Gênio Infame, Dama Mordaz
38 Starkville
No qual o nosso herói está no fundo do poço e deseja fortemente ir para o Alasca.
Não me orgulho de ter mentido sobre o destino dessa viagem repentina, ainda assim menti de maneira deslavada. Dei a entender que iria para a sede mais afastada das Indústrias Stark — logo, o destino óbvio seria a Califórnia — para trabalhar nos projetos da Reserva Científica Estratégica, só que eu não podia correr o risco de ser encontrado tão facilmente.
Algo me dizia que Jarvis ou Peggy poderiam ligar insistentemente no local, ou até mesmo irem atrás de mim em pessoa se não conseguissem contato, a fim de me convencerem a voltar para Nova York e reconquistar Maria.
Acontece que não estou com um pingo de paciência para esses dois bancando os cupidos. Ainda mais porque a dama mordaz em questão, claramente, já tomou sua decisão sobre nós dois. Foi como ela mesma disse ontem... Acabou.
Como posso cogitar reconquistar uma mulher que não ser reconquistada?
Confesso que, ainda assim, tive um fio de esperança ao ler a carta encontrada no lixo. Afinal, ela me ama.
Essa esperança ganhou força quando nos vimos na sala, vis-à-vis, e eu quase lhe disse como me sentia também.
Só que eu não tive tempo de confessar, já que Maria me interrompeu de uma maneira bem seca, cortando qualquer prelúdio de clima oportuno. Um soco no estômago teria doído bem menos do que ouvir aquele “Faça uma boa viagem, Sr. Stark.”
Foi trazendo esse terrível sentimento de derrota na bagagem que cheguei à essa cidadezinha do Mississippi, cujo nome eu aprecio muito. Starkville. Dá para acreditar? Até parece que o lugar foi criado em minha homenagem! Meu humor quase melhora quando pondero sobre isso.
E melhora mais um pouco quando, do nada, eu torno a lembrar que... ela me ama.
Pena que eu estraguei tudo e que amor não é suficiente se eu não sei lidar com ele, certo?
Apesar de ter ficado nas nuvens ao ler a declaração de Maria, percebi que não era digno desse amor quando coloquei os pés no chão. Pensando assim, acreditei que um afastamento entre nós seria um mal necessário e arrumei as malas. Depois do que fiz a ela, eu lhe devia um pouco de espaço.
Tudo bem. Confesso que também senti medo da minha própria descoberta e precisei me afastar para processar esse meu amor por Maria.
Então, aqui estou eu. Enfurnado num hotel luxuoso, esparramado em uma cadeira diante da sacada, observando a manhã cinzenta e entediante lá fora. Ficando mais entediado ainda. Rindo momentaneamente quando penso no nome da cidade. Bebendo mais do que seria o apropriado para o horário. Indo ao céu ao lembrar que ela me ama e ao inferno quando me recordo de como tudo terminou.
Odeio essa palavra. Terminou. E os derivados igualmente deprimentes: acabou, é o fim. Odeio mais ainda o fato de que odiar não muda em nada essa situação toda.
Aproximo o copo dos lábios a fim de sorver um generoso gole de uísque e silenciar os pensamentos pelo menos por um tempo. Franzo o cenho ao notar que o recipiente já está vazio. Olho em volta, desconfiado de que um ser invisível tomou a última dose no meu lugar. Esfrego a nuca com força e tenho uma súbita vontade de arrancar cada fio de cabelo.
Resmungando algo que nem eu mesmo compreendo o sentido, apoio-me na cadeira para levantar e, meio trôpego, caminho até a mesa de centro na sala, sobre a qual uma garrafa pela metade faz companhia a outra vazia. Irritado por não conseguir acertar o interior do copo, decido tomar direto do gargalo.
Só que não tenho tempo, pois ouço uma batida na porta. Uma batida muito alta que reverbera de maneira dolorosa nos meus tímpanos. Resmungo de novo.
Era só o que me faltava. Serviço de quarto agora! Nem avisaram!
Irritado com a interrupção e com o girar nauseante da sala, sigo até a porta com certa dificuldade e escancaro de uma vez. Em choque, percebo que não é nenhum funcionário inconveniente do hotel. Antes fosse.
— Santo Deus, Howard! Você está péssimo!
Por que diabos Peggy está falando tão alto?! E o mais importante, o que está fazendo aqui?!
