Gênio Infame, Dama Mordaz
31 Melhor Amiga
No qual nosso herói canta ópera, nossa heroína se arrepia, a campainha toca e algo desafina.
Nada como um bom banho de manhã para despertar e começar bem o dia! Enquanto eu aproveito a espuma da banheira e a água deliciosa na temperatura certa, canto a plenos pulmões uma das minhas óperas favoritas, O Barbeiro de Sevilha!
As últimas semanas vêm sendo maravilhosas. Maria se entendeu com o irmão brucutu antes que ele partisse para Richmond — a cidadezinha no estado da Virgínia onde ela também vivia antes de se mudar para Nova York —, e desde então, o raio de sol voltou a brilhar com todo o seu esplendor.
Não há qualquer sinal daquela tristeza que eu vi em seus olhos quando Jimmy Carbonell veio visitá-la e os dois brigaram. Seja lá o que ele lhe trouxe de problema na ocasião, parece ter virado história passada e resolvida.
Maria anda mais leve e feliz desde então, e isso me deixa leve e feliz automaticamente. É como ação e reação ou átomos ligados. Impossível não ficar bem se ela está bem.
Não menos importante, ao contrário do que fez quando estava estremecida com o irmão e sem clima para romance, Maria nunca mais dispensou o calor do meu corpo em sua cama. E isso me deixa mais leve e mais feliz também, não vou mentir.
O único problema é que tem sido arriscado invadir o Griffith para ficarmos juntos toda vez e não gosto da ideia de colocar Maria em risco assim. Por mais que o perigo seja excitante e compense muito, se Miriam Fry descobrir que eu tenho entrado no quarto da minha dama mordaz todas as noites, Maria poderá ficar em maus lençóis.
Venho pensando numa maneira de contornar isso. Só não sei se o raio de sol vai gostar da solução que encontrei ou se fará alguma objeção.
Ah! Quem eu estou tentando enganar? É obvio que irá fazer muitas objeções, é dela que estamos falando. Terei de ser muito convincente para que Maria pelo menos considere a opção.
Ainda reflito sobre isso enquanto me visto. E ainda estou cantando quando deixo meus aposentos logo depois.
O que vejo no corredor me silencia de forma abrupta e pigarreio para disfarçar que talvez — apenas talvez — eu tenha desafinado um pouco com a surpresa.
Ela está aqui.
Com o uniforme bordô e simples de arrumadeira, de pé ao lado de um balde de alumínio, segurando o esfregão, o rosto corado pelo esforço braçal e olhando para mim com ar divertido, Maria é a imagem mais sensual que eu já vi. E olha que eu já vi muitas, mas nenhuma se compara a ela.
Estou perdido por essa mulher.
— Nossa, Sr. Stark... Eu não sabia que o senhor cantava tão bem. — Maria estica o braço para me mostrar algo nele. — Olha só, fiquei até arrepiada.
Ela ri do próprio comentário ou — o mais provável — de mim, e um súbito calor me incendeia.
Muito perdido.
Olho de soslaio para a porta recém fechada e penso em como eu poderia abri-la com um mero e certeiro girar da maçaneta agora mesmo.
Estreito o olhar na direção de Maria e avalio quantos segundos, depois que nos trancasse no quarto, eu levaria para livrá-la do uniforme. E dos sapatos que adornam com fivelas delicadas seus lindos tornozelos. E o cabelo? Quanto tempo eu levaria para soltá-lo, permitindo que as mechas douradas e macias caíssem livres por seus ombros nus?
— Eu sei fazer outras coisas muito bem e que te deixam ainda mais arrepiada — insinuo. — Quer relembrar?
As bochechas do raio de sol ficam mais vermelhas e a boca meio entreaberta na mesma hora. O calor inflama, e não é só em mim. Aposto como ela está se lembrando da noite passada no Griffith. E das noites anteriores a ela.
