GOD - O Jogo dos Sonhos II

9 Bônus: O Diário de Letícia - Dia 8


Notas iniciais
Leia as últimas páginas do Diário de Letícia, o encerramento do primeiro Jogo dos Sonhos.

Dia 8 / Manhã

Estou me sentindo bem pela primeira vez em muito tempo… Parece que o jogo finalmente acabou. Não acho que eu precise escrever, mas também não tenho motivo para não fazer, e eu quero dar um desfecho para essa história…

O desafio foi o pior, eu sei disso, mas estranhamente não me sinto mal lembrando dele. O jogo começou e eu estava em uma casa antiga de novo, mas essa parecia diferente… Eu estava em uma sala escura, me escondendo de algo que não consigo me lembrar o que era, até que ouvi alguém correndo no lado de fora e reconheci a voz de Amanda, e fui encontrá-la. Ela me abraçou, parecia assustada, e disse que a gente precisava sair dali. O corredor da casa era estranhamente longo, mas parecia tão normal na hora que eu nem me questionava, apenas corria com ela ouvindo passos nos seguindo. Eu sei que estava com medo, muito, mas não me lembro da sensação. É estranho, consigo lembrar do que aconteceu, mas as sensações estão muito vagas na minha cabeça…

Parecia um jogo de pique-esconde, a gente corria, se escondia, e voltava a correr. Até que chegamos em um quarto onde Lucas estava. Ele estava sozinho, armado com uma faca, e começamos a brigar. Ele queria me matar, mas eu e Amanda conseguimos nos defender, até que a sombra começou a encher a sala. Em um dos cantos aparecia a forma de Leandro, eu estava apavorada, até que Ana chegou no quarto, gritando, e tudo ficou muito confuso… Eu estava machucada pela briga com Lucas, mas nada muito grave, mas me sentia presa pelas sombras do quarto, não conseguia reagir. Amanda ainda lutava com ele, e Ana tentava correr na minha direção quando algo que não consigo explicar aconteceu… Parecia uma explosão, as vozes se distorciam e as sombras rachavam as paredes, o quarto parecia se contorcer e eu ouvia a voz de Ana gritando meu nome, me lembro das palavras “eu vou te tirar daqui”, mas não me lembro de Ana as dizendo, apenas confiava naquilo. Só então eu percebia a decoração do local, era um quarto infantil, e a julgar pela atmosfera do lugar, aquele era o quarto de Leandro, mas quando eu percebi isso, já estava do lado de fora. Era um corredor retorcido, as sombras pareciam vir atrás de mim, e eu estava sozinha de novo, então corri, mas era tão difícil me manter em pé, parecia que em alguns momentos estava rastejando pelo piso podre, parecia estar sendo puxada para trás, mas eu continuava a correr. Conseguia me esconder e então tudo virava um pesadelo, e continuei assim pelo que pareceu uma eternidade para mim… Não foram algumas horas, eu sei disso, todos os desafios foram, mas não esse. Pareceu durar anos, e a cada segundo eu desejava não estar ali.

Procurava em cada porta uma saída, uma voz familiar, mas não encontrava nada. Procurava por um lugar seguro e por alguma explicação do que estava acontecendo, mas não encontrava. Parecia ser apenas eu e ele. Eu me escondia, sentia o medo, sentia que ele estava sempre ali, me observando, esperando eu abrir a guarda por um segundo, drenando toda a minha energia. Eu não sei como aguentei correr e me esconder por tanto tempo, procurava por Ana em desespero por saber que ela iria me tirar de lá, mas quando finalmente encontrei alguém, não era quem esperava.

Eram duas garotas que eu não conhecia, Maria e Leila. Eu não sabia que podia encontrar pessoas de fora do jogo, mas parece que posso, assim como elas me encontraram. Maria parecia conhecer Ana, mas não sabiam me ajudar, apenas continuamos fugindo juntas, encontrando com mais pessoas estranhas, até que… Saímos da casa.

