Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.

— Dalai Lama

—------------------------------



ROSE



Em vez de subir para os dormitórios, fiquei lendo os livros que havíamos surrupiado da Seção Reservada, praticamente acocorada em um dos cantos do Salão Comunal.

— Casa de Veraneio Heaven… Hogsmeade – anotei em um pedaço de pergaminho, sentindo o coração pular dentro do peito – Hogsmeade – repeti comigo mesma, perplexa – não fica longe daqui…

Aquela chave que mamãe havia me dado no Natal.. teria alguma relação com o endereço daquela casa?

Naturalmente, o tal local ficava em um vilarejo cuja visitação era proibida para alunos dos primeiros dois anos. Se, por algum acaso, eu resolvesse ir até lá, à procura de mais respostas, teria que novamente burlar mais meia dúzia de regras da escola. E aquilo estava começando a me preocupar.

Decidi que debateria aquilo com Alvo e Scorpius mais tarde.

Por isso, como que numa tentativa de me distrair das dúvidas que se multiplicavam em minha mente, apanhei o volumoso livro que Scorpius havia me entregado.

Ela grande, e muito bonito, recoberto por algo que lembrava couro de dragão. Possuía um único detalhe chamativo na capa. Era um símbolo estranhamente familiar – uma estrela de cinco pontas, inserida dentro de um grande círculo.

Deslizei um dos indicadores no lacre que o selava, curiosa.

Para minha surpresa, houve um estalo repentino na fechadura. Completamente autônomo, o livro se abriu magicamente em meu colo.

Eu tinha a incomum impressão de que o livro sussurrava palavras desconhecidas em meus ouvidos. Um arrepio subiu por minha coluna. Sentia minhas mãos formigarem de modo curioso, como se o conteúdo do livro provocasse reflexos desconhecidos em meu corpo.

Sacudindo a cabeça, comecei a ler a página na qual ele havia se aberto.

Muito se considerou acerca do significado intrínseco na figura do Pentagrama – uma estrela circulada de cinco pontas, surgida em meados do primeiro século na antiga Inglaterra Saxônica. A teoria mais aceita é de que foi exclusivamente criada para representar o poder das figuras mais imponentes – e ameaçadoras – da época até então: os Wiccas.

Consideravam-se Wiccas os bruxos e bruxas que possuíam total domínio dos quatro elementos básicos – terra, fogo, água e ar –, assim como a capacidade de criá-los arbitrariamente, sem necessidade de varinhas ou outros canalizadores mágico. Haviam boatos de que um quinto elemento podia ser regido por um Wicca: o Espírito, a capacidade de alterar a condição física de um ser vivo, assim como total domínio sobre sua própria vivacidade. Em outras palavras, poderia curar — ou matar – qualquer um ao seu bel-prazer.

Virei a página, subitamente tensa com uma leitura tão macabra.

Scorpius havia mencionado algo sobre uma de suas aulas de História da Magia. Algo sobre os tais Wiccas.

Por que ele havia me entregado aquele livro? Que relação aquela história sinistra teria comigo, afinal?

Lembrei-me do incidente que havia acontecido há vários meses. A chama que havia surgido em minha mãe…

Era loucura. Devia ser só uma terrível coincidência.

Eu precisava de respostas. E não de mais dúvidas.

Tentei continuar folheando o livro, mas ele parecia não querer ser lido até o final. Por mais que eu tentasse, não conseguia mais desgrudar as folhas seguintes.

Por fim, aborrecida, joguei-o de volta em minha bolsinha, junto ao livro de registros. Bocejando, decidi que poderia continuar analisando tudo aquilo outra hora, e decidi subir para dormir.



—-------------O--------------



— Espera aí – eu conhecia meu primo bem demais para saber que Alvo estava fechando a cara, mesmo que não o estivesse olhando – a gente mal escapou de levar uma detenção… e você está sugerindo que atropelemos mais uma regra?

— Na verdade, mais sete regras específicas. Cinco delas só sobre invasão de perímetro não autorizado – expliquei.

— Tá. Me poupa da sua filosofia nerd – ele bufou, revirando os olhos – bem.. que mal uma visitinha à um vilarejo proibido poderia fazer, não é?

— Ahn, sei lá – Scorpius gesticulou com as mãos de forma dramática – talvez a expulsão fenomenal dos filhos rebeldes do grupo de bruxos mais famoso da História. Nada de mais.

Antes que pudéssemos retrucar com Scorpius, senti alguém esparrar levemente em mim.

Yoko Thomas virou-se para nós, arregalando os olhos. Parecia ter genuinamente se assustado por nos perceber ali.

— Céus… me desculpe, Rose. Não olhei por onde andava.

— Disso eu não duvido, Thomas!

Nós quatro olhamos adiante, vendo Astrid McLaggen entrando em nosso corredor, bloqueando o caminho, juntamente de mais algumas alunas da Sonserina.

— Saia da frente, McLaggen – Scorpius disse, desagradado.

— Ora essa, Malfoy. Isso são modos de falar com outra sangue-pura? — gracejou Astrid – céus… você desgraça todos os sangues-puros se envolvendo com essa ralé. O que seus pais diriam?

