“Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos.”

— Albert Einstein

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SCORPIUS



Durante mais de seis meses, parecia que havíamos esquecido completamente sobre as intrigantes questões que envolviam Rose.

Desde o nosso encontro com o professor Longbottom, não tocamos mais sobre o assunto da profecia – ou sobre qualquer outra coisa relacionada aos acontecimentos bizarros que ocorreram no início do primeiro ano. Como num acordo mental, decidimos desviar a mente de tudo aquilo, focando principalmente em nossos estudos.

Pela primeira vez em anos, finalmente estava sentindo que encontraria meu lugar. Rose e Alvo se tornaram os melhores amigos que alguém poderia ter – e eu não podia pedir mais do que aquilo.

Após o fim das provas de Junho – nas quais, para minha surpresa, todos nós havíamos passado sem tantas dificuldades – o primeiro ano letivo finalmente havia se encerrado.

Aproveitamos bastante o retorno para Londres, nos divertindo o máximo que podíamos em nossa cabine. Estávamos com um excelente animo, principalmente por que havíamos acabado de ver Yoko Thomas conversando euforicamente com alguns de nossos colegas – era a primeira vez que a víamos tão contente, desde que havia recebido a notícia da morte do pai.

Rose piscou para Alvo, risonha, apontando para o grande e peludo lobo que encontrava-se deitado em seus pés.

— Ei, vai acordá-lo – alertou Alvo, segurando uma risadinha.

Tapuaki resmungou baixinho, sacudindo o rabo, e continuou a dormir.

— Vocês tem que vir nos visitar nas férias – falei – mamãe vai adorar conhecer vocês.

— Vou perguntar para os meus pais – Rose sorriu – embora eu ache que minha mãe não vá achar ruim. Ela mesma sempre disse que eu devia fazer de tudo para me enturmar…

— Diga por você – ouvi Alvo suspirar – já imagino o que papai dirá – cruzou os braços, fazendo uma voz grossa de falsete — “meu filho se misturando com um Malfoy. Não foi para isso que eu te criei. Você nasceu com defeito. Amanhã faço outro.”

Eu e Rose rimos.

Sendo assim, distraídos, nos sobressaltamos quando a porta da cabine se abriu violentamente.

Atônitos, assistimos Astrid McLaggen adentrar sem cerimônia, nos olhando enfurecida, as mãos fechadas em punhos.

Despertado pela pancada, Tapuaki ergueu a cabeça, rosnando ferozmente na direção da garota. Astrid mal lhe deu atenção, erguendo o braço e apontando um dedo acusatório na direção de Rose.

— Foi você – vociferou, ensandecida — não foi, aberraçãozinha?

Para minha admiração, tudo que Rose fez foi erguer uma sobrancelha petulante na direção de McLaggen.

— Ou você diz o que quer aqui, ou cai fora da nossa cabine, McLaggen.

— Aliás – acrescentou Alvo — pode cair fora de qualquer modo. Ninguém te quer aqui.

— Não se intrometa, filhote de mestiço – rosnou Astrid – eu só posso pensar em uma pessoa que poderia ter feito aquelas vinhas crescerem na minha maleta! Agora minha requisição precoce de Nimbus 2020 está destruída! — ela apanhou a varinha, apontando-a para Rose – você vai ver só, Weasley!

Eu e Alvo nos erguemos no mesmo instante, brandindo nossas varinhas. Tapuaki ergueu-se, sibilando alto, o focinho entreaberto expondo seus dentes afiados.

— Eu não sei do que está falando, McLaggen. Agora caia fora daqui.

A garota apenas riu.

— Bem a sua cara, Weasley – ela olhou para nós com desprezo – agora precisa de todos os seus amigos para me enfrentar. Não tem mais peito o bastante para se defender sozinha depois do que aconteceu, não é? — sacudiu sua varinha – é mais fraca e ridícula do que eu pensei.

Vi o lábio de Rose se franzir ameaçadoramente.

Se controle, Rose. Pensei, aflito.

Me surpreendendo mais uma vez, vi Rose sacudir a cabeça.

— Eu simplesmente escolho não perder meu tempo com você, Astrid – ela disse, numa voz anormalmente calma – agora faça a gentileza de sair da nossa cabine.

Rose deu as costas para Astrid, respirando fundo.

Foi o tanto de tempo que McLaggen precisou para verbalizar seu feitiço.

— Estupefaça!

Houve um clarão incomum, e todos nós nos encolhemos, subitamente cegados pela luz. Quando ela diminuiu, percebemos que Astrid havia recuado pelo menos meio metro, encarando espantada a chama azulada na mão de Tapuaki.

