Garotos

3 Capítulo 3 . O Garoto de Vestido de Babados


Notas iniciais
Olááá! Será que eu demorei? Não sei. Mas, pessoal, talvez, eu demore um pouco com o próximo porque tenho trabalhos da faculdade para fazer, então tenham paciência, certo? HAHAHA
Espero que gostem desse capítulo. Finalmente um brasileiro na história :D
Tema do capítulo: Trap.

Leonardo trabalhava em uma sorveteria no centro comercial da Academia Saint John desde que se formara no ensino médio. A loja era de seu pai, o que facilitou bastante para o garoto conseguir um trabalho. Até tentara entrar em uma universidade pública do Brasil, mas fora reprovado. Entretanto, aquele trabalho não era um fardo para ele. Em verdade, ele gostava daquele lugar. Afinal, todos os dias, ele via algo que poucos naquela ilha viam: uma garota de vestido de babados.

Ela aparecia assim pouco depois de as aulas terminarem. Estava sempre com um vestido diferente. O favorito de Leonardo era um cor-de-rosa, enfeitado com laços brancos. Parecia que ela também o adorava, pois era o que ela usava com mais frequência. O relógio no pulso do garoto marcou cinco horas, e ele se virou ansioso para a porta. Faltavam poucos segundos para a misteriosa garota entrar no estabelecimento e pedir um sorvete de morango.

O coração de Leonardo retardou uma batida. A menina vestia o modelo cor-de-rosa de que ele tanto gostava. Seus cachos alourados caíam por cima do ombro e emolduravam-lhe a face arredondada. Os grandes olhos azuis brilhavam a mais leve luz. Ela sorria lindamente quando se aproximou do balcão.

- Boa tarde, Leo! Um sorvete de morango, por favor.

O garoto estava estonteado. Ela parecia ainda mais bonita que o usual. Mas isso fosse, talvez, por ser a única garota que Leonardo conseguia ver naquela ilha. Estava com saudades das garotas de sua terra natal, apesar de gostar muito mais de meninas que tinham a personalidade e o senso de moda iguais aos daquela à sua frente.

Ele puxou um dos potes de plástico do balcão e pôs uma enorme bola de sorvete dentro dele, com um sorriso bobo nos lábios. Após jogar calda de morango por cima e acrescentar granulados coloridos, ele entregou o pedido à menina. Seu coração batia acelerado quando ela agarrou o pote e, mesmo que sem querer, tocou com os dedos finos na mão de Leonardo.

Não se sabe ao certo por que ele fez o que fez a seguir. Talvez, ele tenha se sentido corajoso e confiante, de alguma forma. Foi a resposta mais plausível que ele conseguiu encontrar. Em um instante, todo o peito de Leonardo encheu-se de ar, e ele perguntou com a voz meio trêmula:

- Você vai estar ocupada no sábado?

Os olhos azulados da menina fitaram-no curiosamente.

- Não. Não tenho nada marcado para esse dia. Por quê?

A partir do momento em que ela falou, ele percebeu o que havia feito. Ficou mais nervoso que o costume. Sua mão suava levemente, então ele a passou pela calça jeans. Para se sentir mais confortável, não olhou, nem por um instante, para a garota.

- O que... O que acha de nós sairmos nesse dia? Quero dizer... É o meu dia de folga, e... Eu queria, quem sabe... Hã, ser seu... Amigo... O que acha?

Leonardo ainda não olhava para ela e estranhou o momento de silêncio que se seguiu depois do que ele disse. Seus olhos castanhos viraram-se para a garota; ela sorria.

- Então, você olhou para mim – e riu. – Claro que eu quero sair com você. Duas horas da tarde, esse horário está bom para você?

Leonardo concordaria com qualquer que fosse o horário, afinal, o que ele mais queria era sair com aquela garota tão bonita.

Ela deixou a sorveteria com um leve aceno para o garoto, que ficou atrás do balcão, suspirando feito um bobo apaixonado. Mal podia esperar! O coração não parava de bater desesperadamente, até que ele se lembrou: nunca havia perguntado o nome dela. Que burro que era! Decidiu que o perguntaria no momento em que a visse no encontro.

