Notas iniciais
Hellos! Atualizando um dia antes porque amanhã não terei tempo. Boa leitura ♥

No qual nossa heroína explica por que hesitou, afirmando que não hesitou.

Se arrependimento matasse, eu já teria caído dura e fria no chão.

Eu devia ter imaginado que a oferta de trégua do Sr. Stark era boa demais para ser verdade, claro. E que ele não cumpriria a palavra sobre me respeitar coisa nenhuma. Flertar com todas as mulheres que vê pelo caminho parece ser uma patologia intrínseca no sangue dele, algo incorrigível que ele deve acreditar ser o seu maior charme. Ainda assim, eu não esperava que ele fosse tão despudorado e imbecil a ponto de ameaçar se despir na minha frente.

Que ódio!

Quando lembro do roupão se abrindo devagar e da sua expressão de confusão e desafio ao chegar perto do número final, meu sangue ferve. Sinto-me uma idiota por ter ficado tão horrorizada e, com isso, demorado um pouco a tomar consciência das minhas pernas para sair do quarto de uma vez. Uma pequena demora que inflou seu ego já enorme, dando um pretexto para tripudiar, alegando que eu fugi dele como uma coelhinha assustada.

Quanto mais penso na situação embaraçosa, mais o ódio aumenta, junto com uma necessidade urgente de me explicar.

Não que Howard Stark mereça qualquer explicação de minha parte, foi ele quem se comportou como um homem das cavernas, porém preciso fazer isso por mim mesma. Não posso lhe dar o gostinho de seguir acreditando que eu saí correndo porque senti qualquer outra coisa que não indignação e horror pelo seu atrevimento.

Ao longo do dia, eu tento me livrar dessa ideia, temendo que me explicar tenha justamente o efeito contrário sobre ele. Entretanto, cada vez que lustro a moldura dos inúmeros autorretratos de Howard Stark pela mansão, todos praticamente iguais e com um sorrisinho cretino nos lábios, me convenço que preciso fazer isso ou não terei paz interior.

Então, depois de espanar, lustrar, varrer e arrumar boa parte dos cômodos, guardo o uniforme para a jornada de amanhã, coloco de volta as roupas que vesti no começo do dia ao deixar o Griffith Hotel e sigo para o escritório do meu espirituoso patrão. Respiro fundo antes de dar duas batidas na porta.

— Pode entrar!

Ouço sua voz do outro lado da porta de madeira nobre.

Fecho os olhos por um instante, organizando melhor os pensamentos e me agarrando à decisão de colocar os pingos nos is. Em seguida, giro a maçaneta e entro. Pergunto-me se devo ou não fechar a porta atrás de mim. Opto por fechá-la, já que não quero que ele pense que estou desconfortável por ficarmos juntos num mesmo ambiente selado. Mesmo porque eu não estou nem um pingo.

A poucos metros de distância, atrás da mesa e de uma pilha de papéis, avisto o homem com quem preciso falar. Stark afasta os olhos da leitura por um instante, me vê, retorna aos documentos, porém logo os abandona de novo e me encara com certa surpresa. E... acho que com outra coisa também que não sei identificar o que é.

— Ah, é você. Aprendeu a bater na porta afinal. Quanto progresso.

Ele esboça um sorrisinho ao me alfinetar por esta manhã, e eu imagino como seria a sensação de atirar todos os papéis na cara dele. Talvez, amassá-los e fazê-lo engolir cada bolinha de papel. Com certeza, uma sensação maravilhosa.

Respiro fundo novamente e dou um passo à frente, decidida a não perder tempo. Quanto antes eu colocar as cartas na mesa, mais rápido poderei virar essa página e voltar à normalidade.

— A que devo a honra, Carbonell?

Limpo a garganta e mantenho o olhar nele enquanto começo de fato:

— Quando mudei de ideia e decidi trabalhar aqui, eu prometi a mim mesma que não entraria em mais nenhum conflito com o senhor.

— Parece que está prestes a quebrar a promessa. Acertei?

Penso por um instante.

— Não se eu puder evitar. Eu só quero esclarecer uma coisa sobre... hoje de manhã. — Xingo-me mentalmente por minha voz ter oscilado um pouco. Decido ir direto ao ponto: — Eu não fugi feito uma coelhinha assustada, só fiquei surpresa, foi isso.

