Galatéia
1 Capítulo 1
— Tragam o próximo lote.
O rei Pigmalião estava sentado no seu trono de marfim e ouro, com os olhos semicerrados de ódio. Séculos depois, tamanha expressão de ira só seria vista no anjo caído de Cabanel. O queixo do jovem estava apoiado na mão e ele batia os pés impacientemente. A mãe dele, sentada respeitosamente em uma cadeira dourado do lado do trono, estava começando a sentir dor nas costas por ficar tanto tempo naquela posição.
— Uma hora você vai ter que casar, filho — Ela suspirou.
Lafos estava lá fazia pelo menos três horas, assistindo a fila sem fim de pretendentes descartadas. Lentamente, o tédio estava se tornando raiva. Eram três horas ali, mas seis meses naquela luta.
Pigmalião era o único filho dela, então quando o rei morreu, ele ascendeu o trono como previsto. No início, tudo decorreu bem, transições de poder podem ser complicadas, ainda mais para governantes jovens, mas, até aquele momento, não havia golpes, conspirações ou motins.
Até o momento.
O problema veio depois da coroação. Se supõe que um rei dê continuação à linhagem, gere uma quantidade decente de herdeiros. E Pigmalião era deficiente nessa tarefa.
Começou rejeitando as nobres. Uma áaáaáaaatinha o nariz grande demais, outra tinha o rosto muito comum para o seu gosto, a filha mais velha do general tinha olhos muito pequenos enquanto a mais nova tinha olhos grandes demais, a prima distante tinha bochechas muito grandes, outra tinha rosto muito corado… Isso gerou uma pontada de irritação em Lafos e um pouco mais que uma pontada nos nobres.
Mas ela engoliu. Tudo bem, talvez fosse melhor que a esposa não fosse da nobreza. Nobres são conhecidamente gananciosos e não seria a primeira vez que a família de uma esposa mata o rei para o filho tomar o trono. Assim, ela resolveu recorrer às filhas dos comerciantes mais ricos.
A mesma coisa. Então, fileiras e mais fileiras de jovens recusadas. A certo ponto, Lafos estava exasperada e chamou o filho para uma conversa no canto da sala.
— Olha, em Esparta, é comum que homens não se atraiam por mulheres — Ela o olhou incisivamente — Mas eles cumprem o dever e geram filhos.
Parecia fazer sentido. Ela não lembra a dele tendo amantes na juventude, nem se aproximando de meninas. Sempre trancado com suas esculturas de Apolo, Ares e outros deuses.
— Não é o caso. Vou me casar com a mulher certa.
E parecia que a mulher certa nunca chegava. Lafos reclinou o pescoço na cadeira e suspirou enquanto mais uma fila de jovens entrava no palácio. A certo ponto, ela foi obrigada a lançar anúncio entre a plebe, convidando as garotas mais bonitas a se candidatarem.
Cinco garotas ficaram paradas de frente ao rei. A primeira era morena, com alguns fios acobreados entre o castanho, com olhos verdes, alta e de cintura fina. A segunda também era morena, mais baixa, mais curvilínea, com rosto em formato de coração, covinhas e olhos cor de mel. A terceira tinha cabelo ruivo correndo até os quadris, magra e tinha olhos castanhos grandes. A quarta tinha cabelos loiros, olhos azuis violetas e um rosto delicado e era a menor entre elas. A quinta tinha cabelos lisos e negros como a asa de um corvo, tinha a pele extremamente branca e olhos oblíquos da mesma cor que o cabelo.
Pareciam bonitas para Lafos. Mas é claro, as anteriores também pareciam bonitas para ela.
Pigmalião estralou os lábios de desdém.
— A menina loira é baixa demais, não quero essa.
A garota deu um passo a frente, possível que cogitasse a debater, mas a visão dos soldados do rei estendendo as lanças a fez recuar. Saiu do salão silenciosamente, com a expressão indignada. Lafos sentia um impulso de gritar dizendo que a garota estava dentro dos limites de altura que ele estabeleceu no anúncio.
O rei apontou para a primeira da fila.
— Não gostei das sobrancelhas dela.
Lafos explodiu.
— O que tem de errado com as sobrancelhas dela, por Hera?
— Me parecem assimétricas.
— Me dê uma linha e eu corrijo no formato que você quiser — Sim, o desespero era tanto.
— Mas sempre vão crescer no formato errado. Moça, se retire.
