Garotas Também São Pervertidas
5 Capítulo V - Culinária
Notas iniciais

Por que minha mãe é tão sem-noção, perguntou-se a morena.
Seus pensamentos ecoaram pela casa vazia. O colégio da irmã mais nova organizou uma viagem à uma cidade turística montanhosa que se estenderia por todo o fim de semana. Já a mãe teria de ficar de plantão no hospital, para cobrir, além de seu próprio expediente, os de uma colega acidentada. Minako, preocupada com a segurança da filha — apesar da insistência da mesma em assegurar sua força e capacidade ―, convidou Usui para não deixá-la sozinha “à mercê de alguns assaltantes que rondavam o bairro”.
E agora, ao seu lado estava o namorado, com uma expressão presunçosa que a irritava. Era óbvio que ele não recusaria o convite; não era isto que a perturbava. Entretanto, ele fizera questão de desconcertá-la: dissera que aproveitaria a oportunidade para terminar suas ‘aulas’ iniciadas há poucos dias. Que chances ela teria para provocá-lo se ele persistisse em distraí-la?
― Posso entrar, presidente? ― Ele estava reclinado sobre o batente, olhando-a com um sorriso travesso. Tão irritante...
― É claro que pode, seu imbecil! ― esbravejou ela, enquanto subia as escadas. ― Siga-me ― ela pediu ao perceber que ele estagnara no vestíbulo.
― Misa-chan pervertida ― murmurou ele, aproximando-se rapidamente. Misaki ofegou, mas ele prosseguiu, malicioso: ― Ainda nem chegamos e já quer me levar para o quarto.
― E-estúpido! Vamos guardar nossas coisas — balbuciou ela, acenando para as mochilas de ambos. ― E e-estou com fome ― completou, e Takumi riu.
Após guiá-lo pela casa, informando onde dormiriam e a localização do único banheiro, Misaki trocou de roupa e foi à cozinha. Encarou os ingredientes estendidos sobre a bancada sem ação, pois sua inexperiência com a culinária foi agravada pelo nervosismo que sentia. Se passou quase uma semana, e ela conseguiu seduzi-lo apenas uma vez. Parecia impossível alcançar dez tentativas bem-sucedidas. Entretida em seus pensamentos, não notou a chegada de Usui até que ele envolveu-a por trás, num abraço.
― Misa-chan vai cozinhar? ― indagou ele, divertido. As refeições por ela preparadas possuíam um sabor... exótico, no mínimo. ― Eu posso ajudar ― sussurrou a oferta muito próximo dos ouvidos dela, que estremeceu com a comichão.
― N-não se-seria educado deixar a vi-visita cozinhar ― explicou ela, arfando nitidamente. Sua idiota, fique calma, censurou-se. Apesar de suas palavras, sabia que o auxílio do loiro tornaria a comida deliciosa.
― Então vou ensinar à presidente ― replicou ele, pousando as mãos sobre a superfície do mármore — e ela vai cozinhar. ― A respiração dele causava cócegas no pescoço da morena; sua boca quase roçou sobre a pele pulsante, exposta devido ao cuidado que ela teve de prender os cabelos para cozinhar. Ela aguardou ansiosa por um beijo que não ocorreu.
― T-tudo bem ― respondeu quando percebeu que ele não iria avançar mais. Estava frustrada e isto ficou evidente.
― Algum problema, Ayuzawa? ― sibilou ele sobre seu ombro. Seu tom era dissimulado, pois ele queria que Misaki assimilasse seu objetivo.
E ela compreendeu. O bastardo prometera ensiná-la sobre provocações, e lá estava ele, dando-lhe a segunda aula. A morena considerou isto uma afronta: não queria receber ajuda para vencer aquele jogo; mostraria a ele que poderia ganhar sem nenhum privilégio ― embora a finalidade das ações de seu namorado fossem somente para divertimento próprio.
Decidida a provar a ele que não deveria subestimá-la, virou-se sobre os próprios pés, para encará-lo de perto. Sustentou o olhar firme para esclarecer que não, não havia problema algum; não, ela não cairia em sua tentação; e sim, ela venceria aquele desafio. A determinação de Misaki o incentivou a prosseguir com as ‘lições’.
Ainda que corada e ofegante, ela conseguiu cortar os legumes enquanto Takumi lhe instruía em murmúrios sedutores. Suportou as leves (e instigantes) fricções que os lábios dele lhe faziam sobre o pescoço, assim como aos carinhos breves e ocasionais em seus braços, cintura e quadris. Para atiçar a indignação da morena, ele também lhe parabenizava ao fim de alguma atividade bem-sucedida, mas ela sabia que os elogios eram direcionados à outros campos além da culinária.
Quando a namorada foi ao fogão preparar o arroz, o loiro afastou-se brevemente — distraí-la próxima das chamas poderia ser perigoso. Recostado sobre a geladeira, ele lhe indicou as porções ideais de água, cereal e tempero para que a papa branca que ela lhe preparara quando quebrara o braço não se repetisse. Ela obedeceu seus comandos sem retrucar como de costume; entretanto, ao voltar seu corpo na direção dele, o semblante era petulante.