Fecho a cara, já que fechar a porta seria muita grosseria.
— M-muito obrigado... São s-seus olhos.
Como será que ela conseguiu subir até meus aposentos sem ser anunciada?
Oh... Estou sendo muito ingênuo, esqueci que ela é a Agente Carter. Tenho certeza que não foi difícil chegar à minha porta, ludibriando qualquer funcionário pelo caminho, valendo-se de pequenas brechas na segurança ou fazendo-se de invisível enquanto se esgueirava até aqui. Talvez tenha feito tudo isso ao mesmo tempo.
Peggy me analisa de cima abaixo com mais atenção, e eu desvio desse olhar por puro instinto. Odeio me sentir julgado. E me odeio mais ainda porque ela tem razão em me julgar nesse momento.
Estou com a mesma roupa de ontem. Exceto pelos sapatos e meias, que atirei pelo quarto assim que cheguei já que me incomodavam por demais. A calça e a camisa encontram-se amarfanhadas e desalinhadas como se um trem tivesse passado por cima de mim a toda velocidade. Tenho certeza que meu cabelo deve se encontrar com uma aparência bem desgrenhada também. E por não ter dormido à noite inteira, olheiras de certo se formaram sob meus olhos dilatados pelo álcool.
Faço um esforço para minha voz não sair enrolada quando torno a me pronunciar:
— A-aonde um homem tem que i-ir para ficar s-sozinho e... ter um pouco de s-sossego? A-Alasca?
Se por um momento, Peggy pareceu se compadecer da minha situação apesar da clara desaprovação também, isso não dura mais que meio minuto.
— Sossego ou autopiedade? Quem sabe autodestruição?
Ela abre passagem por mim feito um foguete. Não sem antes afanar algo da minha mão sem qualquer cerimônia.
— C-claro... pode entrar! F-fique à vontade... P-pegue minha b-bebida!
Bato a porta com força. E me arrependo na mesma hora porque o som se propaga com um volume absurdo. Meus ouvidos são praticamente perfurados e a cabeça protesta com um latejar intenso.
Concentrando-me para não tropeçar nos próprios pés, alcanço o sofá e despenco sobre ele de maneira nada elegante.
— C-como me descobriu... aqui?
A voz dela volta a soar muito alta nos meus ouvidos:
— Jarvis me passou o contato do seu piloto. Foi fácil conseguir com ele a localização do aeroporto e depois te rastrear até aqui. Sinto muito se a minha visita surpresa te desagrada, mas saiba que eu não vou embora até nós dois conversarmos. Como adultos, de preferência.
— Por E-einstein... fale mais b-baixo, mulher...
— Eu estou falando no meu volume normal — ela assegura, embora eu não acredite. — Bom, não há muitos hotéis cinco estrelas por aqui. Poucas ligações depois e encontrei o hóspede que eu procurava em um deles. Justamente aqui, justamente você. Até quando pretende fugir, Howard?
Fecho a cara de novo. Devia ter sido mais cauteloso e pedido sigilo ao piloto. Eu devia ter me hospedado no hotel mais humilde possível também. Ao invés disso, escolhi certo conforto e luxo. Não fui muito inteligente, agindo por puro impulso e sem encobrir meus rastros.
— G-gostou do nome da c-cidade? — tento quebrar o gelo e desviar do assunto ao mesmo tempo. — S-Starkville — informo longos segundos depois, já que Peggy não diz nada em resposta.
Ela continua na minha frente, a postura impassível de alguém que não só condena meu estado deplorável, como aguarda uma explicação minimamente razoável para eu ter decidido mergulhar no fundo do poço.
Desconfortável, decido mudar o foco mais uma vez:
— Sobre... S-sobre os projetos da RCE, e-eu só...
— Esqueça isso, Howard. Pelo menos por enquanto. — Peggy dá uma boa olhada em mim de novo e nas garrafas sobre a mesa de centro. — Como já está fazendo pelo que notei.
Em minha defesa, eu não pretendia me refugiar aqui para sempre e deixar a organização para a qual Peggy trabalha, e às vezes eu também, a ver navios. Gosto de criar mecanismos para facilitar as operações investigativas da RCE. Aprecio a ideia de contribuir com o lado bom da história, usando minha genialidade natural para isso, de ter um propósito além das Indústrias Stark. O único problema é que, nesse momento, não estou com cabeça para nada disso.