Ele parou e continuou analisando minuciosamente cada uma das restantes. Lafos era esperta o suficiente para saber que ele estava fazendo uma única coisa: caçando defeitos.
— Podem tirar as túnicas.
Na primeira vez que ele fez isso, Lafos quase teve uma síncope. Mas com o tempo, aquilo virou o padrão quando o rei não achava defeitos nos rostos. As garotas sempre pareciam constrangidas.
— Você envergonha as moças — A antiga rainha disse — Que prazer você tira disso?
— Eu preciso de uma esposa perfeita. E isso não importa, sei como são os hábitos das mulheres de Chipre. Devem ser mais usadas que as éguas reais.
Lafos se perguntava constantemente onde tinha errado para acabar nessa vida. Ela, que foi sacerdotisa de Afrodite, se sentia particularmente ofendida.
— A ruiva tem seios pequenos demais. Parecem limõezinhos, vão azedar.
Os olhos da garota lacrimejaram antes dela se retirar da sala. Uma garota tão bonita, a rainha pensou, não merecia passar por isso.
— A segunda tem seios grandes demais. Parecem que já estão caindo. Já teve filhos?
— Não, senhor — A garota respondeu, de cabeça baixa.
— Pois eles vão virar uma tragédia quando os tiver. Saia.
Então só restou uma. A rainha mãe teve um leve vislumbre de esperança.
— Você é daqui? — O rei perguntou.
— Nasci aqui, mas meu pai é um mercador do leste.
Lafos fechou os olhos e pensou que seria naquele momento que ele iria chutar a menina do palácio.
— Seus mamilos são claros. Isso é raro entre as mulheres do leste — E mamilos claros também estavam na lista de exigência dele, a rainha lembrou com pesar.
— Ah, obrigado? — A pobre coitada nem sabia o que dizer ante isso.
A rainha começou a criar expectativa. Talvez fosse essa, tudo o que ele quisesse fosse uma estrangeira. Ah, poderia gerar um rebuliço na corte, mas desde que tivesse um herdeiro, valeria a pena.
— Deite no chão e abra as pernas.
Lafos deu um salto na cadeira.
— Nos temos limites aqui!
— É só uma filha qualquer de um comerciante.
— Não importa. Você vai conseguir um montim nos portões quando todos os comerciantes decidirem que Chipre não tem respeito por nada!
A menina estava parada, parecendo estar aterrorizada e chocada. Aquilo não estava nos planos dela.
— Guardas, podem deitar ela na posição? — o rei pediu.
— Não! — Lafos apontou pra eles — Parados aí.
— Eu sou o rei.
Os guardas hesitaram por alguns segundos, se entreolhando. Por fim, obedeceram ao rei. Lafos assistiu imóvel enquanto a garota se debatia por alguns instantes até ficar deitada no chão, parada e chorando. Ela queria enfiar a cabeça no piso de mármore, tinha definitivamente errado na criação do filho. Não sabia onde, mas tinha a certeza daquilo. Deve ter sido o professor ateniense que contratou para ensinar filosofia a ele. Sabia que não devia confiar nos moralistas atenienses.
— Viram? Os lábios dela são escuros. Deve ter tingido os mamilos para passar nos critérios — Ele falava como se fosse um grande mistério resolvido — E os lábios são grandes demais também. Eu deveria jogar água nela até sair a tinta. Odeio engodos.
Lafos estava com as unhas cravadas na cadeira, fervendo de ódio.
— Não se atreva. Você não a quer, a solte.
Por fim, soltaram a menina, que correu para a saída do palácio.
— Tragam as próximas — O rei falou, novamente voltando para a expressão de ira por estar obrigado a escolher alguém.
— Não, já basta por hoje. Saiam todos daqui.
Novamente, um momento de hesitação. Houve uma época que ela era obedecida imediatamente, mas parecia que a morte do marido a fez obsoleta, apenas um sombra da antiga autoridade. Como o rei não contestou, os soldados preferiram sair.
Lafos se levantou e olhou para o filho. Tão bonito e inteligente. Seu menininho artista que esculpia coisas que pareciam vivas. E também aquilo.
— Você é um idiota — Segurou o queixo dele — O povo vai ser revoltar, os nobres e os comerciantes estão ofendidos com a desfeita que você fez às filhas deles. Você não tem herdeiros. Vão conspirar contra você e vão enfiar uma faca na sua garganta. Todo o trabalho que seu pai teve, o trabalho que tive garantindo apoio dos sacerdotes, tudo o que todos seus ancestrais fizeram, vai virar pó.
