Gabriel

3 Capítulo 1 - Os Cipriani



A bela Lorena estava deitada sobre a cama como uma obra de arte, o corpo nu iluminado pela luz da lua crescente que entrava pela janela.

Demônios eram fáceis de identificar entre os humanos cientes do mundo sobrenatural, graças à beleza surreal que possuíam — da perfeição física às cores nada convencionais dos olhos. Em seu estado normal, sem garras nem presas, pareciam estátuas de deuses greco-romanos esculpidas em mármore. O que era irônico, porque os anjos — que, pelas histórias, deveriam ser belos a ponto de parecerem irreais — na verdade eram apenas seres alados de aparência humana comum e extremamente antissociais. A beleza deles estava nas asas, não no corpo.

Mas voltando ao assunto: o caso de Lorenzo com Lorena era antigo, embora não tivesse começado de maneira sexual, e ele sabia que não passaria disso — um caso. Assim como sabia que, se alguém do clã Cipriani descobrisse esse relacionamento fora das regras, no mínimo levaria uma bela surra.

Demônios não eram confiáveis, ainda menos perto de caçadores. Muitos já tentaram seduzi-los, descobrir segredos dos clãs, destruir a rede de caça, eliminar o contrapeso da balança para se livrarem das regras — porque, como já dito, demônios viviam para quebrá-las. Fracassaram, claro, mas entraram para a lista de criaturas não confiáveis. Não que alguma criatura sobrenatural fosse confiável — e aqui Lorenzo generalizava de propósito.

Caçadores eram paranoicos por natureza; às vezes não confiavam nem uns nos outros, quanto mais em algo com poderes sobrenaturais.

Mesmo assim, Lorena era só um caso sem peso emocional, quase passageiro — se não fosse a frequência com que ele visitava a cama dela. E se Lorenzo um dia sugerisse transformar aquilo em algo permanente, receberia, no mínimo, uma gargalhada de escárnio como resposta. Demônios não se apegavam a nada e nem a ninguém — prezavam a liberdade acima de tudo, e um parceiro era sinônimo de amarra. Talvez fosse por isso que os anjos os detestassem tanto: aos olhos deles, demônios eram promíscuos, sem caráter.

Lorenzo preferia não julgar ninguém, porque ninguém era perfeito.

— Lorenzo... — Lorena virou-se sob as cobertas, chamando-o num tom melodioso. O cabelo negro descia em ondas sobre o ombro esquerdo, contrastando com a pele morena. Os olhos dourados, como ouro puro, e o sorriso largo e sedutor faziam dela uma visão de tirar o fôlego. — Volta pra cama.

Lorenzo bem que queria, mas a adrenalina de uma caçada costumava levar horas para sair de seu corpo, roubando-lhe o sono e disfarçando o cansaço. Era por isso que sempre recorria a Lorena para queimar aquela energia extra — usava-a, sem meias palavras, como válvula de escape. Gente de fora poderia achar a atitude mesquinha; Lorena não se importava. Pelo contrário: adorava quando um Lorenzo vibrando de adrenalina batia à sua porta e nem dizia "oi" — já entrava, a prensava contra a parede num beijo e começava a arrancar as suas roupas.

— Não. Melhor eu ir. — Ele desceu do parapeito da janela, de onde vigiava a rua deserta daquele subúrbio de Roma. O mais sensato era se vestir e sumir antes que alguém sentisse sua falta.

Era praxe dos caçadores fazer check-in após uma caçada, avisar ao clã de que continuavam vivos, e Lorenzo ainda não tinha feito isso. Tinha uma boa margem de horas, mas Marcelo não sossegaria enquanto não recebesse notícias — Marcelo nunca sossegava quando um dos irmãos estava em campo.

Um celular tocou no quarto — o dele. Levou uns bons dois minutos catando a calça no chão até achar o aparelho no bolso e atender.

— Não sei quem você pensa que engana, Lorenzo, mas eu sei que está com a vadia da Lorena.

Ele abriu a boca para rebater — talvez defender Lorena, que certamente tinha ouvido o "elogio" —, mas quando olhou para ela na cama, Lorena só sorria, como se ofensas fossem coisas corriqueiras demais para lhe tirar o sono.

— Vem para casa agora. Tenho trabalho para você. — A ligação caiu antes que Lorenzo conseguisse dizer qualquer coisa.

