Gabriel

2 Prólogo 2 - Anjos, Demônios e Caçadores


É preciso esclarecer alguns pontos importantes antes desta história começar.

O ano é 2022, o século é o vinte e um, e o planeta é a Terra. Os seres vivos inteligentes que habitavam este planeta se dividiam dentro das seguintes categorias:

Humanos.

Humanos sobrenaturais (feiticeiros, médiuns, simpatizantes, hippies — o que fosse).

Criaturas sobrenaturais (lobisomens, vampiros, chupa-cabra, Papai Noel — o que preferir).

Demônios.

E anjos.

A existência dos dois primeiros grupos nunca foi grande surpresa. Histórias sobre eles são contadas há gerações — mitos e lendas com mais verdade do que fantasia, disseminados boca a boca, pela internet, por livros, contos, cinema, televisão, por qualquer meio possível.

Mas anjos e demônios? Bem. Essa era, literalmente, outra história.

A primeira coisa que sempre precisa ser esclarecida é: quando se fala de anjos e demônios, não são as suas versões bíblicas. Lúcifer e sua batalha contra o Arcanjo Miguel, o Apocalipse — nada disso se encaixava no atual contexto. E se este tipo de anjo existe, ninguém nunca o viu para confirmar. Ou, se viu, não foi levado a sério — é irônico como o ser humano afirma ser uma criatura de fé, capaz de aceitar a existência de Deus, mas chama de louco quem diz vê-Lo ou ouvi-Lo.

A nomenclatura, na verdade, era só um padrão fonético. As raças não se chamavam assim entre si — seus nomes originais eram impronunciáveis em qualquer língua humana — e, com o tempo, acabaram rotuladas conforme suas características, seguindo as criaturas mitológicas mais parecidas. Mas as suas origens não têm nada de bíblico.

Demônios não eram almas torturadas condenadas ao Inferno.

Ganharam o nome porque eram sedução e luxúria.

Eram, também, duas caras, letais, capazes de amar e matar em dois compassos diferentes — quase como as antigas escrituras descreviam as influências demoníacas.

Fora isso, a existência deles era bem mundana. Sangravam de um vermelho intenso como qualquer humano. Faziam sexo e se reproduziam como qualquer humano.

Sua origem, porém, seguia desconhecida — talvez uma mutação, uma bifurcação do DNA humano lá na transição de unicelular para pluricelular. Era a teoria mais aceita, apesar do ódio que os demônios nutriam pela raça que, em tese, seria sua prima distante. Nenhum humano jamais conseguiu provar o parentesco. A biologia demoníaca continuava sendo um campo pouco estudado — a falta de voluntários dispostos a colaborar era, digamos, crônica.

O mesmo valia para os anjos.

O nome vinha, provavelmente, das asas — literais, brotando entre as omoplatas — e do hábito de viver em comunidades isoladas de difícil acesso, que chamavam de ninhos.

Quanto mais alto, melhor.

Erguidos no cume de montanhas, em cidades inteiras de gelo, concreto e pedra, os ninhos eram a prova de que os anjos preferiam manter distância dos humanos — afinal, não havia como esconder as asas dos desavisados.

Na prática, desprezavam a humanidade, considerando-a inferior, e como não podiam escapar de dividir o planeta com ela, ao menos encontraram um jeito de ignorá-la. Cordilheiras geladas, sempre sob neblina, onde nem avião conseguia pousar, eram a camuflagem perfeita contra olhares curiosos.

Demônios eram outra história.

Conviviam com humanos, misturavam-se a eles e, às vezes, por diversão, os torturavam e estripavam. Moral duvidosa, nenhum apego à vida alheia — sobretudo à humana —, um lado animal instável e movido a instinto, sendo o principal deles a conquista de território. Predadores alfa, precisavam se sentir superiores a tudo e a todos. Nem todo demônio era um psicopata em potencial, mas também não era exceção.