— Não exagere.
— Não estou exagerando. Isso acaba agora. Vou mandar um mensageiro para Atenas, você quer uma mulher virgem, ótimo, vou conseguir uma nobre de lá. Não importa a aparência dela, você vai casar com ela e vai fazer um filho, nem que eu tenha que pedir auxilio a um sacerdote de Apolo para fazer um tônico para isso.
Pigmalião começou a esculpir com sete anos. Quando ia para a orla, pegava pedrinhas e esfregava as mais duras nas menos compactas até moldar formas simples: Triângulos, quadrados, círculos imperfeitos. Com o tempo, seu pai, observando esse talento, contratou os melhores escultores de toda a Grécia para ele.
Ao passar dos anos, as formas deram origens a animais, que depois evoluíram para esculturas de humanos e depois de deuses. Ele passava a maior parte do dia esculpindo e quando não estava fazendo isso, estava se exercitando, via seu corpo como uma obra viva — Inclusive baseou o corpo de Apolo no seu próprio. Assim, pode-se dizer que Pigmalião tinha duas obsessões: A beleza e a esculpir, que talvez fossem a mesma coisa.
No entanto, ele nunca tinha feito uma forma feminina. Ele nem sabia o porquê direito.
Ele olhou para o pedaço de mármore mais branco da sala. Talvez ele devesse fazer uma mulher. Uma mulher bonita de verdade. Algo mais perfeito que a Natureza e os próprios deuses poderiam criar.
Uma estátua de Afrodite? Não, seria elogioso demais para sua mãe, sacerdotisa da deusa. Ele não queria Atena, uma guerreira ou Hera, que certamente devia ter o corpo de uma matrona. Ele iria fazer uma criação apenas sua, nada de réplica do que existisse.
Uma donzela branca. Galatéia.
Em certo ponto, ele não sabia se estava inspirado ou louco pela obra. Só parava de esculpir para comer e dormir, deixando os exercícios de lado — Esculpir já não era o suficiente para os braços?—. Parecia que seus ânimos estavam exaltados, que tinha o dobro na energia de um homem comum. Ele começou a sonhar com a obra pronta, cada detalhe, até o formato das unhas. Enquanto fazia qualquer coisa que não fosse esculpir, ele pensava na estátua, planejando o que faria em seguida. Pigmalião tentava suprimir esses pensamentos, mas parecia que eram mais fortes que ele.
A ansiedade só passava quando ele estava com o cinzel na mão, mas não durava muito, logo era substituída pela angústia de errar e perder tudo. E o erro era inevitável. Uma vez, espirrou e acidentalmente gerou uma rachadura no braço da estátua, outra vez, sua mãe estava esmurrando a porta, gritando algo sobre obrigações e ele acabou afundando mais do que devia.
Com o tempo, os erros iam se somando e partes corpo esculpidas se acumulavam pelo quarto dele, quase como uma dezena de mulheres esquartejadas. Um rosto que os olhos ficaram grandes demais, sobrancelhas assimétricas, bustos grandes, pequenos demais ou que racharam.
As horas de sono reduziram pela metade, ele não sentia mais tanta necessidade de dormir. Ele alternava em ciclos: quando um segmento ficava como ele queria, se sentia o melhor escultor do mundo, aquele que atingiu a perfeição, mas quando errava novamente, sentia vontade de pular da janela. Só não pulava porque a ideia de deixar a obra incompleta era mais dilacerante.
Então, depois de sete meses assim, a estátua ficou pronta.
Exausto, exaurido a ponto de nem conseguir levantar os braços direito, Pigmalião olhou para a estátua e soube que valeu a pena. Era a mulher mais linda que ele já tinha visto. Traçados do rosto perfeitamente simétricos, cabelos longos e ondulados caindo até os quadris largos, cintura fina e seios do tamanho ideal. Os braços, pernas e abdome eram tonificados da maneira certa, sem ser musculosa.
Ainda faltava algo para ressaltar a beleza mais ainda. Pigmalião pegou as joias do cofre real e começou a adornar a estátua. Um colar de topázios no pescoço gracioso. Anéis de ouro branco e safira nos dedos. Tornozeleiras de ouro rosé. Lenços caros do oriente nos ombros desnudos.
Tão perfeita que parecia estar viva, que iria irromper da pedra e começaria a respirar. Mas quando encostou nela, continuava fria como uma pedra que era.
Então, por alguma razão desconhecida, Pigmalião se deitou no chão e começou a chorar.
