Gênio Infame, Dama Mordaz
30 Sinônimos
Notas iniciais
No qual nossa heroína e nosso herói debatem sobre sinônimos.
Sem dúvida, o dia de hoje foi muito esquisito. Briguei com o meu irmão depois de meses sem vê-lo, coisa que eu não esperava que fosse acontecer; e não briguei com Howard, coisa que eu esperava que fosse acontecer, afinal... Bom, é de nós dois que estamos falando.
Mas o fato é que diante do noivado indigesto que Jimmy armou para cima de mim com o crápula do William, o ciúme bobo de Howard se tornou o menor dos meus problemas e senti que podia relevar.
— Você não está muito falante hoje, não é?
Tal pergunta me arranca do último pensamento e paro de olhar a cidade pela janela do Plymouth, voltando a atenção para o homem na direção ao meu lado. Seguindo a rotina das últimas noites, Howard fez questão de me dar carona até o Griffith após o fim do meu expediente.
— Desculpe, patife. Eu avisei que preferia voltar sozinha dessa vez, justamente porque não estou me sentindo a melhor companhia hoje, mas você insistiu.
Ele batuca os dedos no volante, aproveitando que paramos em um semáforo, e se queixa feito um menino emburrado:
— É que eu pensei que minha simpatia contagiante e meu charme natural pudessem mudar o seu humor, te distrair, te fazer se sentir melhor. Pelo visto, me enganei. É como se essa noite eu fosse invisível para você, Carbonell. Nunca me senti tão... insignificante e dispensável.
Não consigo deixar de sorrir com diversão perante comentário tão exagerado. E ainda dizem que nós, mulheres, somos as dramáticas da história.
Ora, até podemos ser às vezes, só que Howard sem dúvida está brigando pelo páreo.
Por outro lado, também me compadeço um pouco com suas palavras porque sei que não estou mesmo no meu melhor momento e percebi, ao longo do dia e principalmente agora, que meu jeito introspectivo deixou o gênio infame inquieto, preocupado e, aposto, muito curioso para saber o motivo por trás dessa reclusão dentro de mim mesma.
O problema é que não consigo falar da decepção que tive com Jimmy, pois isso implicaria contar também sobre William e expor a humilhação que senti ao descobrir o noivado forçado com ele por meu próprio irmão.
Desconfortável, faço um esforço para afastar essa história revoltante da minha cabeça, aproximo-me do patife, envolvo seu braço e encaixo a cabeça em seu ombro. Um calor aconchegante me envolve de imediato e me sinto mais leve.
— Você pode ser muitas coisas, Howard Stark, mas invisível não consta na minha lista. Tampouco insignificante ou dispensável.
Percebo seu corpo se retesar na mesma hora. E pelo retrovisor lateral, vejo um claro interesse nas sobrancelhas arqueadas.
— Você tem uma lista sobre mim?
Sorrio sem que ele veja. Em outros tempos, eu me xingaria de estúpida por ter deixado essas palavras aleatórias escaparem, porém hoje... Hoje percebo que poderá ser divertido alimentar o assunto. Ao meu favor, óbvio.
— De certa forma. Nada oficial. Só algo que criei na minha cabeça num momento de total ócio.
Isso não é bem a verdade, contudo me parece irrelevante no momento dizer que só agora pensei em como seria uma lista sobre Howard Stark.
— Posso saber qual o primeiro item dela? — ele pergunta ainda mais interessado.
Sem rodeios, revelo:
— Claro, é exibido.
Sinto-o se retesar de novo. Dessa vez, com ultraje. E quando Howard faz a próxima pergunta, há uma boa nota disso em sua voz:
— E o segundo?
— Pavoneado.
— Ora, não vale! — ele protesta, indignado. — São sinônimos, Maria!
— No seu caso, a repetição se aplica muito bem, acredite. Porque você consegue ser exibido feito um pavão, o que faz completo jus à redundância.
Ele expira com força e indaga com uma mistura de azedume e atrevimento:
— Posso saber em qual posição dessa sua lista aparece amante magnífico?
Comprimo os lábios por um momento. A resposta afiada na ponta da língua. Como não poderia deixar de ser, não resisto e verbalizo-a num tom tranquilo que sei que deixará Howard possesso:
— Talvez um pouco abaixo de convencido.
Sinto uma coisa se agitando dentro de mim. Com surpresa, percebo que é uma gargalhada querendo nascer.