Vislumbro certo brilho em seus olhos e acredito que esteja considerando minha oferta para tornar essa manhã gloriosa também!
A demora em me responder parece ser um sinal de uma possível vitória.
Porém, é só eu dar um longo e determinado passo em sua direção, que o ar favorável evapora feito fumaça e a dama mordaz desperta com força total:
— O que eu quero ou não quero é irrelevante agora porque horário de trabalho é horário de trabalho, lembra? Os limites que combinamos continuam de pé, Howard. Não banque o espertinho.
Disfarço como posso que quase escorreguei no piso molhado e resmungo sem pensar:
— Nossa, que chata...
O esfregão bate com ligeira força no assoalho reluzente.
— O que disse?
Ergo as mãos na altura do peito enquanto sigo até ela com muita cautela e um sorriso diplomático:
— Que você está coberta de razão, meu bem. Como sempre está. Sobre tudo!
Dou um tapinha respeitoso em seu ombro.
Já que não dá para vencer a batalha, melhor bater em retirada de uma vez e tentar me concentrar em outra coisa. Um café da manhã na piscina pode ser um bom começo. Ou talvez eu mergulhe nela com roupa e tudo para aplacar o calor que me atormenta.
— Bom trabalho e nos vemos no seu horário de almoço, sim?
Maria assente com um sorriso zombeteiro e diz:
— Muito bem.
Percebo, não pela primeira vez, como é importante para ela se manter distante de mim durante o expediente para não misturarmos o lado profissional com... Bom, com todo o resto.
O emprego e a independência são aspectos que Maria leva muito em conta. Eu a admiro por isso, tento respeitar, mas confesso que tem sido cada vez mais difícil manter meu sangue frio enquanto vejo-a pela casa tirando o pó de tudo. Porque outra imagem muito sensual é Maria com um espanador em mãos, acreditem.
Estou descendo a escada e ponderando como ela irá reagir quando eu sugerir que passe essa noite aqui comigo, já que seria depois do expediente, dentro de suas regras, quando a campainha toca e espalha o som estrepitoso pela mansão.
Jarvis não demora a surgir na sala e caminha até a porta com a elegância de um bom mordomo. Ele abre assim que eu deixo o último degrau para trás e, ao ver uma certa mulher na soleira, exclama de um jeito muito alegre:
— Bom Deus! Eu não acredito! Srta. Carter!
O quê?! Peggy?!
Tão surpreso quanto ele, caminho rápido rumo à porta para conferir se não se trata de uma ilusão de óptica. Para meu deleite, não é.
Os dois se cumprimentam com um caloroso abraço quando paro diante da porta. Por sobre o ombro do meu amigo, Peggy sorri para mim.
— Jarvis, queira dizer a essa madame que eu só recebo visitas com hora marcada.
— Quem disse que eu vim visitá-lo? — ela provoca, insinuando que estaria aqui apenas por Jarvis, de quem ficou muito amiga quando estava limpando meu nome diante da RCE.
— Muito engraçada... Quem foi que permitiu a sua entrada na minha propriedade?
Nesse momento, a esposa de Jarvis surge logo atrás de Peggy e explica bem-humorada como sempre é:
— Ah, eu mesma abri o portão! Estava no jardim, espantando o seu terrível flamingo das roseiras, Sr. Stark, quando ouvi Peggy buzinando. Mal acreditei nos meus olhos!
— E eu mal acredito nos meus! — exclamo, abrindo um sorriso e os braços para receber minha melhor amiga como se deve.
— Olá, Howard — Peggy enfim me cumprimenta, o seu inconfundível sotaque inglês espalhando-se pelo ar enquanto me abraça de volta. — Aposto como se meteu em muitas confusões desde que nos vimos pela última vez, acertei?
