No qual nossa heroína sofre de insônia. Por causa do nosso herói.

Decidi aproveitar a falta de sono para continuar a leitura de Assassinato no Expresso do Oriente noite a dentro. Esperava que, ao chegar na última página, o cansaço do dia teria dado ao menos algum sinal em minhas pálpebras e seria fácil dormir. No entanto, nunca me senti tão desperta, tão viva e tão... inquieta quanto essa noite. E algo me diz que essa sensação nada tem a ver com Agatha Christie e seu poder narrativo.

Embora atenta à leitura e de ter sido muito agradável visitar a investigação de Hercule Poirot mais uma vez — perdi a conta de quantas vezes reli meu livro favorito ao longo dos anos —, uma parte da minha mente estava bem longe da história. Agora, ao passar os dedos pelo nome Howard Stark no autógrafo, percebo que essa inquietude é por causa dele.

Dele.

Não nego que tudo que aconteceu na biblioteca essa manhã mexeu comigo. Só não entendo direito como. Claro, primeiro eu fiquei com raiva por Stark pensar que eu senti ciúme daquela sirigaita em sua varanda e por ter afirmado que eu estou interessada nele. Depois, fiquei desnorteada com a proximidade física em alguns momentos e com o peso de suas palavras se repetindo dentro de mim. Cheguei a me questionar se o gênio infame não podia estar certo.

Será que senti ciúme? Será que estou atraída por ele?

Balanço a cabeça em negação, como se assim eu pudesse dissipar as perguntas da minha cabeça, como se assim eu nunca as tivesse cogitado.

Ainda essa manhã, na biblioteca, me senti exposta ao abrir o jogo com o Sr. Stark de maneira tão pessoal, ao lhe explicar por que preciso que ele mantenha distância de mim e por que não podemos ser amigos. Eu praticamente confessei que tenho medo de me apaixonar por ele e medo de sofrer em suas mãos por isso. Precisei engolir o orgulho e dizer com todas as letras para que ele enfim entendesse o meu ponto.

Por fim, fui acometida por algo muito semelhante a arrependimento. Não das coisas que lhe disse, mas talvez da maneira como as disse. Howard Stark ficou praticamente sem reação, muito sério, foi perturbador, e isso me fez pensar que tinha sido muito rude com ele.

Então, meu patrão me surpreendeu com o livro de presente, como uma trégua e um gesto generoso. E me senti ainda mais estranha, ainda mais exposta e, ainda assim, conectada a Stark de alguma maneira... forte.

Fecho o livro com violência, franzindo o cenho com a capacidade da minha mente de devanear tanto a respeito de um homem que não significa nada para mim. Estou fantasiando coisas que não existem, claro. Só fantasiando.

Deixo o livro no criado-mudo e apago a luz do abajur. Uma boa noite de sono é tudo de que preciso. Vai me ajudar a colocar a cabeça em ordem e não pensar em asneiras.

Não estou me apaixonando por Howard Stark. Algo assim seria muito estúpido de minha parte. Nem que ele fosse o último homem na face da Terra, nem que o universo dependesse da nossa união, eu não poderia me apaixonar por ele.

Aprendi direitinho a lição com meu ex-noivo, os homens não são confiáveis, mais cedo ou mais tarde, eles partem nosso coração. Faço uma exceção para o Sr. Edwin Jarvis, pois ele parece muito dedicado a Ana e duvido que a faria sofrer.

Tudo bem, talvez existam outros homens como o mordomo por aí. Homens dignos, apaixonados e leais. Mas o Sr. Stark não é um deles. Ele não leva nenhuma mulher a sério. E, com certeza, não serve para mim. Nem eu para ele. Somos incompatíveis. Definitivamente, incompatíveis.

Ajeito o travesseiro e despenco sobre ele, fechando os olhos e tentando esvaziar a mente. Pensar o menos possível ajuda o corpo a relaxar e o cérebro logo deve encontrar o caminho rumo ao sono profundo.

O problema é que esse caminho parece se distanciar cada vez mais de mim. Porque simplesmente não consigo parar de pensar. Nele. Em cada provocação que fez desde que o conheci, em cada afronta, comentário, em cada olhar e em cada sorriso torto, em cada sensação confusa que incitou em mim, em cada vez que chegou perto demais e me fez desejar que... chegasse ainda mais perto.

Engulo em seco e abro os olhos, alarmada. Logo, sento-me na cama e volto a iluminar o quarto com o abajur.