No sábado, Leo chegou ao local onde se encontrariam – na porta da loja de seu pai – muito cedo. Seu relógio marcava uma hora e quarenta minutos. Resolveu sentar-se em um banco próximo enquanto esperava. Ele havia tentando arrumar o cabelo chocolate, o que não deu certo, já que era muito volumoso. Queria que ela estivesse com aquele mesmo vestido rosa, que ele tanto amava. Mas não estava. Às duas horas e dez minutos, a garota apareceu com um sapato marrom, polainas brancas, uma saia quadriculada em tons de verde-escuro e vermelho e um moletom de um creme muito singelo. Seu cabelo também havia mudado: ela o cortara. Os fios mal alcançavam seu pescoço, em que havia pendurado um colar cujo pingente era uma chave prateada. Ela sorriu.

- Leo, como vai?

O garoto estava atônito. Ela mudara muito em poucos dias, o que surpreendeu-o de tal forma que não conseguiu formar frase alguma na primeira tentativa.

- Você... O que... Seu cabelo... Hã? – levantou-se em um salto, observando a garota atentamente, tentando concentrar-se. – O que aconteceu com você?

- Ah! – ela riu levemente. – Eu quis mudar um pouco. Naquele dia, eu comprei tecidos novos e fiz essa roupa. Você acha que não combina comigo?

- Não é isso! Só fiquei surpreso, porque nunca te vi sem vestido – Leo riu. – Você está linda.

A garota ficou levemente vermelha. O coração de Leonardo acelerou com essa visão. Com toda a certeza, aquela era a garota mais bonita que ele já havia visto!

- Vamos? – indagou ele, estendendo sua mão a fim de alcançar a dela.

- Claro – e a garota agarrou-lhe o braço prontamente, deixando que seu corpo caísse sobre o dele.

Naquele momento, o garoto havia ficado tão chocado com a mudança de visual de sua amiga, que nem se lembrou de perguntar seu nome.

Assim, o encontro transcorreu perfeitamente bem. Primeiro, foram a um karaokê, onde vários grupos de garotos, principalmente japoneses, entravam e saíam a todo momento. Leo descobriu que a voz da garota, quando estava cantando, não era tão fina quanto a das outras que havia conhecido no Brasil. Ele achou belíssima. Depois, uma lanchonete chamou a atenção do estômago deles. A visão e o cheiro de sanduíches e batatas fritas fizeram a garota emitir um barulho que a deixou envergonhada. Leo ria, divertindo-se com os gestos delicados da menina.

Em verdade, ele queria muito que aquele dia acabasse, por um único motivo: o beijo de despedida. Leonardo mal podia esperar para tocar naqueles lábios rosados que lhe sorriam a cada instante, queria torná-los seus de qualquer forma.

Ao pôr do sol, ele a levou para um mirante com vista para o mar. Era um de seus lugares favoritos da ilha. Os olhos azuis da garota brilhavam à luz alaranjada que refletia no oceano. Leonardo pôs seus braços ao redor de da cintura dela, puxando-a para si.

- Eu me diverti muito hoje, Leo – ela disse. – Espero que possamos sair mais vezes.

O garoto concordou com a cabeça e virou a menina no abraço, mirando-lhe o rosto angelical. Lentamente, aproximou seus lábios do dela, percebendo que ela fechava seus olhos para poder concentrar-se no que estava por vir. Beijaram-se. Leonardo tentou aprofundar o beijo e o conseguiu, pois a menina também o queria. Continuaram por um bom tempo, juntos, abraçados, os lábios grudados. Só eles tinham importância em um momento como aqueles. Não havia mais o mundo ao seu redor. Não havia mar, não havia pessoas, não havia árvores. Apenas eles dois.

Ela afastou-se levemente, suspirando pelo sentimento bom que aquele beijo havia proporcionado. Sorriram um ao outro, sem afastar-se nem um milímetro.

- Eu gosto de você – Leo confessou.

- Eu também, Leo.