Espantada, vi Scorpius tomar a dianteira, pondo-se entre nós e Astrid.

— Que fiz uma excelente escolha – grunhiu-é o que diriam.

Astrid não se alterou. Continuou sorrindo de modo desdenhoso.

— Bem, a escolha é sua. Se chafurdar com os porcos, vai acabar se atolando – riu-se, piscando para Yoko – tome cuidado, ou vai terminar como aquele sangue-ruim que Thomas chamava de pai.

Não pude explicar a mim mesma o que aconteceu a seguir.

Em um momento, vi Astrid e as outras sonserinas rirem entre si.

No outro, eu estava em cima de McLaggen, desferindo-lhe tapa atrás de tapa.

Caímos no chão, nos engalfinhando uma contra a outra, praticamente alheias ao fato de termos varinhas em nossos bolsos.

— Rosie! — ouvi Alvo exclamar.

Embora meu assalto não fosse por si só tão violento, via, em meio à cólera que me dominava, Astrid se debater abaixo de mim, ofegando de dor. Ela soltou um grito sufocado quando segurei seus pulsos, e percebi sua expressão saltar de choque.

Quando finalmente percebi o que estava fazendo, voltei a me erguer, soltando-a.

Senti Scorpius segurar meus braços, enquanto McLaggen se reerguia, segurando o pulso, com o rosto contraído. Suas colegas pareciam assustadas, recuando alguns passos no corredor.

Incrédula, percebi algo avermelhado e chamativo em seu braço, como se a garota tivesse esbarrado a pele num ferro em brasa.

Astrid ergueu os olhos para mim, rilhando os dentes de raiva.

— Sua… sua aberração..!

Para piorar as coisas, vi uma silhueta conhecida adentrar no corredor, provavelmente atraída pelo som da confusão de segundos atrás.

E então, me deparei com as duas últimas pessoas com as quais eu queria ter me deparado naquele momento.

— Professor Longbottom... – baixei o olhar, aflita – Professora Hawkes...

Yara estava absolutamente perturbada, encarando a queimadura no pulso de Astrid como se nunca tivesse visto nada tão aterrorizante.

Neville, pelo contrário, parecia estranhamente calculista.

— O que houve aqui? — a professora ofegou, perplexa.

Parecendo por fim despertar do atordoamento, Yoko se pronunciou.

— Foi McLaggen, professora! — guinchou – ela falou… — segurou um soluço –ela ofendeu minha família…

— É mentira! — grunhiu Astrid, furiosa – Weasley me atacou! Ela me queimou! — enfureceu-se – quero que ela seja castigada!

A expressão de Neville ficou assustadoramente fria.

— O que você quer não está em questão no momento, Srta. McLaggen – virou-se para Yara, decidido – fique com ela, Hawkes. Levarei a Srta. Weasley e seus colegas para meu gabinete – acrescentou em voz baixa — informe a diretora.

Meu estômago gelou.

A Diretora saberia daquilo.

= Professor… — choraminguei, angustiada.

Ele não demonstrou nenhuma emoção empática, limitando-se a nos arrebanhar para fora do corredor.

Em silêncio, nós quatro o acompanhamos, sem nos virarmos outra vez para o pequeno grupo espantado de alunas da Sonserina.

Sentia-me enjoada, com ondas de pânico varrendo todo o meu corpo.

Por que diabos eu havia agido daquela forma? Agora Astrid tinha um álibi contra mim. Infelizmente, ela não havia mentido sobre a parte de eu tê-la atacado. E isso seria o argumento perfeito para que eu fosse expulsa.

Entramos dentro da sala de aula vazia, cuja porta adiante levava para os fundos das estufas de Herbologia. Longbottom nos apontou quatro cadeiras, que dispôs diante de sua mesa.

Sem coragem de contestar, nos sentamos, enquanto ele se acomodava em seu próprio assento.

Yoko parecia prestes a chorar.

— Por favor, professor – ela choramingou.

Neville ergueu a mão pedindo silêncio. Yoko se interrompeu, ainda cabisbaixa.

— A professora Hawkes cuidará para que isso não se espalhe. Desta vez… e apenas desta vez, alteraremos a memória da Srta. McLaggen e das demais alunas que presenciaram a cena – declarou, taxativo – deixando esses pormenores de lado… vamos tratar do que interessa, Rose.

Scorpius e Alvo pareciam demasiadamente perturbados, virando seus rostes em minha direção. Yoko ainda estava amuada, sem saber como reagir.

— Eu sinto muito, Neville… — falei, desoladamente.

Neville suspirou alto, cruzando os braços sobre a mesa.

— Me parece que a garota ofendeu vocês.

— Sim, senhor – Scorpius desandou a falar, repentinamente esquecendo de sua timidez temporária – ela falou… sobre o pai de Yoko.

Ele lançou um olhar assustado para a garota, que limitou-se a murmurar em concordância, segurando o choro.

— Não sei o que deu em mim – lamentei-me – no momento em que ela falou de Dino.. — sacudi a cabeça – eu… foi como… se eu não estivesse mais…

—...agindo por si mesma?

Assenti, envergonhada.