— Quem era essa doçura de pessoa? Sua esposa? — Lorena provocou, espreguiçando-se como um gato sobre a cama, exibindo as pernas longas, os seios fartos, o sorriso sacana. Lorenzo sentiu o corpo reagir àquela visão — mas ordem era ordem.

— Muito engraçada. — Ele respondeu com deboche, vestindo a camisa. Lorena sabia bem que Lorenzo não era homem de constituir família. Nem poderia: qualquer esposa que escolhesse teria que vir de outro clã de caçadores, porque nenhum civil — como chamavam os humanos comuns — aguentaria a vida que eles levavam.

Claro, havia exceções. Caçadores que fugiam da convenção e desposavam um civil. A mãe de Lorenzo, Giuliana, foi uma delas, e o casamento durou o suficiente para gerar os cinco meninos que dariam sequência à linhagem Cipriani.

Dois anos após o divórcio, ela morreu numa caçada, e Carmem, sua avó materna, sempre dizia com desprezo que a culpa era do maldito Carlo — o pai — por ter partido o coração de Giuliana a ponto de tirar sua cabeça do trabalho.

Lorenzo tinha dez anos quando a mãe morreu. Marcelo, o mais velho, oito anos mais velho que Lorenzo, foi quem pediu — junto com Carmem — que Carlo abrisse mão da guarda dos irmãos menores. Giovane tinha quatorze e já estava no fim do treinamento; Francesco, oito; Alessandro, apenas três.

Carmem dizia que os netos jamais sobreviveriam como jovens normais, tendo nascido Cipriani. O nome tinha peso, tinha força — e por causa do ofício, nenhum caçador era exatamente querido por anjo, demônio ou qualquer outra criatura. Carregariam um alvo na testa para sempre, mesmo que trocassem o sobrenome pelo do pai — o que Carmem jamais permitiria.

Ao entrar para um clã, a pessoa herdava o nome daquela família. Regra não escrita, mas sabida por todos. Às vezes, só o nome do clã bastava para amedrontar um monstro, mais do que qualquer arma carregada por um caçador.

"Mas nem sobre o meu cadáver decomposto!", Carmem gritara para Carlo quando ele sugeriu a mudança. "E trocar o nome não muda nada. Está no sangue deles. As criaturas farejam um caçador de longe — mesmo que ele não caçe mais, mesmo que não carregue mais o nome de clã algum!"

Lorenzo nunca achou que tivesse cheiro um diferente de qualquer outro humano, mas era treinado para escondê-lo das presas mesmo assim — coisa de alguma lenda sobre a entidade maior, a mesma que escolheu os humanos como contrapeso, ter abençoado (ou amaldiçoado) as famílias de caçadores de forma que qualquer criatura sobrenatural reconhecesse o cheiro do ofício. Lorenzo suspeitava que fosse, na real, só o cheiro de pólvora, metal, óleo de limpeza de arma e sangue — companhia constante de qualquer caçador — que os denunciava as criaturas sobrenaturais.

Ah, e caçadores também lembravam a máfia — conexões, dinheiro, tudo. A diferença é que os negócios da família eram legais. As conexões, nem tanto. E foram justamente esses negócios que os tornaram ricos e influentes onde quer que atuassem. Quando o clã era antigo e vasto como os Cipriani, a fama ultrapassava até as fronteiras da Itália.

Os Cipriani vieram originalmente da ilha de Chipre — daí o nome — e ali fincaram seu primeiro território. Durante a expansão do Império Romano, porém, a maioria dos antepassados foi parar no continente e montou base em Roma, cidade que hoje era território deles.

A matriarca era Carmem, avó de Lorenzo — a mesma que tinha acabado de ligar dizendo saber exatamente o que ele estava fazendo, com quem, e que era bom voltar para casa imediatamente. Só a lembrança bastou para apagar qualquer animação que restasse nele, o que ao menos facilitou vestir a calça.

— Que pena. Eu estava pronta para a segunda rodada. — Lorena comentou, entreabrindo as pernas num convite silencioso. Lorenzo engoliu em seco e enfiou a camisa pela cabeça mais rápido do que pretendia. — Acho que vou ter que terminar essa brincadeira sozinha.

Uma pena mesmo, ele pensou, calçando as botas antes de vestir a jaqueta de couro negra, gasta pelo tempo, e sua fiel companheira havia anos.