Ao contrário dos anjos, os demônios preferiam o subterrâneo — os covis. Sensíveis às variações de temperatura, sobretudo ao calor cada vez mais absurdo das mudanças climáticas, escondiam-se onde essa oscilação era quase nula: cavernas tendem a ser frias, não o oposto. Daí a lógica cruel do apelido dado pelos humanos: demônios nas profundezas do submundo, anjos no topo dos picos, quase tocando o céu.

Ao menos era essa a conversa para boi dormir contada nas escolas, disfarçada de mito, lenda urbana, folclore — a versão dos ignorantes sobre o verdadeiro mundo sobrenatural.

Lorenzo sabia diferente. Havia sido educado de forma diferente.

Anjos não eram tão angelicais quanto o nome sugeria, e demônios não eram tão demoníacos assim. Na verdade, as duas raças eram duas crianças mimadas que não sabiam conviver. Existiam desde que o mundo era mundo e, desde então, viviam brigando pelos motivos mais fúteis — os Montecchio e Capuleto da vida real. A razão original da rivalidade se perdeu há eras; hoje, quando seus caminhos se cruzam, a reação é puro reflexo. O desprezo mútuo parecia estar codificado no DNA de ambos.

Anjos eram irritantemente moralistas, seguidores de regras arcaicas do ponto de vista humano, soberbos ao ponto de causar náusea em quem os conhecia. Absurdamente inteligentes, assustadoramente fortes — física e sobrenaturalmente —, e Lorenzo desconfiava que só não tentaram conquistar o mundo porque eram poucos para vencer a guerra numérica contra os humanos.

Demônios também eram arrogantes, fortes, soberbos, de moral duvidosa e pouco afeitos a regras — na verdade, viviam para quebrá-las, porque achavam o ato deliciosamente desafiador. Muitos não eram lá muito espertos, mas todos eram poderosos. E o tal Apocalipse quase aconteceu por causa de uma picuinha entre as duas espécies — talvez dali tenha nascido a história de Lúcifer e Miguel. O avô de Lorenzo sempre dizia que a Bíblia era uma ótima fonte de pesquisa sobre as duas raças, cheia de descrições codificadas nas entrelinhas.

Outra coisa que o avô de Lorenzo dizia: a humanidade alcançar o topo da evolução — do homo neanderthalensis ao homo sapiens — bem no meio da briga eterna entre anjos e demônios foi o que deu origem aos caçadores.

Caçadores não eram humanos sobrenaturais, nem mestiços (porque, vez ou outra, algum demônio deixava de lado o desprezo por humanos e se envolvia, ainda que brevemente, com um). Eram apenas humanos muito bem treinados e muito bem armados.

Formavam uma família — por sangue, por união legal ou por adoção dentro do clã —, com um único líder por clã, o Patriarca ou a Matriarca, vários vice-líderes e uma tropa de soldados. Uma força paramilitar sem bandeira, sem Estado, que não protegia território, mas pessoas — geralmente as primeiras vítimas de um mundo que ignoravam existir. A função básica era essa: proteger gente e proteger o segredo, porque a humanidade tinha o péssimo histórico de nunca reagir bem ao que não conseguia explicar.

Os caçadores tinham suas próprias regras, o Código de Caçada, que funcionava como lei. O treinamento começava aos sete anos e, ao ser concluído, vinha a caçada de estreia: o aprendiz enviado sozinho, sem supervisão, numa missão de campo que precisava vencer — ou morreria tentando. Isso costumava acontecer aos dezesseis. Se vitorioso, o adolescente era emancipado e solto no mundo como mais um responsável por manter o equilíbrio.

Porque era isso que caçadores faziam: manter o equilíbrio.

Não iam atrás de criaturas sobrenaturais comuns só para garantir a supremacia humana (essas, aliás, davam pouco trabalho). Iam atrás de anjos e demônios para impedir que eles reacendessem guerras de proporções apocalípticas, como tantas outras do passado. Anjos raramente conviviam com humanos, mas os poucos que arriscavam descer da montanha viravam presa fácil para demônios — mais vulneráveis fora de seus ninhos do que pareciam.