— Eu não vim aqui a trabalho — Peggy retoma o raciocínio, abandonando um pouco a postura rígida. — Sei que quando você estiver nos eixos, a inspiração vai retornar com força total e será natural que você desenvolva até mais do que estamos pedindo. — Ela afasta as garrafas de uísque na mesa, o suficiente para ter espaço, e senta-se sobre o móvel. Olha bem nos meus olhos ao dizer: — Eu vim como sua amiga. Como você está?
— P-péssimo... Como vo-você mesma observou... tão ge-gentilmente.
A postura firme retorna e Peggy estreita o olhar, parecendo insatisfeita com meu tom de derrota.
— Só porque a conversa com Maria não saiu como o esperado, vai desistir assim? Sem tentar de novo? Eu esperava mais de você.
E eu esperava que ela não tivesse aparecido de surpresa para me importunar com tal assunto. A vida é assim, nem sempre temos o que queremos.
Respiro fundo e faço um novo esforço para que o álcool não me leve a gaguejar tanto:
— P-peggy... — E falho de maneira miserável. — V-você p-pode ficar aqui, só por hoje... m-mas com uma co-condição. Não toque no nome d-dela. Fi-fique com a cama... Eu no... s-sofá.
— Ah, não se incomode. Eu estou hospedada aqui também. Nesse mesmo andar, para ser específica. Não é maravilhoso?
Claro que ela está e claro que não é maravilhoso. Uma jogada bem inteligente, devo reconhecer. Foi assim que Peggy teve tanta facilidade em surgir diante da minha porta. Primeiro, concentrou os esforços em localizar o hotel, depois descobriu o quarto, por fim providenciou a diária para um aposento vizinho ao meu.
Analisando agora, tudo isso explica a ausência de qualquer bagagem ou mesmo uma bolsa de mão. O que quer que tenha trazido consigo, Peggy deixou em seu próprio quarto antes de bater na minha porta.
— Não desista dela, Howard.
Pisco meio desnorteado, meio em alerta.
— Shh! — ralho do jeito mais firme que consigo, não fazendo a mínima questão de esconder a animosidade. — Eu... Eu pe-pensei ter sido be-bem claro sobre... a mi-minha condi... condição!
Ela arqueia as sobrancelhas numa expressão que exala esperteza.
— E foi. Eu não mencionei o nome dela.
Touchè.
Derrotado e profundamente irritado, faço a única coisa que me vem à cabeça. Dou as costas para Peggy, grunhindo algo enquanto me ajeito melhor no sofá, fecho os olhos com força e fico completamente imóvel. Exato, finjo-me de morto.
Não preciso fingir por muito tempo. Não chego a morrer, é claro, contudo algo muito forte me puxa rumo à uma profundeza vertiginosa e, ainda assim, segura e aconchegante.
Graças a Isaac Newton, Peggy não diz mais qualquer palavra e permite que eu durma em paz.
[...]
Por quanto tempo permaneci assim, não sei. Pode ter sido uma eternidade ou quem sabe apenas meros minutos. Só sei que o despertar não é nada bom. Algo cutuca com certa violência minha perna e sento com um sobressalto, o coração bombeando tão depressa quanto o girar nauseante do quarto.
Demoro um pouco para focar a visão e, quando enfim me recomponho, vejo que Peggy ainda não foi embora. Ela está parada na minha frente, segurando uma xícara com uma bebida fumegante e muito aromática.
Tenho quase certeza que Peggy acabou de cutucar minha perna com a ponta do salto alto para me acordar. Decido relevar já que ela me trouxe café e isso é tudo que preciso agora.
Antes que ela ofereça de fato, eu estendo a mão para pegar a xícara. Bebo alguns goles e, apesar de muito forte e amargo, consigo tomar o restante com uma careta final.
Devo ter dormido algumas horas porque consigo ver a noite se aproximando ao relancear a sacada atrás de Peggy.
A enxaqueca da ressaca ainda vai me acompanhar por um tempo, ainda assim posso dizer que me sinto um pouco melhor depois de ter dormido e ingerido essa boa dose de cafeína para despertar.
Envergonhado, pego-me girando a xícara sobre o pires muito de leve, apenas para me distrair e não encarar a mulher na minha frente. Peggy consegue ser assustadora quando quer e esse silêncio repleto de críticas veladas é aterrador.
