Gênio Infame, Dama Mordaz
22 Terrível Engano
No qual nosso herói escapa do Griffith. Mas não do carma.
Depois de uma boa espiada nos dois lados do corredor silencioso e vazio, encosto a porta e me volto para o homem no meu quarto. Howard me pediu para checar se o andar está deserto, para que assim ele possa ir embora. Será desastroso para mim se ele for flagrado nessas dependências, homens não são permitidos além da recepção e eu serei despejada se a verdade vier à tona.
— Nem sinal dela.
Ele franze o cenho.
— Dela...?
Um riso me escapa diante da morosidade do seu raciocínio geralmente tão rápido. Acho que Howard ainda está meio desnorteado pelo que fizemos juntos essa manhã, na cama bem atrás dele.
Um rubor ameaça tomar conta do meu rosto ao relembrar. Ao mesmo tempo, me sinto como uma deusa poderosa por tê-lo tirado dos trilhos a tal ponto.
— A Sra. Miriam Fry, gênio! Não era dela que você estava fugindo quando invadiu o meu quarto?
Howard engole em seco e se empertiga um pouco antes de responder:
— Exato.
Porém, quando torno a abrir a porta e indico o caminho livre para zarpar, ele indaga com receio:
— Tem certeza que não tem mais ninguém aí fora? Alguém que possa denunciar você? Eu não quero te causar problemas, raio de sol.
Acho difícil uma alma viva ter se materializado no corredor nos últimos segundos, entretanto, como o seguro morreu de velho, dou mais uma espichada de pescoço e depois afirmo sem sombra de dúvida:
— Ninguém à vista. As garotas ainda devem estar tomando o café da manhã. Não dá para negar que a refeição é uma das melhores coisas no Griffith.
— Ótimo!
O semblante de Howard relaxa de imediato e, como se fosse tirar o pai da forca, ele cruza a porta me arrastando pela mão. Meio aos tropeços, tento acompanhá-lo pelo extenso corredor enquanto o movimento rápido balança meu vestido.
— Você não pode descer pelas escadas, é muito arriscado — sussurro porque o seguro morreu... — Como conseguiu subir aqui, aliás? A Sra. Fry é praticamente um cão de guarda sobre a regra mais importante desse lugar.
— Digamos que Jarvis distraiu o cão de guarda. Ele não sabia quanto tempo eu ia demorar e tinha ordens para me esperar no carro a um quarteirão daqui depois que eu subisse.
E assim o meu rosto arde ao imaginar o mordomo esperando esse tempo todo pelo patrão e, certamente, tirando uma conclusão óbvia sobre a demora dele.
Não que eu esteja envergonhada do que fiz. Eu não podia imaginar que um dia me entregaria ao homem que segura minha mão agora, mas não estou nem de longe arrependida. O que é uma grande reviravolta, devo admitir.
Pensei que Howard Stark fosse o último homem na face da Terra por quem me apaixonaria, e agora... Agora ele tem o meu coração nas mãos. É assustador e, ao mesmo tempo, me parece a coisa mais certa do mundo.
Ainda assim, gostaria de manter o momento de paixão apenas entre Howard e eu. Não gostaria que o Sr. Jarvis concluísse que aconteceu algo íntimo entre sua colega de trabalho e o nosso patrão em comum. Ainda mais sabendo que o mordomo acompanhou de perto as conquistas dele e pode muito bem concluir que eu fui fisgada essa manhã como todas antes de mim. Pode pensar que eu sou, portanto, mais uma qualquer na cama de Howard Stark.
O pensamento me faz diminuir o passo até parar de vez. De súbito, meu coração fica apertado e uma pontada de dor surge.
Será que sou exatamente isso para Howard? Apenas mais uma conquista no meio da sua lista extensa? Será que, assim como meu ex-noivo, Howard despejou palavras doces e fingiu gostar de mim só para conseguir o que queria e logo irá me descartar?
— O que houve? Algum problema? Por que parou? — ele pergunta, visivelmente ansioso para evaporar daqui. Porém, antes que eu decida entre responder ou me esquivar, Howard volta a me arrastar pelo corredor. — Eu preciso de um atalho.