— Não muitas, só as de sempre, você me conhece — desconverso antes de procurar seu rosto. Olho para minha amiga e sorrio muito feliz. — Bom te ver, Peggy! Quanto tempo faz? Quase um ano? Um ano? Mais? Como estão as coisas em Los Angeles? E o Sousa, como está? E Jack Thompson, recuperou-se bem depois daquela tentativa de assassinato que sofreu? Aposto como a tecnologia Stark foi determinante na recuperação dele, não foi? Não precisa me agradecer, eu faço o que posso! Conte-me tudo, vamos!
Peggy fica um pouco zonza com meu bombardeio e Jarvis intervém de pronto:
— Sr. Stark, eu acredito que a Srta. Carter adoraria responder essas e outras perguntas, mas não cabe fazermos isso aqui na porta feito pessoas não civilizadas. Por que não a leva até a sala de jantar? Eu vou servir o café da manhã num instante.
— É uma ideia adorável, Sr. Jarvis, obrigada — Peggy concorda e então se vira para a esposa dele. — Ana nos acompanha, é claro.
Visivelmente animada, ela entrelaça um braço de Peggy e assente:
— Sem dúvida! Vou adorar colocar todos os assuntos em dia, minha querida! Quanto tempo! A propósito, você está ainda mais linda! Los Angeles te fez muito bem! Está com uma cor radiante!
— Obrigada, Ana. Você está linda também e continua muito gentil. Senti saudades.
Imito o gesto da esposa de Jarvis, envolvendo o braço livre de Peggy, e faço uma ressalva:
— Muito bem, garotas, uma pausa na rasgação de seda para um breve aviso: ao invés da sala, vamos lá para fora. Está um dia maravilhoso para um café à beira da piscina, não acham?
Peggy olha para Jarvis e indaga em tom de provocação:
— Alguma chance de encontrar um harém de garotas em trajes de banho na piscina?
Meu mordomo fica um tanto desconcertado com a brincadeira. Surpreendentemente, eu também fico.
De forma instintiva, lembro de alguém e olho para o topo da escada. Vejo Maria com o esfregão no andar superior.
Ela disfarça ao encontrar meu olhar, ainda assim percebo que estava nos observando. Ou pelo menos, nos ouvindo com bastante atenção.
Mais do que depressa, ela retoma a limpeza do chão como se sua vida dependesse disso.
Como pude me esquecer que Maria estava bem ali? E por que isso importa? Não estou fazendo nada de errado, estou?
Sinto algo estranho. Ela me parece tensa. Devo estar fazendo algo de errado sim. Mas o quê, Santo Isaac Newton?!
Jarvis me desperta desses pensamentos quando fala:
— Nenhuma chance, Srta. Carter. Há um bom tempo, o Sr. Stark não recebe mais visitas tão... ilustres por aqui.
Peggy solta uma risada meio descrente, fazendo-me olhar para ela de novo. Um tanto ofendido, devo dizer.
— É mesmo? Isso é um choque. O que houve, Howard? Está doente?
— N-não, eu não estou doente. Estou...
Olho na direção de Maria de novo. Ela me encara por um segundo, depois o olhar se esquiva.
De soslaio, percebo outras cabeças seguindo para a mesma direção que a minha e, rapidamente, retomo o raciocínio para atrai-las de volta:
— Estou com fome, ora essa! Por que ainda estamos parados aqui? Vamos ou não vamos tomar o café da manhã? Jarvis, depois que servir a mesa, puxe uma cadeira e se junte a nós, é uma ordem.
Dou um passo para conduzir as damas, só que uma delas estanca no lugar feito uma mula e, olhando com interesse para o topo da escada, espalha o sotaque inglês pelo ar mais uma vez:
— Você tem uma nova arrumadeira? Não me lembro dela da última vez que estive aqui. Olá?
É nítido que Maria não está contente por ter virado o centro das atenções de súbito. Mas apesar de tudo, ela é uma mulher educada e, portanto, não faz a grosseria de fingir que não escutou.