— Então... você a ama.
Paro de mover a xícara. Isso é bem mais aterrador. Atingido em cheio por tais palavras e ainda sem conseguir olhar para Peggy, sinto um rubor patético tingir meu rosto. Ah, que maravilha!
— Por que a pergunta?
— Não foi uma pergunta.
É, eu temia que não tivesse sido, só precisava desconversar de alguma maneira e ganhar tempo para me recompor. Busco o mínimo de coragem dentro de mim e ergo o olhar na direção dela.
— Pois fique sabendo que ela me ama também — confidencio em tom de vantagem.
Peggy arqueia as sobrancelhas muito de leve, fingindo surpresa e rebate na mesma hora:
— Você chegou a essa conclusão porque é muito inteligente ou ela te disse com todas as letras?
Apesar do sarcasmo implícito quando questiona meu intelecto, a pergunta me deixa pensativo. Devo admitir que demorei para juntar as peças e perceber a real dimensão dos sentimentos de Maria por mim. Logo, fui... burro, por mais que me custe usar essa palavra infame contra mim mesmo. Por outro lado, o raio de sol não chegou a me dizer com todas as letras, certo? Claro que sua carta deixou isso bem explícito, só que não era para mim que ela escreveu aquelas linhas. Logo...
— Nem uma coisa nem outra — afirmo com honestidade.
Peggy franze o cenho e inclina a cabeça, parecendo intrigada. Não sei se esperava uma resposta de verdade, porém, se esperava, não era essa.
— Não tente entender, não importa mais. — Dou de ombros. — Eu estraguei tudo.
Algo encolhe dentro de mim ao verbalizar tal coisa em voz alta. Pensar em mim e Maria como um caso encerrado vai parar de doer em algum momento?
Por um instante, volto a fugir do olhar de Peggy e acredito que ela se dará por satisfeita com o assunto. Na verdade, cada parte de mim torce para isso. O problema é que... ela é Peggy Carter e não costuma desistir de coisa alguma. Para meu terror, ela parece muito empenhada em me tirar do fundo do poço.
Então, ao invés de se afastar e quem sabe me deixar sozinho, ela se senta ao meu lado no sofá, pega a xícara da minha mão e coloca junto com o pires sobre a mesinha à nossa frente, e argumenta de modo calmo:
— Você cometeu um erro, Howard, e foi demais para ela. Pode ter sido terrível na hora e ainda doer agora, mas nada disso é o fim do mundo. Ela só precisa de algum tempo para perceber que pode confiar em você de novo. E você precisa provar isso, é claro.
Admiro o que Peggy está fazendo por mim, só que não consigo ser otimista como ela.
— Eu não saberia nem por onde começar — admito.
— Descubra. Não é um gênio?
Lanço um olhar vazio para a mesinha enquanto xingo Peggy — só um pouquinho — em pensamento. Ela consegue ser realmente irritante quando quer.
Estreito o olhar com mais atenção e começo a me perguntar aonde ela terá escondido a meia garrafa de uísque que estava sobre o pequeno móvel pouco antes de eu pegar no sono.
— Posso te assegurar que a solução para o problema não está no fundo de uma garrafa — ela fala de repente, causando-me um leve sobressalto.
Não demoro a deduzir que o problema não é o desaparecimento misterioso da garrafa. A contragosto, volto a encarar Peggy.
— Se você ama Maria e ela te ama também, eu não consigo enxergar nenhum motivo plausível para não ficarem juntos.
— Rá! — Aponto-lhe o indicador de um jeito acusatório. — Você mencionou o nome dela!
Peggy não dá a mínima para o deslize. Na verdade, eu também não. Foi apenas uma forma que encontrei para desviar do assunto de novo. Para variar e como se adiantasse alguma coisa.
Sem se abalar, Peggy retoma o raciocínio:
— Tudo bem que não seja agora, tudo bem se vocês precisam de um tempo para curar as feridas, mas enquanto isso seria muito importante que você não se autodestruísse desse jeito. Cuide de você, Howard, mantenha o foco numa rotina saudável o quanto achar necessário. E quando estiver nos eixos de novo, não hesite mais. Pense e encontre uma maneira de reconquistar aquela mulher.
Droga, ela está certa. Cada parte de mim sabe que Peggy tem razão. Eu preciso dar um basta na autopiedade, me reerguer e ter o raio de sol de volta.