Estou prestes a perguntar se ele pretende criar esse atalho milagroso fazendo um buraco precário e chamativo na parede com as próprias mãos, quando avisto o elevador de roupas que conecta todos os andares à lavanderia no subsolo.
Mostrando que teve a mesma ideia que eu, ele apressa ainda mais o passo, logo desliza a portinhola para cima e se espreme no espaço pequeno com rapidez e desenvoltura impressionantes.
— Te vejo lá embaixo, raio de sol.
Com um sorriso fraco, fecho a portinhola para ele e aperto o botão para que os cabos de aço levem a “roupa suja” para a lavanderia.
Fico alguns segundos parada, em pé no meio do corredor solitário, avaliando a possibilidade dessa manhã não ter significado para Howard o mesmo que significou para mim.
Sinto-me boba e vulnerável por um momento. Mas é apenas isso que me permito: um momento para duvidar de Howard Stark.
Em seguida, afasto essa dúvida para o mais longe que posso e decido confiar nele de novo.
Sei que Howard já se envolveu com muitas mulheres, que derramou palavras melífluas nos ouvidos de muitas delas, mas prefiro acreditar que ele foi sincero quando afirmou nunca ter sentido com elas o que sentiu comigo. Decido acreditar que ele realmente me quer de um jeito diferente e inédito.
Decido acreditar que sou mesmo especial para Howard, como ele — para minha total surpresa — se tornou importante para mim.
[...]
Quando chego à lavanderia e abro a portinhola, não há nada de fraco no sorriso que lanço a ele. Agora é um sorriso caloroso, que parece pegá-lo desprevenido. Também não há dúvidas ou insegurança no meu olhar. Há algo insinuante, que o gênio em questão capta na mesma hora.
Com agilidade e movimentos que me lembram um felino, Howard sai do elevador e vence a nossa curta distância com dois passos.
— Maria. — Estremeço só de ouvir o meu nome em sua boca. — Se você continuar me olhando desse jeito, eu não vou embora.
Sentindo-me poderosa de novo e ousada de um jeito que eu não esperava ser com ele, tudo o que digo é...
— Nesse caso, acho melhor eu fechar os olhos. Longe de mim atrasá-lo.
E isso é tudo o que faço também. Fecho os olhos.
Então, espero. Até sentir a proximidade marcante de Howard aquecendo minha pele e me arrepiando ao mesmo tempo. Até sentir o hálito inebriante no meu rosto e as mãos firmes buscando minha nuca, como quem busca o ar. Espero até sentir os lábios dele roçando os meus no mais suave e provocante dos beijos. Um beijo que nos leva a outro mais profundo e envolvente.
Instantes depois, Howard se despede com mais um, na minha testa. Sua boca então desliza para a minha orelha e ele sussurra com a voz incrivelmente aveludada:
— Se não fosse tão arriscado, eu te levaria de volta para o quarto agora mesmo.
Não sei de onde tiro foco para flertar de volta:
— E eu concordaria com esse plano sem pestanejar. — Um riso me vence. — Devo ter perdido o juízo.
Howard sorri com uma satisfação masculina que, até pouco tempo, me deixaria mordida de raiva. Porém, hoje não. Hoje me pego sorrindo em retorno, feito uma boba feliz, enquanto ele solta essas palavras no ar:
— Mal posso esperar por mais.
Nem eu.
Howard encerra com uma piscadela e se afasta.
Eu nunca havia reparado numa série de tampas de ventilação em uma das paredes, no fundo da lavanderia, mas ele logo descobre que os parafusos de uma delas estão meio soltos.
Com um giro lento e que espalha um rangido pelo lugar, afasta a tampa e a imagem do beco entre o Griffith e o prédio vizinho surge do outro lado. E assim, meu gênio infame desaparece na manhã ensolarada.
[...]
Assim que alcanço o corredor que leva ao meu quarto, avisto três moradoras do Griffith vindo na direção oposta, de certo voltando do café da manhã. Quando vou cumprimentá-las com um animado bom dia, ouço uma delas praguejar:
— Eu não acredito que o Howard teve a indecência de voltar aqui! Depois de ter desaparecido sem dar qualquer satisfação! Depois de ter se divertido e descartado todas nós como se fôssemos... Argh! Como se fôssemos objetos!