Está claro que não vou conseguir dormir essa noite. Não sem antes esclarecer para mim mesma que não sinto nada por ele. No máximo, admiração pelo Sr. Stark ter ajudado Ana e o marido no passado. E talvez alguma empatia pela postura mais madura que demonstrou no final da nossa conversa na biblioteca. Nada mais. Tenho tudo sob controle.

Não sei por que diabos não consigo me convencer disso plenamente. Maldição... Acho que preciso de interferência externa para me sentir segura de novo.

Preciso que alguém me diga que fiquei maluca e que não estou sentindo o que acho que estou sentindo pelo meu infame patrão. Preciso que alguém ouça tudo que aconteceu na biblioteca e me diga que eu só fiquei levemente tocada com o livro de presente, e não... estupidamente encantada com o gesto.

Com o coração aos pulos, salto da cama, visto o robe às pressas e deixo o meu quarto para fazer uma visitinha a um outro no Griffith. Espero que a única pessoa com quem posso desabafar ainda esteja acordada.

[...]

Angie só abre a porta depois da quinta batida e está esfregando um dos olhos com o dorso da mão quando a suave luz do corredor a ilumina sob o umbral.

— Te acordei? — pergunto o que está bem óbvio.

Ela solta um bocejo antes de responder com a voz um tanto grogue:

— São duas da madrugada, doçura.

Sem jeito, faço uma careta de culpada e penso em dar meia volta. Alguma coisa me faz continuar parada no corredor, no entanto. A urgência inadiável de esclarecer a dúvida que me revira por dentro. Não posso recuar agora.

— Sinto muito, eu não percebi que era tão tarde.

Angie dá um tapa de desdém no ar e, ainda sonolenta, diz:

— Sem problemas. Onde é o incêndio?

No meu coração, penso. Mas o que digo, meio na defensiva, é:

— Incêndio?

Pela primeira vez, minha amiga fica mais desperta. Ela me analisa por um longo instante, o olhar estreito, enquanto eu aperto as mãos uma na outra, inquieta com os dedos.

— Você parece agitada. Teve algum pesadelo?

— Não.

Angie me analisa mais uma vez, uma sobrancelha ligeiramente arqueada com malícia.

— Um sonho muito bom?

— Não! Claro que não! — respondo, talvez um pouco mais alto do que deveria, ao lembrar de um sonho perturbador que tive com Howard Stark há algumas noites e que vou guardar em segredo para sempre!

Angie espia os dois lados do corredor, acho que temendo que a minha voz mais alta tenha acordado alguma das meninas. Em seguida, me dá passagem.

— Pelo visto o caso é grave. Tem toda a minha atenção. Entre.

Obedeço sem pestanejar e logo ela fecha a porta atrás de nós.

Mais uma vez, sinto-me culpada por ter acordado Angie a essa hora, mas preciso mesmo desabafar. Preciso colocar para fora a hipótese insana que martela minha consciência e, o mais importante, que ela me diga que o meu único problema é ter uma imaginação muito fértil.

Eu não posso estar... Não posso estar apaixonada por aquele patife!

Dispenso o chá quando Angie se oferece para fazê-lo e, sem perder tempo, relato tudo que aconteceu na biblioteca da mansão Stark. Atropelando as palavras, emendando uma frase na outra, mal parando para respirar, explico como me senti, embora eu tenha certeza que foi uma explicação muito rasa porque estou com dificuldade em organizar o raciocínio. Em me entender.

Angie permanece o tempo todo sentada na cama e em silêncio — o que é no mínimo curioso, já que ela costuma falar pelos cotovelos. Limita-se a me acompanhar com o olhar, enquanto eu ando feito uma barata tonta pelo quarto. O cenho franzido indica que está lutando para não perder cada detalhe do que despejo afoita.

Falo sobre as coisas que eu disse ao Sr. Stark, como ele reagiu e como a reação dele me atingiu de uma maneira que eu não entendo muito bem, mas que me deixou pensativa e insone.

Por fim, hesito sem saber como fazer a pergunta que não quer calar. Antes que eu crie coragem e pergunte Angie, você acha que eu posso estar gostando um pouco dele?, minha amiga arregala os olhos como se tomada por uma epifania e dispara sem pestanejar:

— Virgem Santa! Você está caída por ele!

Desnorteada e sentindo minhas bochechas arderem, a única reação que me vem à cabeça é...