— Pensa em mim enquanto brinca. — Ele se debruçou sobre a cama, capturando os lábios úmidos dela num beijo longo, cheio de promessas que teriam que esperar outro dia para serem cumpridas.

Lorena riu quando ele se afastou, e ainda mandou mais um beijo no ar, seguido de uma piscadela, quando Lorenzo pegou o capacete e saiu pela porta rumo à Kawasaki Ninja estacionada sob o poste de luz.

A moto sempre foi a melhor amiga de um caçador — ainda mais em Roma, de ruas estreitas e atividade sobrenatural irritantemente alta, sempre garantindo alguma perseguição. Lorenzo era rápido quando precisava correr, mas existiam criaturas que pareciam a cruza do Papa-Léguas com o Ligeirinho, capazes de deixar até Usain Bolt para trás. Daí a Kawasaki. O único problema era que motos dificultavam carregar muito armamento — e, mesmo que desse, chamaria atenção demais.

Criaturas sobrenaturais circulavam entre os humanos, mas nem toda a humanidade sabia disso. O pior ignorante era sempre quem não queria ver — e esses, Lorenzo achava, eram os mais felizes de todos. O problema era que, entre esses ignorantes, estavam algumas autoridades. Leia-se: a polícia.

Não se enganem: os figurões sabiam do submundo sobrenatural — sabiam sobre os demônios, anjos e caçadores. Eram eles que acionavam os clãs diante de crimes fora da alçada comum. O problema mesmo era o nível operacional. Um incômodo que os caçadores preferiam evitar.

Lorenzo não tinha paciência para aplicar o manual de desculpas padrão e explicar porque carregava uma escopeta em plena luz do dia, no meio das ruínas do Fórum Romano, cercado de turistas. E ter a polícia no meio de uma caçada, investigando o que achavam ser um assassinato comum (não era), atrapalhava mais do que ajudava.

Por sorte, quanto a esconder armamento, Roma tinha buracos de sobra — restos do antigo império, perfeitos como esconderijo — e foi para um desses que Lorenzo apontou a moto e disparou a toda velocidade.

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A Praça Navona era um dos pontos turísticos mais visitados de Roma pela manhã, com os seus prédios antigos com restaurantes tipicamente romanos no térreo, tão atraentes quanto as fontes. Mais da metade daqueles estabelecimentos — e o prédio onde ficavam — pertencia à família Cipriani. Mas quem pensasse que o quartel-general do clã ficava ali dentro se enganava.

O QG era a praça.

Literalmente a praça.

Ou, melhor dizendo: debaixo dela.

Poucos sabiam que existia uma Roma sob Roma — assim como poucos sabiam que a Roma antiga ainda persistia sob a nova. Arqueólogos acreditavam que as ruínas do império tinham desaparecido de vez, até um projeto de metrô revelar a cidade escondida sob a cidade. O metrô foi engavetado; pedaços de Roma viraram sítios arqueológicos a céu aberto; outros seguiam sendo escavados. A Praça Navona, porém, era exceção — quando os pesquisadores chegaram perto demais, os Cipriani usaram sua influência para afastá-los, porque, se algum dia descobrissem o que havia ali embaixo, teriam orgasmos múltiplos.

O que existia sob a praça não eram ruínas comuns, mas uma estrutura impressionantemente bem preservada de salas, câmaras, salões e túneis, usada pelos Cipriani havia gerações. Uma pesquisa interna do clã concluiu que o local fora, num passado distante, uma universidade — provavelmente abandonada com a queda do império, e cuja estrutura sobrevivera de forma quase milagrosa, embora não exatamente confiável sem reforço.

Hoje, a velha universidade escondia sua idade sob camadas de arquitetura e engenharia moderna: paredes reforçadas, fiação elétrica correndo por cilindros ao longo dos corredores, acompanhando os rodapés — os engenheiros responsáveis pela última reforma haviam evitado abrir buracos nas paredes originais, então tomadas e luminárias ficaram todas expostas, como veias metálicas sobre pedra antiga.