Assim, ela interrompe o trabalho, lança um sorriso social para a agente ao meu lado e responde de maneira polida:
— Olá. Como vai?
— Muito bem, e você?
— Tudo perfeito, obrigada.
As últimas palavras parecem normais e educadas, porém não soam assim para mim. Capto certa acidez no tom de voz de Maria, como se ela quisesse dizer justamente o oposto delas. E o sorriso social me parece um tanto forçado analisando agora também.
Não tem nada perfeito por aqui e me convenço que preciso colocar um fim nessa atmosfera esquisita antes que fique ainda mais desconfortável.
— Carbonell, desça aqui para eu apresentar vocês duas. — Como ela titubeia, eu insisto: — Não se preocupe, minha amiga não vai mordê-la.
Apesar da tentativa de fazer graça, o tiro sai pela culatra. Enquanto deixa o esfregão apoiado na parede com bastante demora, fica claro para mim que Maria não achou o comentário espirituoso.
Quando desce a escada e vem até nós é nítido que alguma coisa nessa situação está lhe incomodando de verdade.
— Sua amiga, Sr. Stark?
Espere um minuto... Ciúme? Então é disso que se trata?
Ah, às vezes, Maria consegue ser tão adorável! Impossível não estufar o peito com certa vaidade diante dessa reação!
— Sim, uma amiga de longa data. Eu já te falei dela uma vez, lembra?
— Falou? — Peggy parece surpresa. Olha de mim para Maria. E dela para mim.
Não sei por que, porém me sinto meio encurralado com essa situação e acho melhor explicar:
— Sim, nada demais. Eu só te mencionei uma vez, Peggy, enquanto a Srta. Carbonell arrumava a biblioteca. Porque eu estava lá no dia. Na biblioteca, eu quero dizer. Lendo, é claro. Um livro. O que mais seria?
Sorrio de forma artificial. Estranhamente inquieto e atrapalhado.
Não foi bem assim que aconteceu naquele dia. Eu não estava lendo, estava azucrinando Maria para expor os sentimentos dela por mim. E ela, na ausência de melhor argumento, tentou me acertar com um dicionário.
Talvez por ter feito um resumo incoerente da lembrança, minha eloquência tenha ficado tão comprometida agora. Contudo, decido que não importa porque, enquanto fico remoendo isso, o clima estranho pesa ainda mais.
Então, limpo a garganta e vou direto ao que realmente interessa:
— Bom, essa é Peggy Carter, minha melhor amiga. Peggy, essa é a Srta. Maria Carbonell, minha...
E então eu hesito. Quatro pares de olhos me encaram, um deles de maneira muito peculiar com uma nuance de expectativa, e eu simplesmente hesito me perguntando o que devo dizer.
O que devo dizer? Como apresento Maria para Peggy? Como Maria quer que eu a apresente, afinal?
Pendurado na parede, o relógio badala indicando que são nove horas e tudo fica claro feito um bom vinho branco! Já que estamos no horário de expediente, nada mais lógico do que...
— Minha nova arrumadeira, como você sabiamente deduziu, Peggy.
Coloco as mãos no bolso e sorrio satisfeito com a resolução encontrada. Só que então o brilho de expectativa nos olhos de Maria se desfaz. Dá lugar a algo antagônico, como uma sombra, e eu me vejo totalmente no escuro de suas orbes.
Com um gesto abrupto, Maria estica a mão para Peggy.
— Muito prazer, Srta. Carter.
Definitivamente, eu fiz algo de errado. Que Einstein me proteja...
— O prazer é todo meu. — Peggy aperta a mão dela. — Agora me diga, Howard continua um terrível bagunceiro?
As mãos se separam. Maria parece puxá-la, na verdade.
— Eu não sei se seria prudente responder a isso na minha posição.
A resposta veio um tanto seca. Como o Saara.
Ainda assim, Peggy lhe lança um meio sorriso e fala com delicadeza:
— É claro! Lamento, eu não quis colocá-la numa situação difícil com o seu patrão.
