Notas iniciais
Olás! Mudei o dia de atualizar a fic para sábado ;-) Boa leitura ♥

No qual nosso herói conta de 5 a 1, e nossa heroína fica em choque.

Um formigamento. Um quente e delicioso formigamento. Foi essa a sensação que atingiu minha pele ao segurar a mão da adorável — e mordaz — Maria Carbonell por apenas alguns segundos.

Confesso que fiquei um tanto desnorteado e tentado a não soltá-la nunca mais. Porém, clamando à voz da razão, consegui romper o contato e disfarçar meu estranho abalo, antes que a situação ficasse constrangedora.

Como cientista, eu diria que a sensação despertada pelo seu toque foi algo quase magnético. Como homem, não tenho ideia do que diabos aconteceu comigo quando sua pele encostou na minha com tanto... calor e suavidade.

Agora, por sobre o ombro, acompanho os passos ligeiros dela. Maria deixa a Marsh’s Bakery enquanto me pergunto se a verei de novo. Não resisto e dou uma olhada — talvez a última — nos seus delicados tornozelos.

Orgulhosa, ela não lança um olhar sequer para trás e, infelizmente, logo desaparece do meu alcance.

Ciente de que a decisão de aceitar ou não trabalhar para o homem que despreza gratuitamente é apenas dela e que fiz o meu melhor para convencê-la que é uma boa oportunidade de emprego, endireito-me na mesa e termino o café.

Apesar de manter a imagem de homem inabalável, a agitação dentro de mim ainda persiste e um meio sorriso acaba por romper a superfície.

— Que criatura peculiar e atrevida — penso alto, deixando uma boa quantia sobre a mesa, suficiente para a despesa da refeição e uma generosa gorjeta também.

Saio da Marsh’s Bakery assobiando, as mãos no bolso. Com um curioso sentimento de felicidade, sigo pela calçada até o meio-fio. Entro no carro assim que Jarvis, sempre a postos, abre a porta traseira do sedã.

Mal se acomoda no banco do motorista, ele me olha pelo retrovisor e indaga de um jeito intrigado:

— Sr. Stark, desculpe a indiscrição, mas aconteceu alguma coisa lá dentro? Atípica?

Alguma coisa? Definitivamente, sim. Atípica? Com certeza. Só não me peça para explicar o que foi aquilo. Penso, porém o que digo é uma réplica:

— Por que a pergunta, Jarvis?

Depois de dar a partida e com as sobrancelhas ligeiramente arqueadas, ele reformula:

— Eu vi a Srta. Carbonell deixando o lugar e imagino que vocês tenham se encontrado e conversado. Acontece que ela me pareceu, hum, desnorteada demais.

Não nego, uma ponta de orgulho me invade ao ouvir isso. Interessado, alimento a conversa:

— É mesmo? Desnorteada em que sentido?

Ele pensa um pouco, como se visitasse a lembrança por um momento, e só então esclarece:

— Ela passou por mim e não me viu. Apesar dos meus acenos e chamados, ignorou totalmente tais cumprimentos. Não por falta de educação, presumo, mas porque estava muito absorta e um tanto atrapalhada com as próprias pernas. Tenho certeza que a Srta. Carbonell tropeçou no mínimo duas vezes antes de dobrar a esquina.

Aquela ponta de orgulho vira uma montanha, fico profundamente satisfeito por tomar conhecimento do estado dela ao desaparecer de minhas vistas.

Por baixo da muralha que ela sustenta de forma tão defensiva, existe uma mulher que, talvez, não seja tão imune assim aos meus encantos.

— Não me diga, Jarvis. Folgo em saber. — Recosto-me no banco e dobro os braços atrás da cabeça. — Então ela também sentiu aquela... fagulha — deduzo, murmurando baixinho.

— Como disse, Sr. Stark?

Pelo visto, não tão baixo como calculei.

Limpo a garganta e me endireito no assento, querendo guardar a experiência apenas para mim.

— Com certeza, ela só ficou agitada porque eu a confrontei com a pedra e insisti para que trabalhasse na mansão.

O carro mergulha no silêncio por alguns metros ao longo da avenida movimentada, até que Jarvis volta a se manifestar:

— Imagino que a resposta continue sendo não.

Só então paro realmente para pensar nisso. Para mim, está muito claro que a posição de Maria não mudou e dificilmente uma noite de sono mudará alguma coisa.

