Gênio Infame, Dama Mordaz
23 Banho de Água Fria
No qual nosso herói e nossa heroína discutem. Para variar...
Eu só esperava uma coisa de Maria. Só esperava que ela fizesse uma única e bendita coisa por mim. Que me beijasse enquanto eu fingia despertar na poltrona. Bem simples.
Então, eu a puxaria para o meu colo e, juntos, iríamos descobrir aonde o delicioso beijo poderia nos levar...
Para minha total surpresa e desagrado, ela achou que seria uma boa ideia jogar um balde de água fria na minha inocente fantasia. Isso mesmo, Maria despejou água em cima de mim. Literalmente falando. Bem no meu rosto! Por pouco não me afoguei!
E quando eu, confuso com a atitude e tentando me enxugar um pouco, questionei o que diabos ela havia acabado de fazer, a dama mordaz veio à tona com espírito petulante renovado e teve coragem de zombar da situação, alegando que isso se chamava carma.
Ora essa!
— Carma? — repito a maldita palavra, enquanto encaro a mulher na minha frente sem entender patavinas. — Para ser carma, eu deveria ter feito alguma coisa para merecer. Certamente, não é esse o caso, raio de sol.
Maria ri sem humor, soando irritada e muito magoada ao mesmo tempo. O que não faz o menor sentido até ela dizer...
— Não era da Sra. Fry que você estava fugindo ontem. Pelo menos, não só dela, era?
O mundo simplesmente congela à minha volta e meu estômago afunda como se, de súbito, eu despencasse alguns andares.
— Não era só ela que você queria evitar a todo custo enquanto se esgueirava pelos corredores. Eram elas, Howard. Plural. As garotas que moram no Griffith e que tiveram o azar de cair na sua lábia de cretino. — Maria bate o pé com força no chão e olha para cima. — Argh! E pensar que eu sou uma dessas tontas agora!
Tudo bem, o banho de água fria faz certo sentido. Ainda assim, me vejo inclinado a fazer uma correção importante:
— Você não é uma delas.
Se Maria me escuta, não dá o menor indício disso. Ou, o mais provável, não acredita na sentença e, portanto, não me dá ouvidos de qualquer jeito.
— Você sabia exatamente como sair do Griffith sem ser visto porque já esteve lá antes. E me fez acreditar que não. Pelo o que ouvi, deixou uma fortuna para trás, uma pulseira de diamantes para cada mulher que conquistou. Imagino que não tenha sido um problema para um milionário cafajeste como você, é claro! Aliás, quando pretende entregar a minha pulseira? — Maria espalma a própria testa como se recriminasse a si mesma por tal pergunta. — Desculpe, esqueci que você não é homem o suficiente para fazer isso. Talvez eu deva procurar o Sr. Jarvis? É ele o encarregado por terminar os seus casos, não é?
Fecho a cara e endireito o corpo de maneira defensiva, detestando o rumo dessa conversa e o tom cínico das últimas frases. Eu só queria uma manhã romântica, oras! E é isso que recebo?
— Falando desse jeito, você me ofende e me magoa.
Nesse momento, o olhar de Maria cintila de fúria, fazendo-me recuar com um passo cauteloso.
— Mil perdões, Sr. Stark. Longe de mim ofender e magoar o homem que me usou.
Por um momento, não digo nada. Ainda desnorteado pelo tom duro e cortante da acusação em sua voz. Só quando assimilo o sarcasmo das frases cuspidas contra mim, consigo retrucar baixinho:
— É nisso mesmo que você acredita? Que eu te usei? Que eu fingi tudo aquilo?
Maria cruza os braços, mas não com o ar agressivo que sustentava antes. Nesse momento, é mais como se tentasse abraçar a si mesma, como se algo dentro dela doesse e fosse preciso buscar algum conforto enquanto se encolhe.
De algum jeito, vê-la assim dói em mim também.
— Você mentiu, Howard. Admita.
Abro a boca numa reação instintiva de negar, porém, no último segundo, o que digo é:
— Menti.
— Eu sabia...
— Sobre as garotas e o Griffith, mas só porque eu sabia que você reagiria mal se soubesse.
Pode não ser a resposta ideal, ainda assim é honesta. Só que, pela expressão do raio de sol, ela não gostou do que ouviu.
— Quanta consideração! Então, você mentiu para que eu não me sentisse uma completa idiota?
Cada vez gosto menos dessa conversa. Como um dia que tinha tudo para ser lindo, pegou um rumo totalmente diferente e desastroso?
Sem conseguir esconder a insatisfação crescente que começa a me enfurecer por dentro também, sou um tanto rude ao me defender dessa vez:
— Eu tenho um passado, Carbonell. Infelizmente, não posso mudá-lo. Mil perdões se eu quis te poupar de...