Muito bem, até que não foi tão difícil assim.

Despeço-me com um aceno de cabeça, estou prestes a lhe dar as costas e deixar o escritório, quando meu patrão lança uma pergunta no ar:

— Surpresa ou ansiosa?

Descrente diante da audácia e esperando ter entendido errado, meu instinto é redarguir:

— Como disse?

Inflando minha indignação, ele abraça o atrevimento e reformula a pergunta sem pensar duas vezes:

— Surpresa por me ver tirando o roupão na sua frente ou ansiosa para que eu terminasse de tirar logo?

Fico boquiaberta e sem reação por um instante. Depois, esqueço que ele é meu patrão, que pode me demitir e simplesmente explodo:

— Isso é absurdo! O senhor acha mesmo que eu queria vê-lo... vê-lo...

Maldita voz que oscila de novo!

O Sr. Stark parece se divertir com meu embaraço e, arqueando uma sobrancelha, me ajuda ao completar com a palavra que não consegui pronunciar:

— Nu? Foi o que me pareceu quando você hesitou durante a contagem regressiva.

Uma bolinha de papel, só uma, como eu queria fazê-lo engolir uma bolinha de papel bem amassadinha agora mesmo! Junto com essa ideia absurda que teve a desfaçatez de expor com a maior naturalidade do mundo! Algo tão absurdo que simplesmente não posso ficar calada!

— Eu não hesitei! — esbravejo, perdendo um pouco da compostura e dando mais um passo à frente. — Já disse que eu só fiquei surpresa! Tão surpresa com a sua falta de decoro que me vi paralisada por um momento.

— Soa como hesitação para mim, mas tudo bem. Se você diz que não foi, eu acredito.

Howard Stark sorri — ele sorri, pelo amor de Deus! — e claro que não acredita em mim. Ele abaixa a cabeça, rabiscando algo em um dos documentos da pilha e dando a conversa por encerrada.

É, claramente, a minha deixa para ir embora, entretanto continuo estancada no lugar. Um sentimento de derrota misturando-se à irritação que esse ser humano tem a capacidade de despertar em mim com uma facilidade que me desconcerta.

Com meu orgulho mais ferido do que quando saí do seu quarto mais cedo, termino com a nossa distância caminhando até a frente da mesa e parando empertigada diante dele.

— Apenas para esclarecer...

— Estou confuso. Você já não fez isso?

Ignoro a interrupção jocosa e pontuo bem cada palavra que digo a seguir:

— Eu não quis, não quero nem nunca vou querer ver o senhor como veio ao mundo. Fui clara?

— Feito água.

Assim, tão perto dele, tenho um vislumbre melhor dos seus olhos quando esboça um sorriso. O sorriso é cretino, sua marca registrada ao que parece, mas o olhar... há algo de diferente agora. Um brilho, uma chama inquieta no tom castanho, algo queimando lentamente e que me deixa... Bom, me deixa arrepiada. Algo que, de pronto, se dissipa quando ele pisca algumas vezes e rebate um pouco zangado:

— O que é ótimo, porque eu também não quero que você me veja em toda a minha glória. Isso é um privilégio para poucas.

— Poucas? — Sou vencida por uma risada espontânea que vem lá do fundo da garganta e ressoa pelo escritório. — Muitas, o senhor quer dizer.

Porém, percebendo que Stark pode interpretar isso de outra forma (como ciúme, por exemplo, já que é doido e convencido), acrescento depressa e com firmeza:

— Eu não me importo por serem muitas. Na verdade, me sinto privilegiada por não estar incluída no seu clubinho infame. Além disso, tal visão certamente me faria ter pesadelos pavorosos.

— Será? — Ele fica de pé, para minha surpresa, e apoia as mãos na mesa, inclinando-se um pouco na minha direção. — Aposto mais em doces sonhos. Aposto que sonharia a noite inteira comigo. Talvez, até mesmo acordada.

Recuo um pouco. Não sei se incomodada pela súbita proximidade ou se pelo que ouvi. Pensando bem, as duas coisas, claro.