Eu não sei como isso aconteceu, só sei que acordei aqui… Sei que não era para estar aqui, mas não me parece tão estranho quanto deveria, estou em casa. Na verdade, já faz algum tempo que acordei, e eles estavam aqui comigo, Ana inclusive. Mas ela estava tão diferente… Estava animada, e parecia tão bem, diferente de quando a vi pela última vez, mas parecia ocupada. Ela não me explicou o que aconteceu dessa vez, mas está tudo bem, eu confio nela, e ela disse que eu estou segura agora.

Passamos um tempo na sala comendo pipoca e conversando, mas Ana teve que ir embora com Paulo e Leila — acho que o outro garoto ficou preso na casa, mas não consigo me sentir mal por isso, eu deveria? Mas agora estou apenas com Maria aqui, e pelo que entendi ela vai ficar comigo aqui. Então agora essa é a nossa casa, acho.

Estou me sentindo muito bem, de verdade, é como se nada do que tivesse acontecido nos últimos dias importasse, o jogo acabou, estou livre. Talvez até tire um cochilo depois disso tudo, mas parece que dormi por tanto tempo que a última coisa que preciso agora é dormir. Então devo dar um passeio com Maria, o dia está bonito, não tem porque não sair de casa depois de tanto tempo…

Aliás, queria falar sobre essa garota, Maria. Ela me ajudou muito a manter a calma quando estávamos no desafio, mais do que eu poderia esperar de qualquer desconhecido… Ela é legal, parece que estamos juntas a muito tempo, talvez o jogo realmente tenha o poder de distorcer o tempo, mas acho que posso dizer que somos “melhores amigas”. Talvez? Eu perdi completamente a noção do tempo…

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Dia 8 / Fim do dia

Hoje foi definitivamente o dia mais tranquilo que consigo me lembrar. Passei o dia andando pela cidade com Maria, é engraçado pensar que não tem mais ninguém aqui, é bem libertador. Parece que a gente pode fazer as próprias regras, não há literalmente nada de errado para ser feito, é um paraíso. Ela queria saber mais sobre como eu cheguei aqui, e a melhor forma de explicar foi dando esse diário para ela. Também quis saber como ela chegou aqui, é claro, e ela me contou sobre como todos no jogo dela foram assassinados antes do jogo começar. Foi uma história bem incrível, e ela não é realmente muito boa contadora de histórias — não que eu seja, também.

Parece que alguns dos desafios foram bem parecidos, mas eu fico pensando em como deveria ser horrível não acordar depois de cada um deles. Digo, eu me sentia horrível sabendo que toda noite voltaria para o jogo, mas pelo menos ainda estava no mundo real quando acabava o desafio, mas para eles, o mundo real era aquele jogo...

Não consigo imaginar o que é saber que mesmo que você complete o desafio, não vai acordar… Acho que me sentiria desmotivada, desistiria do jogo. Maria me disse que teve ajuda de Leila para chegar até onde chegou, e que talvez acordasse e percebesse que a garota salvou a todos eles, talvez a mim até, mas que não se importava se isso não acontecesse, porque aqui é exatamente o que ela queria, um lugar calmo, uma amiga e toda a liberdade do mundo para fazer o que quisesse, sem padrões a seguir. Achei engraçado ela dizer isso, mas também estou feliz aqui, não consigo pensar muito na vida antes do jogo, digo, me lembro dela, mas não estou sentindo falta de nada. Ana me disse que eu estava viva, antes de ir embora, e me pergunto o que significa estar viva… O que é o mundo real? Talvez um corpo meu esteja lá naquele mundo, em uma maca em algum hospital, mas isso não importa para mim, eu estou bem aqui, meu corpo está aqui, esse mundo é real para mim, e parece ser para Maria também. Os jogos eram reais enquanto eu estava dentro deles, mas não eram quando eu acordava, exatamente como um sonho. E agora a “minha vida” parece apenas isso para mim, um sonho, e finalmente estou acordada aqui. Talvez esse seja o mundo real, e agora eu me deite, tenha outro sonho louco que pareça durar por uma vida inteira até acordar nessa cama amanhã, olhe pela janela aliviada e saiba que tudo foi um sonho.

Mas até lá, boa noite.

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