O garoto tentou aproximar-se de novo, a fim de roubar-lhe mais um beijo. Entretanto, a garota desviou dessa vez. Uma expressão melancólica marcava-lhe a face perfeita. Leonardo surpreendeu-se.

- Desculpe, é que eu preciso te contar uma coisa...

Ele ficou mais atento à conversa, fitando o olhar de sua amiga mais firmemente. Ela pediu que fossem sentar-se em um banco próximo. Quando já estavam confortáveis, um ao lado do outro, ela continuou:

- A verdade... É que eu queria te contar antes, mas, depois que, no primeiro dia que nos vimos, você me disse que eu era linda, que meus vestidos eram lindos, que o meu cabelo era lindo, eu fiquei com receio de falar a verdade e você não gostar mais de mim. Eu vim hoje vestido dessa forma para que eu pudesse saber se você só gostava da minha aparência daquele jeito.

Leonardo segurou a mão da garota firmemente.

- Pode me contar qualquer coisa. Eu nunca deixaria de gostar de você.

- Mesmo se eu dissesse que sou um homem?

Os olhos castanhos do garoto arregalaram-se com aquela frase. Aquilo era realmente verdade? Leonardo estava apaixonado por um homem? Não podia ser. Ela era tão feminina, tão delicada! Mas, em momento algum, ele soltou a mão da garota.

- Meu nome é Alec. Eu sou um garoto húngaro que estuda na Academia Saint John. Minha mãe queria muito ter uma filha, então, quando eu nasci, ela quis me vestir com as roupas que havia feito para a Alicia. Quando eu completei 13 anos, fui mandado para cá. Papai achou que mamãe estava me estragando – enquanto Alec falava, formavam-se pequenas gotas de água em seus olhos. Lembrar-se do passado era algo torturante para o garoto. – Na verdade, eu gostava das roupas que minha mãe fazia. Eram belíssimas. Quando eu cheguei aqui e só encontrei calças na mala, fiquei muito triste. Queria os vestidos, as saias, os babados. Então, aprendi a costurar e comecei a comprar tecidos para eu mesmo fazer as roupas. Ei, Leo – o garoto virou-se para o brasileiro -, você me acha estranho por isso?

Leonardo apertou a mão de seu amigo levemente. Seu coração, assim como o de Alec, batia forte de ansiedade. Por um momento, sua mente foi tomada por pensamentos cujo único foco era o fato de ser um homem a pessoa por quem estava apaixonado. Todavia, algo dentro dele falava mais alto, um sentimento maior paulatinamente dominava sua mente. Perguntava-lhe se aquilo realmente importava. O que havia de errado em ele ser um homem?

- Alec...

O louro virou-se para Leo, com uma expressão ansiosa no rosto.

- Eu não gostei de você apenas por ser uma garota ou pela sua aparência, apesar de isso ajudar muito – deu um leve sorriso, acalmando-se mais um pouco. Ele se aproximou do garoto, segurou-lhe o queixo fino entre os dedos e ficou a perigosos poucos centímetros de distância de seus lábios. – Alec, eu gostei de você, por como é. Como eu poderia desgostar só por causa de um hobby? Você não é estranho, é diferente. E isso é o mais legal, Alec.

E, mais uma vez, a única coisa que importava naquele momento eram os dois. Leonardo puxou Alec para si e roubou seus lábios furtivamente. O sorriso do garoto, mesmo durante o beijo, continuava presente, assim como as poucas lágrimas que escorriam de seus olhos.

Eles começaram a namorar a partir daquele dia. Alec ainda ia à loja toda vez que a aula terminava e pedia o mesmo sorvete de morango, depois comprava os tecidos para seus vestidos e outras roupas e voltava para o dormitório. Seu cotidiano não havia mudado drasticamente, exceto por um fato: ele não fazia tudo isso nas tardes de sábado, pois o atendente da soverteria de que ele mais gostava, em seu dia de folga, o havia roubado para seu quarto no andar de cima.

E daí que Alec era diferente? É isso que o fazia especial.

Notas finais
Então, o que acharam? Comentários são bem vindos.
Espero que tenham gostado,
Takoyaki.
Próximo: O Garoto do Brinco de Safira.