— O quê?! Não... Eu não estou.

Negar e rir de nervoso. O que não me ajuda em nada, pois é nítido que Angie não acredita. O pior é que nem posso ficar brava com ela porque uma parte de mim sabe muito bem que ela pode ter razão.

— Eu já vinha desconfiando, claro — Angie confessa, para minha surpresa. — Desde o dia que você me contou que foi atropelada pelo flamingo e o Sr. Stark foi atencioso demais com você. E você chegou a rir de uma piada dele e admitir que estava começando a admirá-lo... Ah! E depois você ficou com ciúme porque viu uma mulher na varanda...

Nesse ponto, tenho que interrompê-la. Entredentes.

— Eu não fiquei com ciúme.

Angie corta o ar com um aceno desdenhoso e continua a despejar num ritmo agitado:

— Bobagem, foi ciúme sim. Desde aquele dia, eu desconfiei. Mas agora eu tenho absoluta certeza, doçura. Você se apaixonou por ele.

Minha amiga está tão eufórica que parece até feliz. Era exatamente a reação que eu não queria.

— Você não está ajudando... — digo derrotada, antes de sentar ao seu lado na cama. — Angie, eu não posso.

Não posso estar apaixonada por Howard Stark? Não posso abraçar esse sentimento que surgiu e ganhou raízes sem que eu percebesse? Definitivamente, as duas coisas.

Finalmente captando que não estou radiante com a descoberta, Angie questiona baixinho:

— Por que não?

Um riso sem humor me escapa. Será que a resposta não é óbvia?

— Porque é ele — digo, mas diante do semblante confuso de Angie, explico melhor: — Eu já contei que meu ex-noivo parecia um homem correto, apaixonado e fiel? E como fiquei... surpresa, surpresa não é bem a palavra, quando descobri que ele não valia nada, certo? — Espero Angie assentir para concluir o raciocínio. — Como eu posso ficar feliz por ter... por ter me apaixonado por um homem que troca de mulher como quem troca de roupa? Que não leva nenhuma delas a sério? Que não faz a menor questão de esconder que não vale nada?

Angie abre a boca, mas volta a fechá-la um segundo depois. Leva o indicador e o polegar ao queixo, mergulhando em introspeção, procurando o que dizer e com certeza entendendo que eu tenho razão.

Eu não podia estar mais enganada, pois quando ela rompe o silêncio o que argumenta é:

— Se William era um lobo em pele de cordeiro, talvez o Sr. Stark seja um cordeiro em pele de lobo.

Um riso exausto escapa da minha garganta quando afirmo:

— Sem chance.

— Por quê? — Angie insiste, e vislumbro a euforia cintilando em seus olhos de novo. — William parecia valer ouro, mas não valia nada. O Sr. Stark parece não valer nada, mas quem sabe valha ouro?

Cada parte de mim quer acreditar na teoria romântica de Angie. Só que não consigo. Não posso apostar meu coração em um quem sabe. Não depois de ter nutrido uma paixão por outro homem durante seis anos e, no final, ter visto minha confiança nele e meus sonhos todos despedaçados como se fossem nada. Não posso entregar meu coração de novo simplesmente porque ele ainda está aos pedaços.

Talvez um dia um homem seja capaz de consertá-lo, mas esse homem não pode ser Howard Stark. Ele não enxerga o coração das mulheres, apenas seus corpos e os sorrisos fáceis que despejam sobre ele. É um mulherengo incorrigível. Representa tudo que eu preciso evitar.

— Um sujeito que é amigo da Peggy não pode ser tão ruim assim — Angie pondera baixinho, mais para si mesma. Depois, torna a me encarar e aconselha: — Tem certeza que ele não merece uma chance? Ou, pelo menos, o benefício da dúvida?

Respiro fundo e expiro um tanto cansada.

— Angie, o Sr. Stark não está apaixonado por mim. A única coisa que prende a atenção dele é a minha resistência às suas investidas. Aposto que se eu cedesse, ele nem lembraria do meu nome no dia seguinte. Além disso, ele é meu patrão e eu preciso do emprego.

Minha amiga pondera o que ouviu por alguns instantes. Depois, sem aquela euforia dardejando no olhar, articula num tom mais sério:

— Doçura, eu nunca te diria para apostar as fichas num canalha, mas é que... por tudo que você contou do comportamento dele, o Sr. Stark me pareceu interessado em algo mais do que uma aventura. Claro que eu posso estar enganada, provavelmente estou fantasiando. Ainda assim, você não acha que pode haver uma chance dele gostar de você também?

