãos e ergueu uma sobrancelha.

Fodeu! Fodeu! Meu Deus, que desgraça. Tá certo, Ohm e Murphy se vocês querem me matar que o faça agora! O que ta acontecendo aqui? Eu to tendo uma taquicardia. Levantei-me e abri a janela, abanei-me com minhas mãos e respirei fundo. Akemi gargalhava, Itachi gargalhava, Sasuke olhava para Mikoto e Mikoto olhava para Sasuke, Mebuki olhava para mim e eu procurava qualquer mínimo buraco para me enfiar lá dentro.

—Sei não. – Disse.

—Muito menos eu. – Akemi ergueu as mãos.

—Eu nem existo. – Itachi se aproximou da geladeira e puxou uma cerveja, abriu e deu um grande gole. – Quero nem me lembrar dessa desgraça.

—Não olhem pra mim. – Sasuke nos deu a honra de ouvir sua digníssima voz.

Aí as criaturas começaram a rir, não os jovens que realmente são jovens e sim as mães dos jovens! QUE PORRA TA ACONTECENDO AQUI?! Aproximei-me de Itachi e tomei a cerveja das mãos dele, dei um longo gole e devolvi:

—O que ta havendo aqui?

—Como é que vocês dizem? – Perguntou Mikoto e estalou os dedos olhando para minha mãe.

—Troll? – Arregalei os olhos. COMO ASSIM ELAS ESTÃO TROLLANDO A GENTE?! QUE TIPO DE MÃES SÃO ESSAS?! PIOR, O QUE TA HAVENDO AQUI?!

Sentei-me e fiz de uma tábua de cortar de abanador, fechei meus olhos sentindo o efeito rápido da bebida em meu corpo e esperei alguém se prontificar em perguntar.

—O que fizeram? – Sasuke perguntou.

—Sasuke, eu sei que você e a Sakura estão juntos a um tempo.

Arregalei meus olhos. Tem duas Mebukis nessa porra, o que ta acontecendo? Pisquei algumas vezes e tentei tirar meu estrabismo de campo, avistando apenas minha mãe.

—De onde você tirou isso mãe? – Perguntei com minha voz mais aguda do que eu queria.

—A Mikoto me falou, Sakura.

Itachi, melhor pessoa dessa casa, vaiou a mãe e disse:

—Bocão!

—Me respeite que ainda sou sua mãe, seu resto de transa.

Eu não ri. Eu não gargalhei. Eu fui contaminada pela risada da Akemi misturada a de Sasuke (sim, ele tava rindo muito) cujas ocasionaram em um gargalhar muito infantil e contagiante que me levou a rir junto. Minha mãe secando as lágrimas do riso e o coitado do Itachi com a cara no fundo do poço por ter sido chamado de “resto de transa”.

Olha, é verdade, por um lado nós somos realmente restos de transa, mas... Falar isso é depressivo, então não diga a ninguém.

Itachi, um grande ator, que Hollywood precisa conhecer, levantou o rosto e mostrou-nos sua melhor feição de choro, tristeza e angústia. E é fato, Steven Spielberg precisa contratar os irmãos Uchiha no próximo Longa, vai ser um sucesso estupendo!

Acalmamos os ânimos e voltamos a fazer o almoço, contudo, eu fui abrir a desgraça da minha boca:

—Não vai brigar comigo?

Mebuki, que cortava a carne com uma grande faca pontuda, a soltou (graças a Deus) e me olhou bufando. Na boa, eu deveria parar de perguntar essas coisas, com Tsunade recebi um puxão de orelha, com minha mãe vou receber, o que falta agora? Eu chegar em Sasuke, pedir desculpa por ter amarelado naquele momento crucial e depois de receber um beijo, perguntar “não vai brigar comigo?” e no final receber um término de algo que nunca nem começou, o que deixa as coisas ainda mais depressivas?

Provavelmente, sim.

Ou seja, lição do momento: Sakura, em hipótese alguma, fique só com Sasuke Uchiha hoje.

—Claro que vou! Sakura, ele é seu professor...

—Só por alguns meses então... – Akemi interrompeu e depois de um fuzilar se encolheu, voltando a lavar as vagens.

