Garotas Também São Pervertidas
18 Extra IV - Parte II - Transição
Notas iniciais

De que é feito o amor?
Reformulo-me: pode a um sentimento, um composto abstrato, imaterial e metafísico, ser atribuída alguma característica?
Um sabor, talvez?
Pois acredito que o amor pode ser doce — como uma casquinha de baunilha ou uma torta de morangos.
E, tal como ambas as sobremesas, seu valor está não na substância, comum e abundante, e sim na essência.
A essência, sim...
****
Em sua mente, vários eventos e pensamentos sobrepunham-se, de maneira confusa.
Sentada sobre um assento bem cuidado, apesar de algumas evidências de sua idade, Misaki organizava ― ou ao menos tentava organizar ― a desordem mental que lhe acometera após o aborrecido diálogo com o presidente do Miyabigaoka. Aguardava a saída do namorado nesta praça, próxima ao extravagante colégio, pois iria se perder entre aqueles inúmeros e intermináveis corredores à procura do loiro.
Recordou-se das palavras de Igarashi ― da futura e inconveniente intervenção que a família Walker faria à sua própria formatura, da aversão que estes tinham a seu relacionamento, da confirmação de que Usui enfrentava aquela situação complicada. Era evidente o amor que ele sentia ― e ela mesma o sentia em mesma intensidade. Era óbvia também, até mesmo para ela, a maneira como Takumi se continha quando estavam juntos, pois apesar de sua natureza pervertida, ele não avançaria sem a sua permissão. Aí estava a verdadeira questão: por que não permitia, se reconhecia em si mesma uma vontade semelhante?
Suspirou ao levar os dedos aos fios castanhos enquanto buscava uma resolução àquele dilema que, em sua essência, era muito simples. Como se adiasse a resposta a este questionamento, outras preocupações inundaram-lhe os pensamentos. Apesar da proximidade inexorável das provas de acesso à universidade, logo iria ceder a presidência do Conselho, além da responsabilidade por toda a organização burocrática da cerimônia de encerramento. Portanto, teria mais tempo para si mesma ― e para ele.
E convergiu ao mesmo tema novamente, como se a própria consciência lhe obrigasse a decidir-se... O suave toque de um longo e familiar dedo sobre sua testa acordou-lhe de seus devaneios: ― Temos alguém realmente concentrado aqui.
― U-Usui! ― exclamou ela para o rapaz à sua frente, surpresa. Como não percebera sua aproximação?
― Misa-chan não costuma ser tão distraída assim ― comentou ele, enquanto sentava-se despreocupadamente ao lado dela. Seu tom deixava implícita uma leve curiosidade, ainda que aguardasse que ela mesma o dissesse.
― Parece que a formatura do Seika será patrocinada pela sua família ― esclareceu a morena, desviando o olhar para o pavimento gasto. O gesto era um sinal não só de irritação, como também de embaraço, ao lembrar-se do rumo de suas divagações.
Poderia ser apenas impressão sua; contudo, ela ouviu um ligeiro murmúrio escapar dos lábios do loiro. “Típico”, foi o que assimilou. ― Mas esse não parece ser o motivo da sua preocupação – insistiu ele, enquanto apoiava os antebraços sobre as coxas, inclinando-se para vislumbrar seu rosto.
As orbes esmeraldas fixaram-se nas suas, como se procurassem desvendar o que a inquietava. Droga, ele sempre conseguia enxergar através de seus subterfúgios. Entretanto, era esta uma oportunidade ― poderia enfim dizer-lhe que não eram apenas com beijos que transmitiria seus sentimentos. Que desejava-o inteiro para si, de modo sincero, ainda que egoísta. Porém, suas vontades amontoavam-se, incoerentes, e somadas à timidez, retraíram-lhe a fala e coloriram-lhe as faces de um impressionante matiz de vermelho.
Não foi difícil para Takumi compreender que ela queria lhe falar algo, pois ainda que não soubesse do que se tratava, conhecia bem aquela expressão encabulada, que desejava expelir as palavras presas embora não encontrasse adequada maneira para realizá-lo. Daria, então, tempo à ela para que o dissesse.
― Ayuzawa ― chamou ele repentinamente, assustando-a apesar do tom calmo. ― Quer dar um passeio?