— Pelo menos aparece em algum lugar, não é mesmo? — Howard resmunga, desgostoso com a meia vitória.
Finjo que fiquei pensativa sobre esse último tópico e não resisto em provocá-lo mais uma vez:
— Ou seria muito, muito abaixo de presunçoso?
A réplica não demora e vem com certo azedume:
— Convencido e presunçoso também são sinônimos, minha querida.
Decido ser ainda mais cínica e argumento:
— Eu sei, e você também faz jus à repetição, meu querido.
Ficamos em silêncio. Apenas o ronco do Plymouth e dos outros veículos lá fora por um longo momento. De repente, a gargalhada vem. Simplesmente me escapa, sem razão aparente e, ao mesmo tempo, por causa de toda essa conversa absurda que parece ter chegado em algum tipo de beco sem saída.
Seja como for, o riso que escapa me deixa mais leve. Eu estava certa, valeu a pena alimentar o assunto. A discussão com Jimmy parece ter acontecido há muito tempo e perdido boa parte da gravidade. Sinto-me bem melhor.
— Você é uma mulher terrível, Carbonell — Howard alfineta, embora também haja relaxamento e certo riso em sua voz.
— E você já me disse isso uma vez. — Suspiro de forma teatral e permito me vangloriar: — Quando confessou estar apaixonado por mim, lembra?
Ele não responde, mas pelo calor e o embaraço que vejo em seus olhos ao observá-lo de soslaio, tenho certeza que se lembra muito bem.
— Vejo que consegui te distrair, afinal.
— Conseguiu. — Volto a repousar a cabeça em seu ombro. — Feliz, meu bem?
— Por você estar se divertindo às minhas custas? Por mais estranho que isso possa parecer... Sim, estou.
Para mim, isso já era a conclusão perfeita. Meu coração já estava acalentado o bastante e um sorriso bobo já se desenhava em minha boca sem pedir licença.
Só que então Howard arremata de um jeito natural:
— Nada me deixa mais feliz do que ser o palhaço que te faz sorrir num dia ruim, raio de sol.
E com isso ele melhora tudo. Eleva esse momento e todas as sensações a um patamar que me deixa profundamente tocada. E zonza. E ainda mais feliz.
Ergo o rosto para encará-lo. Seus olhos, no entanto, continuam concentrados na avenida lá fora.
Olho para sua boca adornada pelo bigode ridículo e confesso sem pensar:
— Se você não estivesse dirigindo, eu te beijaria agora mesmo, patife.
Alarmado, Howard olha para mim de súbito. Boquiaberto, quase deixa o volante escapar de suas mãos. Tudo acontece em um ou dois segundos. Porque nos próximos, ele se põe a dirigir feito um doido varrido, desviando dos carros a frente de qualquer maneira e ignorando que meu corpo desliza para a frente e para os lados a cada manobra abrupta que faz.
Entre alguns motoristas que praguejam indignados, buzinas protestantes reverberando pelo ar e o som alto dos pneus do Plymouth derrapando no asfalto, finalmente paramos em frente ao Griffith.
Tive que cravar as mãos no banco com força para me equilibrar de algum modo.
— Chegamos!
É o que o maluco diz enquanto eu avalio cravar minhas mãos no seu pescoço mesmo.
— HOWARD! Você...
— Brigas depois, Maria — ele me interrompe, aproximando-se decidido. — Agora o beijo.
A indignação e o paraíso são separados por uma única linha. Tênue e que logo perde a importância, deixando apenas o paraíso no controle de tudo. É isso que eu sinto quando o patife me puxa para junto dele e pressiona minha boca com seus lábios quentes. É o que fica mais do que comprovado quando a língua úmida abre caminho com atrevimento, fazendo meu corpo estremecer e um calor cálido me inflamar.
Relaxo em seus braços, envolvo seu rosto e me esqueço de tudo. Pelo menos, por um tempo. Um precioso tempo durante o qual me entrego à urgência do beijo apaixonado. Um momento especial que, infelizmente, se dissipa quando ouço certo burburinho fora do veículo.
Vejo-me obrigada a afastar um pouco o rosto para espiar pelo vidro aberto. E fico muito constrangida ao constatar o quão expostos nos encontramos, sendo observados por olhares curiosos de quem passa pela calçada sem a menor pressa.
