Batia as unhas na mesinha fazendo barulho, estalos sincronizados, distraída. Pensava sobre tudo o que tinha feito, parecia um castigo. Não sabia como se sentir, se era culpa ou alívio pro chegar ali. Era uma sala fechada, branca, clara. Em uma das paredes um espelho que cobria todo o cumprimento da sala, via seu reflexo e o do garoto que sentava em sua frente. Entre eles uma pequena mesinha com um grande botão vermelho. Ele parecia sair de sua distração pessoal no mesmo momento, e se olhavam.

“E então, quando vão se decidir?”, dizia ana, aparecendo através do espelho que agora se tornava transparente, revelando uma sala escura atrás, onde a menina se encontrava tomando um pote de sorvete. “Vocês sabem a regra, certo? Vou explicar de novo então. Um de vocês aperta o botão, o outro ganha o jogo. Simples assim. Alguma dúvida?” — ambos sinalizavam que não com a cabeça. — “Ótimo, então levem o tempo que quiserem…”, e sumia atrás do que voltava a ser um espelho novamente.

“E como vamos fazer isso?” — perguntava Leila entediada em seu lugar. “Não vou sair daqui”, respondia Paulo, sério, decidido que ele não deixaria Leila ganhar. Mas a moça também não queria perder. Paulo pensava em como chegara ali.

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Era uma das festas nas quais costumava ir com os amigos, estava comemorando a entrada de um dos amigos na faculdade, estavam bebendo e dançando, e em algum momento Paulo avistava Diana dançando. Recebia o apoio dos amigos para falar com ela, chegava lá e se apresentava, mas a moça o recusava. Ele aceitava a resposta, levemente desapontado, mas estava acostumado com aquilo, era um dos resultados possíveis quando tentava ficar com alguém em uma festa, não havia sido seu primeiro toco e não seria o último. Pelo menos esperava não ser o último.

Saía para tomar um ar e via a moça cambaleando. Resolvia se aproximar de novo, não estava tão preocupado em conquistá-la, apenas queria ajudar Diana a fica de pé. Tentava chamá-la, mas ela logo caía no chão, desmaiada. Paulo se levantava para pedir ajuda, mas recebia um golpe sem saber de onde, e acordara horas depois no galpão.

Tentava falar com a moça novamente quando entravam no desafio, era a única pessoa que ele achava ser confiável, que provavelmente chegou lá da mesma forma que ele, mas ela se afastava, óbviamente não tinha motivos para confiar. Percebia então que estava sozinho.

Era a regra que seguia durante o jogo, não confie em ninguém, apenas jogava para chegar no final. Era uma luta pela própria vida, e não estava disposto a perder. Percebia que as alianças não significavam nada ali, cada um estava lutando por si só. Sentia também que se arriscou ao contar com a ajuda de Beatriz, havia se aliado a uma assassina que tentou tirá-lo do jogo. Pensava sobre a aliança com Leila, em como se uniram para tirar Gabriel do jogo, e não sabia se aquilo era certo ou errado, apenas sabia que se importava mais em ganhar do que se fazia o certo. Ia pedir para voltar para sua vida normal, sabia disso.

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“Você sabe que se apertar o botão eu vou tirar você daqui, com todos eles, não sabe?” — Dizia Leila, tentando parecer calma. “Era o que Maria queria, provavelmente o que todos queriam”. — “Eu também vou pedir por isso” — retrucava Paulo. — “Então por que você não aperta o botão e me deixa acabar com esse pesadelo?”. “Eu não… Me desculpe Paulo, mas eu não consigo confiar nisso. Estou com medo, de verdade. Desde que eu acordei naquele galpão, eu só pensava em sair de lá e voltar para casa, ver meu pai, até minha madrasta… Ver meus amigos… Quando li aquela carta e soube do desejo, por mais absurdo que soasse na hora, a primeira coisa que veio na minha cabeça era que não importava quem vencesse se o vencedor pedisse para que tudo voltasse ao normal. É como um jogo de pique-esconde em que o melhor jogador pode chegar no final de tudo, quando todos estão sem esperanças, e salvar a todos. Todos saem ganhando. Eu sou essa pessoa, Maria seria essa pessoa, até Letícia talvez fosse essa pessoa… Mas eu não acho que você seja”. Eles se olhavam por um longo período. Paulo sabia que Leila estava certa, ele era a pessoa que se salvaria sem pensar muito sobre os outros, apenas iria embora como se não fosse responsabilidade dele. “Talvez seja verdade…” — ele dizia. — “Mas eu vou desejar por todos, por que eu não faria isso?”