Só que a dama mordaz corta o meu tom irônico disparando num tom mais alto:
— Você mentiu para se proteger, não para me poupar!
— Não! — nego de imediato, erguendo o indicador em riste e dando um passo resoluto para estacar a poucos centímetros dela.
No entanto, depois de refletir melhor, recapitular a saída sorrateira do Griffith e olhar bem para dentro de mim mesmo, sou obrigado a confessar com uma incômoda vergonha:
— Tudo bem, talvez tenha sido isso. Foi isso. Satisfeita? — Abro os braços por um momento, rendido. — Eu quis mesmo me proteger. De você, dos seus malditos julgamentos e dessa mania de sempre pensar o pior de mim. Pela sua reação agora, meu instinto de preservação faz algum sentido.
Maria estreita o olhar, parecendo ainda mais possessa.
— Eu não acredito que você vai justificar o seu erro jogando a culpa em mim. Muito maduro.
Detesto admitir, porém não parece justo mesmo. Ainda assim, preciso que ela entenda por que eu ocultei a verdade ontem. Posso me explicar melhor, mesmo que não consiga me justificar totalmente.
Recuo alguns passos e mergulho as mãos pelo cabelo com vontade de arrancar fio por fio. É isso o que Maria Carbonell faz comigo. Ela me enlouquece de maneiras que eu nem sabia ser possível. Que mulher! Que sina!
Com toda a calma que ainda consigo reunir, respiro fundo e deixo as palavras ganharem vida por conta própria instantes depois:
— Foi errado mentir sobre aquelas mulheres, foi errado ter descartado cada uma delas com as pulseiras e omitido que eu conhecia bem o Griffith. Eu admito e lamento. Também admito que menti para me safar de dar explicações, mas juro que uma parte de mim só queria te proteger do meu passado. Porque eu não quero mais que você pense em mim como um homem desprezível, Maria. Porque eu não quero mais ser esse tipo de homem...
Deixo-me cair na poltrona, esgotado, de repente me sentindo muito mais velho do que meus trinta anos atuais. Só não tão cansado para deixar de arrematar:
— Por Einstein, mulher... Quando você vai confiar em mim de verdade e largar aquela maldita pedra? Aquela que trouxe no primeiro dia que colocou os pés aqui, lembra? Porque, de algum jeito, ela continua nas suas mãos.
Emburrado, viro a cara e fico em silêncio, apenas esperando pela próxima réplica, por mais acusações, provocações cheias de sarcasmo e ressentimentos jogados no ar.
Nada disso vem. O que é estranho e me leva a erguer o olhar para Maria, pois preciso entender por que ela ainda não armou o contra-ataque.
E o que encontro é uma mulher sem a resolução de antes, sem a teimosia inflamada ou o semblante censurador. O que vejo agora é algo hesitante em seu olhar perdido e um leve rubor nas bochechas.
Uma revolução parece acontecer dentro de Maria pouco a pouco, quase ouço as engrenagens do seu cérebro trabalhando a mil. E quando o processo finalmente termina, ela engole o orgulho em seco e diz num tom baixo:
— Você está dizendo a verdade, não é?
Meus ombros relaxam. Minha pulsação também. Tudo dentro de mim se acalma um pouco.
— O que você acha?
Maria molha os lábios, desvia o olhar, aperta as mãos uma na outra, visivelmente sem jeito. Uma vontade de ampará-la me invade, porém resisto. Preciso ter certeza que ela acredita em mim antes de tomar qualquer atitude.
— Você não me usou — ela afirma, cada palavra soando muito difícil de ser pronunciada.
— Bingo.
Não digo isso para irritá-la, apenas pelo puro alívio que me invade. É muito bom perceber que ela voltou a confiar em mim. Porque eu não sei o que faria se ela não acreditasse na minha palavra.
Sentindo que Maria quer dizer mais alguma coisa, espero ela encontrar as palavras certas. Demora longos instantes, porém ela finalmente rompe o silêncio:
— Eu odeio admitir, mas... você tem razão sobre a pedra. Depois de ontem, eu podia jurar que tinha me livrado dela, mas pelo visto me enganei. — Maria torna a me encarar, demonstrando constrangimento ainda, um nervosismo crescente e certa culpa. — Foi errado te julgar tão rápido, Howard. Eu nem hesitei em pensar o pior de você, em duvidar de tudo, eu... sinto muito. De verdade.
Sorrio fraco, meus ombros incrivelmente mais leves, o coração batendo num ritmo mais calmo e livre da raiva que senti no começo de tudo.
Imaginando o quanto foi difícil para Maria perceber e verbalizar o engano, além de ciente da minha boa parcela de culpa nessa história, vejo-me inclinado a ressalvar:
— Sem ressentimentos, raio de sol. Eu sei que não sou nenhum santo. Ocultei coisas de você ontem e meu passado com as mulheres deve ser difícil de engolir. Você teve os seus motivos para surtar.