— Howard... As pessoas estão olhando — sussurro horrorizada, desviando como posso de sua boca. — O que vão pensar?
— Que você tem muita sorte e bom gosto? — gaba-se cheio de vaidade masculina.
Estreito o olhar, afasto-me mais um pouco e cruzo os braços. Howard é inacreditável.
Ele, por sua vez, dá de ombros e justifica de um modo muito sonso:
— Convencido e presunçoso, como você mesma disse. Eu só vesti a carapuça.
Acabo sorrindo, é inevitável, e tento bater no ombro dele porque me falta melhor argumento nessa hora. O patife, no entanto, segura minha mão antes que eu consiga e, para minha surpresa, leva meu pulso até os lábios.
Ele beija, demoradamente, a pele sensível enquanto olha para mim de um jeito intenso. E sorri cheio de si, feito o diabo que é, quando percebe que meus batimentos deram um salto.
Por falar em salto, encantador pula para o primeiro lugar da lista. Que, na realidade, não é uma lista em si. Eu nunca havia sequer pensado sobre ela antes de toda essa conversa maluca. E o pódio não me parece fixo, analisando agora.
Nada é de longe tão organizado quanto eu quis que Howard acreditasse. Na verdade, tudo se resume a um amontoado fascinante de qualidades e características curiosas. Tudo gira o tempo inteiro. Tudo é sobre ele. E tudo me encanta cada vez mais.
Engulo em seco ao perceber a real dimensão dos meus sentimentos. Estou mais do que apaixonada por Howard. Acho que eu corro o risco de... amá-lo. De verdade e profundamente. Quem sabe para sempre?
Que Deus me ajude...
— T-te vejo amanhã?! — digo de súbito, afoita e atrapalhada.
Aliás, não tenho ideia do porquê pergunto isso. Amanhã é dia útil e Howard é meu patrão. Não pretendo faltar, logo é claro que nos veremos sem falta.
— Por que não essa noite? — ele sugere, beijando a palma da minha mão dessa vez. E cada um dos meus dedos depois. — Mais tarde? Basta deixar sua janela aberta e eu estarei lá.
Estou prestes a dizer sim. Chego a abrir a boca e a sentir aquele frio de ansiedade no estômago.
Tudo seria tão perfeito se eu apenas dissesse sim. Tão perfeito se eu não olhasse de soslaio para a escadaria do Griffith e me lembrasse de Jimmy de repente. Da nossa briga mais cedo e do motivo por trás de tudo. Tão perfeito se eu não hesitasse, avaliando se serei uma boa companhia para o gênio infame essa noite, sendo que ainda preciso digerir tantas coisas particulares. Tão perfeito se eu não concluísse que não serei.
— Tudo bem, você quer ficar sozinha. — Há frustração em sua voz, embora ele disfarce com um sorriso fraco. — Entendido.
Faço questão de corrigir com delicadeza:
— Eu preciso ficar.
— Para pensar em seja lá o que for que aconteceu entre você e o seu irmão brutamontes, e que você não quer me contar?
— E que eu não consigo te contar — corrijo mais uma vez. — Ainda não, desculpe.
Howard me analisa por um longo momento. Tão concentrado e sério que mal se parece com ele. É como se quisesse ver através de mim, ler meus pensamentos, desvendar meus segredos. Já que não consegue, sorri de leve, resignado.
— Como quiser. Quando estiver pronta, saiba que eu sou todo ouvidos.
Antes que eu diga qualquer coisa, ele tenta se aproximar de novo. Sorrateiro e com um olhar libertino. E assim eu volto a reconhecê-lo.
— E não se esqueça também que eu posso ser todo lábios. Todo mãos, todo corpo e...
Um dedo em sua boca e ele é silenciado.
— E infelizmente você não vai conseguir me convencer essa noite. — Afasto o dedo e sussurro em tom de confissão: — Mesmo com amante magnífico brilhando em néon em algum lugar da minha mente.
Muito lisonjeado, Howard ergue a cabeça e estufa o peito; e eu me despeço com um beijo suave em sua boca antes de sair do carro.
Já na escadaria, aceno um tchauzinho e ele acena de volta. Acabo rindo de novo. E me sentindo leve e feliz mais uma vez.
Tudo por causa dele.
[...]