Procurando manter um nível civilizado e certa calma para não voar no pescoço dele e estrangulá-lo, resolvo recomeçar do zero. Ainda assim, não consigo camuflar o tom crítico em minha voz ao pontuar:

— Quando insistiu que eu devia aceitar o emprego, o senhor também fez uma promessa, recorda-se? Falou que seria um cavalheiro e se comportaria apenas como meu patrão. Que não haveria mais qualquer flerte.

— Eu estou me esforçando bastante, acredite.

Ele se inclina mais um pouco. E eu recuo mais um pouco, intrigada com algo no jeito como tais palavras soaram. Howard Stark pareceu... falar sério? Como se estivesse mesmo fazendo um esforço real para não ser... Bom, para não ser ele comigo.

Quase me convence, porém remoendo o ocorrido mais cedo e já esquecendo totalmente da minha promessa de não entrar em atrito, atrevo-me a ser sarcástica:

— Pois caso o seu gigantesco QI tenha falhado, saiba que o comportamento essa manhã provou justamente o contrário.

— Em minha defesa, eu estava no meu quarto, Srta. Carbonell. Não tinha ideia que você ia entrar daquele jeito, sem bater, e me pegar saindo do banho. Eu ainda não sabia que você tinha reconsiderado e aceitado o emprego, recorda-se? — ele devolve no mesmo tom que eu. — Eu só precisava de privacidade e aquela foi a única maneira que encontrei de te fazer entender isso.

Um pouco zonza, tento argumentar:

— Ainda assim...

Stark, no entanto, me interrompe:

— Ah! E agradeça, ou lamente, por eu ter vestido o roupão antes. Às vezes, saio do toalete sem nada. De resto, acho uma pena que a situação te atordoou tanto assim.

— Eu não fiquei atordoada! — protesto, na defensiva, embora tenha ficado sim. — Não importa! Um simples “Com licença” teria servido muito bem ao propósito de me fazer sair do quarto.

— Talvez, mas não seria tão divertido, seria?

O descaramento da pergunta me pega de surpresa. O Sr. Stark dá uma piscadela, me deixando ainda mais chocada e com raiva. E, para piorar, ainda continua zombando de mim:

— Ah, a sua cara quando eu comecei a contagem regressiva e pensou que eu fosse ficar pelado na sua frente... — Uma risada escapa. Uma maldita risada escapa, roubando-lhe o fôlego por um momento. — Eu nunca vou esquecer...

Olho para a pilha tentadora de documentos sobre a mesa. Apenas uma bolinha de papel goela abaixo e me sentiria renovada! Provavelmente, seria demitida em seguida. É apenas isso que me faz desistir da ideia.

Com um estalo, atento-me ao que ele disse, enxergando um novo ângulo e me sinto uma idiota ao concluir que...

— Quando pensei que o senhor fosse ficar pelado? Como assim? Então aquela cena ridícula não passou de um blefe?

O milionário egocêntrico se esforça para ficar sério, porém ainda posso ver os cantinhos da sua boca um tanto curvados para cima, embaixo do bigode ridículo.

— Sim. Não. Tanto faz. — Ele dá de ombros. — Está aí uma coisa que você nunca saberá com certeza, já que saiu do quarto antes do grand finale. No último segundo, pelo que me lembro. Nenhuma hesitação, claramente.

— Eu. Não. Hesitei.

Fecho as mãos com força na lateral do corpo, trincando os dentes.

— Óbvio. Agora, se me der licença, Srta. Carbonell, eu preciso rever algumas fórmulas.

Ele despenca na cadeira de couro de repente. Eu levo um susto não só com o gesto abrupto, como também pela ordem seca para que eu saia.

Mais do que isso, fico um pouco magoada. O que não faz o menor sentido já que Howard Stark é meu patrão, deseja ficar sozinho e, como sua empregada, eu deveria acatar com naturalidade.

O problema é que estávamos no meio de uma conversa muito diferente do que seria algo entre patrão e empregada. Além disso, simplesmente não posso deixá-lo ter a última palavra. Logo, não posso arredar o pé sem antes pensar em algo bem malcriado para lhe dizer. Algo que o irrite, mas não a ponto de causar minha demissão.

Por Deus! O que estou fazendo? Me deixando contaminar pela imaturidade dele?

Seu olhar se afasta dos papéis e reencontra o meu. Ele me observa e acho que enxerga o ressentimento no meu rosto porque quando toma a palavra de novo, o tom é mais suave:

— Eu não quis ser rude, só estou chegando ao meu limite. Por isso, preciso alertá-la. Se você disser mais alguma coisa, eu juro que não responderei por mim.

