Gênio Infame, Dama Mordaz
39 Mera Gentileza
No qual o nosso herói e a nossa heroína se reencontram.
Pelo o que deve ser a milésima vez, ajeito Assassinato no Expresso do Oriente com determinação diante de mim e estreito o olhar nas palavras de Agatha Christie, arregalando bem os olhos.
Deitada na cama, luto com a leitura mais uma vez. Porém, logo constato o inevitável... É impossível encontrar qualquer foco, não importa quantas vezes eu releia o mesmíssimo parágrafo.
Com certa raiva de mim mesma, fecho o livro com força desmedida.
Ando inquieta ultimamente. Cada vez mais, para ser sincera. Desde que Howard saiu da minha vida, não consigo silenciar uma parte insana de mim que insiste em sentir falta dele e perco o foco com muita constância.
Eu devia me livrar desse livro, já que foi um presente do dito cujo e acaba sendo uma lembrança muito forte do que vivemos. Já fiz algo mais difícil, que foi abandonar o emprego na sua mansão. No entanto, justamente por sentir falta do patife e por não ter perspectiva de revê-lo, tampouco de me reaproximar dele, preciso dessa lembrança física para me consolar. O livro me dá a certeza de que nossa relação não foi um sonho, de que os momentos bons foram bem reais.
É egoísta confessar isso, porém a verdade é que não esperava que Howard fosse passar tanto tempo longe de Nova York. E de mim, por consequência.
Sei que fui eu quem deu a última palavra, que deixou claro que estava tudo findado entre nós. No entanto, a mesma parte insana de mim que sente uma tremenda falta dele também se ressente de Howard por ele ter desistido tão rápido de nós.
Porque é isso que ele fez ao viajar e permanecer distante desde então, certo? Ele respeitou minha decisão, o que é louvável; e com isso desistiu, o que é... desolador.
Tão desolador quanto a maneira patética como venho olhando para a varanda a cada noite. Sempre com uma esperança tola de que o patife irá escalar o prédio de novo, adentrar meu quarto através dela a qualquer momento e me convencer de que estou errada, de que não é o fim da linha para nós.
Isso não aconteceu nas últimas trinta noites, óbvio. Não vai acontecer nessa também. Howard não apareceu antes, não irá mudar isso agora.
A essa altura, ele já deve ter me esquecido. Talvez até... tenha encontrado alguma mulher mais interessante aonde está. Ou talvez uma dezena de mulheres fúteis. Talvez elas estejam o seguindo por lá feito um séquito de sirigaitas melosas.
Algo arde no centro do meu peito toda vez que imagino tal cenário. O que é egoísmo da minha parte também, afinal o gênio infame não me deve qualquer satisfação. Se ele estiver se divertindo no meio de um harém odioso... não é mais da minha conta.
Ele me esqueceu e eu devo esquecê-lo também. Preciso tentar com mais empenho até conseguir. Preciso enterrar as lembranças e silenciar qualquer esperança idiota.
Vou me livrar do livro, decido de repente.
Por ora, guardo-o na gaveta da mesinha de cabeceira, mas hei de me livrar dele amanhã. É uma meta importante e será um divisor de águas, com certeza!
Olho uma última vez para a varanda silenciosa.
Um longo momento depois, apago a luz do abajur e viro para o outro lado da cama. Fecho os olhos e me esforço para relaxar, o que não faz muito sentido já que relaxar não deveria exigir qualquer esforço, deveria ser algo natural e... relaxante, afinal.
Reviro-me na cama por minutos torturantes. Que logo se convertem em uma hora inteira de agonia. Talvez mais.
Em dado momento, o cansaço enfim é mais forte do que a maldita insônia e eu apago.
[...]
Em matéria de noites mal dormidas, só há uma coisa pior. A manhã seguinte. Especialmente quando, além das olheiras acentuadas, acorda-se profundamente cansada porque o escasso sono não foi reparador. Some-se a isso o fato de não ter ouvido o despertador a tempo e estar muito atrasada para o trabalho.
Voilá! É assim que começo o dia! Com o pé esquerdo e de mal humor!
