Garotas Também São Pervertidas
17 Bônus - Delírios
Notas iniciais

Lembram-se que lhes disse que sentia um desprezo em particular por quartas-feiras? O Acaso ― esse malcriado ― parecia reforçar este ódio a cada semana.
Essa noite, ao contrário da última, foi atarefada: já havia concluído os desenhos de meu mais recente projeto de um edifício residencial, e no momento, confeccionava a maquete daquele ingrato exercício. Na verdade, o que eu mais queria naquele momento era dormir, mas não poderia suprir minhas necessidades corpóreas até concluir a tarefa exaustiva.
Não era nenhuma novidade: enquanto cortava, uma a uma, cada parede, teto e qualquer superfície da edificação para representá-la num modelo em miniatura, Consciência estava em suas tradicionais posição e atividade ― deitado sobre a cama, lendo hoje “Crime e Castigo”. E, apesar de invejar sua situação ausente de preocupações, ao menos estava grata por ele não me importunar. (Ele normalmente não o fazia quando eu assumia minhas responsabilidades ― somente quando me divertia; aquele estraga-prazeres.)
E ― novamente ― fui interrompida ao ouvir a agourenta porta do armário se abrindo. Ignorei sem nenhum remorso qualquer que fosse o personagem que adentrou desta vez ― estava ocupada, merda! Se fosse o inconveniente do Tamaki, convidando-me mais uma vez para uma “incrível experiência tradicional japonesa”, ou seja, sentar-se sob um estúpido kotatsu, iria atirar meu estilete contra seu rosto francês. Com toda a certeza.
― Você tem visita, mulher ― atentou o moreno idiota sobre o meu colchão. Palmas, Capitão Óbvio; eu nem percebi. (E não me venha revirar os olhos, idiota!)
Virei-me enfim, sobre o eixo de minha cadeira. Livraria-me logo da criatura 2D para voltar a trabalhar com tranquilidade. Contudo, não era Suou Tamaki que esperava por minha permissão para entrar, e sim outro loiro. Ótimo, um alien em minha casa.
― Bem vindo, Usui Takumi ― cumprimentei-o, um pouco aborrecida, para que ultrapassasse de uma vez a fronteira para meu quarto. Não deixaria minhas boas maneiras de lado, como uma certa tsundere enraivecida.
― Pensei que era mais velha ― declarou ele, imediatamente. Um casal de mal-educados, esses dois.
― Tenho quase 21. ― Ah, já estava acostumada a lidar com essa maldita sentença. E também com a maldita surpresa das pessoas ao descobrir minha idade. O pervertido ao menos não esboçou nenhum sobressalto. Menos mal.
― Não parece ― retrucou ele. Retirei minhas palavras. Tinha que trancar aquela porta ― só assim para evitar meu estresse.
― É, eu sei ― assenti, num suspiro. Gesticulei para o ambiente à minha volta. ― Pode se sentar onde quiser. ― Só então notei o chão estava encoberto por papéis, cola e lápis, e minha cama e cabeceira, únicos espaços incólumes, ocupados por um preguiçoso esparramado. ― Ei, vagabundo! Desobstrua minha mesinha!
Consciência, enfim, liberou a única área sentável ao retirar seus pés sempre descalços de cima da mobília. Não assisti quando Usui acomodou-se sobre o improvisado assento ― não poderia relaxar enquanto os remendos que cortara não se convertessem em algo tridimensional, e reiniciei o tedioso processo. Apesar das mãos ocupadas, no entanto, minha audição e fala estavam disponíveis, e logo esclareci, de costas para o indivíduo:
― Se veio tirar satisfações, foi inútil. Era eu ou você, camarada.
― Nah, Misa-chan é violenta, mas é suportável ― murmurou ele, num tom mais leve ao mencionar a namorada. Há, a mim ele não enganaria.
― Ou seja ― traduzi. ― Ela te encheu de porrada, não é?
― Ainda dói ― admitiu, finalmente; sua voz era contida.
― Tomara que ela não tenha chutado seu “amiguinho” ― desejei, enquanto encaixava algumas peças difíceis. ― “Ele” ainda é fundamental para minha fic.
― Felizmente, não. ― O alívio em suas palavras era evidente.
― Ah, nem ao menos me apresentei devidamente. ― Ele deveria conhecer-me apenas pelo meu excêntrico username. Girei para encará-lo, ao colar o primeiro bloco de muitos. ― Pode me chamar de Liesel, ou Meminger. ― E seu sotaque, ao pronunciar o sobrenome alemão, foi britânico, e não japonês.
Indignado, a aberração recostada sobre meu travesseiro fitou-me em repreensão. Ele não compreendia o motivo pelo qual eu adotara aquela denominação cedida de uma personagem querida (a incrível protagonista de “A Menina que Roubava Livros”) ― na verdade, apenas recusava justificativas, porque eu já havia me cansado de meu próprio nome. Não iria explicar-lhes, no entanto, pois nenhum dos dois parecia realmente interessado.
― Como pude me esquecer! ― Recordei-me, de súbito.―- Não sei se já sabe, mas algumas de minhas leitoras te amam e te adoram. ― E querem seu corpo nu, mas isso já era um comentário indiscreto demais, então completei: ― E eu não podia deixar de te dizer isto por elas.