—...foi imprudente da parte dos dois, mocinhos! – Suspirou. – Mas não posso atrapalhar se isso te deixa feliz, Sakura.

Aí que eu percebi: POR QUE DIABOS TA TODO MUNDO TRATANDO COMO SE ESTIVÉSSEMOS NAMORANDO? GENTE, UNS BEIJINHOS ALI, UNS CHUPINHOS ALI, UMAS CONVERSAS SAFADAS ACOLÁ NÃO SIGNIFICAM NADA.

Na verdade, só foi suficiente para me foder. Porque assim... perceber que se está apaixonada pelo professor gostoso de Física não é muito legal. Assim, é um saco!

—Ninguém ta namorando não.

NISSO MEU PAI ENTROU NA COZINHA COM FUGAKU.

—Quem ta namorando? – Fugaku perguntou.

Arregalei os olhos e joguei o que restou da quinta abobrinha no lixo, engoli em seco e observei os dois esperarem a resposta.

Lascou, cambada! Aqui que termina minha vida.

—A gente. – Itachi disse abraçando Akemi de lado.

Oi?

A morena virou o rosto para o Uchiha e ergueu as sobrancelhas, eu vi que ela tentava conter o sorriso. Até os olhos brilhavam, que linda. Já quero ser madrinha de casamento, será que rola?

Ohm, desgraçado. R = ρ . L / a , eu deveria parar de pensar nessa aula, né?

Itachi colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha e acariciou o rosto da namorada. Sorri largamente e olhei para Sasuke que por mais que tentasse não deixava de sorrir.

—Parabéns ao casal. – Kizashi disse. – E ai, mulher, o que tem pra comer?

Vi minha mãe fechar os olhos enquanto preparava o risoto, Mikoto olhou-a de esguelha e bufou:

—Fugaku.

—Vamos Kizashi. – Saíram da cozinha.

E foi naquele momento que percebi o modo com que meu pai tratava minha mãe e a única coisa que consegui sentir foi repúdio do machismo esbanjado por ele, entre nós da família até poderíamos argumentar e reclamar, mas humilhá-la na frente de amigos?! tratá-la como lixo?

—Meninos, obrigada pela ajuda, já podem ir. – Mikoto disse.

Eu queria ficar, conversar com minha mãe, aconselhá-la, confortá-la. Senti mãos firmes apertarem minha cintura, eu estava imóvel observando Mebuki preparar o risoto de costas a mim, eu não queria deixá-la.

—Vem, Sakura.

Sasuke me puxou cozinha a fora e então fechou a porta. Subimos as escadas para o primeiro andar, Sasuke sempre me deixando junto a seu corpo, dando-me firmeza, proteção e apoio.

Agradeci a ele internamente por tal ato, mas eu não podia ser covarde mais uma vez em minha vida! Afastei-me dele e olhei-o.

—Não foi você que disse para enfrentar meus demônios? – Questionei.

—Calma.

Caminhamos pelos diversos corredores daquele andar e entramos em um quarto. Era amplo, com uma varanda, cama de casal forrada com fronha azul repleta dos mais diversos travesseiros (tinha um do Bob Esponja e achei a coisa mais fofinha da vida), uma escrivaninha, prateleiras com bastante livros e um armário de vidro com dois troféus, medalhas e fotos.

Até poderia me atrever a analisar cada uma das fotos e de que foram todos aqueles troféus e medalhas ali expostos, todavia, havia algo a mais para me preocupar.

Olhei para o professor e senti vontade de chorar. Eu não queria ver minha mãe sofrer, não queria, mas não queria pensar no pior, eu queria ajudá-la, queria enfrentar meu pai e tentar acabar com toda autocracia implantada por meu pai em minha casa. Mebuki parou de trabalhar, deixou de fazer algo que amava para fazer as vontades dele, sei que ela foi errada, mas merecia ser tratada dessa maneira? Ela fez tudo que pôde para fazê-lo feliz, e é isso que o hipócrita a dá?!

—O que faço?