— Foi assustador – admitiu Alvo – é verdade. Rosie… não parecia normal. Foi estranho… e apavorante.

— Eu devia ter me controlado – passei as mãos pela cabeça – mas eu simplesmente… não consegui – senti um nó se formar em minha garganta – não sei o que está havendo comigo, Neville!

Scorpius encarou o professor, aparentando uma tensão aterradora.

— Os olhos dela...

Ergui a cabeça, pega de surpresa.

A informação parecia ter igualmente surpreendido Longbottom, que voltou a nos encarar, estreitando o olhar.

— Yoko.. — falou – conversarei com você em particular. Vá até a Ala Hospitalar. Peça para madame Pomfrey lhe administrar uma poção calmante.

Sem dizer nada, Yoko deixou sua cadeira, correndo na direção da saída, e desaparecendo porta afora.

Quando ela finalmente deixou a sala, a expressão de Neville se vincou.

— Vocês andam tomando um caminho perigoso – falou, em tom imperante – não sei todos os detalhes do que andam fazendo. E, sinceramente, acho que não devo saber – sua voz tornou-se mortalmente séria – mas vocês devem parar. Agora, Rose.

Ofeguei, atônita.

Então eles já suspeitavam de nossas pequenas incursões?

Mas eu não entendia. Se os professores já percebiam o que andávamos fazendo, por que ainda se esforçavam em nos encobrir? Por que simplesmente não nos expulsavam de Hogwarts? Ou avisavam nossos pais?

Aquilo não fazia sentido algum.

Eu tinha duas escolhas agora. Admitir nossas atividades durante a noite… ou mentir e fingir que jamais havíamos feito aquilo.

Decidi abrir o jogo de uma vez. Estava cansada de esconder aquilo.

— A culpa foi toda minha – admiti – eu os arrastei o tempo todo – dizer a verdade pareceu me libertar de um peso enorme na consciência – não queria ter feito isso. Não queria ter atacado Astrid.

Pela primeira vez, percebi pequenas rugas no rosto de Neville, e pude me lembrar que estava cara a cara com alguém que também havia precisado fazer escolhas difíceis quando jovem.

— Eu entendo, Rose – o professor inspirou profundamente – e não questionarei suas motivações, embora censure fortemente sua conduta – ele piscou – seja qual for o motivo… peço que o deixe de lado. Para sua segurança… e a dos demais… vou lhes dar uma proposta. Esqueçam o que estão procurando – disse – foquem em seus estudos. Trabalhem o autocontrole de vocês. Não será a primeira, e nem última vez, que serão testados dessa forma. Sabem disso – inclinou a cabeça –existem segredos que terão o momento certo para serem revelados. Não tentem mudar isso antes da hora.

Baixei a cabeça, me sentindo um pouco mal comigo mesma.

— Eu só quero respostas, Neville.

Ele me olhou de modo gentil.

— Seja sobre o que for, você as terá, Rosie. Tenha paciência. Aguarde o momento certo – concluiu, tomando novamente um tom de alerta – parem esta busca. Procurem se focar no que é realmente importante neste momento. Caso contrário, terei que notificar os pais de vocês sobre o que aconteceu. E acho que ninguém aqui quer que isso aconteça.

Ouvimos o sinal tocar do lado de fora da sala. O professor deixou sua mesa, postando-se ao lado de sua cadeira.T ambém saíamos de nossas cadeiras, ainda de cabeça baixa.

Longbottom afagou meu ombro.

— Vai ficar tudo bem, Rosie – aconselhou-me – dê tempo ao tempo. E garanto que terá uma oportunidade de encontrar as respostas que procura.

Assenti distraidamente;

— Obrigada… Neville.

Acompanhei Alvo e Scorpius para fora do gabinete de Neville, sentindo meu estômago se revirar de um modo enjoativo.

— Então… é isso – Alvo disse, por fim – já era. Ou desistimos dessa investigação maluca… ou nossos pais ficarão sabendo disso tudo.

Seria egoísta da minha parte prosseguir com aquilo depois agora. Não podia prejudicar Alvo e Scorpius por causa de minha busca psicótica por respostas que talvez nem existissem.

Estava decidido. Assim como Neville havia me aconselhado, daria um fim naquelas incursões perigosas. As respostas que eu queria não valiam o risco de colocar meus amigos em uma situação perigosa.

Para o bem dos meus amigos, deixaria que tudo se esclarecesse com o tempo.

— Tudo bem – concordei – vamos fazer isso. Neville jamais proporia isso se não estivesse preocupado comigo. Talvez eu deva mesmo esperar. Vou devolver os livros para ele na aula de Herbologia… e esquecer disso tudo. Talvez seja melhor assim, afinal.

— Então fechou – Scorpius brincou – chega de brincar de detetive.

Foi uma decisão difícil. Mas aparentemente sensata, no fim das contas.

Á partir daquele dia, eu faria o possível para desviar minha atenção, voltando-me exclusivamente para meus estudos e minhas amizades.

Por um longo e tranquilizante tempo, nosso plano de deixar aquilo tudo no passado pareceu dar certo.

No entanto, um dia, aquele tempo de paz acabou.