O nome mencionado desmancha meu princípio de sorriso e me leva a diminuir o passo.
— Com certeza, ele está seduzindo alguma das garotas — a outra supõe.
— Mas quem? — a terceira indaga, tão furiosa quanto as colegas. — Convenhamos, garotas, não sobrou muitas alternativas. Praticamente o andar inteiro caiu nas garras daquele salafrário! Ah... Ele mereceu aquele tapa!
— Eu me senti muito bem em esbofeteá-lo também!
— Igualmente! Se eu pudesse, batia nele de novo!
Alcanço meu quarto e entro antes que elas notem minha presença. O coração estranhamente apertado. Deixo apenas uma fresta aberta, o suficiente para ouvir o restante da conversa quando elas passam bem perto deste trecho do corredor.
— Eu não sei quem é a iludida da vez, mas logo, logo a pobrezinha vai descobrir que foi apenas mais uma peça no incansável jogo de sedução de Howard Stark.
— Aposto que ela vai se sentir péssima quando receber o presente de despedida pelo motorista dele.
— Presente de despedida... — A primeira a falar ri com escárnio. — Só um calhorda para pensar que uma pulseira de diamantes apaga o fato de que nos usou!
— Um presentinho de consolação... Nunca fui tão humilhada.
Depois de uma série de resmungos ressentidos, ouço portas abrindo e se fechando, até que o corredor mergulha num silêncio pesado.
Ou foi o meu coração que, de repente, ganhou uma tonelada de peso extra?
De forma automática e apática, termino de fechar a porta, viro-me e apoio as costas nela. Ao bater os olhos na cama revirada adiante, não sei explicar o que sinto. Só que não é nada bom.
As engrenagens na minha cabeça trabalham a mil, relembram tudo que eu sabia sobre Howard antes de conhecê-lo pessoalmente, tudo que confirmei ao conhecê-lo em carne e osso e tudo que decidi relevar essa manhã ao seguir meu coração... estúpido.
Coração este que, claramente, cometeu um terrível engano. Howard me usou mesmo...
O que ouvi agora explica o comportamento dele quando surgiu na minha porta. Como estava ansioso para entrar logo, como se estivesse... fugindo daquelas garotas! Não da Sra. Fry, como me deixou acreditar de forma muito conveniente, mas delas!
— Burra.
Depois de William, eu devia ter aprendido a lição. Sei que devia. Não foi a primeira vez que um homem me disse palavras românticas só para me levar para a cama. Entretanto, eu não aprendi. E o pior, cometi o mesmo erro com o tipo de homem declaradamente mulherengo. O último homem em quem eu poderia ter confiado.
— Você é burra, Maria.
Apoio a cabeça na porta, desviando o olhar da cama acusatória e preferindo me focar no branco do teto. É então que me dou conta de outro detalhe. Howard saiu daqui sabendo exatamente qual atalho pegar, sabendo muito bem que poderia escapar pela lavanderia. Isso porque ele já esteve no Griffith antes. Pelo o que ouvi da conversa daquelas mulheres, ele esteve em uma boa parte dos quartos também.
— Muito, muito... burra.
E que história foi aquela de pulseira de diamantes? Howard realmente envia o presentinho de despedida pelo Sr. Jarvis? Não tem nem ao menos a força de caráter para terminar os casos com cada uma das mulheres com quem se envolve?
E ainda teve o desplante de me chamar de covarde mais cedo? Covarde é ele! E cafajeste! O maior deles!
Não acredito que fui tão boba. Que me deixei levar pelo seu charme barato. Não acredito que me apaixonei por ele.
Pisco e esfrego as pálpebras antes que a primeira lágrima caia. Prometi não chorar mais por homem nenhum e, certamente, Howard Stark não merece que eu quebre tal juramento com ele.
Pensando assim, reúno minha dignidade, busco ser forte como toda mulher precisa ser e endireito a postura. Então, caminho até a cama e arranco os lençóis com brutalidade, decidida a jogá-los fora o mais rápido possível!