Nunca havia assistido nenhuma demonstração da magia maori. Era bem mais bonita – e assustadora – quando vista de perto.

— Acho que a jovem whero mandou que saísse daqui – o rapaz declarou, sua voz ressoando feito um tambor solene dentro no local – aconselho a seguir a sugestão dela… se não quiser ter problemas por ter atacado a filha da Vice-Ministra da Magia covardemente pelas costas.

Astrid pareceu, por um momento, considerar a possibilidade de zombar de Tapuaki. Mas o garoto era pelo menos meio metro maior que ela. Se isso por si só já não intimidava, o fato de haver uma bola de fogo azul nas mãos dele não pareceu ajudá-la a se acalmar.

Vi-a franzir o cenho, abrindo um esgar encolerizado para Rose.

— Isso ainda não acabou – grunhiu, antes de desaparecer porta afora.

Assim que McLaggen se retirou, Tapuaki fechou a mão, fazendo as chamas sumirem, e voltou-se em nossa direção.

— Parabéns – troçou – terminaram o primeiro ano com sua primeira arqui-inimiga.

Bom saber que estão honrando a tradição familiar.

— Vê se morre, Tapúaki – Alvo fechou acara, enquanto eu, Rose e ele gargalhamos.

— Mas é sério – ele se interrompeu durante a risada – vocês tem que aprender quando devem comprar uma briga. Ainda bem que Rose tomou as rédeas na hora certa.

— É – Rose murmurou – mas é estranho… sabe? O que ela estava me acusando de ter feito. Vinhas na bagagem dela? Que tipo de magia faz isso?

Era uma questão válida. Eu nunca havia ouvido falar em um tipo de magia terrestre que surgisse do nada.
Exceto…

— Espere um pouquinho… — murmurei.

Porém, antes que eu pudesse verbalizar minhas suspeitas, o trem começou a diminuir de velocidade. Rose e Alvo ofegaram em conjunto, debruçando-se sobre a janela.

— Estamos chegando!

Também enverguei a cabeça, enxergando a plataforma da estação se aproximar lentamente. As crianças nos outros vagões gritaram de animação, começando a correr pelos corredores, a fim de descerem suas bagagens.

Juntamente de Rose e Hugo, puxei minhas malas para fora do bagageiro, começando a arrumar minhas coisas.

Alguns minutos depois, já fora do trem, começamos a procurar por nossos pais. Em meio à enorme mistura de famílias e fumaça, era difícil enxergar qualquer coisa que fosse.

Alvo foi o primeiro a exclamar, acenando na direção de um casal ao fim da plataforma.

— Pai! Mãe!

O acompanhamos, indo na direção da pequena família.

Harry Potter era realmente tudo que eu ouvira falar dele, e Alvo era quase que sua cópia fiel – cabelos negros e olhos claros. Sua mãe, Gina, tinha o cabelo ruivo característico dos Weasleys, assim como a filha caçula, Lílian Luna.

— Alvo! — Harry bradou, abraçando o filho – onde está seu irmão?

— Estou aqui! — ofegou Tiago, vindo até nós aos tropeços, resfolegando – estava… me despedindo… de Tapuaki.

Olhei sem graça para os Potter, indeciso quanto a minha apresentação.

— Papai – Alvo me puxou – este é Scorpius! É meu amigo!

Hesitei em erguer a cabeça, sentindo Potter me sondar atentamente.

Por fim, vi sua mão se levantar em minha direção.

— É um prazer conhecê-lo, Scorpius – falou, apertando minha mão.

— O prazer é meu, Sr. Potter – sorri, aliviado.

— Anda, Scorpius – Rose me puxou, rindo — quero te apresentar a papai e mamãe! — sacudiu a mão na direção dos Potter – até mais, gente!

Me despedi de Alvo, que abriu um grande sorriso em minha direção.

— Até logo, Scorpy!

Achando graça, me deixei ser puxado, arrastando minha bagagem e deixando Crystal louca de terror.

— Ei, cuidado – gracejei – vai matar nossos bichinhos assim!

Teaspoon me lançou um olhar azedo de sua gaiola, como se me julgasse tolo de achar que aquilo era um passeio agitado. Pela cara da gata, a pobre coitada já havia sobrevivido a coisas piores.

Por fim, depois de um belo empurra-empurra entre os primeiranistas que deixavam o trem, Rose soltou um gritinho extasiado, acelerando o passo.

— Mamãe! Aqui!