― Por que isso de repente? ― indagou ela, após alguns segundos absorvendo aquela estranha proposta.
― Eu não tenho nada para fazer, e você também parece não ter ― atestou ele, como se este fosse um motivo válido. Sua fisionomia carregava uma afetação característica que geralmente a deixava furiosa, mas no momento apenas a desnorteava.
Sinceramente, não compreendia os métodos de raciocínio do rapaz. Ele era um alien, afinal. Contudo, para ele, estar com Misaki não exigia nenhuma justificativa ou pretexto racional ― queria estar com ela, e isto já era o suficiente. E apesar de desconhecer estas motivações menos superficiais, a morena encontrou alívio naquele convite.
― Aonde vamos, então? ― perguntou ela, embora o local não fosse de seu total interesse. Levantou-se, já preparada para partir.
― Paris? Londres? ― divagou ele, mantendo o mesmo timbre apesar das opções absurdas. ― Pode escolher, presidente ― complementou, como se a viagem fosse factível.
― Destinos possíveis, Usui idiota! ― protestou a colegial, indignada com as incoerências ditas pelo namorado.
― Não consegue nadar até lá, Misa-chan? ― provocou o loiro, enquanto a fitava com simulada superioridade.
― É claro que consigo! ― Ao responder imediatamente ao desafio, não notou como sua própria sentença soou incoerente. ― Quer dizer... ― tentou corrigir-se; porém, a raiva dominou-a ao ouvi-lo rir. ― Argh! Esquece!
Acabaram ambos em um parque próximo, pois o rapaz de olhos verdes sugeriu que era um bom local devido à fraca luminosidade num tom sugestivo, que foi rebatido com as usuais ofensas da morena. Ao chegar lá, no entanto, Misaki não pôde discordar da escolha de Takumi, pois era um espaço muito agradável. Diante da insistência dele, aceitou o sorvete cremoso que agora ocupava uma de suas mãos. Procurava acalmar-se enquanto provava do doce cândido, e saboreá-lo realmente lhe trouxe alguma tranqüilidade.
― Está olhando o quê? ― reclamou ao perceber que Usui mirava-se em seu rosto. Já ele aproximou-se ligeiramente, e apanhou com o polegar um resquício açucarado no canto dos lábios da namorada.
― Não sabia que Misa-chan ficava tão sexy tomando sorvete ― murmurou enquanto lambia o dedo encoberto. Complementou, sobre um de seus ouvidos: ― Me excita.
Apesar do empenho, Misaki não conseguiu impedir o arrepio involuntário que percorreu-lhe o corpo até alcançar sua nuca. Corada de modo que imaginava ser impossível, exasperou-se: ― Seu pervertido! Pa-pare de falar essas coisas estranhas!
Era frustrante, pensou Takumi, que a morena exercesse tal efeito sobre ele de maneira inconsciente. Ao mover a língua com suavidade, lambendo a sobremesa de forma a apreciá-la, ou mesmo ao entreabrir a pequena boca, sorvendo maiores porções adocicadas, ela apenas o provocava ― e nem ao menos tinha conhecimento do fato! Aí estava o motivo pelo qual não compreendeu quando o loiro tomou-lhe o pulso para sugar o líquido derretido que deslizava entre os dedos finos da colegial.
― O que está fa-fazendo? ― gaguejou ela, em choque diante da deleitosa sensação contraposta entre as temperaturas do creme gelado e dos lábios quentes de Usui.
― Está escorrendo ― alegou ele, com naturalidade. Chupou o último vestígio liquefeito das mãos da morena, e enfim encarou-a. Suas íris haviam escurecido. ― E eu queria provar. ― Suas palavras foram propositalmente ambíguas; não informou ao certo do que provara, afinal.
― Não faça isso em público! ― vociferou ela, enquanto buscava, inutilmente, estabilizar as próprias palpitações.
― Então não há problema se ninguém ver, Ayuzawa? ― A malícia contida em sua voz a constrangeu ainda mais. No entanto, era esta a questão: por que haviam impedimentos mesmo quando estavam a sós?