—Você? – Deitou-se na cama e puxou o celular. – Apesar de ser filha, cabe a sua mãe decidir o rumo da própria vida.

Minha boca caiu e antes que pudesse argumentar, continuou:

—Você tem outras preocupações. Vestibular, provas semana que vem e ainda acabar com essa insegurança, esse medo de viver.

Aquiesci. Engoli em seco. Olhei ao redor do quarto e me aproximei dele, nitidamente envergonhada. Sentei na beira da cama ao seu lado e cochichei:

—Eu não quero deixá-la só, Sasuke.

Sentou-se e pegou em meu rosto:

—Eu sei. – Levantei meus olhos, encontrando os dele. – Mas, Sakura, você não acha que há coisas em relação a sua família que são assuntos de seus pais? Eu entendo que você quer ajudar a Mebuki, só que... – Sorriu – Ela precisa enfrentar os próprios demônios.

Acariciou minha bochecha e sorriu de canto, fechei meus olhos e concordei. Senti-o me puxar e me abraçar, deitei ao lado dele, minha cabeça repousando em seu tórax e minhas mãos procurando algum tipo de segurança em seu corpo.

—Você chamou meu pai de demônio. – Comentei.

Ri baixo e levantei meu rosto para o dele, encostei a ponta de meu nariz em seu queixo e percebi que havia descumprido a única regra que havia posto para mim.

—Sobre ontem à noite... – Tentou falar, mas o interrompi.

—Não. – Neguei cerrando os olhos. – De jeito nenhum lembre aquilo.

Ponto para mim, fui capaz de falar algo em relação àquilo. Sasuke riu e apertou-me.

—Você ta bem? – Perguntou-me.

Não, eu não estava, apesar de concordar parcialmente com ele, eu sentia que precisava ajudá-la. Mikoto está lá, porque também não posso?!

—Sabe por que nossas famílias nunca mais se encontraram? – Perguntou enquanto acariciava meus cabelos. Neguei. – Mikoto e Mebuki estavam planejando reabrir o negócio. Seu pai não quis então proibiu nossas mães de se encontrarem.

—Quando foi isso? – Perguntei sentando-me e encarando Sasuke. Eu precisava de mais informações, precisava muito.

Olhou para o teto e entortou a boca:

—Eu tinha uns 15, eu acho.

—Eu tinha onze, onde estava quando isso aconteceu?

Ele sorriu de canto. Bufei e olhei para o teto. Meu professor é um pervertido. – Sossega, Sasuke. — Riu e me puxou para um abraço novamente, deitei-me de modo mais confortável ao seu lado e voltou a acariciar meu cabelo.

—Parece que estava em uma festa na casa de alguma amiga. — É eu não lembrava de jeito nenhum. Dei de ombros e ouvi-o continuar.

“Houve um jantar e elas pediram a opinião de todos. Eu e Itachi ficamos animados, eu iria voltar do intercambio com minha mãe tendo um restaurante, sonho hum?” Sorri e coloquei meu queixo em seu peito, olhando-o enquanto continuava. “Kizashi enlouqueceu.

Itachi e eu ficamos ouvindo pela tubulação de ar, fomos tirados quando perceberam que daria briga. Mebuki tentou falar com ele, conversar civilizadamente, mas aí...”

Ergui uma sobrancelha esperando a continuação, Sasuke passou a mão no rosto e me olhou triste:

—Eu não deveria estar te contando isso. Desculpa. — Começou, agora termine. Neguei e incentivei-o:

—Eu preciso saber, continua. — Entortou a boca e respirou fundo:

—Não ouvimos mais nada, só a porta batendo.

—Mentira. – Deduzi. Sasuke não negou e nem afirmou.

Apesar de ser um cara silencioso eu consegui ver em seus olhos que ele estava triste em contar aquilo, por um lado o entendia, não queria se envolver nesses assuntos de meus pais, do mesmo modo, que não queria que eu me envolvesse ao ponto de ser afetada por toda injúria de meu pai, mais do que sou, em certo ponto.

Dizem que os olhos são as janelas da alma, e pelos ônix de Sasuke eu conseguia ver sua alma e por ela saber que ele não queria me dizer a verdade, mas também não queria mentir.