Vi, ao longe, um outro casal se virar em nossa direção.

Rose soltou minha mão se seu malão, correndo alegremente para os braços da mulher de cabelos castanhos.

— Que saudade, minha flor – a bruxa suspirou, apertando Rose contra si.

Ao seu lado, estava Ronald Weasley, e o que aprecia ser uma miniatura dele. O garoto – sem dúvida o irmão de Rose, Hugo – encontrava-se amuado, abraçando a cintura do pai, e me olhando com desconfiança.

A mesma desconfiança que – estremeci – parecia haver nos olhos de seu pai.

— Scorpius! — Rose me chamou, ainda braçada à mãe – vem cá!

Avancei dois passos tímidos, afagando meu próprio braço.

Tentando distrair meu nervosismo, analisei as semelhanças entre eles. Peguei-me notando um tipo de serenidade solene no rosto de Ronald – a expressão de alguém que havia cometido vários erros, e agora lutava contra as próprias fraquezas.

Já Hermione – como já havia percebido – tinha uma aura totalmente diferente. Embora ambos inspirassem respeito, a mãe de Rose ultrapassava em muito essa mera formalidade. A sensação que eu tinha era a de querer me curvar numa reverência. E aquilo era muito estranho.

— Sr. Weasley – cumprimentei-os – Sra. Weasley.

— Esse é meu amigo, Scorpius – Rose algaraviou – Scorpius… meu pai… minha mãe… e meu irmãozinho, Hugo.

— Não sou seu irmãozinho – resmungou Hugo, fazendo Rose rir.

— Modos, Hugo – Hermione disse em tom de censura, em seguida pousando sua mão em meu ombro – bom te ver outra vez, Scorpius.

— Então – Ronald ergueu as sobrancelhas – Malfoy, não é?

— Sim – dei de ombros – embora, a´s vezes, eu não me sinta como um.

Percebi que os pais de Rose trocaram um olhar surpreso. Hugo usou essa deixa para me lançar um revirar de olhos, contornar a família e ir interagir com a gatinha da irmã.

— Não pense assim – sorriu Hermione – tenho certeza que sua família te ama. Porém… — ela acrescentou – e se você nasceu de determinada forma, não significa que não possa ser outra coisa – humorado, percebi-a encarando petulantemente o marido – não é, meu amor?

— Ha, ha – forçou Ronald, ao que todos seguraram o riso.

Rose voltou-se para mim, me dando um abraço apertado.

— Prometo que vou escrever todos os dias! — disse animadamente.

— Eu também – senti-me sorrir, retribuindo o abraço.

Me sentia mais feliz do que nunca com a amizade daqueles dois. Ser um Malfoy poderia muito bem ter me condenado à rejeição e solidão. Porém, o destino havia me agraciado com aqueles dois garotos incríveis, que haviam me proporcionado o melhor primeiro ano que um aluno de Hogwarts poderia ter.

— Vou sentir saudades – gracejei.

— E eu também – ela me soltou, recuando até a sua família – até mais, Scorpy!

Acenei para ela, observando-os começarem a deixar a plataforma.

Ainda pude ver os longos cabelos ruivos de minha amiga em meio à neblina da estação por alguns segundos.

Finalmente, os quatro desapareceram de meu campo de visão.

E senti meu peito apertar por um momento.

— Até mais… Rosie.

Sobressaltei-me quando alguém tocou meu ombro.

— Calma, campeão. Sou eu!

Exultante, girei os calcanhares, abraçando papai.

— Pai! — falei, sorridente.

Vi papai me abrir um largo sorriso.

— Sentimos sua falta, querido – mamãe se joelhou, me abraçando também – olha só para você. Como está lindo!

— Está me esganando, mamãe – brinquei, ouvindo-a rir contra meu ombro.

— Mas e aí, filho – meu pai falou, assim que minha mãe me soltou – o que achou de Hogwarts? Foi como você esperava?

Pisquei por um momento, meu sorriso hesitando levemente.

Não. Não foi nada do que eu havia esperado. Afinal, ninfas que faziam profecias, labaredas ardentes em palmas da mão ou incursões perigosas durante a noite não eram exatamente algo comum no primeiro ano de um estudante de Hogwarts.

No entanto, decidi que eles não precisavam saber; Pelo menos, não agora.

— Sim – concordei – foi melhor do que eu imaginava.

Não havia por que me preocupar agora. Toda aquela tensão e preocupação haveriam de ficar no passado. Nada mais poderia interferir em meu futuro.

Naturalmente, eu não sabia o quanto estava equivocado.