ROSE

O suave murmurar do lago sobre os remos era o único som que eu conseguia ouvir.

Eu e Alvo nos entreolhamos, olhando para alguns colegas que partilhavam o barquinho conosco.

Até então, antes do silêncio imperar, havíamos conversado com alguns deles. Estava me sentindo cada vez mais perplexa e satisfeita, percebendo que não havia tido dificuldade alguma em fazer amizade com a maioria.

Surya Patil, uma menina de tez escura, não parava de sorrir para mim, Apesar de estridente, tendo sido uma das que mais haviam tagarelado até o momento, percebi que era uma menina muito meiga. Tinha gostado dela na mesma hora.

Já Michael Stark, um menino moreno ao meu lado, era o exato oposto, mantendo-se amuado pro um bom tempo, e se assustando quando Alvo tentara conversar com ele. Tudo que havíamos extraído até então do garoto era uma parca informação sobre sua mãe ser secretária do ministro da Magia – provavelmente, uma das velhas amigas de mamãe, Oliviene Stark.

Chloe e Clary Longbottom, as gêmeas, já eram velhas conhecidas nossas – afinal, passamos a infância indo à casa de Luna, brincando no mesmo quintal. Elas, Neville e Luna eram praticamente parte da nossa família desde sempre. Ninguém poderia sequer diferenciar as duas – ambas tão sincronizadas uma com a outra, que poderiam ser uma única pessoa. Apenas com muita conversa, era possível perceber que Chloe era mais pé no chão. Clary, do contrário, vivia com a cabeça nas nuvens.

Apenas dois ocupantes do barco não haviam interagido conosco, permanecendo afastados de nossa roda, lançando, vez ou outra, olhares um tanto desagradáveis em nossa direção. Era uma menina pálida, cujos cabelos escuros e cacheados quase lhe ocultavam todo o rosto, e um garoto, de cabelos castanho-claros ligeiramente arrepiados e cara mal-humorada.

Por fim, concluindo os presentes ali, sentado defronte a mim, estava Scorpius Malfoy.

Eu ainda não acreditava. O filho de Draco Malfoy – sobre o qual eu vivera ouvindo todos os terríveis feitos no passado –, sentado no mesmo barco que eu, me lançando um sorriso contente.

De todos ali, ele era o único…

Não entendia como havíamos ficado amigos.

Tive que desconstruir todo o preconceito que criara em minha cabeça sobre os Malfoy — sobre o que ouvira dela – em pouco mais de cinco horas. Por que Scorpius não lembrava em nada qualquer característica que já tivesse ouvido falar sobre aquela família de sangues-puros.

Lembrei-me de nossa recepção nada calorosa, horas atrás, e senti uma pontada de culpa.

Quase havia arruinado qualquer oportunidade de fazer um amigo excepcional.

Para meu alívio, porém, ele não parecia ter ficado ressentido. Assim que havia se trocado, viera correndo para nosso barco, como havia prometido.

Depois de algum tempo, finalmente desembarcamos nos terrenos de Hogwarts.

Meu coração saltava, animado. Nem podia crer que, finalmente, estava para entrar no lendário castelo. O palco das maiores aventuras e das maiores batalhas que meus pais e demais bruxos tiveram o mérito de participar. Era uma sensação indescritível.

Scorpius e Alvo, assim como os demais alunos do primeiro ano, aparentavam dividir de nosso arrebatamento. Todos erguiam a cabeça, maravilhados, encarando as majestosas torres que imperavam-se sobre as nuvens.

Enquanto descíamos, porém, a garota dos cabelos cacheados pulou violentamente para fora do barco, arrastando o menino pelo pulso. Recuamos, indignados, quando ela passou entre nós, dando uma ombrada bruta em mim e Alvo, ainda puxando o garoto atrás dela.

— Ei! — Alvo ralhou – peça licença, né?

A menina virou a cabeça, nos encarou com desprezo e continuou seu trajeto, como se nem tivesse ouvido, guinchando o rapaz bufante ao seu lado.

— Mas quem é essa menina? — pela primeira vez em minutos, Michael Stark falou.

Surya franziu o cenho.