— Vai chorar o dia inteiro? — Uma voz feminina zombou.
Pigmalião se voltou abruptamente, e lá, sentada de pernas cruzadas na sua bancada, estava a mulher mais linda que ele viu na vida. O cabelo dela era vermelho escuro de verdade, como sangue, não o cobre alaranjado das ruivas e nem o tom artificial das que tingiam o cabelo. Os olhos eram oblíquos e escuros. Lábios tão vermelhos quanto o cabelo. Estava coberta com uma túnica preta e com joias de ouro. Era absolutamente simétrica e com as proporções perfeitas de acordo com Pigmalião, que treinou os olhos para qualquer mínimo defeito em uma mulher.
Ela batia as unhas vermelhas lentamente na bancada, com uma expressão de desdém. Por um segundo, Pigmalião pensou que as unhas pareciam garras.
— Você sabe quem sou eu? — Os lábios se curvaram.
Ele se ajoelhou imediatamente.
— Afrodite.
De joelhos, ele via que até os pés dela eram perfeitos. "Aqui está uma coisa que nem eu conseguiria recriar em marmore", pensou.
Ela correu as unhas pelo couro cabeludo dele, o fazendo sentir um arrepio desde a base da coluna até o pescoço. Ele cogitou que talvez fosse ser um dos mortais afortunados que dormiria com uma deusa. Certamente ele se achava bonito o suficiente para tal feito.
— Me diga, mortal, o que você deseja?
Naturalmente, tudo nessa vida tem um preço, mas Pigmalião estava muito empolgado. Sabia que se dissesse "você" para a deusa, poderia acabar sendo rejeitado — O que seria uma dor muitíssimo profunda para ele — e que Afrodite jamais desceria do Olimpo para ser sua esposa. Então, ele se voltou para a estátua.
— Ela, eu a amo.
A deusa piscou lentamente.
— A estátua — disse — Por que você ama a estátua?
Ele correu os dedos pelos braços de marfim.
— Por que ela é perfeita.
— Ah, sim — Ele não sabia se a deusa estava concordando ou zombando dele.
— Se você a trazer a vida, vou financiar os maiores festivais em sua honra, maiores do que o de Palea. Vou encher os cofres de seus templos de ouro e eu mesmo vou fazer as melhores obras de arte.
A fala não gerou resultado, a mesma expressão zombeteira.
— Você acha que posso ser comprada?
Ele notou que estava no limiar do perigo. Deuses e deusas não eram conhecidos por sua benevolência. Pigmalião se jogou aos pés da divinidade.
— Não, jamais, minha deusa. Eu faria isso como maneira de expressar minha gratidão. Entenda a minha dor, procuro por uma mulher como ela a meses, minha própria família me vê como um louco e a única mulher que amo é de mármore.
A deusa sorriu. Com a luz brilhando do ângulo certo pelas janelas, Pigmalião notou que os dentes dela eram suspeitosamente afiados e os olhos, tão rubros quanto o cabelo em vez de castanhos.
Ele piscou e os dentes dela se tornaram retos e os olhos castanhos escuros ao segundo olhar. Dessa vez, o arrepios que o cruzou não foi tão bom. Pela primeira vez, ele notou que os deuses eram feitos de matéria muito diferente da sua. Não eram entidades benevolentes. Ele recuou um passo para trás.
— Tudo bem, vou te ajudar — Ela deslizou as mãos pelo braço da estátua — Ela está incolor, me diga que cor quer para o cabelo.
Pigmalião parou e pensou.
— Loiro, o mais claro que puder.
Imediatamente, o mármore começou a tomar a cor do trigo.
— Assim está bom?
— Perfeito.
— Os olhos?
— Azuis como o céu.
Novamente, o mármore assumiu a cor.
— E a pele?
— Alva como marfim, a minha Galatéia.
Assim, colorida, a estátua parecia mais viva, muito mais mulher do que pedra. O coração de Pigmalião não parava de acelerar, ele sentia como se a cada segundo, Afrodite poderia desistir ou sumir. Talvez ele acordasse e tudo não passasse de um sonho.
Afrodite se virou para ele.
— E a alma dela?
— A alma? — Pigmalião pareceu confuso.
— É.
Ele deu os ombros.
— Ah, não importa.
Se ele fosse esperto, teria notado que a expressão no rosto de Afrodite era triunfo. Teria notado que a alma era uma coisa muito importante. Que corpos sem almas podem ser preenchidas por qualquer coisa.