O problema com o universo é que ele parece estar sempre em busca de equilíbrio. Se tive um ótimo momento com Howard há poucos segundos, agora a história é outra. Porque assim que cruzo a entrada do Griffith, sou surpreendida por alguém me esperando.
Alguém que se põe de pé num pulo e me encara com inquietude, abandonando a poltrona aonde estava espremido antes. Jimmy é mesmo um brutamontes, como Howard observou.
Da recepção bem ao nosso lado, a Sra. Miriam Fry anuncia com uma voz enfadonha:
— Como pode ver, você tem uma visita, Srta. Carbonell.
Olho de relance para ela. Atrás do balcão, os óculos quase pendendo do nariz, folheando alguma revista, a proprietária do hotel é a imagem do puro desinteresse. No entanto, aposto que não passa de uma fachada para ocultar o espírito fofoqueiro e julgador sob a superfície.
— Não é uma visita, é um pesadelo — resmungo, mais para Jimmy do que para ela. — Um pesadelo chamado a volta dos que não foram!
Torno a olhar para ele, que não parece muito satisfeito com o meu tom. Ótimo.
— Nada disso é problema meu — a Sra. Fry comenta, virando uma página da revista. — Apenas se lembre da regra principal desse lugar. Cavalheiros não são permitidos no andar de cima. Seja lá o que for conversar com esse senhor, faça isso aqui embaixo.
— Nem aqui embaixo, nem lá em cima, nem em lugar algum — retruco, obstinada. — Eu não tenho nada para conversar com esse senhor. Que, aliás, já está de saída.
Dou as costas para os dois, determinada a subir para o meu quarto o mais depressa possível e a esquecer essa parte da noite.
— Eu não vou embora sem falar com você, Maria.
A voz firme de Jimmy me faz estancar três passos depois. Respiro fundo.
— Pois então lamento, você será incorporado à decoração do hotel. Talvez crie até alguma poeira. Passar bem.
Dou um novo passo à frente, o olhar cravado na escada logo adiante.
— Cinco minutos! — E meu irmão me faz parar de novo. Demora alguns instantes e pede num tom mais baixo: — Me dê cinco minutos, mulher. Por favor.
Há algo no jeito como ele diz isso que não consigo ignorar. Algo morno e manso que me remete à infância. Quando todas as briguinhas ridículas perdiam a importância assim que um de nós cedia e pedia desculpas. Geralmente, era Jimmy quem dava esse primeiro passo rumo à paz. Como agora.
Sinto que estou prestes a fraquejar. Feito aquela garotinha que admirava o irmão mais velho mais que tudo e não aguentava ficar muito tempo sem conversar com ele, sem estar de bem, sem sorrir em sua companhia.
— Me dê um bom motivo para fazer isso — peço, ainda de costas, tentando resistir.
— Por que não dois? — Dessa vez, há mais confiança em sua voz. — Eu não vou conseguir ir embora sabendo que te magoei. E você não quer ficar brigada comigo.
Viro-me em sua direção com um suspiro indignado.
— Ah, eu não quero?!
Jimmy coloca as mãos no bolso da calça, relaxa os ombros e tudo o que responde enquanto me encara fixo é...
— Não.
Tão típico dele querer vencer a discussão com uma única palavra. Tão típico dele conseguir. Que ódio!
— Cinco minutos — determino firme, com um dedo em riste. — Nem um a mais nem um a menos.
Jimmy se limita a assentir devagar. O irritante ar de confiança mais visível agora que um meio sorriso surge em seu rosto.
Faço menção para que ele me siga de uma vez. Só que ambos paramos no meio do caminho quando a Sra. Fry volta a se manifestar em alto e bom som:
— Eu pensei ter sido clara, Srta. Carbonell. Homens não são permitidos além da recepção.
Franzo o cenho, enojada com a ideia que ela está fazendo de nós dois.
— Ele é meu irmão — esclareço.
— Todas dizem isso. E sabe o que eu respondo a cada uma delas?
Abro a boca para argumentar, porém a proprietária do Griffith me corta num tom gélido e mais alto:
— Exato. Que a resposta continua sendo não.
E volta a folhear a revista, ignorando-me por completo, deixando bem claro que não está aberta a considerar o assunto.
Respiro bem fundo e lhe lanço um sorriso desgostoso que ela não chega a ver. O que me consola é imaginar o quanto ela se sentiria estúpida, caso soubesse que já ignorei sua maldita regra principal com Howard.