O que Angie cogitou é tão absurdo que me soa como uma piada, arrancando-me um riso. Mas é uma risada triste e que aperta o meu peito dolorosamente.

— Não, nenhuma chance — asseguro. — Howard Stark não gosta de mim, ele gosta de me enlouquecer com suas provocações. É tudo um jogo de sedução para ele. O flerte, sua arte favorita. Imaginar que ele possa sentir algo verdadeiro por mim é me dar muita importância e um caminho para a ilusão.

Os ombros de Angie se encolhem numa postura desanimada e sei que a convenci. Não que isso me deixe feliz, mas tenho que encarar a realidade e ela também. Não há nada de romântico entre o Sr. Stark e eu.

— Nesse caso, o que você pretende fazer? — ela pergunta, por que o que mais diria?

Penso por alguns instantes. Aquele aperto aumentando. Ignoro a sensação como posso e ergo o queixo levemente, decidida.

— Evitá-lo o máximo possível até tirá-lo da minha cabeça. A boa notícia — Boa notícia, Maria? — é que o Sr. Stark pareceu sincero quando prometeu que não me importunaria mais. Pareceu realmente arrependido ou apenas se cansou do jogo de gato e rato. Seja como for, acho que posso contar com a ajuda indireta dele para esquecê-lo de uma vez.

— É, parece bem fácil na teoria...

— Angie! — repreendo-a pelo comentário nada animador. — De novo, você não está ajudando.

Ela ergue as mãos em rendição e se coloca de pé dizendo:

— Desculpe. Vamos beber alguma coisa?

— Obrigada, mas não precisa fazer o chá. Eu já vou voltar para o quarto...

Paro de falar, desisto de me levantar e fazer exatamente o que anunciei, e apenas observo minha amiga voltar da pequena copa com uma garrafa e dois cálices nas mãos.

— Licor de amarula.

— Sua danadinha. — Sorrio, admirada, enquanto ela se senta ao meu lado e me entrega um dos cálices. — E queria que eu tomasse chá!

Angie ri um pouco, serve as duas doses e repousa a garrafa sobre o criado-mudo atrás dela. Depois, ergue o próprio cálice.

— Vamos brindar a quê? — pergunto.

Ela me avalia por um segundo antes de responder:

— Meu lado romântico ainda quer acreditar que você está errada sobre o Sr. Stark, mas, como não quero que você sofra e respeito sua decisão, um brinde ao seu plano de esquecê-lo. — Estreito o olhar, e ela acrescenta às pressas: — Que vai funcionar!

Os cálices espalham um tilintar pelo quarto ao se encontrarem no espaço entre nós duas. Fecho os olhos e bebo tudo em um gole só.

No dia seguinte

Dormi muito pouco e acordei com o estômago meio revirado — culpa das doses seguintes do licor de amarula que tomei com Angie. Por isso, acabei dispensando o convite de Ana para tomar café com ela e o Sr. Jarvis, optando por começar o meu dia de trabalho logo.

Antes de seguir para a mansão, no entanto, demoro-me um pouco fazendo um carinho nas plumas sedosas do flamingo Bernard. Exibido, ele abre as asas e estica o pescoço como se quisesse destacar ainda mais seus belos predicados.

Acabo rindo da performance e comento em tom de segredo:

— Você é mesmo filho do seu pai, não é?

E essa simples menção me faz olhar, como que por instinto ou talvez pura necessidade, para a varanda do quarto dele.

O que sinto é uma mistura de decepção pelo Sr. Stark não estar na varanda sorrindo para mim, alívio por ver que a porta e as janelas ainda estão fechadas e, sendo assim, ele ainda deve estar dormindo e, com sorte, não irei cruzar o seu caminho tão cedo, e angústia por imaginar que ele pode estar acompanhado por alguma devassa de novo.

Ora, mas que diabos! O ciúme me domina de novo! Ciúme sim, não posso mais negar...

Desvio o olhar e endireito a postura. Prometi esquecê-lo e vou! Não deve ser tão complicado assim. Até ontem eu não tinha me dado conta da paixão que sinto, com certeza posso enterrar esse sentimento onde ele estava e, com o tempo, ele vai parar de arder tanto.