Não tenho certeza se entendi o que o Sr. Stark quis dizer com isso, até que ele arqueia as sobrancelhas de um jeito muito sugestivo e esclarece o ponto:

— Isso mesmo, eu quebrarei a promessa de vez, darei a volta nessa maldita mesa, segurarei a senhorita nos braços e me verei obrigado a silenciá-la com um beijo.

Sou tomada por um assombro violento, arregalando os olhos com descrença. Fico olhando para ele em choque, esperando que se retrate dizendo que não falou sério e que nunca — NUNCA! — tomaria tal liberdade comigo.

No entanto, o que vejo em seus olhos cravados em mim me faz estremecer e engolir em seco, cheia de incerteza. Meu patrão está sério demais e isso é perturbador. Pior, parece mesmo estar numa batalha interna, pronto para reagir da forma como jurou que faria, mas ainda lutando contra o ímpeto de fazê-lo.

Abismada com a ideia de ter a sua boca colada a minha, ergo o indicador em riste e ameaço do jeito mais firme que consigo:

— Ah, mas o senhor não se atreveria! Não a tal ponto! Pois saiba que perderia todos os dentes antes mesmo que tentasse! Nem pense nisso ou eu não responderei por mim!

Seus olhos cintilam com aquela chama que vislumbrei antes. Muito mais intensa agora. Uma chama que parece consumi-lo. Uma chama perigosa que vence a tal batalha.

— Eu avisei, raio de sol.

Sua voz aveludada me arrepia. O apelido irritante me arrepia. Tudo que emana dele me arrepia agora.

Quando ele se levanta da cadeira um segundo depois, parecendo muito obstinado com as mãos firmes sobre a mesa, prendo a respiração e pisco rápido. Quando ele se move, pronto para sair de detrás do móvel e me alcançar, eu encerro a insana conversa:

— Boa noite, Sr. Stark!

E corro. Apenas corro rumo à saída, porta a fora, tal como fiz essa manhã. Atabalhoada com a maçaneta a princípio e assustada feito uma coelhinha, admito. As pernas ameaçando fraquejarem a qualquer momento. O coração a mil. O rosto em chamas de tanta raiva.

Me odeio por isso, mas o filme humilhante simplesmente se repete sem que eu consiga evitar. Maldição!

Eu, Maria Collins Carbonell, simplesmente corro de Howard Stark.

Corro bem rápido. E sem olhar para trás.

[...]

Feito um rastilho de pólvora, venço os corredores e alcanço a sala principal numa velocidade recorde. Irrompo pela porta e continuo correndo pelo jardim. A essa altura, arrisco uma olhadela para trás e respiro aliviada ao constatar que aquele homem das cavernas não está à vista.

Minha intenção era não abaixar a guarda até atravessar o portão, porém o plano é interrompido quando me choco com uma verdadeira muralha. Quase despenco no chão com a força do impacto e um gemido de dor acaba escapando. Mãos gentis me seguram pelos ombros, devolvendo algum equilíbrio ao meu corpo ainda em alerta.

— Srta. Carbonell! Por que está treinando corrida?

Sr. Jarvis.

Puxo algumas lufadas de ar e me curvo, apoiando as mãos nos joelhos. Se meu pai ou meu irmão me vissem agora, certamente diriam que isso não é modo de uma dama se comportar. Correndo feito doida, descabelada, esbaforida como um animal em fuga. Para o inferno com as convenções!

— Eu estou bem... — murmuro sem fôlego, endireitando-me. — Eu só preciso...

— Ah, Sr. Stark! Aí está o senhor!

Quando o mordomo diz isso, esse nome, olhando por sobre minha cabeça, meu coração dá um salto e um arrepio percorre minha nuca, irradiando pela coluna e só parando nos meus tornozelos.

Ele olha de mim para o dono da casa e, num tom preocupado e desconfiado ao mesmo tempo, indaga:

— Perdoe-me pela indiscrição, aconteceu alguma coisa?

Alarmada, olho para trás e vejo aquele demônio sob o umbral da mansão. Engulo em seco ao notar o rubor no rosto dele. O Sr. Stark realmente veio atrás de mim. Sinal de que pretendia mesmo me... beijar. Tentar me beijar, é claro! Ele iria mesmo perder todos os dentes se seguisse com a maluquice!