Dos nove grandes salões que a universidade possuía, quatro sobreviveram intactos e foram restaurados: um virou refeitório, outro biblioteca, o terceiro ginásio de treinamento, o quarto sala de conferência. Um complexo de padrão militar disfarçado de relíquia histórica — daria inveja a qualquer exército do mundo. Câmaras menores serviam de escritório, e Lorenzo lançou um "oi" para Marcelo ao passar pela porta da sala dele.

Em cinco das vinte e duas antigas salas de aula se concentravam os gênios da computação — nem todo Cipriani tinha vocação para arma e punho, e uma caçada exigia mais do que tiro. Boa parte do trabalho era investigativo, quase policial, porque ninguém confiava cegamente na palavra de um demônio, de um anjo ou de uma testemunha humana traumatizada demais para saber o que realmente viu. Às vezes a morte de um anjo ou demônio nada tinha a ver com a rivalidade ancestral — mas sim pura briga sobrenatural de outra natureza —, porém a família da vítima sempre preferia culpar o inimigo de sempre.

Se os caçadores partissem para cima de todo culpado apontado por um dedo raivoso, o equilíbrio teria ruído havia muito tempo. Mortes por rixas alheias não eram problema deles; caçadores só entravam em campo contra lobisomens, vampiros e afins quando estes matavam humanos por puro prazer, ou quando o caso ameaçava sair do controle e expor o mundo sobrenatural. Fora isso, que anjos e demônios resolvessem suas próprias picuinhas. Caçadores não eram a polícia do sobrenatural — cada missão só era autorizada depois de muita apuração e aval dos líderes. Hierarquia e respeito eram o que mantinha tudo em ordem.

A sala dos técnicos tinha iluminação econômica, baias com cadeiras ergonômicas e sempre alguém trabalhando, não importava a hora — a polícia nem sempre avisava sobre um assassinato suspeito, simplesmente porque não sabia reconhecer os sinais do sobrenatural. Os técnicos existiam para isso: vigiar a polícia à distância e alertar o clã sobre qualquer caso que cheirasse a demônio ou anjo.

Lorenzo também cumprimentou os médiuns ao passar pela sala deles — sem baias, sem fiação ronronando, mas tapetes, velas e incenso. Caçar o sobrenatural exigia mais do que perseguição a pé; cada espécie tinha seu jeito próprio de se mover. Os médiuns ajudavam a apontar uma localização aproximada da caça, ou ao menos um rastro a seguir, além de montar as armadilhas mágicas indispensáveis quando bala e punho não bastavam.

Passou por um dos salões de treinamento, onde quatro caçadores descontavam suas frustrações em sacos de areia, e chegou, enfim, à sala de conferência.

Não era grande coisa — menor que os outros salões, maior que qualquer câmara ou sala de aula antiga. No centro, uma mesa oval de mogno; cadeiras empilhadas num canto; mapas, fotos e pastas de papel pardo espalhadas sobre o tampo, cheias de folhas impressas com informações que Lorenzo não conseguia decifrar de longe — nem fingindo que lia.

Carmem estava debruçada sobre a mesa. Ao seu lado, Walter — seu segundo marido, depois que o avô de sangue de Lorenzo morreu numa caçada, vinte e sete anos antes.

Walter vinha do clã Camden, de Londres, o tipo de homem que impunha respeito com um único olhar. Uma lenda entre caçadores, ainda em plena forma aos setenta e cinco anos: negro, alto, olhos escuros e penetrantes, cabelo raspado em corte militar, ombros largos, expressão sempre séria — quando Walter encarava alguém, parecia estar desvendando cada segredo daquela pessoa ali mesmo, sem esforço. Um verdadeiro lorde inglês, sem trocadilho — Lorenzo tinha certeza de que havia um título de nobreza perdido em algum lugar da árvore genealógica dos Camden. O oposto perfeito de Carmem, típica italiana geniosa até a ponta dos cabelos.

E, do outro lado da mesa, alguém que fez as mãos de Lorenzo formigarem — reflexo puro, do corpo querendo alcançar a arma antes mesmo que a mente processasse o por quê.

— Hunter. — O nome saiu quase cuspido, como se fosse praga.

— Cipriani. — Hunter devolveu, o sorriso sacana intacto, sem tremer um milímetro.

O ar na sala pareceu esfriar alguns graus. Carmem ergueu os olhos, alerta, como quem já conhecia aquele silêncio prestes a explodir. E, antes que a história continue, é preciso deixar bem claro:

Lorenzo odiava Hunter.