— Isso é ridículo — resmungo baixinho, enquanto indico um sofá mais afastado na área de convívio comum, onde poderei ter certa privacidade com meu irmão.
— Na verdade, isso me deixa mais tranquilo — ele confessa, depois de se sentar na extremidade oposta à minha. — É bom saber que você mora num estabelecimento de respeito e que a senhoria zela pela sua reputação. O mundo está cheio de espertinhos, Maria. Meu sangue ferve só de imaginar algum deles se atrevendo a entrar no seu quarto.
Outro que não sabe de nada. Tão inocente...
Eu poderia ver graça nisso, se não estivesse tão tensa com esse reencontro e ainda muito irritada com meu irmão.
— Quatro minutos, Jimmy.
Ele ergue as mãos na altura do peito e arregala os olhos.
— Tudo bem! Calma!
Depois, esfrega a nuca e me parece um tanto inquieto, como se não soubesse por onde começar.
— Então... Como foi o seu dia de trabalho?
Ele realmente não sabe.
— Você quer mesmo desperdiçar três minutos falando de animosidades?
Jimmy ergue as sobrancelhas de modo acusatório.
— Você está roubando.
Estou mesmo. É injusto. Ele ainda tem pelo menos quatro minutos.
Decido não pressioná-lo mais e apenas espero ele dizer seja lá o que tiver a me dizer.
Jimmy parece perceber essa abertura e volta a buscar dentro de si as palavras certas. Por várias vezes, fica prestes a dizer algo. Então, desiste e pensa mais um pouco.
Estou quase perdendo a paciência quando noto algo muito estranho no seu semblante. Algo muito fora de hora e contexto, que me deixa bem intrigada.
Contudo, não é imaginação minha. Os lábios dele estão esticando nos cantinhos sim.
— Você está sorrindo?!
O sorriso se alarga e um riso baixo chega a escapar pelo nariz.
— Você é um idiota mesmo... Um caso perdido!
Descrente com tamanho despautério, levanto de súbito, disposta a deixar meu irmão sozinho no hall e subir para o meu quarto de uma vez.
Só que então ele me segura pela mão, fica mais sério — ou pelo menos, sem a expressão boba — e tenta se explicar:
— Eu só estou aliviado. Você esqueceu o William. Isso é simplesmente... maravilhoso, Maria!
Franzo o cenho. Juro que não estou entendendo mais nada.
— Maravilhoso? Que estranho, eu pensei que você quisesse me ver casada com ele. Até fez questão de cuidar de tudo, não foi?
Sim, há uma boa dose de ressentimento nas palavras que jogo em sua direção. E elas apagam o resquício de sorriso dos olhos dele imediatamente.
Jimmy solta minha mão devagar e, para minha surpresa, eu não aproveito a deixa para desaparecer de sua frente. Ao contrário, volto a me sentar diante dele. De repente, quero muito ouvi-lo e entender o que diabos está acontecendo aqui.
Dessa vez, ele não demora a encontrar as palavras. Enquanto aperta as mãos e olha para um ponto qualquer do assoalho, Jimmy as diz com firmeza e nítida sinceridade:
— Tudo bem, eu admito que me deixei levar pelo falatório na cidade e pensei que seria ótimo calar a boca de todos com o casamento. Acontece que eu não teria feito nada do que fiz, se não acreditasse que você ainda gostava dele, Maria. Eu pensei mesmo que o noivado ia te deixar contente. Tanto que estava disposto a relevar algo que, lá no fundo, eu sempre soube.
— Que seria?
Ele olha para mim.
— William Mitchell não merece você. Nunca mereceu. — Jimmy pega minha mão de novo e aninha entre as suas. Sorri de leve. — Desculpe por ter ignorado isso por tanto tempo. E por ter me intrometido tanto na sua vida antes de enxergar que você pode fazer suas próprias escolhas. E tem escolhido bem, Maria.
Não consigo dizer nada. Apenas percebo, mais uma vez, que o universo precisa mesmo de equilíbrio. Irmãos não podem ficar se estranhando por muito tempo nesse mundo, não é?
Além disso, como eu poderia não relevar a minha briga com Jimmy, quando ele mostra que reconheceu que agiu mal e me toca profundamente com palavras tão francas?
Estou pensando no que lhe dizer e sentindo meus olhos ligeiramente marejados, quando ele abre os braços e propõe com certa cautela:
— O que me diz de selar a paz, irmãzinha?