Por mais que ela tenha deixado a possibilidade em aberto ao ir embora sem expor a decisão final, preciso ser realista. Maria parece ser uma mulher muito teimosa, afinal. Prefere andar por aí com aqueles sapatos gastos do que dar o braço a torcer e aceitar minha generosa oferta de emprego.

Sendo assim, me vejo obrigado a concordar com Jarvis:

— Correto.

Infelizmente. Quero acrescentar, mas opto por não dizer mais nada.

Relembrando a sensação daquele toque suave e quente, me esparramo no banco traseiro e finjo que estou dormindo pelo resto da viagem.

[...]

Passo o dia enfurnado no meu laboratório, mantendo a mente ocupada com minhas invenções. De vez em quando, Jarvis aparece prestativo, trazendo algo para eu comer e beber.

Destruí minhas armas mais perigosas quando elas caíram nas mãos erradas. Para minha sorte, Peggy conseguiu recuperá-las na época, arriscando o cargo na Reserva Científica e Estratégica para ajudar um velho amigo. De quebra, ela ainda salvou minha vida no final.

Acho que me tornei um homem melhor depois disso. Ou pelo menos, estou tentando ser.

Desde então, venho evitando as criações mais mortíferas, investindo mais em tecnologia e armamentos exclusivos para a RCE, sistemas de segurança inteligentes, além de esboçar algo sobre um futuro e, por enquanto, despretensioso Reator Arc.

Jurei a mim mesmo que toda e qualquer criação do meu brilhante cérebro, mesmo não representando risco mortal, ficará cem por cento segura. Nunca mais baterei com a língua nos dentes e darei a localização do meu cofre para um belo par de pernas.

Por falar em pernas, elas me lembram tornozelos, que me lembram...

— Droga! — praguejo ao me distrair com o pensamento, esbarrando por acidente no agitador magnético no qual testava uma fórmula paralisante temporária.

O recipiente sobre ele tomba, escapa das minhas mãos antes que eu consiga evitar a sua queda e, em consequência, o fatídico encontro com o carpete. O líquido verde desliza para fora e corrói parte do tecido com uma velocidade impressionante, levantando uma fumaça quente perto dos meus pés e logo se ergue pelo ar a minha volta.

Tusso um pouco e recuo alguns passos.

— Errar uma fórmula simples? Isso nunca me aconteceu antes... — digo baixinho, tirando os óculos de proteção e pensando que, por medida de segurança, talvez fosse interessante investir numa máscara da próxima vez.

Avalio melhor a situação e tento ver as coisas por outro lado. Fazendo algumas anotações finais, confabulo com meu precioso cérebro:

— Eu sou um gênio, acerto mesmo quando... erro. Eis uma fórmula nova. Precisa de ajustes, claro, mas é promissora. Vou chamá-la de... Raio de sol!

Abandono a caneta e fecho o bloco de notas. Estico o corpo, só então percebendo que passei horas na mesma posição, debruçado sobre a banqueta entre um cálculo e outro, trabalhando ora em uma tarefa, ora rascunhando uma ideia que surgia.

Checo as horas no relógio em meu pulso, passa da meia-noite. Espreguiço-me mais uma vez e entorno o copo onde um resto de whisky flertava comigo, implorando para ser sorvido. Então desligo toda a aparelhagem, apago as luzes, tranco o cofre com meu mais recente sistema de alarme e encerro a diversão por hoje.

Tão logo meu corpo encontra o macio colchão, a imagem de Maria Carbonell volta a me assombrar. Ela é uma feiticeira, só pode ser. Uma feiticeira atrevida e muito, muito linda.

Com um respirar profundo, entrego-me à sua imagem, ao cansaço e mergulho num sono inquieto.

[...]

Pela manhã, faço um esforço para abrir os olhos, ainda absorto por aquele estado de sonolência quase paralisante.

As grossas cortinas fechadas mantêm o quarto escuro, mas o cantar esganiçado de Bernard Stark e os resmungos do meu mordomo pelo jardim me levam a crer que o Sol já nasceu há algum tempo. O flamingo costuma ser muito agitado pela manhã, testando bastante a paciência de Jarvis.

Mato o tempo por alguns minutos antes de me arrastar para o toalete adjacente. Lá, tomo um banho demorado e relaxante.