Sem mais delongas e determinada a combater um leão por dia se for preciso, caminho até a residência, cruzo a sala de estar e visto meu uniforme num quartinho dos fundos que mais parece um almoxarifado com caixas de suprimentos empilhadas. Ajeito o vestido comportado num tom vermelho bordô e sigo para a biblioteca.

Assim que abro a porta e entro, minhas pernas travam. E meu coração... Bom, ele dispara. A garganta fica seca. O Sr. Stark está aqui. Na poltrona reclinável. Dormindo.

Toda a determinação a qual vinha me agarrando começa a ruir feito um sorvete sob o calor escaldante do Sol. Por falar em calor, o sentimento recém descoberto pelo meu patrão genioso não só arde, como queima, alastrando-se dentro de mim com chamas impiedosas que devastam tudo o que há pela frente.

Como não percebi que estava apaixonada por ele antes não sei dizer. Entretanto, uma vez que eu me dei conta, parece impossível ignorar agora. É impossível.

Um gemido de frustração me escapa. Angie tinha razão quando alegou que na teoria tudo é muito simples. Estou vendo que, na prática, terei que me esforçar muito mais para esquecê-lo. Se é que eu vou conseguir.

Tenho que conseguir! Tenho que conseguir!

Vê-lo todos os dias com certeza não irá me ajudar. Talvez seja melhor eu dar meia volta e retornar depois, lhe dar um tempo para acordar e deixar a biblioteca livre para a minha arrumação.

Embora eu não veja nenhum livro perto dele, acho que o Sr. Stark pegou no sono enquanto lia alguma coisa. Por outro lado, há um travesseiro sob a sua cabeça e um lençol mal cobrindo o pijama. O que talvez indique que ele pretendia dormir aqui desde o começo. E, de fato, dormiu mesmo.

Que sujeito mais estranho! Por que alguém abriria mão do conforto de uma cama para deitar numa cadeira? Por mais confortável que ela pareça, não pode se equiparar a uma cama larga e macia, como deve ser a dele.

Balanço a cabeça, afastando a imagem da cama de Howard Stark do meu pensamento e tentando aplacar o calor que uma certa lembrança desperta em mim. O dia em que entrei no quarto dele por engano. Ele de roupão. Ele ameaçando se despir e... uma parte insana, ou no mínimo curiosa de mim, desejando que ele fizesse exatamente o prometido.

Como naquele dia, eu devia sair correndo daqui agora. Mas não sou covarde, não vou mais fugir do Sr. Stark. Evitá-lo? Sim. Fugir feito uma coelhinha assustada, como o patife fez questão de me dizer na época? Não. Fugir não vai me ajudar a esquecê-lo, tenho que agir como eu mesma, com naturalidade e como se ele fosse qualquer outra pessoa.

É por isso que dou um passo à frente e o chamo baixinho:

— Sr. Stark?

Tão baixinho que seria impossível uma pessoa com o sono mais leve do mundo acordar. Que dirá ele, que ressona pesadamente, mergulhado num sono profundo. Irritantemente profundo.

Engulo em seco e me aproximo mais um pouco. Paro a pouca distância da cadeira de couro e repito mais alto:

— Sr. Stark?

Mais alto, porém ainda insuficiente. Onde foi parar minha voz retumbante e clara quando eu preciso dela? É como se uma parte de mim não quisesse acordá-lo, e sim admirá-lo enquanto segue adormecido e alheio ao turbilhão que desperta em mim.

Bobagem! Bobagem! Bobagem!

Tenho que acordá-lo e colocar um fim nessa situação embaraçosa!

Mais um passo. A distância acabou. Minha perna encontra o braço da cadeira. Mais um pouco e vou acabar caindo no colo do Sr. Stark.

Estico a mão, disposta a tocar em seu ombro para acordá-lo, a sacudi-lo se for necessário, qualquer coisa para tirá-lo daqui e conseguir trabalhar em paz.

Hesito antes que minha mão volte a me obedecer. As pontas dos dedos roçando suavemente o tecido fino do pijama. O calor que emana do corpo do Sr. Stark passa pelo tecido, me atinge em cheio e se mistura ao meu próprio calor, às minhas chamas. A sensação é muito parecida com aquela que senti no dia em que ele segurou meu pulso na Marsh's Bakery. Não... É mais intensa.

— Sr. Stark?

Essa voz rouca, quase engasgada, não pode ter saído de mim. Mas saiu.