Admito que o intuito dessa viagem nunca foi esquecer Maria. Eu sei que é impossível tirá-la da cabeça quando ela já fincou raízes profundas em outra parte de mim. Só de pensar nela, essa parte erra uma batida.
Eu viajei porque fiquei com medo de piorar as coisas caso ficasse, já que ainda não sei lidar com minhas emoções. Fui embora porque senti que era o que Maria queria de mim naquele momento também, um pouco de distância. Seria insuportável para ela continuar trabalhando na mansão e ter que me evitar a cada corredor. Eu também me sentiria acuado na minha própria casa.
O fato é que Maria ainda precisa do emprego, e eu jamais a dispensarei enquanto ela necessitar desse suporte financeiro. Ficar na mansão só complicaria nossa relação de trabalho, além de evidenciar o fiasco da relação romântica. Seria constrangedor.
Apesar de tudo isso, não, eu não pretendo desistir dela. Simplesmente porque não dá. Na verdade, a única saída para todo o impasse é me casar com Maria. De preferência, logo.
Claro que para isso eu preciso reconquistá-la primeiro. E claro que isso me desperta um novo temor, afinal...
— E se eu falhar? — penso alto.
Sinto um toque suave no ombro que logo se transforma num toque mais firme. Tão firme quanto as palavras que ouço na sequência:
— Você não vai, confie em mim.
Alguém de fora poderia imaginar que Peggy só está dizendo isso da boca para fora, para me agradar e servir de consolo. Alguém de fora que não a conhece bem. Há acolhimento em sua voz sim, mas também há franqueza em seus olhos. Ela realmente acredita que eu vou conseguir. E se Peggy Carter acredita, quem sou eu para duvidar?
Cubro a mão em meu ombro com a minha. Esboço um sorriso, surpreso por me sentir mais animado.
— Obrigado por ter vindo. — Aproximo-me um pouco e Peggy recebe meu abraço. — Você é uma boa amiga.
Ela dá alguns tapinhas nas minhas costas.
— E você está fedendo a álcool e suor. Pelo amor de Deus, tome um banho e coloque umas roupas limpas.
Ofendido, mas nem tanto assim porque ela tem razão de novo, solto-a e me coloco de pé. Finjo estar zangado quando ressalvo:
— Retiro o que eu disse, você é uma péssima amiga e eu quero que vá embora.
Peggy me lança um sorriso zombeteiro e fica de pé também.
— Não demore! Nós vamos sair para jantar em... — Ela checa o relógio em seu pulso, ponderando. Depois torna a me encarar. — Quinze minutos?
— Agradeço o convite, só que prefiro ficar aqui e dormir mais um pouco.
Será bom ficar de molho e me curar de vez dessa ressaca física e moral. Além disso, tenho muito no que pensar.
Como quem não quer nada, minha amiga lamenta:
— Que pena... Passei em frente a um restaurante quando estava vindo para cá e tenho quase certeza que ele serve fondue. Aposto como deve ser delicioso.
Estreito o olhar e expiro com força.
— Se pensa que vai me convencer pelo estômago, Peggy Carter... — Sorrio de novo. — Você está totalmente certa. Eu já volto.
Ela assente com um meneio de cabeça, visivelmente satisfeita por ter me vencido.
Sigo rumo ao toalete, profundamente satisfeito também. Ficar de molho seria bom, pensar no que vou fazer é necessário, entretanto tudo isso pode esperar. Um homem precisa se alimentar primeiro. E como dispensar um fondue?
Paro pouco antes de chegar ao toalete e me volto para Peggy, alertando no tom mais sério que consigo:
— Ah! E não ouse me espiar pela fechadura. O privilégio de me ver nu pertence a uma única mulher.
Ela cruza os braços e ri sem humor.
— Vejo que você já está melhor, que ótimo.
— Claro que estou — admito mais para mim mesmo do que para Peggy. — Afinal... ela me ama.
Minha amiga revira os olhos e sai do quarto dizendo:
— Vou te esperar na recepção, Shakespeare.
[...]
Peggy e eu saímos para jantar aquela noite e passamos mais dois dias em Starkville depois disso.
Não bebi mais qualquer gota de álcool, o que lhe deixou bem orgulhosa. E professei mais algumas vezes que Maria me ama, o que começou a irritar Peggy, não pelo teor das palavras, mas sim por eu sempre repetir isso nos momentos mais aleatórios das nossas conversas.