E, percebeu ela num vislumbre, naquele momento eram os únicos em um longo raio de distância; a iluminação, como dissera o rapaz, era débil ― ou talvez “adequada”. Estavam ambos ocultos de qualquer olhar alheio, e apesar de todos os sinais à sua volta, Misaki surpreendeu-se quando uma das mãos de Usui encobriu-lhe a nuca para beijá-la.
Era um misto de baunilha e nervosismo ― uma mescla entre o sabor dulcificado e o ofegar suave, que logo converteu-se em algo mais. “Algo mais” referia-se ao roçar mais urgente; à línguas entremetidas; à mãos antes inertes que desentrelaçam-se de casquinhas para envolver-se em fios dourados; ao dedilhar masculino sobre a cintura feminina.
Como ele dissera tempos atrás, eram nestes momentos em que ela era honesta em relação ao que sentia ― e ao que queria. Ao responder mais intensamente aos lábios sobre os seus, o loiro tornou-se muito mais ousado, pressionando-a contra um tronco próximo enquanto explorava as delícias de sua boca.
Entretanto, a timidez a reprimiu quando as carícias direcionaram-se à sua garganta ― empurrou o namorado, ainda que seus dedos se enlaçassem à blusa escura que ele vestia, como se ansiasse por mais, e simultaneamente se refreasse. E Takumi, ao relacionar este pequeno, porém significativo gesto, à resposta cálida e incomum da namorada e sua anterior dificuldade em exprimir-se, descobriu enfim o que ela almejava dizer.
Não poderia estar mais feliz ao reconhecer nela o mesmo desejo que encontrava em si mesmo; de que ambos avançassem um passo mais, como prova da confiança que tinham um no outro. Seria mais fácil para ela concordar do que propor, e foi ele que perguntou-lhe, para que somente ela o ouvisse, se queria ir a seu apartamento, deixando implícito que prosseguiriam o iniciado no parque. Embora enrubescida, respondeu-lhe enquanto desviava seus olhos amarelados:
― P...preciso fazer uma ligação! ― E, ainda que indiretamente, Misaki aceitou seu convite.
Já fazia muitas horas que o sol havia deitado por terra, e sob uma lua minguante, um casal partiu de mãos dadas. A baunilha sobre o chão era a única testemunha do que ocorrera.
****
― “Ocê” é incrível, Suzuna-chan! ― parabenizou o moreno ao vislumbrar o mais recente feito de sua amiga mais nova.
À sua frente, uma aparentemente deliciosa torta de morangos ganhava forma nas mãos da habilidosa “menina dos sorteios”. Ao contrário da irmã mais velha, possuía exímio talento ao lidar com a culinária. Esta capacidade mostrou-se muito útil para auxiliar a mãe nas tarefas de casa, enquanto Misaki o fazia através de ajuda financeira ― e principalmente agora, quando um certo amigo de infância fascinado por comida as visitava com frequência.
― Ainda nem está pronto, You-kun ― lembrou ela; mantinha os olhos sobre o preparo, mas permitiu-se encará-lo durante breves segundos: ― Mas pode continuar me elogiando. ― E iniciou sua um tanto estranha e característica risada.
Como tanto o emprego da mãe quanto o da irmã ocupavam-lhe parte do tempo disponível, era comum para Suzuna passar o início da noite sozinha ― e esta porção em seu horário, há algum tempo atrás, era basicamente voltada para as atividades de seu clube e seu hobby. Com a chegada de Hinata, no entanto, algumas dessas noites foram preenchidas com doces e conversas nostálgicas. E a partir desta convivência quase diária nasceu aquele que era seu primeiro amor.
Interrompendo seus pensamentos, ouviu Shintani cumprimentar sua mãe ― ela iria para o plantão, enfim. Deixou os utensílios para também despedir-se e desejar-lhe um bom serviço, e recebeu um carinhoso afago no topo de sua cabeça. Adorava estes pequenos e espontâneos gestos de amor que a mulher lhe oferecia inesperadamente. Como se o fato lhe viesse de súbito, a dona de casa e enfermeira avisou-lhe, em seu habitual tom gentil:
― Suzuna, hoje a casa é sua, certo?