O pior de tudo é que meu pai deve achar que vive em um mundo perfeito das idéias é tipo uma ideia platônica! Um ogro! Um ogro que vive na caverna e apenas vê sombras e não tem interesse em sair desse mundinho nojento e saber o que realmente acontece, uma mente fechada, hipócrita, injusta e machista. Tempos modernos, pai! Finalmente eu consegui usar Platão em alguma situação de minha vida e infelizmente eu jamais pensei que fosse ser dentro de minha própria família.

Chorei. Eu simplesmente não possuía mais forças e desatei em lágrimas ali.

—Me desculpe por ter te forçado. – Apertei a camisa de Sasuke e continuei a ouvi-lo. – Eu deveria ter lembrado qual era a situação em sua casa, não deveria ter te cobrado. Sinto muito.

Senti seus braços me envolverem em um abraço terno e aconchegante, acolhedor e que exprimia a total segurança que eu procurava. E sim, foi naquele momento que ousei pensar que o que sentia sobre ele não era apenas um “gostar”, era algo a mais e eu afirmo que eu não tive medo de sentir aquilo, quando na verdade resguardei todo aquele sentimento em meu peito.

Ficamos um tempo naquela posição e só saímos quando Itachi bateu freneticamente na porta do quarto, levantei-me e vi Sasuke passando as mãos nos olhos, bocejar e então me olhar cansado. Ele estava dormindo. Sorri e lhe dei um beijo na testa.

—Vamos, dorminhoco?

Revirou os olhos, fazendo-me rir e levantou-se. Saímos do quarto e DESGRAÇA!

Quem eram os seres que estavam ali? Com os sorrisos mais maliciosos que já vi em minha vida? Ponto para quem disse Itachi e Akemi.

—Descabaçou? – Akemi perguntou.

Sasuke bufou atrás de mim e saiu caminhando:

—O que foi, Sasukinho? – Perguntou a morena rindo, enlaçando o braço do namorado.

—Vocês estão namorando? – Questionei.

—Vocês não sabem o que ela fez ontem a noite. – Senti meu rosto queimar, virei para Sasuke e o vi sumindo pelo corredor. Olhei para Itachi e Akemi ambos se olhavam e depois viraram os rostos para mim.

Sakura, corra. E foi o que fiz. Sai correndo rumo a cozinha, passei por Sasuke, tive chances de me perder naquela casa, encontrei a porta da cozinha e entrei ouvindo risadas. Mamãe e Mikoto riam, a morena virada para o fogão mexendo em algo e Mebuki distribuindo lascas de salmão por pedaços de queijo brie, aproximei-me de minha mãe e ergui as sobrancelhas esperando-a dizer algo.

—O que houve, Saky? Ta com a cara amassada.

Neguei e percebi uma ser humaninha ao meu lado, Akemi sorriu largamente para Mebuki e ergueu as sobrancelhas:

—Pode, Akemi.

Ela pegou uma das torradas e ao invés de morder como qualquer pessoa consagrada namorada de um deus Uchiha em um almoço de Domingo na casa da família do namorado faria, ela enfiou tudo na boca. E ela tem espaço demais nessa boca, tenho é medo de saber o que faz com esse espaço.

Jesus, to muito maliciosa hoje.

Pegaram em meus ombros e vi que era Itachi, o moreno fitava o prato repleto de aperitivos e deveria estar canalizando toda sua força para um momento ninja, no qual roubaria uma das torradas e voaria para longe da cozinha. E como um dejavú foi exatamente o que ele fez.

—ITACHI! – Reclamou mamãe.

E nisso só se ouviu a voz do meninão gargalhando por algum canto dessa casa, Sasuke apareceu e meu resto queimou, queimou e queimou MUITO! Encolhi-me na banqueta e acabei pegando uma das torradas.

—ISSO É BOM!

Uma mistura do salgado do salmão, com o azedinho do brie, com o molho verde de cima:

—São pintchos. — Disse mamãe, franzi e terminei de engolir aquela joça deliciosa e ouvi-a. – São aperitivos espanhóis.