Quando visto o roupão, me sinto revigorado e pronto para mais um dia. Então, volto para o quarto no mesmo instante em que a porta se abre, alguém entra e acende a luz.

Alguém com o uniforme de arrumadeira, os cabelos dourados presos em um coque delicado, lindamente distraída com um espanador em mãos.

E eu que pensei que ela não me surpreenderia mais, que a teimosia falaria mais alto, que não a veria de novo. Não nego, fico feliz por ter me enganado tanto.

Seus olhos encontram a cama bagunçada e vislumbram as cortinas fechadas. Maria olha para todos os cantos menos na direção do toalete, onde permaneço imóvel sob o batente, estancado no lugar tamanha a grata surpresa que vejo.

Ainda muito distraída, parece ponderar por onde começar a arrumação ou talvez esteja se perguntando se está mesmo sozinha aqui.

É a minha deixa...

Resisto ao ímpeto de chamá-la pelo primeiro nome ou raio de sol, e decido encarnar o papel de patrão de uma vez, cumprimentando em alto e bom som:

— Bom dia, Srta. Carbonell. Como vai?

— AH! — ela grita com estrondo e graciosidade ao mesmo tempo, dando um pulinho para trás e levando a mão ao peito. — Santo Deus! Que susto!

Finalmente, encontra o meu olhar. Sorrio, tentando ser um patrão simpático, e completo o cumprimento anuindo com a cabeça.

— O que o senhor está fazendo aqui? — pergunta, com a respiração irregular devido à surpresa que parece ter abalado cada fibra do seu corpo.

Encaro-a de um jeito óbvio, já que ela lançou uma questão muito óbvia no ar.

— Eu moro aqui. — Abro os braços ligeiramente, indicando tudo em volta. — E esse é o meu quarto.

Ela engole em seco, passando o olhar pela cama e depois de volta a mim. Enfim, assimila a revelação.

— Seu quarto, claro. Sinto muito, Sr. Stark, eu confundi as portas. Estava indo espanar o primeiro quarto de hóspedes desse andar. Com licença.

Assim que ela dá as costas e caminha rumo à porta de um jeito afoito, sinto uma necessidade urgente. Um desejo irracional. Quero que ela fique.

— Então! — Dou um passo à frente, ao mesmo tempo em que ela se detém no meio do caminho. Longe de mim comemorar a vitória, mas... — Vejo que você mudou de ideia.

A postura serviçal se dissipa de súbito. Ao invés da cabeça um pouco baixa, Maria se empertiga, a coluna muito ereta, é como uma flor desabrochando com imponência e segura de si.

Quando gira nos calcanhares e torna a me olhar, não é mais a nova arrumadeira da mansão Stark, é a mulher petulante de ontem. A mesma que me disse algumas verdades, na sala lá embaixo, há dois dias. Ela está de volta. Com força total.

— Apenas por extrema necessidade e provisoriamente — explica, com o mesmo narizinho empinado. — Espero conseguir outra ocupação muito em breve. Sem ofensa, mas não pretendo trabalhar para o senhor por muito tempo.

E então me lembro de como essa mulher, apesar de ter despertado meu interesse bem mais do que consigo entender, me irritou na mesma proporção.

É por isso que decido retrucar no mesmo tom atrevido que ela gosta tanto de usar:

— Vejo que não seguiu o meu conselho. Trouxe uma nova pedra nas mãos hoje.

Antes que ela pense numa tréplica, sorrio, dispensando-a, e alcanço a faixa do roupão.

— Por Deus! — exclama, horrorizada. — O que o senhor pensa que está fazendo?!

— Ora, me vestindo.

Começo a desatar o nó.

— Mas como se está tirando o roupão?!

Interrompo a tarefa e olho para ela sem entender o ponto. Ou talvez, só esteja me fazendo de sonso mesmo.

— Eu não posso colocar a roupa por cima dele. O roupão não irá desaparecer como mágica. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, é um princípio básico da Física.

Se bem que há uma certa exceção nisso. Algo libidinoso, carnal, divertido... Algo que prefiro guardar para mim, já que estou tentando manter o papel respeitoso que prometi exercer.

— Eu sei disso! Acontece que, caso não tenha percebido, eu ainda estou no quarto!