Sem hesitar, me jogo em seus braços. Às vezes, palavras são dispensáveis. Simplesmente fecho os olhos e sorrio, enquanto aperto meu irmão com força. É muito bom fazer as pazes. Muito bom!
No fim, tenho que admitir o óbvio. Ainda sou a garotinha que precisa ficar de bem com ele. É um idiota, erra como todo mundo, mas é meu irmão e eu o amo demais.
De repente, somos interrompidos por um pigarro. Afastamo-nos um do outro para encarar a mulher que nos observa do balcão com olhos de águia.
— Demonstrações físicas de afeto entre homens e mulheres também não são permitidas no Griffith. Nem mesmo na recepção.
— Pelo amor de Deus, ela é minha irmã! — Jimmy reclama, perdendo a paciência com a Sra. Fry.
Dou alguns tapinhas em sua mão e digo baixinho:
— Não vale a pena.
Jimmy pondera por um instante e parece concordar. Mais relaxado, torna a se concentrar em nós e indaga:
— Me acompanha até a saída?
Assinto com um meneio de cabeça. Surpresa, percebo que já estou com saudade dele.
Mesmo que a proprietária do Griffith não aprove, saímos abraçados do lugar.
[...]
Já do lado de fora, Jimmy me observa com atenção e fala:
— Então, você vai ficar.
Não foi uma pergunta, ainda assim respondo:
— Vou.
— Por quê?
Ao contrário do nosso encontro pela manhã, dessa vez não há um tom crítico na maneira como me questiona. Parece apenas que Jimmy quer me entender melhor.
— Eu gosto da vida que estou construindo aqui. Posso ter vindo para me afastar de vez do William, mas não é por causa dele que escolhi ficar. Eu achei meu lugar em Nova York. — Inevitavelmente, pego-me pensando no patife. — Meu coração, talvez.
Jimmy franze o cenho, desconfiado.
— Escolha curiosa de palavras.
Sinto que falei demais e tento contornar mudando de assunto depressa:
— Olha... Tudo bem, você está desculpado. Agora volte para casa e desfaça o noivado que teve a péssima ideia de arranjar assim que chegar lá, combinado?
Nesse momento decido que, da próxima vez que nos vermos, vou contar tudo sobre Howard. Mas não hoje. Por hoje, já tivemos emoções demais.
— William vai ficar perplexo. — Jimmy solta uma risada. — Considere feito — afirma, com ar diabólico.
Então ele me abraça mais uma vez. E somos envolvidos por uma forte emoção.
— Diga ao papai que eu estou com saudade — peço, lutando para minha voz não soar tão embargada. — E que prometo visitá-lo assim que possível.
— Considere feito também. — Jimmy se desvencilha e me olha uma última vez. Sorri com algo que parece ser orgulho. — Tchau, irmãzinha. Fique bem e juízo.
Ele se vira para descer a escadaria, porém acaba não enxergando alguém que vem na direção oposta no mesmo instante.
Sem conseguir desviar a tempo de Angie, ele se choca com minha melhor amiga. Ela se desequilibra, e ele a segura pela cintura por um momento. Ela ri de surpresa. E eu começo a achar que Jimmy está segurando-a por tempo demais.
Os dois se encaram por alguns instantes. Uma buzina soa ao longe e parece despertá-los.
Finalmente, ele se afasta com cuidado, lança um sorriso luminoso para ela e diz:
— Perdão, madame.
Angie o observa se afastando, depois me vê alguns degraus acima e pergunta:
— Quem era o bonitão?
— Meu irmão — revelo, achando esse momento estranhamente significativo.
Do seu jeito acelerado e naturalmente empolgado, ela retruca:
— Você não me disse que ele vinha visitá-la. Nem que era tão bem-apessoado.
— Bem-apessoado? O que aconteceu com bonitão?
Angie dá um tapinha no ar.
— São sinônimos.
Juntas, entramos no Griffith. Enquanto subimos para o andar de cima, ela me mostra o que tem dentro de uma sacola que trouxe da rua. Uma garrafa de licor.
— O que me diz sobre passar no meu quarto mais tarde para degustar essa belezinha e conversar sobre o que aconteceu nos nossos dias?
Solto uma risada. Tenho muita história para contar. E adoro ouvir as da minha amiga também.
— Será perfeito.
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