Mudou minha vida. Chegar à Espanha gritando “pinchos” e esperar que respondam “oi” ou seja lá como se fale.

Joguei-me na cadeira com a mão na barriga, tremendamente empanturrada. Eu definitivamente sou uma hipócrita nojenta. Falei dos modos de Akemi perante a mesa, enfiando um pintcho todo dentro da boca e faltei comer o prato. Eu nunca mais como em minha miserável vida.

—Vou pra casa rolando. – Murmurei, passando o talher em meu prato.

—Esses pratos eram os mais pedidos do restaurante delas. – Fugaku disse.

—Faz sentido. – Akemi ou bocejou enquanto dizia ou gritava, fica aí a dúvida.

Após muita força de vontade e coragem tirada das partes mais remotas de nossos corpos, nós levantamos e arrumamos a bagunça, jogamos as coisas na lava-louças (sim, porque gente rica não lava pra na mão, tem lava-louças e se reclamar ela também seca) e então ficamos espalhados pela cozinha.

—Mebuki, me permite?

Mamãe sentou-se e bateu as mãos na bancada. Mikoto aproximou-se do forno e tirou uma forma de inox, cortou e então colocou... brownies.

—Sogrinha, sua linda, se eu e Itachi acabarmos terminando, teria como eu me casar com a senhora? – Isso é Akemi fazendo a linha boa moça, acredite. No almoço quando perguntaram como havia acontecido a aproximação deles, eu não entendi se estava com a mente muito maliciosa ou ela realmente estava usando os termos “as vezes acho que sou como o limão, a primeira chupada é azeda as seguintes fica gostoso” no sentido mais malicioso possível.

Repetindo as palavras dela, eu percebo que é algo muito feio a ser dito. Estou uma vergonha hoje, vou me martirizar.

Mikoto preparou uma cobertura de ovomaltine e espalhou sobre os bolos. Se eu falar que estou babando será exagero? Não, estou mesmo babando, ver aquela calda deliciosa e brilhante em cima daqueles bolinhos fofos e muito degustáveis está maravilhoso. E como se não fosse suficiente, sabe o que a sogrinha preferida de Akemi fez?

—Não. – Minha boca escancarou-se ao vê-la distribuir grandes bolas de sorvete de creme em cada prato.

Levou quatro pratos nos braços e dispôs em frente a mim, Akemi, Itachi e Mebuki. Olhei para Sasuke e ele franziu o nariz. Mikoto chamou Fugaku e Kizashi. O professor sentou-se ao meu lado na bancada e tirou um pedaço do brownie, pegou do sorvete e levou a boca.

Nossa, fala sério, se eu disser que a coisa mais sexy dessa casa é ver Sasuke Uchiha comendo brownie vão me julgar? Olha, acho que to doente ou algo do tipo, deve ser efeito do sonho, preciso de um Sasuke em mim.

Onde arranjo? De seu lado, anta.

Sai de meu transe e olhei para o brownie:

—Para quem não gosta de doces, ta indo bem, hein? – Ironizei iniciando um embate de colheres contra Sasuke Uchiha.

Peguei um pedaço e levei a boca antes que ele derrubasse no prato pela décima vez seguida, contada. Eu fui ao céu, dei uma pirueta, desci pro inferno, mostrei meu dedo do meio à Murphy e voltei a terra. Aquele brownie estava um pedaço do céu quando mastigava e o inferno quando me sentia na obrigação de engoli-lo.

Itachi comia o prato. Meu pai e Fugaku foram para a varanda continuar a tal conversa sem fim, uma vez me disseram que homens só falam sobre sexo, dinheiro e mulheres, tenho medo de chegar lá neles e a conversa ser a primeira ou a terceira, bom, se for a segunda será uma excelente oportunidade de dar uma de boa filha inteligente e pedir dinheiro, acredite funciona. Principalmente em meio a amigos ricos.

Algum ser de outro mundo ligou o rádio, ou o rádio se ligou só, e o que tocava? É serio, eu acho que Murphy e Ohm estão tentando se comunicar e, eu tive certeza que tentavam quando a música Talk Dirty começou a soar.