E era aí que entravam os caçadores: eliminavam o demônio culpado antes que a legião do anjo morto exigisse vingança e iniciasse um círculo vicioso — um mata o outro, os amigos se vingam, e assim por diante, até restar apenas um lado, com metade da Terra destruída no processo.

Anjos e demônios eram poucos perto da humanidade, mas tinham poder de fogo sobrenatural, e humanos não lidavam bem com o desconhecido — reagiriam com bazucas, tanques, até armas nucleares, se achassem necessário. Bastaria um demônio cabeça-quente arrumando confusão de beco com um anjo perdido para o desastre começar. Exagero? Talvez. Mas os caçadores viviam construindo cenários apocalípticos justamente para evitá-los.

Também caçavam demônios que matavam humanos por puro prazer — já que leis e prisões humanas não bastavam para detê-los —, embora fosse raro um demônio sucumbir tanto assim ao instinto predador; geralmente só acontecia à beira da loucura, quando ficavam tempo demais longe do bando. Mas isso era assunto para outra hora.

Lorenzo não saberia dizer quando, exatamente, esse acordo de equilíbrio começou. Reza a lenda que alguma força superior, cansada da rixa eterna, nomeou os humanos como contrapeso da balança — e, por algum milagre, anjos e demônios respeitaram a decisão. Os caçadores nasceram quando grupos específicos de humanos foram escolhidos, sabe-se lá sob qual critério, para carregar o fardo de um acordo lavrado com magia num livro de regras perdido no tempo.

Lorenzo só sabia que, desde que se entendia por gente, funcionava assim: se um anjo ou demônio ameaçasse o equilíbrio, um caçador ia lá resolver.

Ele já perdera as contas de quantos despachou para a pós-vida qualquer que as suas raças acreditavam. Quantas vezes quase morreu enfrentando um deles. Quais cicatrizes correspondiam a qual batalha, quantos ossos já quebrou, quantas cabeças já estourou com sua fiel pump. A única coisa que Lorenzo não perdeu foi a capacidade de dormir depois de uma caçada.

Moral nunca foi problema para ele. Culpa? Havia esquecido o que era isso havia tempos — sentir-se culpado era receita para morte lenta e dolorosa em campo. O clã os treinava desde cedo para entender que aquela era a missão certa, que o Código devia ser seguido à risca. Mas a consciência, vez ou outra, ainda dava as caras para dizer olá.

Porque anjos e demônios não eram exatamente preto no branco. Nenhum dos dois era o mocinho ou o vilão — eram uma versão bizarra e sobrenatural dos próprios humanos. Bons, maus, qualquer coisa, desde que evitassem o instinto básico de se aniquilar.

O avô de Lorenzo costumava dizer que anjos e demônios eram energias opostas e, ao mesmo tempo, iguais: repeliam-se pelo ódio que sentiam um pelo outro, e se atraíam involuntariamente por esse mesmo ódio. Predadores e presas mútuos, por pura regra da natureza, trazidos à vida por sabe-se lá qual força do universo com o único propósito de se matarem. Mas, longe da guerra, dentro de suas próprias comunidades, eram gente normal — nada dos monstros dos velhos contos de fadas (antes de a Disney chegar e glamourizar tudo) usados para assustar crianças desobedientes.

Lorenzo sabia disso porque estudou muito, pesquisou muito, aprendeu muito sobre as duas raças — o suficiente para caçá-las sem cometer erros tolos que o matassem, ou que o fizessem matar alguém por motivo errado. E aprendeu algumas coisas essenciais: anjos eram criaturas de família — para eles, a legião era tudo. Demônios podiam viver em paz com outras criaturas, bastava ignorar o instinto territorialista e aprender a viver longe da conexão com os covis.

Mas sempre havia aquele segundo em que o bom senso escapava — um anjo topando com um demônio, um anjo deixando a moral de lado, um demônio cedendo ao instinto — e era aí que Lorenzo entrava em cena, à espreita, no meio da madrugada, espingarda carregada, esperando a caça sem lhe dar nem tempo de pensar antes de estourar seus miolos.

Como já dito: nem todo anjo era angelical, nem todo demônio era ruim.

Lorena era um bom exemplo disso.