Minha vontade é colocar fogo em tudo!
No dia seguinte...
Foi uma noite péssima. Mal consegui pregar os olhos, remoendo minha estupidez e a canalhice do Sr. Stark madrugada adentro. Como há males que vem para o bem, ao menos tive tempo de sobra para pensar no que farei hoje.
Num primeiro momento, estava convencida a nunca mais ter qualquer tipo de contato com ele. Se antes tive a consideração de redigir uma carta pedindo as contas, dessa vez eu não pretendia lhe dar qualquer satisfação. Iria simplesmente desaparecer da sua vida.
Porém, meu orgulho me impediu de seguir por esse caminho. Não quero que o infeliz sequer cogite que estou fugindo, que tenha noção do quanto me magoou, tampouco facilitar as coisas para o lado dele. Howard Stark me usou e hoje terá que encarar esse fato, quer goste ou não.
Se pretende me agraciar com uma pulseira de diamantes, não poderá fazer isso através do Sr. Jarvis, mas olhando nos meus olhos. Olhando bem nos meus olhos enquanto eu empurro cada pedrinha cintilante da joia pela goela dele!
Sei que não posso continuar trabalhando para o Sr. Stark, mas por hoje, só por hoje, decido colocar os pés na sua mansão e agir como se nada tivesse acontecido. Preciso ver até onde chegará o seu cinismo e, no momento oportuno, acertar as contas com ele de uma vez. É assim que vou virar a página, enfrentando o problema.
Tento não me sentir culpada por dispensar o café da manhã na companhia de Ana e seu marido. Alego que estou sem apetite — o que não é uma mentira —, porém o motivo principal para a recusa é a minha incapacidade de encarar o Sr. Jarvis.
Difícil assimilar que um homem tão gentil e nobre foi conivente com um plano de sedução tão sujo. Estou magoada e com raiva de mim mesma por ter confiado nele também. Lembro que o mordomo obedece ordens e que não tem culpa da minha burrice, mas não me sinto um pingo melhor.
Minutos depois, visto o uniforme e pego apenas um copo de água na cozinha antes de seguir para a biblioteca. Entro feito um foguete. E estanco o passo ao ver que tenho companhia.
A imagem de Howard acomodado confortavelmente na poltrona reclinável de couro faz o meu coração idiota acelerar de imediato e um frio inconveniente se espalhar na minha barriga. Tudo isso porque, há poucos dias, eu o beijei nessa mesma poltrona. Um beijo suave. Enquanto ele dormia. Uma péssima decisão que tomei num momento delirante, agora percebo.
Há duas coisas diferentes aqui hoje. Eu não estou delirando e Howard não está dormindo. Na verdade, ele parece ter acordado há um bom tempo. Nada de pijama, como naquele dia. Howard está devidamente vestido, penteado e irritantemente... lindo.
Não! Lindo não! Só irritante! Talvez um pouco cheiroso também. Cheiroso demais para o meu gosto, já que dá para sentir o perfume inebriante... Digo, enjoativo a uma boa distância.
Ele fecha o livro que lia, ou fingia ler antes da minha chegada, e ergue o olhar ao mesmo tempo que um sorrisinho torto estica o canto da sua boca.
— Bom dia, raio de sol. Sentiu minha falta?
Sonso e ardiloso, Howard segue com a farsa. Parece que ele ainda não se cansou da conquista a ponto de fingir que eu não existo, como certamente fez com aquelas mulheres no Griffith e tantas outras antes de mim.
O magnata franze o cenho, talvez confuso pelo meu silêncio, e tenta outra coisa:
— Dormiu bem?
Dessa vez, faço um esforço para responder:
— Como um bebê.
Minha voz soa fria e cortante, entretanto Howard não parece se dar conta disso. O sorrisinho dele se alarga, e meu coração palpita numa reação inconveniente.
— Sonhou comigo?
Desgraçado... Ele vai mesmo seguir com esse jogo?
Penso um pouco e lembro que eu também tinha um plano quando decidi vir até aqui hoje. Fingir que nada aconteceu depois que nos despedimos na lavanderia do Griffith para não lhe dar o gostinho da vitória.