“Na verdade…” interrompia Ana, aparecendo pelo espelho novamente, dessa vez arrancando pedaços de um algodão doce. — “Vocês não podem escolher isso. O desejo é real, vocês vão ter o que vocês quiserem. Mas não o que pedirem. Não vai ser algo simples como falar ‘quero a paz mundial’ e ter, é mais algo como vocês entrarem em uma realidade na qual não existem mentiras, seu subconsciente vai se abrir, toda a verdade sobre si vai ser revelada e bla bla bla, e no final vai acontecer aquilo que vocês mais querem. O que querem, não o que pedem. Não podem mentir para mim”. E a garota sumia novamente.

O coração de Leila acelerava. Paulo parecia confuso, de certa forma decepcionado. “Eu acho que isso decide por nós” — dizia Leila, escondendo a ansiedade. — “Bem… Você acabou de confirmar que não quer que todos voltem, apenas você”. Paulo a encarava, em choque. Era a verdade, se a garota apertasse o botão, ele sairia de lá, acordaria e viveria a vida dele, tentaria esquecer tudo o que aconteceu e seguiria em frente sozinho. “Não precisa ser assim, Paulo. Me deixe salvar a todos, por favor”.

A menina chorava, se levantava e caminhava em direção a mesa. “Eu…” — tentava dizer entre lágrimas. — “Eu posso acabar com esse pesadelo para todos nós. Todos” — “E a assassina?”, retrucava Paulo, “Vai deixar ela sair impune?” — “Ela pode apodrecer na cadeia por mim, mas não acho que ninguém mereça esse limbo. Você pode discordar de mim nisso, mas não acho que importe, um dia ela vai morrer de verdade, e então deixe que o destino decida o que acontece com ela. Talvez o inferno, se você acredita nisso. Mas não esse limbo sem sentido. Ninguém precisa ficar aqui… Por favor… Pense em todos que estão sem motivo. Diana está no inferno dela, sem motivo, e eu posso tirá-la de lá… Eu só preciso que você faça isso por mim”. A garota pegava a mão do rapaz e apontava para o botão. Parecia uma ação tão fácil, apenas mover a mão e estaria feito. Parecia uma decisão impossível, por um lado ele poderia ficar lá até que a garota apertasse o botão e ele venceria, por outro, eles poderiam passar a eternidade sem ninguém apertar o botão, ou ele mesmo apertaria. E então a dúvida. Ele olhava para Leila, confiava em suas palavras, sentia profundamente que era a verdade, ela salvaria ele, e a todos. Ele não tinha vontade de salvar a todos o suficiente, era egoísta, acreditava que ia apenas sair sozinho. Ela oferecia a chance de um final feliz.

Pensava a respeito e a cada momento ficava mais ansioso. Sabia que o jogo iria acabar com um apertar de botão, queria isso. Sentia confiança o bastante para isso. Se levantava, finalmente caminhando para frente, olhando para a menina, o coração pulsava, era provavelmente a decisão mais importante que já teve. “Está bem, Leila” — dizia, arrepiando todos os pelos tanto em seu corpo quanto no da menina. — “Salve a todos nós”.

Ana ria histericamente quando o rapaz terminava de apertar o botão. Ele olhava para o vidro, assustado. Leila também se virava para a garota, tentando segurar o riso. “Você…” — tentava falar a garotinha apontando para Leila, entre os risos sádicos que tinha. — “Você é a minha vilã favorita!”. Leila não conseguia mais segurar o riso. Sabia que havia acabado, não queria realmente se revelar assim para Paulo, mas não conseguia mais segurar. O rapaz ficava atônito, não entendia o que estava acontecendo, apenas sentia medo enquanto processava a cena.