Depois de tomar um banho na velocidade da luz e me arrumar com muita celeridade também, tranco o quarto e logo cruzo a recepção do Griffith.
Não há tempo para uma mísera xícara de café agora, tampouco para me sentar à mesa com as outras moradoras para o café da manhã completo no hall comunitário. Ignoro o roncar inconveniente do meu estômago e disparo pelos degraus que findam na calçada.
Mentalmente, faço as contas para descobrir o quanto chegarei atrasada no melhor dos cenários. E no pior deles. Pondero se devo dar alguma desculpa convincente ao meu empregador ou ser sincera. Se corro o risco de ser advertida ou demitida.
Ergo um pouco o olhar enquanto afasto o pessimismo e me apresso mais um pouco. E é então que eu... paro de súbito, tão surpreendida com a imagem que vejo a poucos passos de mim que sinto o estômago afundar no mesmo instante.
— Indo tirar o pai da forca, raio de sol?
A voz dele me atinge em cheio, e devo admitir que além do estômago, algo muito abrupto acontece com o meu coração nesse momento. Será que sofro de alguma doença cardíaca? Arritmia, talvez? Corro o risco de morrer só por colocar os olhos nesse homem?
— Howard!
De todas as reações que eu me imaginei vir a ter caso o reencontrasse eventualmente, de todas elas, não esperava reagir do modo como faço agora. Simplesmente venço a breve distância entre nós, abrindo um sorriso inevitável. E abrindo os braços também. É com eles que envolvo o pescoço dele sem pensar duas vezes, arrancando-lhe um gemido de surpresa, ou talvez de dor porque uso uma força desmedida para abraçá-lo.
Fecho os olhos e logo sinto Howard retribuir o gesto, as mãos carinhosamente espalmando minhas costas. O calor entre nós nesse momento é tão... aconchegante que me esqueço de tudo e me perco nessa sensação por um tempo impreciso.
— Então... você sentiu minha falta.
Alarmada com as palavras sopradas em meu ouvido, abro os olhos na mesma hora e me dou conta do que estou fazendo. Desvencilho-me de Howard tão rápido quanto o agarrei e tento agir do modo mais natural possível. Claro que falho miseravelmente em disfarçar, e o calor avermelhado que toma conta do meu rosto é a prova cabal do papel ridículo que desempenhei.
— Desculpe, eu não devia...
Ele ergue um dedo para me silenciar.
— Não se desculpe por me abraçar, raio de sol, o prazer foi todo meu. Além do mais, eu compreendo, sei que sou irresistível.
Por um momento, perco o fôlego com tamanha audácia. E perco mais um pouco dele quando um lampejo de sorriso estica o canto da boca desse cretino.
Para o bem do meu orgulho, consigo pensar rápido e devolvo no mesmo tom:
— E eu compreendo por que pensa assim, já que está para nascer um homem mais convencido do que você. Fique sabendo que eu só te abracei porque fiquei muito surpresa, nada mais.
— Se você diz...
Ele não acredita. O miserável não acredita. E o pior é que, no fundo, nem eu mesma acredito. Não foi apenas surpresa que me fez abraçá-lo com tanto ímpeto. Por ora, acho melhor não pensar demais nisso.
E apesar da urgência em seguir meu caminho, não posso deixar de questionar com curiosidade:
— O que está fazendo aqui?
— Eu ainda moro em Nova York, coração. Ou você pensou que a viagem fosse durar para sempre?
Mal me recupero dessa réplica desaforada e do leve humor em sua expressão, e Howard me provoca mais um pouco ao emendar cheio de si:
— Eu perguntaria se ficou feliz com o meu retorno, mas, aqui entre nós, a resposta me pareceu bem óbvia e eu não quero te expor.
Cruzo os braços e arqueio as sobrancelhas de modo astuto:
— Eu quis dizer o que você está fazendo por aqui, quase em frente ao Griffith.
O gênio infame fica desconcertado por um momento quando esclareço a verdadeira questão. Não demora a se recompor, dá de ombros e então...
— Eu vim te ver. Quero falar com você. Não fiquei satisfeito com a nossa última conversa.