Acho que para preencher o silêncio esquisito que surgiu depois dessas palavras, Maria balbucia sem jeito:
— Não se preocupe, está tudo bem entre... o meu patrão e eu.
Peggy a avalia por um instante e, em seguida, argumenta com um humor afiado:
— De qualquer forma, na minha opinião, você não precisa levá-lo tão a serio. O Sr. Jarvis é impertinente com Howard o tempo todo e ele nunca o demitiu por isso.
— Srta. Carter! — meu mordomo protesta, embora haja certa verdade na brincadeira de Peggy e ele mesmo sorri discretamente em concordância.
Eu riria da audácia de Peggy, caso não notasse como Maria parece mais incomodada agora. É nítido que está ansiosa para se afastar logo dessa situação.
Ela olha para mim. Depois para Jarvis e Ana. Para o chão. E por último para Peggy.
— Bom, com licença. Foi um prazer.
E então Maria faz exatamente o que queria. Afasta-se. Segue rumo à escada e pisa nos primeiros degraus.
Sinto-me mais inquieto. Incomodado com o seu incômodo. Tocado pelo ciúme fofo, mas infundado que deixou transparecer.
— Carbonell, um minuto!
Só percebo que pedi isso quando as palavras já se propagaram alto pelo ar.
Maria gira nos calcanhares e, embora disfarce bem, capto aquela expectativa de novo em seus olhos.
— Pois não?
Há expectativa em seu timbre também.
E há mais três pares de olhos me analisando nesse momento.
Novamente, sinto-me encurralado pela situação. Não existe a menor chance de conversar com Maria agora e assim na frente deles.
A única alternativa que enxergo por ora é desconversar:
— Ãn... Depois que você terminar com o piso, pode arrumar o meu quarto também? Eu não vou subir tão cedo, pode ajeitar tudo com bastante calma.
Engulo em seco, intrigado com a nova mudança em seu semblante, ela parece desapontada e sua luz se apagou novamente.
Então, a dama mordaz endireita a postura como se quisesse se defender de algo invisível entre nós e responde num tom profissional:
— Claro. Sim, senhor.
Profissional e seco.
E então ela sobe a escada no mais profundo dos silêncios.
O que diabos acabou de acontecer eu não entendi direito, porém mais tarde hei de esclarecer tudo.
[...]
Não consigo esperar até tão mais tarde para falar com Maria. Assim que termino o café da manhã — durante o qual fiz um bom esforço para me manter concentrado na conversa e agir naturalmente —, aproveito que Peggy sai para um passeio com Ana e volto ao meu quarto.
Antes de entrar, acho prudente abrir só uma fresta da porta e dar uma espiada estratégica no interior do recinto. Só que a maldita porta range, denunciando minha presença.
Faço uma careta e praguejo em pensamento.
Maria, que até então esticava os lençóis sem muita delicadeza, demonstrando irritação com a roupa de cama, olha para mim de imediato. O semblante se fecha como um dia tempestuoso e ela praticamente atira um dos travesseiros de qualquer jeito contra a cabeceira.
Que Galileu Galilei me ilumine.
— Eu preciso falar com você — anuncio de uma vez, finalmente adentrando o quarto e fechando a porta atrás de mim.
— Justo agora, Sr. Stark? Não está vendo como eu estou ocupada, arrumando o seu quarto com bastante calma?
Maria atira outro travesseiro. Não sem antes amassá-lo um pouco.
— Não seja irônica com o seu patrão — debocho.
— Lamento muito — ela se desculpa, embora esteja nítido que é apenas teatro. — Não sei o que acontece comigo. Às vezes, eu simplesmente não consigo controlar essa minha língua atrevida.
Talvez não seja o momento mais propício para visitar lembranças voluptuosas, mas não consigo evitar.
— Nem me fale nessa língua, mulher...