— Mamãe a viu na plataforma. Ouvi o pai dela a chamando – ela murmurou, pensativa — Astrid McLaggen. Acho que era esse... o nome dela. E ela já estava com esse garoto desde o embarque – deu uma risadinha nervosa – não parecia nada contente.

Scorpius fechou a cara.

— Já não gostei dela. Quem ela pensa que é?

Sua indagação me fez lembrar o que eu havia dito, quando ele entrara em nosso vagão. Senti meu rosto esquentar de vergonha.

— Ah, gente – Chloe chiou indolentemente – fuá pra essa tal Astrid. Não vamos deixar isso nos chatear – ela pulou em sincronia com Clary, eufórica – vamos começar nosso primeiro ano! Vai ser demais!

Assentimos, sorrindo em uníssono.

Chloe tinha razão. Não ia deixar que uma única pessoa fosse estragar aquele momento tão importante de minha vida.

Os alunos do primeiro ano foram guiados por Neville Longbottom, nosso futuro professor de Herbologia – e pai das gêmeas, que não pararam de dar risadinhas o caminho todo, fazendo-o revirar os olhos, embora jurasse vê-lo reprimindo um sorriso.

— Todos juntos, por favor! — ele bradou, nos acompanhando cuidadosamente pelo labirinto de escadas que nos surgiu dentro do castelo – estamos parto do Salão Principal!

Meu estômago deu uma cambalhota.

Estava mais perto do que nunca da Seleção das Casas.

Havia repassado aquele momento milhares de vezes nos últimos três anos. Tinha pensado em todas as possibilidades. Conversara com meus pais sobre aquilo.

Grifinória. Corvinal. Lufa-Lufa. Sonserina.

Papai e mamãe haviam sido claros. Embora meu pai brincasse sobre aquela coisa de deserdação, haviam sido taxativos. Não importava qual Casa eu ficaria. Desde que eu desse o meu melhor para representa-a dignamente, eles ainda se orgulhariam de mim.

Ainda assim, a perspectiva de cair fora da Grifinória chegava a me assustar – afinal, toda a minha família havia sido parte dela.

Respirei fundo, tentando me convencer. Eu faria o possível para honrá-la, independente de qual fosse.

Após mais algum tempo, enfim, entramos no Salão Principal, onde os demais alunos já nos esperavam.

Alvo apertou minha mão, alarmado. Retribuí o aperto, me sentindo tão espantada quanto ele.

Ao longe, vimos a Diretora, Minerva McGonagall, se erguer na mesa dos professores, nos dando as boas vindas.

O sangue ribombava tão alto dentro de mim que, em meu nervosismo, não consegui prestar atenção em nada. O pânico irracional ameaçava me inundar outra vez, conforme, após seu discurso, começou a chamar os estudantes para a Seleção.

Tentando me distrair, pensei no que mamãe me contara sobre sua própria Seleção.

“Ah, querida. Ele parece saber de coisas que você nem desconfia. O Chapéu ficou em dúvida quando foi me selecionar. Falou coisas engraçadas. Audaciosa como uma Sonserina. Corajosa como uma Grifinória. Leal como uma Lufana. E inteligente como uma Corvina.”, ela rira por um momento, os olhos brilhando. “Mas sabe o que o ouvi dizer… que mais me surpreendeu? Eu posso lhe jurar, filha. Em algum momento, tive certeza que ele murmurara algo como… 'ah, mais uma Weasley?'”. Mamãe arfara em conjunto comigo. “Rosie, eu não sei como. Mas ele sabia. Sabia de verdade. E o Chapéu saberá… ele não verá apenas sua mente, mas também seu coração. E, se tiver sorte, o seu futuro também.”

Relembrar aquela história pareceu acalmar um pouco minha mente agoniada.

Se mamãe, uma das maiores bruxas das últimas décadas, havia frisado aquilo… por que não acreditar?

Fui vendo nossos colegas de trajeto sendo selecionados – por alguma razão, a ordem não era alfabética..

Surya Patil foi para a Corvinal, A garota arrogante que nos empurrara no barco – assim como seu colega – foram para a Sonserina – o que não pareceu novidade, dado o jeito imperioso com o qual se juntou à mesa deles. Chloe e Clary, sobre uma saraivada de aplausos, foram ambas selecionadas para a Grifinória. Michael Stark foi primeiro a ir para a Corvinal, o que fez a mesa deles explodir de animação. Mais três alunos para a Sonserina, dois para Lufa-Lufa, quase metade dos restantes para a Corvinal.