E então ele me surpreende novamente. Dessa vez, pela maneira sem rodeios como vai direto ao ponto e expõe suas intenção aqui. Não esperava tanta franqueza e não sei lidar com a ideia de colocar as cartas na mesa como Howard, ao que parece, está sugerindo.
Um mês se passou desde que nos vimos pela última vez. Tantas coisas foram ditas naquela ocasião. E tantas ficaram subentendidas em meio ao silêncio devastador da despedida em sua sala.
Não, definitivamente não consigo lidar com nada disso agora. Tenho que escapar dessa situação e dele.
— Desculpe, não posso — dispenso do jeito mais delicado possível. — Com licença, eu estou bem atrasada agora.
Recuo um passo, planejando retomar o caminho de imediato, só que então Howard dá um passo à frente e eu deduzo que ia parecer muito infantil e falta de educação sair em disparada.
— Atrasada para o novo trabalho?
O Sr. Jarvis deve ter contado a ele, é claro. Apesar de eu não ter feito nada de errado ao pedir as contas, sinto-me meio desconfortável com a pergunta quase retórica. Acho que qualquer ex-empregada se sentiria um tanto estranha diante do ex-patrão.
Some-se a isso o fato de Howard ser meu ex no âmbito romântico também e que o motivo da demissão voluntária foi justamente o desfecho desastroso dessa relação, e o desconforto é elevado a outro patamar.
Enquanto eu pondero o que dizer e, ao mesmo tempo, pergunto-me se ele quer mesmo uma resposta, Howard relaxa os ombros, coloca as mãos nos bolsos da calça e comenta de modo complacente:
— Não se preocupe, eu não estou magoado por você ter se demitido do emprego anterior, coração.
E apesar de soar tão despretensioso quando diz tal coisa, algo nas palavras me incomoda. Justamente o sentido condescendente implícito nelas, como se eu precisasse da sua aprovação depois de tudo que ele fez.
Endireito a postura e estreito o olhar com firmeza.
— Ótimo, porque seria muito egoísta se ficasse. Além disso, não mudaria em nada a minha decisão.
Movo-me um pouco, a fim de girar nos calcanhares e sair logo daqui. Só que então Howard faz algo que me detém. Ele ergue as mãos em rendição e me olha meio alarmado. Percebo que não falou por mal e que talvez minha reação foi desproporcional.
A pá de cal vem na sequência, quando ele me brinda com sua franqueza direta de novo:
— Não vamos estragar esse momento com hostilidade, Maria. Você ficou feliz em me ver, me abraçou com bastante vigor o que prova isso, não se opôs até agora por eu chamá-la de raio de sol e coração, e ainda está me tratando apenas como Howard. Que tal continuar pelo caminho da harmonia?
Embora sua desfaçatez ao pronunciar tais coisas e o leve sorriso enviesado no final me deixem ultrajada e um tanto constrangida, não posso contradizer uma vírgula do que o miserável disse. Para meu horror, Howard só falou verdades.
Sim, Howard. Nada de Sr. Stark mesmo. Foi pelo primeiro nome que o chamei antes de me jogar, de maneira patética, nos seus braços. Argh!
Se eu não estivesse tão intimamente abalada com nosso reencontro nem tão atrasada para o trabalho, analisaria melhor meus sentimentos nesse momento a fim de desvendar por que estou agindo assim.
Talvez seja melhor ser refém dos ponteiros agora, pois não sei se desvendar meu comportamento é uma boa ideia. Preciso esquecer tudo e me concentrar no que realmente importa.
— Muito bem — assinto, erguendo o queixo. — Acontece que eu não posso conversar com você nesse momento, Howard.
Nem nunca. É o mais prudente.
— Estou mesmo muito atrasada, tenho que ir. Não é uma desculpa.
É uma desculpa. Porém, também é verdade. Uma desculpa conveniente, afinal. Quase fico satisfeita por ter perdido a hora de me levantar hoje.
Sem esperar por qualquer resposta, despeço-me com um meneio de cabeça e enfim retomo o caminho pela calçada. Mais apressada do que antes, já que agora tenho dois motivos para correr. Chegar logo no meu atual emprego e me afastar o mais rápido possível do meu ex-empregador.