Embora não tenha me pressionado a fazer isso, segui com ela para Los Angeles e decidi me dedicar às invenções para a RCE. No princípio, me senti meio enferrujado, porém logo a inspiração retornou, como Peggy avisou que aconteceria.
Pensar no raio de sol me tirou a concentração algumas vezes, confesso. Por outro lado, lembrar que ela me ama também serviu como uma espécie de combustível para pensar positivo sobre o futuro e viver o presente da melhor forma que eu conseguir.
Ainda não sei como vou consertar as coisas entre nós, embora eu tenha certeza de que vou encontrar um modo mais cedo ou mais tarde. Vai ficar tudo bem em algum momento, afinal... ela me ama. E eu a amo também. Não podemos continuar separados, seria altamente ilógico.
Após três semanas bem produtivas, me despedi de Peggy e resolvi passear um pouco por Malibu. A ideia era ser breve, porém me permiti ficar uma semana explorando a região, aproveitando para caminhar pela orla das belas praias, confabulando sobre a vida a cada passo pela areia macia e branquinha.
Ainda não sei o que fazer com minhas terras por ali, porém tenho um bom pressentimento sobre o lugar. Sinto-me em paz nele. Curioso.
Já bem melhor, mais otimista e seguro de mim, enfim deixei a Califórnia para trás e retornei para Nova York. Agora, aqui estou eu, de volta ao começo, chegando ao meu lar doce lar.
Bernard Stark, meu belo e leal flamingo, me recebe com festa assim que saio do Plymouth e bato a porta com um ruído alto. Ele surge majestoso do meio do jardim e vem ao meu encontro com passadas ligeiras, abrindo as asas, grasnando feito um doido e pisoteando uma delicada roseira pelo caminho. Jarvis, com certeza, terá um surto ao ver tal estrago.
— Ah... O papai sentiu sua falta também. — Acaricio o longo pescoço e posso jurar que o bicho sorri para mim. — Como estão as coisas por aqui? Estão te tratando bem? E o raio de sol? Você sabe onde ela está? Ah! A propósito, ela me ama, então algo me diz que em breve você terá uma mamãe. O que acha disso?
— Sr. Stark! Eu não sabia que iria voltar hoje!
Bernard fica alarmado ao ouvir a voz que me chama ao longe. E ainda mais quando percebe que a pessoa está se aproximando.
— É melhor você se esconder — aconselho o animal. — Depressa.
Ele prontamente se afasta de mim e corre em disparada. Quase bate uma das asas em Jarvis que, como eu previa, fica desnorteado ao avistar as rosas com ao caules retorcidos e pétalas soltas pelo gramado.
— Não brigue com ele, é como uma criança cheia de energia.
Meu mordomo lança um olhar indignado para o flamingo, já há uma boa e segura distância.
— Ele é um demônio, Sr. Stark. Tenho certeza que faz de propósito. Para me provocar!
Senti falta disso. De Jarvis, Bernard, a animosidade entre eles, da minha casa, de estar aqui.
— Por que não me disse que estava voltando? — ele questiona de súbito, deixando o flamingo para lá e caminhando rumo ao meu carro. — Eu teria buscado o senhor no aeroporto. Não foi cansativo dirigir depois de um voo tão longo?
Jarvis está abrindo o porta-malas para pegar minha bagagem quando o tranquilizo:
— Não se preocupe, eu dormi na maior parte da viagem. O piloto era excelente, eu me senti literalmente nas nuvens. E foi bom dirigir até aqui, me deu mais tempo para refletir.
Algo na minha resposta parece acender um alerta nele. Jarvis titubeia, a mão paralisada na alça da mala. Alguns longos segundos depois, ele parece se decidir e concentra-se em mim.
— Sr. Stark, eu sei que acabou de chegar e talvez esse não seja o melhor momento para colocá-lo a par de um certo assunto. — Ele limpa a garganta, parece muito sem jeito. Até triste. — Eu não quero ser o portador de notícias ruins, mas...
Jarvis não precisa me contar o que está tentando dizer. Não demoro a deduzir do que se trata.
— Ela pediu as contas, não foi?
O mordomo assente com um breve meneio de cabeça.
— Infelizmente. Lamento muito, Sr. Stark.