Afasto a mão e recuo alguns passos, só para me ver dando os mesmos passos para a frente segundos depois. Abaixo-me e me apoio nos joelhos, ficando ainda mais perto dele.

Não sei mais o que estou fazendo aqui. O que pretendo. Sem dúvida, não é mais acordá-lo. Não tão rápido, pelo menos. Preciso observá-lo por um tempo. Só por um tempinho.

Pego-me olhando para o seu rosto, como se ele tivesse as respostas para todas as perguntas do mundo. Ou, no mínimo, para a mais importante no momento. Como eu fui me apaixonar por você?

O Sr. Stark continua mergulhado em sonhos misteriosos, o semblante sereno, adornado pelas sobrancelhas de ar petulante e pelo bigode ridículo. O cabelo escuro, um pouco desgrenhado e... Será que é macio?

Volto a esticar a mão. Curiosa para descobrir se os fios são tão suaves como as plumas de Bernard. O pensamento estúpido me faz rir baixinho, mas não diminui a curiosidade.

E logo seguro a resposta entre os dedos.

São fios muito mais suaves, sedosos e macios do que aquele flamingo poderia sonhar. Apesar disso, os fios são grossos e tem uma textura bem diferente das plumas, algo que só posso definir como força masculina. É incrivelmente bom emaranhar os meus dedos no cabelo de Howard Stark...

De repente, ele se mexe um pouco, o bastante para fazer meu coração dar um salto e minha mão se afastar de imediato.

Eu devia me levantar agora mesmo. Devia. Só que continuo parada. Congelada. Presa. Olhando para outra coisa no rosto dele...

Sua boca.

Estou perdida.

Se ele acordar dessa vez, juro que descarto a ideia que me passou pela cabeça.

— Sr. Stark?

Ele não acorda, e a ideia ganha forma, força e se nega a ir embora. Tarde demais. Preciso fazer isso. Preciso sentir, só uma vez, como seria beijá-lo. Mesmo que seja só um suave roçar de lábios. Mesmo que ele esteja dormindo e nunca saiba que eu fiz isso.

Por Deus! É bom mesmo que Howard Stark nunca saiba, nunca descubra, pois eu teria que me explicar e certamente morreria de vergonha!

Esqueço a vergonha, esqueço todo o resto e apenas sigo o desejo que não sou capaz de silenciar agora. Sou fraca demais para desistir e forte demais para ir adiante.

Aproximo o rosto devagar, dou uma última olhada para o gênio infame por quem meu coração bate mais forte, cerro as pálpebras e, só para não perder o equilíbrio, apoio uma das mãos muito de leve em seu peito. Capto o ritmo suave do seu coração em contradição com o meu tão disparado e, enfim...

Enfim, pressiono meus lábios nos dele. Com cuidado, com suavidade, deliciando-me com a sensação viva que me inunda, demorando-me o máximo que o momento possa permitir.

E o momento permite. O que é ótimo porque não quero me afastar. Não ouso me afastar. Ainda não. Não quando a sensação é tão quente, tão boa e me lança num abismo no qual eu pulo sem pensar, envolvida pelo calor que emana do rosto sob o meu, da boca macia colada à minha, envolvida por ele.

Estou arruinada, eu sei, mas, nesse momento, fico feliz por isso.

O coração acelerado dá um salto ainda maior quando, finalmente, obrigo-me a afastar o rosto devagar e me deparo com um par de olhos castanhos me encarando de volta. As pálpebras ainda trêmulas de sono. E de surpresa, sem dúvida.

Sob a palma da minha mão, o coração de Howard Stark também dispara.

Notas finais
Eita '-' Primeira bitoquinha de Moward, é isso mesmo, produção? kkkkkkk Olha, sei que não é legal beijar alguém que está dormindo, mas espero que todo o contexto tenha deixado claro que a Maria agiu por um impulso e sem maldade. Tanto que no próximo capítulo, ela vai se dar conta disso, assim como o Howard percebeu, há alguns capítulos, que também não vinha agindo de forma muito digna com ela. Eu gosto de personagens que sejam humanos, e humanos erram. Mas humanos também amadurecem, aprendem e seguem em frente de um jeito melhor. Howard e Maria têm uma longa jornada pela frente ;-) Apesar disso, espero que tenham gostado da primeira bitoquinha do casal kkkkk Beijão de verdade vai rolar logo, logo, prometo ehehehehe Inté!