Scorpius Malfoy me olhou de um modo assustado, colocando o Chapéu na cabeça e aparentando segurar a respiração.

Enfim, depois de alguns segundos, o Chapéu Seletor bradou.

— SONSERINA!

A mesa da Sonserina explodiu em vivas.

Não devia ser novidade para mim, claro. Nunca houvera um único selecionado fora da Sonserina, afinal.

Mas quando Scorpius desceu do banco, e se encaminhou para a mesa de sua nova Casa, jurei ter visto ele me encarar com uma mistura de desolação e resignação…

Como se, por um momento, tivesse esperado…. outra coisa.

Finalmente, depois de um tempo, restaram apenas eu e Alvo.

Vi meu primo me lançar um olhar significativo, antes de subir na banqueta.

A Diretora recobriu-lhe a cabeça com o Chapéu Seletor. Vi o chapéu remendado se retrair ao tocar a cabeça de Alvo.

— Hum… muito bem – consegui ouvi-lo sussurrar – posso ver o que há em sua mente. E posso ver o que existe em seu coração. Há um lugar em que você se tornaria exatamente o que quer ser, Potter.

Alvo fechou os olhos. Vi seus lábios se mexerem, mas não ouvi o que disse. Em seguida, ele assentiu com a cabeça, ofegando.

— Excelente – o Chapéu voltou a dizer – então, se assim deseja… acho que já sei onde o colocarei…

As exclamações não tardaram a começar quando ele exclamou.

— SONSERINA!

Houve uns poucos aplausos no Salão, por que a maioria estava completamente atônita.

E eu também.

Ninguém tirou os olhos de Alvo, enquanto ele foi, de cabeça baixa, sentar-se ao lado de Scorpius, cuja boca estava completamente aberta de choque.

Alvo fora para a Sonserina.

Alvo Severo Potter seria um sonserino.

Ouvi murmúrios entre os alunos, mas não pude distingui-los.

— Rose Weasley! — Minerva chamou.

Em meio aos cochichos que ainda se exaltavam sobre Alvo, vi alguns novos. Todos me fitavam, surpresos.

Eu sabia por que. Ser filha de duas das personalidades mais conhecidas do mundo bruxo não ajudava no anonimato.

Ainda assim, não entendia o olhar fixo e arregalado de Michael Stark para mim, enquanto me sentava no banco, o estômago embrulhando de um jeito desagradável.

Estremeci quando o Chapéu tocou meus cabelos. Evitei olhar na direção da Diretora, que não parecia menos admirada do que Michael ao me encarar.

Senti-o tremer sobre minha cabeça.

— Weasley. Quem diria – ele falou acima de mim – o que há em você, pequena, não pode ser medido ou classificado. Igual à sua mãe. Poderia ficar em qualquer Casa.

Apertei as bordas do banquinho, desviando os olhares que se deitavam sobre mim.

Não. Não queria ir para qualquer Casa. Devia haver aquela em que eu deveria estar. Aquela ao qual meu coração pertencia.

Aquela onde eu me tornaria a bruxa que deveria ser.

Arrisquei uma olhada na mesa da Sonserina. Alvo me fitou, balançando a cabeça.

Por fim, entendi o que acontecera minutos atrás.

Não foi ele, Rosie. Fui eu. Eu escolhi. É a sua vez agora.

Arfei, sentindo meu coração pular no peito.

Assim como Alvo, fechei meus olhos, interiorizando o que eu mais desejava.

Quero mais do que tudo. Quero a Casa que vá me guiar na direção do que eu sou de verdade.

Pude senti-lo paralisar momentaneamente, num silêncio torturante.

Algo no modo como ele abaixou suas abas insinuou que já fizera sua decisão.

— Bem, sendo assim, pequena Rosie… melhor que seja…

O Salão inteiro ovacionou, quando ele proferiu, de uma vez por todas, a Casa ao qual eu sempre estivera destinada.

— GRIFINÓRIA!