Gabriel
1 Prólogo - Antes do Começo
Esta era a parte que Lorenzo detestava: a espreita, a espera, e o fato de que seus joelhos e sua coluna doíam por permanecer tanto tempo na mesma posição — mais de vinte minutos, imóvel, encolhido na sombra de um beco que fedia a lixo e chuva velha.
Seu corpo inteiro vibrava de energia contida. As pontas dos dedos tamborilavam no cano da pump, e seus olhos castanhos varriam cada sombra que se mexia, como se dali fosse surgir alguma entidade. O que, é bom esclarecer, não era impossível — longe disso.
Foi por isso que Lorenzo nem piscou quando a luz do poste tremeluziu, fazendo a sombra atrás dele vacilar por um segundo antes de começar a tomar forma: uma poça de piche erguendo-se do asfalto, retorcendo-se como alguém em plena convulsão.
Nos primeiros instantes, a forma era algo indefinido — uma ameba se debatendo feito uma vítima de um AVC. Mas, aos poucos, foi ganhando contorno. O piche se esticou nas extremidades, e braços e pernas surgiram. A massa amorfa foi se alongando, virando um tronco, depois um quadril, pernas. Em seguida veio um pescoço, e por fim uma cabeça. Quando a criatura, já em formato humanoide, deu um passo à frente e entrou no facho de luz do poste, Lorenzo finalmente pôde ver o seu rosto.
Um rosto absurdamente bonito, quase surreal, de traços perfeitos e expressão serena — tão assombrosamente belo que era possível saber, só de olhar, que aquilo não era humano. Foi nesse instante que Lorenzo abandonou seu esconderijo e caminhou, a passos calmos, na direção do estranho.
O cano da espingarda apontava para o chão. As solas de suas botas quase não faziam ruído contra o concreto, e ele avançava contra a brisa noturna — um cuidado calculado, para impedir que o desconhecido o farejasse. Mas, mesmo assim, mesmo com toda a cautela, o sujeito inclinou a cabeça para o lado, como se soubesse exatamente onde Lorenzo estava.
— Eu realmente não queria que as coisas terminassem assim — disse o homem. Porque, naquele momento, a criatura vinda das sombras tinha a forma de um homem.
Alto, de pele morena e cabelo negro, com os olhos encobertos pela franja e, mesmo assim, brilhavam por entre as mechas como os de um gato na semiescuridão do beco. O queixo era retangular, os lábios vermelhos, os ombros largos, os braços fortes, a cintura afilada, o quadril estreito, as pernas grossas e bem definidas. Seu porte lembrava o de um nadador profissional; sua postura, a de um descendente de nobres. A criatura era a epítome da perfeição — mesmo vestindo apenas jeans, tênis e camiseta.
— Regras são regras — Lorenzo deu de ombros e ergueu a arma devagar, engatilhando-a com um escorregar seco do tambor. O homem se virou e deu um passo em sua direção, o que permitiu que a luz fraca do poste o iluminasse por inteiro.
Foi então que seus olhos, agora revelados, mostraram-se de um tom acobreado — e os lábios vermelhos não eram assim só pela cor natural, mas pelo sangue que os manchava. Sangue que também escorria da ponta dos dedos.
— Vocês, humanos estúpidos. Reproduzem-se como pragas, invadindo o nosso espaço, roubando o nosso território...
— Iada, iada, iada. Terminou? — Lorenzo revirou os olhos, com deboche. O discurso era sempre o mesmo, repetido à exaustão havia gerações: humanos eram uma praga, o mundo era deles antes de existirmos, só serviam de brinquedo e refeição, blá, blá, blá. Lorenzo estava nessa estrada havia nove anos e já estava farto de ouvir a mesma ladainha.
O sujeito estreitou os olhos, visivelmente irritado por ter sido interrompido — ou zombado — e torceu os lábios, deixando à mostra dentes afiados e manchados de sangue.
— Terminei — declarou. E o rosto bonito se contorceu, transformando a criatura antes esplêndida em algo horripilantemente feio. Quando ele saltou na direção de Lorenzo, presas arreganhadas e garras em riste, o caçador nem piscou diante do ataque. Apenas suspirou — e atirou.
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