E Maria fica mais irritada, indicando que não é mesmo o momento ideal para pensar nos seus beijos e carícias. Ela interrompe a arrumação da cama e se volta na minha direção. Os braços cruzados e o olhar sardônico.
— O que eu posso fazer pelo senhor, patrão?
Sardônico tal como o timbre de voz.
Começando a perder a paciência, vou direto ao ponto:
— Para começar, pode me dizer o que diabos aconteceu lá embaixo?
Ela titubeia por um instante. Depois, reassume a postura defensiva.
— Nada. O senhor apenas me apresentou a sua amiga, não foi?
— Pode parar de me chamar de senhor e patrão, por favor?
— Por quê? Não é isso que o senhor é? O meu patrão?
Se Maria Carbonell pretende me enlouquecer, devo lhe dar os parabéns, está no caminho certo. Maldição...
— Por que está com raiva de mim?
Ela titubeia de novo. E, mais uma vez, se defende como pode:
— Eu não estou.
— Ciúme, então?
Ela descruza os braços, arregala os olhos e, como se eu tivesse dito um grande absurdo, retruca no mesmo instante:
— Não seja ridículo!
Estreito o olhar e, dessa vez, sou eu quem cruza os braços. Em desafio.
— Então não seja mentirosa.
Maria expira com força e pega outro travesseiro. A próxima vítima dos seus dedos empenhados em massacrarem as plumas de ganso no interior.
— Onde está sua amiga? — ela inquere, com bastante azedume. — Não acredito que abandonou a pobrezinha lá embaixo para perder seu tempo aqui com a arrumadeira.
— Ciúme, então — concluo.
— Howard! — Ela se vira na minha direção e atira o travesseiro.
Pego-o no ar e jogo-o em cima da cama com meu restinho de paciência.
— Ciúme e raiva, ótimo! O que eu fiz dessa vez, Maria? — Abraço o sarcasmo e não resisto em alfinetar: — Respirei fundo demais para o seu gosto?
— Nada! — Maria eleva a voz também. — Você não fez nada, Howard, e o problema é justamente esse! Não percebe?
— O que eu percebo é que quando se trata de você, eu não sei mais como agir na minha própria casa! — desabafo.
Por alguma razão, minhas palavras saem um tanto acusatórias e ressentidas. Entretanto, Maria faz pouco caso de como me sinto e retruca de pronto:
— Ah... Você sabe muito bem como agir aqui comigo, Howard. Está sempre disposto a quebrar a regra do expediente se for para me agarrar pelos corredores, sempre almejando uma oportunidade de me levar para a cama.
Não consigo me defender, pois devo admitir que ela tem razão nesse ponto.
— Já quando seria esperado que me apresentasse para alguém claramente importante na sua vida, eu sou apenas a arrumadeira.
Profundamente irritado com o rumo dessa situação, disparo sem medir as palavras:
— Então é disso que se trata? Lamento ter metido os pés pelas mãos e desapontado a perfeição em pessoa pela milésima vez! Mas sua maldita regra do expediente me deixou um tanto confuso, Maria!
E elas saem inflamadas demais. E talvez um pouco cruéis. Droga...
Maria não responde nada. E a raiva em seus olhos se esvai, dando lugar a algo que só posso entender como mágoa e tristeza. Juro que não era minha intenção, contudo é óbvio que a feri em cheio.
Prova disso é que ela desvia o olhar do meu e caminha rumo à porta.
— Aonde você vai?
Tudo que Maria responde é:
— Para outro lugar. Eu terminei a arrumação aqui.
Observo o estado deplorável da cama e quase ouço os travesseiros amarfanhados discordando dela.
— Mas eu não terminei.
Coloco-me no meio do caminho, entre Maria e a porta, impedindo que ela saia pela tangente.