Ora, ora... Alguém parece furiosa e constrangida. Ótimo. É um combustível e tanto para que eu esqueça do papel de patrão de repente, rendendo-me à uma postura mais ao meu estilo mesmo:

— Bem, então sugiro que a senhorita saia nos próximos cinco segundos, se não quiser me ver como eu vim ao mundo e desmaiar de emoção. Caso não tenha entendido, eu estou completamente ao natural aqui embaixo. Contagem regressiva: cinco, quatro...

Desmancho o nó, puxando uma das pontas devagar, dando mais tempo para que ela se retire.

Maria é acometida por um novo sobressalto seguido por um rubor nas bochechas. Seu olhar incrédulo e aterrorizado encontra um pedaço de pele quando o roupão revela meu peito ainda um pouco úmido do banho.

Sigo com a tarefa de me livrar da peça, revelando os ombros e parte da barriga.

Estreito o olhar, confuso ao vê-la ainda parada no mesmo lugar. O que será que ainda está esperando? Será que se perdeu na contagem? Ou pretende ficar?

Três, dois...

Meu tom mais incisivo a desperta por fim e, com uma rapidez que beira à comédia, Maria corre em disparada rumo à porta, abre de um jeito afoito, atrapalhando-se com a maçaneta e deixando o espanador cair por acidente. Lança-se porta afora, soltando um último grito de horror e protesto. Ela desaparece por completo das minhas vistas, mas ainda consigo ouvir seus passos apressados pelo corredor.

— Um.

Sorrio, satisfeito por tê-la desnorteado, enquanto o roupão cai aos meus pés.

Prometi que iria me comportar se ela aceitasse o emprego, eu sei. E pretendo cumprir com a minha palavra. Porém, isso não significa que tenho que aturar a sua antipatia gratuita por mim e a postura orgulhosa sem me defender um pouco.

Além disso, eu estou no meu quarto e foi ela quem invadiu o meu espaço, certo?

[...]

Vejo-a de novo, no andar de baixo, minutos depois que fico decente. Maria segura um copo de água com força, o rosto uma máscara de choque, enquanto Jarvis parece preocupado ao seu lado.

— O que aconteceu, Srta. Carbonell? — ele pergunta. — Parece até que viu uma assombração...

Ela não explica nada ao meu mordomo e, quando me vê descendo a escada, sou recebido com um olhar frio e mortal que deveria me fazer dar meia volta e me trancafiar no quarto.

Assobio tranquilamente, mantendo o espanador atrás de mim como um buquê de flores, e venço os últimos degraus.

— Bom dia, Jarvis.

Ele se vira na minha direção.

— Bom dia, senhor. Dormiu bem?

Tive um sono agitado, tornozelos delicados e respostas afiadas por toda a parte me levando ao extremo do desejo. Eu tentava beijar a tal criatura, tomá-la nos braços por um mísero instante, porém Maria sempre se dissipava quando eu ousava me aproximar. A frustração imperou absoluta.

— Claro, como um bebê. Eu sempre durmo bem.

— Que bom. Seu desjejum está pronto. Ah... — Jarvis indica Maria ao seu lado e acrescenta: — Como pode ver, a Srta. Carbonell reconsiderou a oferta.

Cravo o olhar nela e sorrio torto.

— Ah, eu sei, nós já tivemos o prazer de trocar uma ou duas palavras hoje. Não foi?

Maria respira fundo, os dedos ficando brancos de tanto que apertam o pobre copo. Com certeza, imaginando que é o meu pescoço. Por um momento, tenho medo que quebre o vidro por acidente e se machuque.

— A propósito — revelo o espanador —, deixou cair isso quando saiu do meu quarto feito uma coelhinha assustada.

Com um puxão malcriado, ela pega o espanador e desvia do meu olhar.

Inevitavelmente, me lembro do seu momento de hesitação enquanto eu fazia a contagem regressiva. Sim, ela vai negar se eu me atrever a perguntar, mas foi um momento de hesitação no mínimo curioso.

Meu mordomo, por sua vez, parece confuso e não se contém em sondar:

— Quando... saiu do seu quarto, Sr. Stark?

— Isso mesmo, Jarvis. Eu era a assombração.

Despeço-me de Maria com um sorriso maroto e uma piscadela para irritá-la uma última vez. Então, sigo para a sala de jantar a fim de tomar o melhor e mais doce desjejum de todos.

Espio o céu ao passar perto de uma janela.

Não há nada de diferente no tom azul, no branco das nuvens ou nos raios de sol, mas, por algum motivo, acho esse dia especialmente lindo!