Por um momento, acredito que consegui, que está tudo resolvido e que me livrei do patife descarado.
Por um inocente momento.
— Nesse caso, eu te levo até o seu destino — ele fala bem atrás de mim. Logo, já está caminhando ao meu lado, os passos no mesmo ritmo célere que os meus. — Meu carro está logo ali.
Não olho para onde o irritante homem aponta. Não me interessa saber onde o seu veículo foi estacionado, não vou entrar nele.
Concentro-me em andar mais rápido e dispenso em tom seco:
— Não, obrigada.
— Por quê?
Inferno!
— Porque... Porque não — resmungo.
— Por que não?
Sinto o sangue correr mais quente e veloz nas veias.
O patife não pode simplesmente parar de insistir? Não quero ser rude com ele apesar de tudo, mas... esbravejo:
— Porque não, ora!
Uma pessoa com o mínimo de bom senso aceitaria a recusa agora, só que... Howard Stark não é lá um homem muito sensato e demonstra teimosia ao me provocar:
— Você vai me fazer perguntar mais uma vez? Porque eu posso fazer isso o dia todo, coração.
Está para nascer um homem mais persistente!
Permaneço em silêncio, na esperança de que seja o suficiente para que ele me deixe em paz.
— É só uma carona inocente, mulher. Um mero gesto de gentileza.
Detenho o passo e aperto as mãos ao lado do corpo. Com determinação, contenho a fúria interior. Então, respiro fundo e volto a abri-los na direção de Howard, ao mesmo tempo em que tomo uma decisão. Se ele pode me desnortear falando de modo direto, nada mais justo do que retribuir na mesma moeda.
Encho-me de coragem para dizer o que preciso dizer:
— Você está certo, eu fiquei feliz em te ver. Seria inútil negar.
Não espero o gênio infame se recuperar da inesperada confissão e tento não dar importância ao olhar morno que se concentra no meu ou ao rubor que tinge meu rosto com toda a certeza. Simplesmente prossigo:
— Apesar de como... De como tudo terminou entre nós, eu não te quero mal, Howard. Nunca quis nem vou querer. Ao contrário.
A nuance morna em seus olhos sofre uma ligeira mudança. Parece-me mais quente agora. Howard inclina a cabeça e me analisa como se estivesse me vendo pela primeira vez.
Tenho a impressão de que ele dará um passo na minha direção e, por via das dúvidas, recuo um passo para concluir o grande X da questão:
— Só que isso não significa que devemos fingir que nada aconteceu. Exatamente o que você pretende ao aparecer na minha frente assim, oferecendo uma carona inocente, como um mero gesto de gentileza. — Encaro-o com mais firmeza e dispenso entre dentes: — Não, obrigada.
A chama em seus olhos tremula e se apaga. Em meu íntimo, lamento por tê-lo magoado, porém ele praticamente pediu por isso.
Sem mais nada a fazer, preparo-me para ir embora de uma vez. E mais uma vez algo me detém. Um toque quente e sútil em minha mão que faz o ar desaparecer dos pulmões e algo acelerar no centro do meu peito.
Feito uma bobalhona, observo nossas mãos juntas e uma onda de recordações inunda minha mente, disparando ainda mais esse coração estúpido.
Oh, céus... Se já estava complicado lidar com esse reencontro antes, agora piorou por completo.
— Eu não estou fingindo que nada aconteceu, só decidi não passar o resto da vida remoendo o que não posso mudar — Howard diz de modo firme também, quase bravo. — O que aconteceu está feito, Maria. Eu errei com você, lamento de verdade, mas está feito. Você pode até não ter me perdoado, mas quer saber? Eu precisei fazer isso por mim para seguir em frente, goste você ou não.
Parte de mim agradece por suas palavras quebrarem o encanto momentâneo que senti. Parte de mim está confusa, sem saber o que pensar direito sobre o significado delas. O que Howard quis dizer com seguir em frente?
Solto sua mão. Não de maneira brusca como eu pretendia, mas o importante é que a solto.