Meu coração erra uma batida quando ele olha especificamente para mim. Aquele arrepio estranho voltando com força total. Tudo fruto da raiva, é claro!

É nítido que ele faz um esforço para se recompor e não levantar suspeitas. Não que deva explicações ao mordomo, porém parece preferir que o acontecido fique só entre nós.

Então, colocando as mãos nos bolsos e acenando de um jeito breve com a cabeça, Howard Stark esboça um meio sorriso para mim e me dispensa num tom polido:

— Até amanhã, Carbonell. Tenha uma excelente noite e doces sonhos.

Respiro fundo, com vontade de voar até ele e esganá-lo, mas decido que é melhor ir embora de uma vez do que demonstrar como ele me abalou.

— Boa noite, Sr. Jarvis — digo baixinho, passando por ele sem correr mais.

Detenho o caminhar quando ouço a voz do traste de novo:

— Jarvis! Leve a Srta. Carbonell até o Griffith.

— Agora mesmo, Sr. Stark.

Dou meia volta e recuso a oferta sem nem pestanejar:

— Não é necessário! — Percebendo que meu tom soou um tanto rude, acrescento do jeito mais natural que consigo: — Eu prefiro ir andando, só isso, obrigada.

Meio a contragosto, o mordomo assente. Olha para o patrão depois, como se quisesse saber se deve insistir ou não.

O sorriso de Howard Stark se acentua mais e ele olha para o céu estrelado por um momento. Em seguida, torna a cravar os olhos em mim.

— Que seja. Está mesmo uma noite linda para correr, não acha? Digo, para caminhar.

Não respondo, resistindo ao ímpeto de mandá-lo ao inferno. Limito-me a comprimir os lábios num sorriso azedo e lhe dar as costas.

Ainda com o coração desnorteado pela raiva, ainda digerindo a insana conversa e o desdobramento final, atravesso o portão e mergulho na noite.

Fora da mansão Stark há alguns minutos, sigo pelas calçadas, apertando minha pequena bolsa contra o corpo até não sentir a ponta dos dedos.

Sem me importar que os outros transeuntes me julguem uma maluca, eu resmungo entredentes:

— Arggh! Aquele homem!

[...]

Como se não bastasse todo o tormento vivido logo pela manhã e depois no fim do expediente do meu primeiro dia de trabalho, quando chego ao meu pequeno apartamento e me preparo para o merecido repouso na cama, ainda demoro para dormir.

Nem um banho demorado e uma caneca morna de leite com chá de camomila me ajudam a relaxar. Simplesmente não consigo me desligar desse dia tumultuoso porque as palavras do Sr. Stark ecoam na minha mente sem parar.

“Se você disser mais alguma coisa, eu juro que não responderei por mim. Isso mesmo, eu quebrarei a promessa, darei a volta nessa maldita mesa, segurarei a senhorita nos braços e me verei obrigado a silenciá-la com um beijo.”

O fogo que vi crepitar no seu olhar quando disse tais palavras ainda me assombra madrugada adentro.

Em dada hora, adormeci, mas fui atormentada por um pesadelo.

Sim, um pesadelo! E daqueles horríveis! Exatamente isso! Sem sombra de dúvida! Sei muito bem reconhecer um pesadelo quando me vejo dentro de um!

Nele, o Sr. Stark realmente tinha tempo de quebrar a promessa, como anunciou que faria. Nele, eu não corria em disparada, não fugia. Ele realmente dava a volta na maldita mesa e realmente me enlaçava com seus braços. Eu mal conseguia respirar enquanto me via cativa dentro deles. Presa ainda, por algum feitiço com certeza, aos seus olhos abrasadores.

No pesadelo, eu não sentia medo, mas sim algo muito semelhante à expectativa. No pesadelo, eu consentia.

Tudo muito estranho.

Acordei com o coração aos pulos e me sentei na cama. Os lábios formigando, como se a boca de Howard Stark realmente tivesse encontrado a minha. E mergulhado nela com ardor e doçura...

Um calor inoportuno se alastra pelo meu corpo inteiro e sei que serei incapaz de voltar a dormir.

— Maldição...