Maria abre a boca algumas vezes. Volta a apertar as mãos. Por fim, confessa com uma franqueza tangível:
— Quer saber? Não foi só por isso. Eu duvidei de você por causa do meu passado também. Não pensei que seria tão difícil confiar num homem de novo. — Maria faz uma pausa. Algo triste reluzindo nos olhos que fogem dos meus. — Foi bem mais fácil pensar que eu era apenas mais uma na sua cama do que acreditar que eu fosse... especial de algum jeito.
Aquele instinto de ampará-la retorna com força total e, dessa vez, não vejo por que não me deixar levar por ele. Num instante, estou de pé. No outro, diante dela.
Então, trago-a para um abraço um tanto hesitante. E Maria me abraça de volta sem titubear, o corpo relaxando junto ao meu como se isso fosse exatamente o que ela precisava e nem sabia.
Qualquer dia, juro que vou perguntar quem diabos foi esse sujeitinho que a machucou tanto e sondar detalhes da história para poder odiá-lo ainda mais, só que hoje não. Agora não.
— Você é mais do que especial, Carbonell. — Inspiro rente ao pescoço dela, o perfume me inebriando e me fazendo fechar os olhos. — É minha âncora.
Ela ri baixinho quando a rouquidão da minha voz mergulha em seu ouvido.
— Aposto que nesse cenário você seria um transatlântico suntuoso, acertei?
Ora, ora... Maria já está fazendo piada sobre a minha personalidade?
Como se eu tivesse culpa de ser o charme em pessoa e um homem de exímia inteligência. Um transatlântico suntuoso parece muito adequado sim.
Entretanto, como a confusão entre nós está definitivamente para trás, é uma página virada, e estou muito satisfeito por termos esclarecido tudo, não me importo em admitir a realidade:
— Segundo Jarvis, estou mais para um barco desgovernado.
Maria ri. Mais alto dessa vez. A atrevida!
Desvencilho-me dela o bastante para olhar em seus olhos com uma falsa repreensão.
Ela dá de ombros e diz sem rodeios:
— Bem, combina com você também.
Muito atrevida.
E encantadora ao mesmo tempo. De um jeito sedutor que começa a mexer com a minha cabeça de maneira curiosa.
Maria me encara por um bom tempo sem dizer nada, com algo misterioso em seus olhos e um sorriso leve, mas perceptível, brincando em sua boca. Enfim, desvia os olhos para a poltrona reclinável, levando-me a fazer o mesmo. Em seguida, Maria crava um olhar sedutor e cheio de promessas em mim no mesmo instante em que olho para ela também. Um entendimento mútuo pairando no ar entre nós.
— Você devia se sentar, patife.
— Maria... — digo seu nome num tom de alerta malicioso.
Ela empina o queici e coloca as mãos na cintura, dona da situação.
— Deitar é melhor.
Sentindo um súbito calor se espalhando dentro de mim, cambaleio para trás sem afastar o meu olhar do dela, meio — totalmente — hipnotizado. Deixo-me cair na poltrona. A ansiedade eriçando minha pele feito uma corrente elétrica.
— E fechar os olhos — Maria sussurra, num tom fatal que acaba comigo.
Em resposta, o pulso dispara num frenesi de expectativa. Anseio tanto por agarrá-la que chega a doer. Porém me controlo, esperando que ela realize minha fantasia antes.
De olhos fechados, eu a sinto bem perto, apoiando as delicadas mãos nos meus ombros, acomodando-se no meu colo devagar e ficando muito próxima de uma zona perigosa que arde por ela.
É uma tortura. E é delicioso.
Sua respiração brinca no meu rosto por um instante e, finalmente, os lábios macios tocam a minha boca num encaixe perfeito e carinhoso. Ao mesmo tempo, com uma suavidade lasciva de enlouquecer.
Há uma doçura comovente nesse beijo. Um sentimento de paz selada pairando entre nós. Sinto que aprendemos uma lição importante, ou várias, que evoluímos de algum jeito.
Assim, o dia que começou turbulento, volta aos eixos. Cada átomo do universo no seu devido lugar.
Minhas mãos sobem pelas costas dela, por seu pescoço e encontram a nuca. Abro caminho em sua boca e mergulho nela. Definitivamente, estou bem desperto e a fantasia inicial realizada. Só que preciso de mais. Muito mais.
Quando Maria se afasta um pouco, com a respiração entrecortada, eu abro os olhos incendiados de desejo e faço questão de esclarecer:
— Isso não vai terminar aqui.
Então, meus dedos saem em busca dos botões de seu vestido.
Fale com o autor