― E agora, senhor cozinheiro?
― Está muito apressada, presidente ― murmurou ele, arqueando as sobrancelhas. ― É preciso tempo para apreciar certas coisas. ― Intencionalmente, ele usou um termo abrangente.
― Não me culpe se estou ansiosa para aprender. ― Ela também deu ambiguidade às suas palavras; no entanto, para ambos os sentidos a frase foi depreciativa: Misaki decidiu irritá-lo explicitando sua capacidade para alcançar sozinha o que queria.
Usui estreitou os olhos, mas logo sorriu. Realmente acertara quando lhe propusera este desafio; quando tentava responder à sua tentação, ela tornava tudo mais divertido. A expressão da morena, um misto entre teimosia e um leve embaraço, era, de maneira sutil, bem sensual; seus lábios rosados estavam entreabertos, quase como um convite. O loiro aproximou-se, como que para aceitá-lo; no entanto, suas mãos transpuseram o corpo da namorada para desligar a boca do fogão; sua boca estava estrategicamente posicionada sobre o ouvido direito dela.
― Ainda precisa que alguém lhe ensine ― retrucou ele, convencido.
― Existem coisas que os professores não ensinam ― comentou ela com certo atrevimento. Num movimento ágil, desvencilhou-se do namorado e foi à sala, preparar a mesa.
O jantar foi rápido e tranquilo; apesar de algumas brincadeiras envolvendo a refeição — que atingiu o grau ‘comestível’ ―, Takumi não atiçou-a enquanto comiam. Ainda estava surpreso com as reações de Misaki, e ela estava faminta ― mesmo que houvesse pouca comida em seu prato, esta desapareceu com rapidez. Ao final, ela suspirou, satisfeita ― ele já havia terminado também.
― Alguma sobremesa? ― ele perguntou em um tom estranho, após ambos recolherem e lavarem a louça. Ela encarou-lhe interrogativamente.
― Tem alguma preferência? ― ela indagou confusa.
― Humm... — ele murmurou pensativamente, apoiando-se na bancada da pia. Enfim, completou, malicioso: ― Quero Misa-chan como sobremesa.
Involuntariamente, ela contraiu-se e corou com violência ― não apenas porque estava envergonhada, mas também porque as palavras dele a excitaram. Sentiu a pele queimar, assim como o tato tornar-se mais aguçado e sensível. Seu coração batia com tanta intensidade que ela achou provável que ele ouvisse seus batimentos. O beijaria com veemência se não estivesse tão distante, e usou deste fato para acalmar-se.
― Algum problema, Ayuzawa? ― ele repetiu; desta vez, no entanto, a provocação era mais explícita ― apertava os lábios para segurar um sorriso, enquanto vencia a distância entre eles.
― Não. ― A irritação introduziu-se lentamente em sua voz; mesclou-se à ânsia anterior e sublimou parte do acanhamento. Subitamente, lhe veio uma ideia, e respondeu ao ultraje no mesmo tom: ― Só quero relaxar um pouco depois de provar que posso resistir a um alien pervertido.
Ah, ele iria mostrá-la a verdade e desmentir sua afirmação insolente. Já próximo do corpo dela, restringiu seus movimentos ao recliná-la contra a superfície usando seus braços como barreira. Pretendia atiçá-la com longos beijos no pescoço que ela inconsciente e deliciosamente exibiu durante todo aquele tempo, mas foi Misaki quem tomou as rédeas. Antes que ele a alcançasse, enlaçou os dedos no cabelo loiro e macio e puxou-lhe a cabeça para cobrir seus lábios. O desejo genuíno e voraz com que ela lhe beijou o arrebatou também.
Ajudou-a a içar-se para o mármore, sem interromper o contato com sua boca. As línguas remexiam-se inquietas, ousadas; ao aprofundar o beijo, as pernas da morena o envolveram, e o atrito entre os corpos fez com que ambos ansiassem por carícias mais intensas. Usui enfim provou da garganta de sua namorada; roçando, lambendo, sugando. Em resposta, ela comprimiu-se ainda mais contra seu corpo e tentou arranhar-lhe as costas e a nuca, ofegante.
Quando ouviu um gemido partir dos lábios dela, o rapaz mordiscou-lhe suavemente o lóbulo, para em seguida rir de modo indecente contra sua orelha. Beijou-lhe algumas vezes mais, antes de afastar-se ligeiramente para vislumbrar seus olhos amarelados. Sua voz tingiu-se com um orgulho pretensioso.
― Resistir, huh?
Porém, o sorriso travesso que Misaki estampava no rosto não coincidia com a sua aparente derrota. Então ele compreendeu ― ela esperava por isso. Havia feito exatamente o que a morena queria; tudo porque reagira à sua provocação ― como da primeira vez. De maneira alguma a morena pretendia assumir o efeito que as palavras dele lhe causavam ― e não teve de fazê-lo, pois seu namorado saciou sua vontade por iniciativa própria. Deleitando-se com o fato de tê-lo sob seu controle, saboreou o momento da segunda conquista, enquanto repetia mentalmente: existem coisas que os professores não ensinam.
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