Garota problema
2 Preconceito
A garota ruiva se aproximou com calma e perguntou se estava tudo bem. Disse que era médica e ofereceu ajuda. Eu começava a me acalmar, mas ainda suava frio o suficiente para que ela não acreditasse em mim. Por fim, ela resolveu tirar minha camisa e me dar um pouco de água.
Bebi e agradeci. Ela me secava e apoiava minha cabeça com as mãos. A outra em meu peito, acompanhando atentamente os meus batimentos. A mão dela subiu até meu pescoço, checando minha pulsação de maneira mais satisfatória. Fiquei em silêncio aguardando a contagem dela, conhecia o ritmo.
— Qual seu nome? – ela perguntou de uma maneira muito doce. Seu olhar no meu.
— Sasuke... E o seu? – perguntei relutante, algo no olhar dela me preocupava.
Ela era linda, é claro. Talvez uma das mulheres mais lindas que já vi. No entanto, alguma coisa nela parecia me incomodar de uma maneira desigual. Então, eu percebi, ainda que não pudesse acreditar, não podia ser verdade. Aguardei por sua resposta.
— Karin.
Foi a única resposta que tive. Ficou um silêncio constrangedor entre nós, não sabia o que dizer. Será possível que ela seria assim?
— Hmmm. Obrigado pela ajuda... – comecei e ela voltou o olhar para mim, as mãos ainda em meus ombros. – Gostaria de tomar um café? Como agradecimento? – Eu realmente não planejava nada com a garota.
Ainda que linda, eu sabia que não era esse tipo de cara. Não podia me aproveitar da situação apenas para sair com ela. Karin arregalou os olhos, seu olhar desceu para meu peito e desviou rapidamente.
Percebi que ainda estava sem a camisa que ela havia tirado, e minhas cicatrizes estavam a mostra. Senti-me envergonhado, completamente exposto e julgado. Quando ela desviou o olhar, entendi o que estava acontecendo e me senti horrível. Realmente era o que eu imaginava, meu maior medo em relação às mulheres. Comecei a ficar com raiva.
— Humm. Sabe que é, é que eu tenho outro compromisso hoje. – Seu rosto virou-se para mim, mas ela ainda não olhava para baixo, fazendo força para não encarar as cicatrizes... Como sempre.
Franzi o cenho e coloquei a camisa de volta. Sai sem falar mais nada e segui meu caminho. Podia sentir meu rosto ferver com o ódio, eu odiava ser tratado dessa maneira. Não podia acreditar que novamente isso estava acontecendo. Nenhuma garota conseguia prosseguir qualquer relacionamento comigo por causa das cicatrizes nos últimos meses. Eu percebia os olhares quando retirava a camiseta, percebia o nojo, o asco.
Minhas cicatrizes eram a coisa que eu mais detestava em mim, eram uma marca constante dos que ocorrera no dia em que meus pais morreram e Itachi sumiu, deixando-me sozinho no hospital. Minhas cicatrizes eram um símbolo da minha sobrevivência, mas uma marca daquilo que mais me magoava. Quando as pessoas olhavam para elas com nojo, eu me sentia péssimo por ter sobrevivido ao acidente.
Eu mal podia acreditar no dia que estava tendo. Acabei de me mudar, fui rejeitado no emprego e por uma garota bonita, que claramente não suportava me olhar. Não acreditava que estava lidando com esse tipo de coisa logo no meu primeiro dia aqui. Eu sabia que seria muito difícil lidar com as cicatrizes, e sabia que elas ainda demorariam muito. Talvez fosse esse o problema afinal, eu queria que as cicatrizes fossem embora de maneira mais rápida, queria que sumissem de uma vez por todas, mas era um processo demorado. Não sabia como lidar com esse processo apenas tendo o Naruto para me proteger.
Quando cheguei no apartamento, estava realmente com muita raiva e como Naruto não estava lá, não sabia exatamente o que fazer. Ele certamente saberia o que falar naquele momento e me animaria. Naruto sempre tinha as piadas certas, ainda que algumas fossem feitas nos momentos errados. Aquilo me animaria, porque ele sabia como eu ficava mal quando as pessoas encaravam minhas cicatrizes, sobretudo mulheres.
Contudo, ele provavelmente tinha saído com a garota dele, agora que moravam na mesma cidade. Revirei os olhos... Tão previsível. Tudo era muito previsível em minha vida, essa era a coisa. A dor com as cicatrizes, as lembranças, tudo que estava me ocorrendo atualmente, já passei por tudo aquilo, era sempre o mesmo. Decidi trocar de roupa, coloquei uma camisa mais longa e sai para o bar mais próximo.
Eu detestava lugares com música alta e bares lotados, mas aparentemente esse era o único estabelecimento que existia na cidade e era exatamente o que eu mais odiava. Contudo, considerando o meu dia até ali, beber um pouco sem ser ouvido por ninguém, podia ser uma boa ideia.
Ainda assim, a ideia não me agradava muito. Bebia uma cerveja silenciosamente no canto de um bar qualquer enquanto as pessoas estavam alucinadas ao meu redor. Todas falavam muito alto, dançavam esbarrando em todos e a música parecia mais alta a cada segundo.
Eu realmente era uma pessoa muito chata. Queria sair dali, mas a fila para pagar estava enorme e não estava disposto realmente a esperar todo aquele tempo no meio de tanta música alta. Será possível que não tivesse nenhuma parte mais calma? Era um bar e restaurante, afinal.
Infelizmente, parecia que apenas o bar existia ali, seria impossível comer em um lugar daqueles. Era caro e barulhento. No entanto, eu poderia procurar uma mesa para ficar um pouco sozinho. Ainda que aquele não fosse o intuito dessa saída, eu só queria ser menos previsível, ir para um bar e beber muito. No entanto, o meu costume era mais forte, queria muito sentar e apenas beber algo calmamente. Talvez se eu ficasse na parte do restaurante, mesmo com a música alta, poderia ser um pouco melhor.
As mesas estavam todas lotadas, é claro. Fiquei vagando de um lado para o outro com uma bebida já quente nas mãos. Ainda que a música nessa parte não fosse estrondosa, ainda era bem alta e irritante, na mesma batida desde que cheguei ao local.
Seria possível que meu dia se resumiria a isso? Fracassos e música alta?
Avistei uma mesa e apressei o passo. Completamente vazia, sem ninguém ao redor. Eu andava um pouquinho mais rápido, nunca se poderia saber se alguém também não avistara aquela oportunidade. Bem ao lado do bar do restaurante e mais distante da música, aquela mesa era um sonho.
Sentei-me nela sem hesitação alguma e suspirei. Talvez esse fosse o meu momento, o ponto alto do meu dia. Não me arrependia. Poderia finalmente pedir uma nova bebida, quem sabe até um tira-gosto e, depois, quem sabe, arriscar um pouco na pista de dança. Tentar algo novo e diferente uma vez na minha vida. Algo realmente diferente de tudo o que esperava.
— Hm. Será que você poderia sair da minha mesa? – Uma voz feminina falou ao meu lado e me virei para a garota parada com uma taça de vinho na mão.
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