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“O jogo dos sonhos…” — pensava Leila enquanto lia a carta jogada no chão. Apenas ela estava acordada no galpão, via as pessoas caídas ao redor, sabia onde estava. Leila estava orgulhosa de ter encontrado tanta informação sobre o rapaz a quem pagara para investigar sua família, descobria sobre uma cúmplice dele, sabia que a moça estava organizando um jogo. Conhecia bem sobre aquele jogo, estava sempre ligada nos rumores da internet, e gostava de se aventurar pelas histórias que poucos acreditavam. O prêmio seria um desejo realizado, era tentador, e pagava o rapaz para que fosse levada para Beatriz. Era um serviço estranho, mas Leila pagaria bem, seu pai tinha dinheiro e a menina sabia como conseguir. O rapaz aceitava, fazia parecer um sequestro qualquer, levando Leila para o galpão onde Beatriz juntava suas vítimas. A moça nem desconfiava, afinal, não era a primeira vítima que conseguia por aqueles cúmplices.

Leila sabia que precisaria de ajuda, e Maria parecia tão desesperada por alguém que não podia ser mais fácil conseguir uma aliança. Começava o primeiro desafio quase aliviada por saber que era real. Queria a confiança de todos, e tentava ajudar quem pudesse, mas logo viu que nem todos queriam a cooperação. Era um jogo individual, e ela sabia disso.

Deixava seus colegas para trás a cada turno. Via que Diana não seria um obstáculo já na primeira conversa que teve com a garota, deixava Mateus no labirinto, sem o avisar que estava andando em círculos, seria mais um jogo fácil. Achava ter perdido o controle no terceiro desafio, mas parecia que o jogo já estava decidido quando chegava no final, vendo Camila deixando todos irem embora. No circo, percebia que se deixasse Beatriz seguir, seria uma competição por inteligência que não queria. Sabia que Paulo não gostava de Gabriel, principalmente pelo que aconteceu no desafio, e que conseguiria uma aliança para se livrar dele. O momento em que mais teve medo foi quando percebeu que não iria se livrar de Paulo no sexto desafio. Achava que o final seria apenas ela e Maria, achava que essa seria a garantia de sua vitória, mas Maria ficou para trás de boa vontade, o que era o álibi perfeito.

Até o último momento, Leila parecia se importar com todos, e era exatamente o que precisava, mesmo sem saber. Paulo passava a confiar na moça, via que os outros confiavam, via que ela estava sempre ajudando, e não percebia que um a um, ela deixava que os outros jogadores perdessem sozinhos. Não tinham opção, era claro, alguém precisava perder. Mas demorava para perceber que, dessa vez, quem perdia era ele.

E então a sala ficava vazia. Ana e Leila sumiam enquanto Paulo percebia seu erro. Olhava para o vidro que agora refletia sua imagem, sozinho. Colocava as mãos na cabeça, em choque, sabendo que agora aquela era sua realidade. Estava tão atordoado com o jogo, tão obcecado para acabar com aquilo que se deixava levar pela conversa da menina, enganado por uma jogada quase brilhante, se não fosse óbvia. Era claro que ela queria convencê-lo a apertar o botão, era claro que ela queria ganhar o jogo, qualquer um iria querer. E só quando ouvia a risada maléfica das garotas percebia que ela estava mentindo. Leila queria ganhar o jogo, mas não estava se importando em salvar a todos. Ela tinha os seus próprios desejos. Se olhava no espelho com uma esperança quase nula de que a garota mantivesse a palavra, uma esperança que perdurava dentro dele, de que acordaria e tudo teria voltado ao normal. Uma esperança que era apenas isso, esperança. E Paulo gritava para a parede sabendo a verdade, sabendo que iria passar toda a eternidade esperando naquela sala.

Todos eles, em um sonho sem fim.