É por isso que encarno a sonsa também e respondo com a voz mais macia que consigo:
— Oh... a noite inteira.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Sonhos impróprios?
Minhas bochechas esquentam de raiva, porém é claro que meu patrão infame entende o rubor de outro jeito. Com um orgulho masculino que me deixa ainda com mais ódio, ele conclui:
— Impróprios então.
Seguro o copo com mais força. Por sorte, o vidro é resistente à minha fúria.
Howard estreita o olhar e diz num tom baixo de confissão:
— Eu também sonhei com você.
Diminuo a pressão dos dedos em volta do copo. Tudo bem, admito, quase o solto sem querer.
— Sonhou?!
Isso na minha voz é esperança? Não acredito que me deixei levar pela atuação de Howard novamente! O que há de errado comigo, afinal? Não vou aprender nunca?
Bom, em minha defesa, ele pareceu sincero quando disse isso. É mesmo um ótimo ator. O brilho apaixonado que capto em seus olhos é a prova de que não há limites para ele.
Volto a apertar o corpo, imaginando que é o seu lindo pescocinho.
— Um sonho misturado com uma lembrança. Uma fantasia que não sai da minha cabeça, na verdade — ele explica devagar, e acabo acreditando que, pervertido como é, pode mesmo ter sonhado comigo. — Estava pensando se você não gostaria de realizá-la.
Como é que é?!
Meu sangue ferve nas veias e meu peito se enfurece ainda mais. Não sei de onde tiro forças para fingir um sorriso e replicar num tom doce feito mel:
— Tudo que você quiser, Howard.
Mesmo a bons passos de distância, capto a mudança em seu olhar. Os olhos castanhos escurecem de desejo.
— Ótima resposta, Maria. Então, vamos lá, me beije.
Howard se mexe na poltrona, ansioso, e fecha os olhos, enquanto o chão some embaixo dos meus pés por um instante.
Surpresa com a ousadia, incerta se entendi direito e — maldição — tentada a beijá-lo mesmo assim, murmuro feito uma idiota:
— Perdão?
Ainda mais inquieto, ele explica a tal fantasia de um jeito acelerado e, apesar disso, sedutor:
— Eu faço de conta que estou dormindo e você me acorda com um beijo. Como fez há dois dias, aposto que não se esqueceu. Só preciso avisá-la que a minha reação será bem diferente daquela... — Com um sorrisinho malicioso, Howard fecha os olhos de novo e relaxa na poltrona. — Estou pronto, raio de sol. Todo seu.
Fico olhando para ele enquanto um turbilhão de emoções me revira por dentro. A atração duelando com o bom senso. A vontade de acreditar nele em confronto com a mágoa por ter sido enganada. O sentimento idiota que acelera meu pulso contra a raiva por Howard Stark não demonstrar qualquer arrependimento e ainda seguir brincando comigo.
Quando um dos lados enfim vence a batalha, eu venço a distância entre nós com passos firmes e paro rente à poltrona.
— Ah... Eu também estou pronta. Você não faz ideia.
Engulo em seco ao observar o peito dele subir e descer com certa dificuldade. Mesmo com os olhos fechados, o semblante dele exala uma urgência perigosa, algo quase hipnotizante.
Convencida de que Howard só está agindo assim porque não saciou todas as suas vontades comigo, fecho a cara e olho para o copo em minhas mãos. Depois, de volta para o homem deitado na poltrona.
— E aqui está a solução para esse fogo todo. Aproveite...
Derramo a água em cima dele com um movimento rápido, certeiro e furioso, causando-lhe um tremendo sobressalto, braços e pernas se debatendo no ar. Recuo um pouco para não ser atingida pelo polvo humano.
Com o rosto pingando e as gotas generosas molhando sua roupa e o chão, Howard se põe de pé com velocidade impressionante e enxuga a face com a palma das mãos.
— Que diabos... foi isso, Carbonell?!
O alarme em sua voz me faz recuar mais um passo. Apenas um passo. Assim que Howard se recompõe o bastante para me encarar com choque e revolta, ergo o queixo em desafio e me encho de coragem mais uma vez.
— Isso, Sr. Stark, se chama carma.
Fale com o autor