—Essa é boa. – Itachi disse com o prato na vertical e a língua sendo arrastada por toda extensão.

—Inspiradora. – Akemi continuou.

Enquanto isso, aquele ser humano de cabelos róseos sentado ao lado do professor de Física, ficava se roendo tentando enfiar a cabeça no buraco mais próximo igual a um avestruz. QUE IRONICAMENTE É ROSA! Que lindo, agora minha vida faz total sentido. Sakura Avestruz Haruno. Adorei. Vou mudar meu RG.

A próxima música foi um pouco... digamos... estranha para o momento em que estávamos, eu desconheço o nome, mas o modo com que a música era embalada era bastante peculiar.

“You can be my teacher, I’ll do my homework. You can give me an extra credit baby.”

—Sua música, Saky. – Virei meu rosto para Itachi e ele me lançou uma piscadela, fechei a cara para Itachi e terminei de comer meu brownie de ovomaltine com sorvete de creme.

Não demorou muito para meu pai chegar nos chamando para irmos embora, uma parte minha estava triste, queria ficar mais um pouco e terminar de devorar os brownies com Itachi e Akemi, não ninguém falou sobre, mas as orbes castanhas e ônix estão em cima da travessa o que faz até um cachorro perceber que ali tem treta.

Minha mãe lançou um olhar para Mikoto e eu vi que ALI SIM HAVIA TRETA! Levantei em um pulo e vi meus pais em uma troca de olhares fulminante, Jesus.

—Sakura, por que não fica aqui? – Mikoto sugeriu. – Mais tarde a gente pede pizza e passamos a tarde vendo fotos de Sasuke quando bebê.

Meu rosto virou depois da última proposta, certo que pizza é a nona maravilha do mundo, mas Sasuke Uchiha, vulgo professor de Física, se tornou a oitava.

—Ótima ideia! – Exclamou minha mãe. Olha não é por nada não, mas eu acho que ela quer me jogar na cama do professor. Ontem, meu pai queria que meu professor me jogasse em minha cama, o que vendo por certo ponto quase aconteceu, porém, eu sou fraca suficiente para ter dado um fora, e hoje minha mãe quer que o professor me jogue na cama dele e eu felizmente não faço ideia do que pode dar errado.

Então, senhoras e senhores, se tudo acontecer como minha mente maliciosa está pensando: até as meia noite, Sakura Avestruz Haruno, estará descabaçada.

—Vamos, Kizashi?

Meu pai concordou e perguntou-me:

—Você pega um metrô?

—Eu a levo. – Sasuke prontificou-se sem tirar os olhos do prato.

Tudo aponta para um cabaço pra fora. Graças a Deus. Todavia, além de levar o mais novo sobrenome de Avestruz, eu preciso achar algum termo que diga o quanto esquecida sou.

COMO EU DEIXO MINHA MÃE IR SOZINHA PARA MINHA CASA ONDE MEU PAI TAMBÉM VAI ESTAR? OU MELHOR, O QUE DIABO PODE ACONTECER SEM MINHA PRESENÇA? Não que eu faça muita diferença, mas seria um reforço contra os argumentos do melhor juiz do Japão.

Com o passar da tarde, nem as fotos de Sasuke Uchiha com dois meses e nu em uma banheira rosa me alegravam, eu estava preocupada, mas parecia que todos daquela casa conspiravam contra minha ida.

—Ei Flamingo. – Franzi olhando para Sasuke.

O moreno me puxou e sentou-me em seu colo, isso na sala de jogos com Akemi e Itachi ao nosso lado gritando decapitando zumbis.

—Flamingo? – Perguntei franzida.

—São rosa.

—Avestruzes são rosa. – Falei e ele negou.

Minha vida é uma mentira. Uma serie de mentiras uma atrás da outra. Eu não me chamo Sakura Avestruz Haruno e sim Sakura Flamingo Haruno.

Então, do nada, de repente, feito dois doidos, precisa de faixa na testa escrito “PRECISO DE PSIQUIATRA”: Itachi e Akemi começaram a pular cantando I Love It.

Olhei para Sasuke e o vi tão surpreso quanto eu.