Mas ele estava ocupado demais olhando para a beleza da sua criação começando a respirar. Sua obra perfeita.
Tudo foi idílico por um tempo. Chipre se sentiu abençoada pela própria Afrodite ter descido a terra para gerar a rainha. Pigmalião estava feliz com sua esposa perfeita. Lafos estava respirando aliviada pelo horizonte sem golpes de estado. E as sacerdotisas de Afrodite estavam muito felizes com todo aquele financiamento, é claro.
Nada dura para sempre.
Era tardezinha, aquele ponto do dia em que o sol começa a esmaecer e o céu fica alaranjado. Pigmalião tinha acabado de sair de uma reunião com os conselheiros bastante exaustiva. Uma frescura interminável sobre apoiar Creta ou Atenas que estavam se matando — de novo — com disputas comerciais. Se você apoia Creta, Atenas vira as costas pra você. Se apoia Atenas, Creta nunca mais vai trocar uma moeda com você. Se você se mantém em cima do muro, tem risco das duas se irritarem e cessarem com o comércio.
As têmporas dele doíam. Então, ele resolveu dar umas voltinhas pelos jardins reais. Quem sabe pegar algumas flores e entregar para Galatéia. Ela adorava fazer coroas de flores.
Chegando nos jardins, ela já estava sentada na grama, olhando as flores pensativamente. A expressão estava impassível.
— Olá, amor — Ela deu um sorriso estranho, com muitos dentes. Pareceu forçado.
Pigmalião decidiu que ela não estava de bom humor. Nunca tinha visto Galatéia mal-humorada, mas todos tem seus dias. Aliás, ele já tinha visto a mãe assim.
Sabiamente, resolveu recuar.
— Eu iria trazer flores pra você, mas acho que você já estragou a surpresa — Deu uma risadinha.
Ela continuou com aquele sorriso. Pigmalião reparou que ela não tinha piscado desde o início da conversa.
Era um pouquinho estranho. Uma pequena parte dele ficou assustado com aquela expressão, mas ele enterrou essa parte. Não iria ficar com medo da própria esposa, que estava sentadinha e inofensiva cercada de florzinhas rosas.
— Acho que vou tirar um cochilo, a tarde está tão gostosa — E essa foi a deixa pra ele sair dali.
Logo, ele entrou no palácio de novo e fechou a porta do corredor que dava para o jardim atrás dele. Encostou o corpo na porta de madeira e suspirou. Que coisa estranha.
— Olá, amor.
Galatéia estava no meio do corredor, semi oculta pelas colunas. O rosto estava fixado naquele sorriso estranho. Tinha uma coroa de anemones vermelhas na cabeça dela. Vermelhas como sangue.
Pigmalião congelou. Não tinha como ela ter entrado ali sem que ele visse, chegado no meio do corredor mais rápido que ele. E ela estava sem coroa na última vez que a viu.
Não era normal.
— Oi, meu amor — Ele disse e sabiamente, correu para o quarto.
Correu mesmo. Descaradamente.
Assim que abriu a porta do quarto, viu sua esposa. Reclinada na cama, que estava coberta de sangue, anemones e olhos humanos. Ela pousava os olhos nas mãos e os transformava em anemones. Galatéia levantou a cabeça para o olhar. Uma parte dele soube que só faltavam duas anemones para terminar a coroa no colo dela. Só faltavam os olhos dele.
Os olhos brilhavam, vermelhos vivo. O sorriso era amplo e cheio de dentes afiados. Um filete de sangue escorria do canto da boca dela.
— Olá, amor.
Pigmalião gritou. Tentou virar para trás e correr, mas seu corpo congelou, como se não o obedecesse. Os membros estavam pesados, como se ele estivesse imerso em areia. Lentamente, ela levantou da cama, indo na direção dele.
E quando ela parou a centímetros do rosto dele… Pigmalião acordou.
Não acordou graciosamente, diga-se de passagem, deu um salto e arfou. Fixou o olhar no teto, pintados com desenhos dos olimpíanos — Ele ignorou como Afrodite parecia divertida — até se convencer que era um pesadelo.
Então, sentiu um peso no peito.
Era sua esposa, dormindo apoiada nele. Ele passou os dedos pelos fios loiros do cabelo dela, tentando se acalmar. Era só um pesadelo. Só um pesadelo.
Ela abriu os olhos e sorriu. Um sorriso amplo demais. Afiado demais.
— Olá, amor.
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