Disposto a consertar o estrago que essa conversa insana está semeando entre nós, respiro fundo e recomeço do jeito mais calmo que consigo:
— Eu não vim aqui para brigar com você. Eu vim para dizer que, por mais lisonjeado que eu fique com o seu ciúme, você está delirando. Peggy Carter é apenas minha amiga e nunca quis nada comigo.
Um olhar de águia crava em mim de imediato.
— Ela nunca quis? E você? Nunca quis também?
Inferno! Quanto mais tento me explicar, mais pioro tudo! Não foi isso que eu quis dizer!
— Não, nunca quis — respondo mal-humorado diante de tanta desconfiança, ao mesmo tempo que sinto raiva de mim mesmo por ter me atrapalhado com as palavras. — Eu posso ter flertado algumas vezes, mas só por força do hábito, por brincadeira. Você me conhece.
Maria ri sem humor, assente algumas vezes e resmunga:
— É, eu te conheço bem, obrigada por me lembrar disso.
Quando ela faz menção de sair do quarto, encosto o corpo contra a porta, impedindo sua passagem de novo.
Maria me olha de um jeito exausto e eu quase desisto de explicar qualquer coisa. Quase.
O problema é que não posso deixar essa conversa terminar desse jeito, com ela pensando o pior de mim e sem fundamento. Dessa vez, sou inocente. Estou levando a fama sem ter me deitado na cama.
— Peggy não é o tipo de mulher que você está pensando. Ela é diferente e o que nos une é uma camaradagem mútua — esclareço com firmeza. — Ela é minha amiga há muito tempo e eu a respeito demais.
Maria empina o queixo.
— Que bom que você respeita alguém, Howard.
E meu sangue ferve. Não consigo conter a ebulição que se aproxima quando o comentário dela me atinge em cheio. Simplesmente jogo tudo para o alto.
— Que raio de indireta é essa? Você acha que eu não te respeito só porque não te apresentei para ela como esperava?
— Só? Por Deus, patife, você está ouvindo o que está dizendo?
— Deixe Peggy voltar da rua então, ela só foi dar um passeio com a Ana. Se faz tanta questão assim, eu esclareço tudo quando ela chegar, apresento você do jeito certo e fim do problema! Até você inventar outro para me azucrinar, é claro!
Tão logo digo a última parte, sinto o sabor amargo do arrependimento na boca. Percebo que me exaltei e que usei as palavras como armas. E armas ferem. Vejo nos olhos de Maria que foi isso que eu provoquei.
Só que não tenho tempo de tentar consertar, pois ela se antecipa falando num tom resignado:
— É muita consideração sua, mas não se incomode. Eu não faço mais questão de nada.
Tenho uma péssima impressão quando ela diz isso. Até me afasto alguns centímetros da porta e Maria aproveita para me empurrar um pouco a fim de abrir passagem.
Na esperança de estar enganado, indago com cautela:
— O que quer dizer com isso?
Antes de cruzar a porta, ela responde sem emoção:
— Que eu preciso de uma folga hoje.
O alívio é uma sensação maravilhosa. Por um momento, pensei que Maria estava colocando um ponto final em tudo. Deve ser um bom sinal ela só precisar se afastar por um tempo, certo?
Por outro lado, preferia que não fosse embora magoada comigo. Dou alguns passos, indo atrás dela.
— Você não pode sair assim.
Já no corredor, a dama mordaz nem se dá ao trabalho de olhar para trás. Ela apenas se limita a sugerir com acidez:
— Desconte do meu pagamento então, Sr. Stark.
E entende tudo errado de novo!
— Não é disso que se trata... Maria! Raio de sol, volte aqui!
Qualquer chamado é em vão. Ela alcança a escada e desce os degraus como se eu fosse apenas um mosquito zunindo ao longe. Maria simplesmente vai embora.
Furioso, não sei se mais com Maria, comigo ou com nossa péssima comunicação, volto para o quarto e bato a porta com força.
Despenco sentado na cama e esfrego o rosto.
— Que lambança, Howard...
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