—Que desgraça eles estão fazendo?

São doidos, não se pergunta nada sobre gente doida.

—Acho que sou o mais velho. – Murmurou e não deixei passar em branco.

—Não, você é o mais chato. – Sasuke fechou a cara e acabou recebendo um beijo. – Mas eu gosto.

Ahhh, eu to mesmo apaixonada pelo professor e I’m loving it. Sasuke forçou um sorriso e deu dois tapinhas em minha perna, levantei-me e o segui.

—Tenho um presente pra você.

—Vai me levar embora?

—Só com a autorização de Mikoto. – Respondeu, abriu a porta de seu quarto e caminhou para a escrivaninha. – Senta aí.

Fiz o que mandou e fechei meus olhos:

—Sua mãe não vai me deixar ir. – Olhei-o. – Sasuke, sei que esse tipo de coisa não é exatamente meu dever acabar com essa ditadura, mas eu posso ajudar. Me leva.

Virou-se com as mãos no bolso da calça e sentou-se ao meu lado.

—Eu não vou contra minha mãe, Sakura. – Fiz bico e ele sorriu de canto. – Não viu o que ela falou a Itachi mais cedo?

Ri e concordei.

—Resto de transa. – Repeti fazendo-nos rir.

Sasuke concordou e acariciou meu rosto, fechei meus olhos de novo e peguei em sua mão, abri meus olhos e pedi:

—Por favor, me leva.

Suspirou e concordou. Pediu um minuto e se levantou, passou as mãos no cabelo e então se virou para mim, passou a mão no pescoço e então...

OLHA É O SEGUINTE: EU NÃO ESTOU REALMENTE ACOSTUMADA A VER UM CARA GOSTOSO, LINDO, DELÍCIA E QUE EU GOSTO E QUE MILAGROSAMENTE ME BEIJA DE VEZ EM QUANDO SE AJOELHAR EM MINHA FRENTE NÃO.

Meus olhos entraram em perfeita forma de pratos, minhas sobrancelhas só não foram para a estratosfera porque estão grudadas em minha testa, minhas mãos tremiam tanto quanto um terremoto de uma magnitude alta, minha circulação eu sentia correr por minhas veias, graças a meu coração acelerado. Eu vou ter um ataque de pelanca aqui, já tá todo mundo avisado.

—Sakura, — Sorriu largamente e virou o rosto. Ele tá tímido! As bochechas estão vermelhas! Aí me beija! Pegou minha mão e sorriu ao ver minha tremedeira, meu Jesus, eu vou morrer, me leva. LEVA NÃO! Deixa eu ver o que ele quer! Deu um beijo nas costas de minha mão direita e perguntou após tomar alguma dose de coragem. – quer namorar comigo?

ISSO É MELHOR QUE PERDER O CABAÇO?! OLHA, EU ACHO QUE É, PORQUE, ASSIM, A SENSAÇÃO TA QUASE A MESMA DE UM TIRO NO CORAÇÃO COM UM ANEL TAMANHO BIG DE PRATA. SEI NEM MEU NOME, ME DEIXA!

Minha cabeça subiu e desceu, eu parecia uma idiota concordando tanto, mas a resposta saiu e é isso que importa. Sasuke sorriu torto e se levantou, aproximou nossos rostos fazendo a parte mais safada de minha consciência deitar meu corpo na CAMA e fazê-lo deitar-se sobre mim, beijando-me.

Sasuke deslizou suas mãos por minhas pernas e, sem malícia, apertou-me a cintura. Afastou-se um pouco e murmurou:

—É melhor colocarmos os anéis, não quero aquele Lee achando que você ta solteira.

Eu gargalhei sim. E MUITO! Ergui meu tronco e peguei no rosto de Sasuke:

—Ta com ciúmes? – Perguntei analisando cada detalhe furtivo de seu rosto.

—Não. – Respondeu seco. Sentou-se ao meu lado e colocou o anel PRATEADO COM PEDRINHAS MUITO BRILHANTES EM MEU DEDO.