― Hum... agradeça a elas por mim. ― Ao dizê-lo, afagou a própria nuca, mas não parecia se importar realmente. Para ele, o mais importante era a “sua Misa-chan”. Sinceramente, se eu fosse ele iria preferir minhas adoráveis leitoras àquela besta raivosa. Mas o que podia fazer se o alien tinha um gosto bizarro?
Perdida nestes pensamentos, desconcentrei-me e acertei em cheio a lâmina na ponta de um de meus dedos. Shit! Num ímpeto, levantei-me para afastar minha mão já ensanguentada dos fragmentos da maquete, para não manchá-los e inutilizar tudo que já havia feito. E, enquanto Usui curvou-se ligeiramente, demonstrando um mínimo interesse em meu estado, Consciência não moveu um único músculo daquela face andrógina. Ah, eu estava superestimando sua capacidade de desenvolver alguma compaixão.
― Já volto! ― Meu aviso foi deformado por um agudo gemido devido à ardência.
Abri a porta com uma violência equivalente à urgência exigida pela situação, e atravessei num átimo o longo corredor até o banheiro. A corrida brusca e desenfreada havia acelerado o sangramento, mas felizmente consegui contê-lo com algumas bandagens. Ao voltar ao quarto, encontrei-os fazendo algo que assimilei de imediato: uma competição de encarar.
Presenciei, atônita, aquele milagre diante de meus olhos. De alguém que nem ao menos era considerado um ser humano normal (e que já admitira encontrar divertimento em atividades estúpidas), eu poderia prever este tipo de comportamento. Contudo, de Consciência? O Rei do Tédio e da Inércia? Oh m God! Usui era tão persuasivo assim?!
Permaneceram imóveis alguns segundos mais, antes que o moreno entregasse a vitória ao me fitar, e voltar seus olhos às páginas envelhecidas. Seu semblante sempre tácito distorceu-se com um enigmático ― e raro, Senhor! ― sorriso de canto. Ou seja, o ser irritante estava me escondendo alguma coisa, e, ao contrário dele, não tinha acesso aos seus pensamentos. Que ótimo! Não tinha tempo, entretanto, para dispor àquela anomalia e seus segredinhos.
― Então, a que devo a honra da visita de um habitante do Planeta Feromônios? ― indaguei, curiosa, para o loiro displicentemente sentado sobre aquele desconfortável e improvisado banco.
― Você já deve saber, Meminger. ― Seu olhar deixava explícito o anseio de partir. É,Ayuzawa não era a única a me irritar.
―Ah, então você veio me agradecer por criar uma história em que o maior beneficiado foi você e por fazer com que a enrustida da Ayuzawa admitisse que gosta de sexo também? ― formulei minhas suposições.
― Se já sabia, por que perguntou? ― Ora, se não vai falar, porque veio?!
― É mais educado dizer você mesmo, sabia? ― atentei, o mais branda possível. Minha paciência aproximava-se perigosamente de seu limite.
― Se faz tanta questão. ― Ele suspirou ao levantar-se, como se um mísero “obrigado” lhe exigisse tanto esforço assim. Mas o fez, enfim. Oh, que surpresa. Viram, até aliens sabiam agradecer.
― Ei, antes de ir, pode me fazer um favor? ― Sentei-me em minha cadeira enquanto ele encaminhava-se à saída, e só reclinei-me novamente sobre a mesa ao perceber que havia atraído a sua atenção. ― Pode, assim, bem discretamente, ensinar ao Kanou como se chega aqui? ― Não seria nenhum incômodo curar a fobia daquele rapazinho tão tímido.
E, ainda que estivesse de costas, consegui captar em sua voz aquele seu insolente sorriso ao negar meu pedido. Quando virei-me para lhe dirigir impropérios, o maldito moleque oxigenado já havia partido ― o último resquício de sua presença era a fresta devido à porta semi-aberta. Consciência desviou os olhos brevemente do exemplar para o armário, e comentou, simplesmente:
― Gostei dele.
Rapidamente, assimilei as circunstâncias. Logo exigi explicações do inútil: ― O que fizeram enquanto eu saí?
― Ele estava entediado e me perguntou se eu não queria jogar. ― Me conte novidades, babaca. ― Não gastaria meu tempo com trivialidades, mas ele aceitou minhas condições de frustrar suas fantasias com um menor de idade.
Nem ao menos questionei seu empenho em impedir qualquer evento que me trouxesse o mínimo de satisfação. Ele sempre fazia isso. ― E como sabia o que eu iria pedir?
― Pff... Mulher, você é tão previsível que é até chato antever suas ações. ― Estava com tanta raiva que nem ao menos ultrajei-me com sua sentença. E o imbecil ainda complementou com um sorrisinho desaforado: ― Mas desta vez foi muito divertido observar sua reação, “Liesel”.
Ah, ele tinha sorte. Ainda tinha uma madrugada de trabalho à minha frente, e se não fosse por isso, enfiaria aquela lâmina inteira na área onde não bate sol daquela infeliz, estúpida e inconveniente parte de mim.
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