Misaki não voltaria hoje? Apesar de sempre bem-humorada, Minako parecia, naquele momento, especialmente feliz por algum evento em específico ― como, talvez, a ligação solene que recebera da filha mais velha, avisando-lhe que dormiria na casa do namorado pela primeira vez; agindo, enfim, como uma colegial normal, apesar de todos os problemas que enfrentara durante o final da infância e início da adolescência, com a perda do pai.
Como um último gesto de despedida, e também a confirmação de que compreendera, Suzuna estendeu uma das mãos sobre a testa, em continência. Porém, embora dita de maneira velada, a mensagem também foi entendida pelo moreno, que ao mirar em nenhum ponto em particular, expressava algo próximo de um sorriso, embora melancólico.
Em muitos aspectos ela diferia de Misaki, mas o mais acentuado era a sua sensibilidade aos sentimentos e impressões daqueles que a cercam ― era muito observadora e analítica, pois, enquanto a irmã tentara inicialmente vencer o trauma adquirido com a partida do pai odiando todos os homens, Suzuna encontrou a saída através daquilo que seria sua garantia para nunca mais se envolver em vão.
E, por compreender o ainda confuso afeto de Hinata por sua irmã, não investia naquela paixão que nascera tímida para, não explodir, abrasadora, e sim dilatar-se lentamente até que sua mente passou a evocar a imagem de um rapaz com uma cicatriz sob o olho direito constantemente. Não iria dificultar ainda mais a já complicada situação dele a respeito de romances, quando ela mesma experimentava a sensação de gostar de alguém que já gosta de outro.
Eram parceiros neste quesito, ao menos. Coadjuvantes no romance de outrem. Porém, enquanto ela mantinha em segredo seu sentimento, aguardando uma adequada oportunidade e a resolução da delicada situação do moreno, ele feriu-se ao declará-lo abertamente à irmã mais velha ― e para alguém como ela, tal atitude era...
― Você se tornou admirável, You-kun ― murmurou ela, espontaneamente. O próprio rumo da mente apropriou-se de sua fala, involuntário.
― Po-porque isso, de repente? ― indagou o garoto; as bochechas ardiam com a vermelhidão. Não era a intenção dela, no entanto, causar nele esta reação. Desconversou, então:
― Agora consegue esperar pelos doces sem meter a mão. ― Novamente, complementou sua sentença com suas risadas curtas e singulares.
― Ei, não sou mais criança! ― Shintani exasperou-se ao recordar-se do passado que ele mesmo julgava vergonhoso.
Suzuna, então, contemplou longamente o veterano, absorvendo detalhes que antes fugiam até mesmo à sua apurada atenção. Como sua constituição física adquiriu uma maturidade obtida apenas com a idade. Como em seus olhos brilhavam uma determinação antes camuflada pela preguiça e desleixo. Como o uniforme do posto de gasolina lhe atribuía ― merecidamente — um aspecto mais responsável. E ela não poderia discordar de suas últimas palavras.
― É, eu sei ― confirmou, com um pequeno sorriso.
E o semblante do rapaz converteu-se naquela que era a sua feição preferida: um sorriso caloroso, acolhedor, genuíno; tão intenso que seus olhos fechavam-se, pois também sorriam em conjunto. Era por esta natureza energética e um tanto ingênua que a menina de marias-chiquinhas se apaixonara; pelo familiar ex-vizinho que a conquistou com seu jeito simples e puro.
― Obrigado, Suzuna-chan.
Era natural, enfim, cativar-se por ele. E, para não magoá-lo além do que ele já sofrera, esperaria tanto quanto fosse necessário para declarar-se devidamente. Sussurrou para si mesma, então: ― Eu sou paciente, You-kun.
― “Ocê” disse alguma coisa? ― perguntou ele, intrigado.
― Não, nada. ― Com as últimas adições, complementou a agora finalizada torta de morangos. Anunciou, com seus tradicionais gestos caricatos: ― Pronto pra comer.
Contagiou-se com a animação de Hinata, que exclamou novamente “Artista dos bolos!” enquanto depositava a sobremesa sobre a já desgasta mobília. E sua expressão geralmente apática deu lugar a um de seus raros e largos sorrisos, o que ele não deixou de notar. Aos poucos se encantava com aquele sorriso, como também aos poucos uma Ayuzawa deixava seu coração para dar lugar à outra.
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