PUTA QUE PARIU, ELE QUER QUE EU USE UM ANEL DESSE?! Só não digo que serei roubada porque a criminalidade aqui é baixa. Tá, agora é sério, pense em um anel LINDO! Afastei o anel de meu dedo e fiquei olhando aquela aliança encantada. Deve ter custado os olhos da cara, mas não importa, dá pra disfarçar como um anel normal.

Peguei o outro. O dele era prateado liso e de uma grossura considerável. Na boa, to me sentindo a cara da riqueza com esse bicho no dedo. Olhei de novo e depois para Sasuke:

—Você deve gostar mesmo de mim, né?

—Acho que sim.

Contive um grito e optei apenas por jogar-me em seu pescoço, abraçando-o. Sasuke retribuiu o gesto, olhei ao redor do quarto e encontrei a estante de medalhas e troféus.

—De que são? – Perguntei.

Sasuke olhou para o mesmo local que eu e respondeu:

—Quando eu fazia intercâmbio, fiz meu ensino médio completo por lá e acabei me apegando ao time.

—Você joga Futebol Americano?

—Jogava. – Corrigiu. Arregalei os olhos e coloquei uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.

—Não é muito perigoso, não?

—Uns hematomas aqui, outros ali, nada demais.

Concordei e me levantei. Foi bom enquanto durou, um pedido de namoro lindo com direito a anéis podres de chique, mas eu preciso ir de encontro a minha mãe.

—Sasuke, me leva, por favor.

Concordou e respirou fundo.

—Não quer ficar aqui?

—Quero muito! – Aproximei-me dele e peguei em seu rosto. – Mas preciso saber o que aconteceu. Foi muita informação para um dia só.

Por um lado eu havia odiado aquele excesso de bagagem, por outro eu havia adorado, havia excesso de anéis em meu dedo.

Sasuke desceu comigo e fomos para seu carro. Sentei no banco do carona revivendo cada momento louco, triste e feliz de meu dia. Aquele havia sido realmente um Domingo cheio e eu só queria encontrar o ambiente em minha casa pacifico, calmo e feliz, queria abraçar mamãe, parabenizá-la por todos os dotes de culinária escondidos a sete chaves e pedi-la para repetir aquele frango e me passar a receita, além de mostrar meu anel de compromisso.

Queria encontrar meu pai jogado no sofá assistindo Narcos e xingando Pablo Escobar, sem nenhuma preocupação – se não do trabalho- em mente, o clima tranqüilo e familiar.

Em um piscar de olhos já estava em frente a minha casa, parte de mim não queria de modo algum deixar o carro e encontrar um local hostil e desagradável, outra queria descer e encontrar uma família feliz. O pior: eu não fazia ideia do que fazer.

—O que houve?

—Tô com medo. – Cochichei.

Sasuke virou meu rosto e acariciou-o, molhou os lábios e disse:

—Vá, mais tarde me ligue e eu te garanto que não importa o que aconteça, vai ficar tudo bem.

—Promete?

—Com toda minha vida.

Concordei e lhe dei um beijo na bochecha, murmurei um “obrigada” e desci rumo a minha guerra ou minha comemoração.

Empurrei a porta de entrada e procurei por qualquer sinal estranho, tudo normal.

Subi as escadas e ouvi a TV do quarto de meus pais ligada, encostei-me na parede e fechei meus olhos agradecendo por estar tudo certo, entrei em meu quarto e tirei meus tênis.

—Sakura.

Levantei minhas vistas e vi mamãe. Ela estava deitada em minha cama abraçada a alguns travesseiros. Sua feição não parecia nada com a de horas atrás, parecia desconsolada, triste, mortífera. Aproximei-me correndo e peguei em seu rosto.

—O que houve?

Sorriu e acariciou minha mão, chamou-me para deitar ao seu lado e assim o fiz, abraçou-me e depositou um beijo no topo de minha cabeça.

—Como foi lá?

—Não, o que houve aqui? – Questionei. Olhei-a e a vi soltar-me um sorriso amarelo e até mesmo sádico. Abriu a boca para responder-me e durante ela proferia aquelas palavras, eu só queria crer com todas minhas forças que era mentira.

—Eu vou me separar de seu pai.

Notas finais
Beijoos!!