Antes que eu diga ou faça qualquer coisa, ele questiona com certa pretensão:
— Qual o real problema aqui, raio de sol? Está com medo de ficar sozinha comigo no carro? De não resistir e se jogar nos meus braços de novo?
E isso é o suficiente para dissipar minha inércia e inundar minhas veias com ira renovada.
— Ora, não seja ridículo!
— Perfeito! Então, posso concluir que não há nenhum motivo plausível para recusar a minha carona.
Howard tem a audácia de me segurar pela mão mais uma vez e seguir adiante pela calçada, levando-me junto.
— Discordo!
Tento soltar a mão, só que o enlace dele é mais forte. E mais quente. Minhas pernas vacilam um pouco.
— Claro que discorda... Que chocante!
Não demoro a avistar o Plymouth. O veículo, que me desperta mais lembranças nossas, encontra-se estacionado na esquina do próximo quarteirão.
— Há muitos motivos plausíveis para recusar!
— E apenas um para aceitar, você está atrasada. Vamos logo, Maria, o tempo urge!
Que Deus me ajude, mas nesse momento não aguento toda a situação absurda, toda a teimosia de Howard e acabo rindo meio derrotada e meio encantada.
— Você continua um patife — comento e, que Deus me ajude de novo, há um carinho implícito em minha voz.
— Ah... Isso soa como música nos meus ouvidos! — Howard suspira para ilustrar o prazer que sente.
E agora estou sorrindo.
Antes que ele volte o olhar na minha direção, obrigo-me a mascarar meu momento de fraqueza, colocando uma expressão bem séria e fechada no rosto. E quando ele enfim me olha de novo, parece assustado com o que encontra.
— Nossa, mulher... Relaxe, eu não mordo.
Eu não devia refletir sobre esse argumento despretensioso jogado no ar. Infelizmente, é o que acabo fazendo enquanto Howard me conduz até o lado do passageiro do carro.
— É, nós dois sabemos que isso é uma mentira deslavada — ele diz, abrindo a porta para mim.
Lembranças muito vívidas de momentos íntimos fazem meu peito acelerar pela milésima vez e algo se contrair no meu baixo ventre. Quase sinto a leve dor e os arrepios provocados pelos dentes de Howard ao mordiscar meu pescoço, meu ombro, minhas coxas... Só para depois beijar cada parte com reverência e um carinho lascivo.
Meu descompasso piora quando Howard apoia os braços na porta do veículo e me encara de um jeito maroto, com um sorriso zombeteiro no canto da boca. Provavelmente, visitando as mesmas lembranças que eu.
— Se te deixa mais tranquila, prometo não mordê-la hoje.
Patife! Mil vezes patife! Convencido irritante!
E que inferno de sentimentos que não me deixam em paz!
Será que nunca vou me libertar dos efeitos que esse homem desperta em mim? Nunca deixarei de sentir essa saudade inconveniente? Nem essa terrível falta de ar?
Para o meu próprio bem, preciso continuar tentando até conseguir. Vou conseguir ou não me chamo Maria Carbonell. Vou conseguir nem que, por enquanto, eu tenha que fingir que estou tendo algum êxito.
Recomponho-me do melhor jeito que posso, ergo o queixo e esclareço ao descarado:
— Nem hoje, nem nunca.
Se Howard fica desapontado, não demonstra. O ar zombeteiro continua presente quando ele dá de ombros e balbucia:
— Você que sabe.
Respiro fundo e, por fim, entro no carro, informando o destino:
— Rua 40, número 212.
Puxo a porta para fechá-la com um baque estrondoso. E com isso, o gênio infame perde o apoio, assusta-se e perde boa parte do equilíbrio. Ele também disfarça como pode e endireita a postura de modo altivo um segundo depois.
Embora já esteja dando a volta no carro para assumir a direção ao me lado, faço questão de azucriná-lo e deixar bem clara minha urgência:
— E depressa, antes que eu mude de ideia!
— Sim, senhora!
Estou mais atrasada do que nunca e a culpa é toda dele. Ainda assim, lá no fundo, de forma ilógica, sinto-me genuinamente feliz por ter aceitado a carona.
Sem que Howard veja, acabo sorrindo de novo.
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