É, eu também lamento. Estou com saudade daquela mulher terrível e fabulosa. Seria bom revê-la hoje mesmo e dar o primeiro passo do meu plano. Por outro lado, eu sabia que ela não ia permanecer nesse emprego por muito mais tempo.
— Tudo bem. No fundo, eu já esperava por isso — é tudo que consigo dizer para ele no momento.
Segundos depois, sigo ao seu lado rumo à casa.
— E o pagamento? Seguiu como combinamos?
Desde que contratei o raio de sol, orientei Jarvis quanto a um possível desligamento no futuro. Sempre deixo alguns cheques em branco no meu cofre para emergências. Caso fosse preciso pagar a rescisão de Maria e eu estivesse ausente, Jarvis deveria preencher três vezes o valor original e também providenciar o pagamento do aluguel dela no Griffith por três meses para lhe dar alguma estabilidade.
— Ela não aceitou nenhum centavo a mais — Jarvis revela com nítido pesar. — Acho que não julgou correto. Mesmo assim, me pediu para agradecer pela sua generosidade. Eu juro que insisti, Sr. Stark, mas a Srta. Carbonell...
— É orgulhosa demais para aceitar minha ajuda — concluo, cruzando a porta. — Eu devia ter esperado por isso também.
Apesar de frustrado, acabo sorrindo com admiração. E rindo. Ah, aquela mulher...
Jarvis detém o passo, levando-me a fazer o mesmo, e me encara como se eu tivesse criado chifres de repente.
— O senhor está feliz?!
Só então percebo que devo estar agindo mesmo esquisito aos olhos dele e acho melhor esclarecer alguns pontos:
— Eu não queria que o raio de sol se demitisse. Por outro lado, convenhamos, pode ser uma coisa boa. Metade dos nossos problemas teve alguma relação com o fato de Maria trabalhar para mim. Agora, eu só preciso resolver a outra metade.
Por um longo momento, Jarvis permanece imóvel e mudo, tentando assimilar o que ouviu. Quando enfim seu cérebro processa o significado por trás das minhas palavras, juro que seus olhos reluzem de alegria.
— O senhor está disposto a tentar reconquistá-la?!
Ergo o dedo para ressalvar:
— A conseguir.
Jarvis une as mãos sob o queixo, seus olhos brilham ainda mais e tenho a impressão de que dará um pulinho a qualquer momento.
— Não sabe como fico feliz em ouvir isso!
Analiso-o mais uma vez.
— Na verdade, eu posso...
—.É esplêndido, Sr. Stark! — ele me interrompe, tentando conter a própria euforia. — O que posso fazer para ajudar? Devo enviar flores em seu nome imediatamente?
— Flores? — Penso um pouco, retomando o passo. — Não.
Seguindo ao meu lado pela sala de estar, Jarvis dispara mais sugestões:
— Algum presente em especial? Chocolates talvez?
Começamos a subir a escada rumo ao meu quarto.
— Não, nada de flores, presentes ou chocolate. Enviar tais coisas só faria o raio de sol deduzir que eu a quero de volta.
Mesmo sem olhar para Jarvis agora, posso perceber que ficou confuso. Seu silêncio não dura muito e ele logo inquere:
— Perdoe-me, Sr. Stark, não é essa a intenção?
Espero chegarmos junto à minha porta antes de lhe explicar o grande X da questão:
— Se eu for com muita sede ao pote, Maria vai se fechar feito uma ostra e me afastar ainda mais. Se, por outro lado, eu for paciente e um pouco mais estrategista, ela vai perceber que me quer de volta primeiro.
Jarvis fica bastante pensativo, assentindo. Quase posso ver as engrenagens do seu cérebro trabalhando.
— Hum. Parece inteligente — ele reconhece minha genialidade, abrindo a porta. — Como tem certeza de que irá funcionar?
— Simples. Porque ela me ama. — Pego a mala de sua mão, estufo o peito e não consigo evitar um sorriso. — E eu a amo também... — deixo escapar baixinho.
No entanto, alto o suficiente para fazer o semblante de Jarvis se iluminar de novo. E o meu ruborizar feito um tomate.
Sentindo-me bobo, encerro a conversa com um meneio e apresso-me em entrar no quarto sozinho, fechando a porta em seguida.
— Mãos à obra, Howard — digo a mim mesmo, largando a mala no chão.
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