Gênese: A Saga da Rosa - Temporada I
12 A Profecia
Capítulo 12 — A Profecia

“Dê-lhe um ponto de partida, a semente, e ela irá gerá-lá em seu modo peculiar, com resultados espantosos.”
Steve Berry
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SCORPIUS
— Rainha na E5.
Contrariado, vi meu cavalo agonizar lentamente, ao ser empalado pela espada da rainha branca de Alvo.
— Cara… não quero mais jogar – cruzei os braços.
— Ah… — Alvo riu – só não está gostando que eu esteja ganhando de você no xadrez de bruxo.
— Isso também, revirei os olhos, rindo – peão na F4.
Estávamos tão distraídos jogando, que mal percebemos Peter Wayne se aproximar de nós, dando-nos uma piscadela travessa.
— E aí, rapazes? Jogo difícil, hein?
— Nem me fala… — bufei, chateado, dando um peteleco despretensioso em meu rei negro – desisto, cara. Já deu.
Peter riu, vendo Alvo fazer um tipo de dança vitoriosa no pufe em que estava sentado.
— Então… tem uma garota da Grifinória lá em cima… ela pediu que eu te chamasse, Scorpius. Disse que é urgente… — o rapaz quintanista estreitou o olhar – não se demorem. Está quase na hora do toque de recolher.
Ambos aguardaram que o monitor da Sonserina se afastasse para se entreolharem, espantados.
— Rose? — indaguei, confuso.
— Não é possível… o que ela está fazendo aqui a essa hora?
Fiz uma careta.
Se Rose estava mesmo ali, ameaçando burlar uma regra da escola – coisa que eu sabia que jamais faria, se ela pudesse evitar – o assunto realmente deveria ser tão urgente quanto parecia.
Porém, isso também significava que dificilmente retornaríamos ao Salão Comunal da Sonserina antes de todos se recolherem para suas Casas.
— Está quase de noite! É perigoso… — sussurrei – podemos ser pegos pelo Filch!
— Bem… talvez não – Alvo sorriu, de um modo excepcionalmente calculista – tenho algo que pode nos ajudar. Te mostro lá fora.
Ele adiantou-se, saindo da mesa. Acompanhei-o, ainda receoso, sentindo um péssimo persentimento sobre tudo aquilo.
Assim saímos para o hall de entrada do Salão Comunal, encontramos Rose parada diante da parede, aparentando sufocar uma ansiedade agoniante.
— O que houve, Rose? — lhe perguntei, assustado.
— Eu… — ela encarou o primo, atônita – o que está fazendo aqui, Alvo?
— Vou ajudar vocês – ele pareceu magoado de ver a exasperação de Rose com sua presença – estou levando a capa do papai.
Ergui uma sobrancelha para ele.
— Capa? Que capa?
Rose mordeu o lábio, insegura.
— Ahn, longa história. Depois te falo – voltou-se para Rose – mas enfim. O que é tão urgente?
Vi os olhos claros de Rose pairarem entre nós por um momento, como se estivesse tomando todo o cuidado para não contar mais do que devia.
— Já conheceram uma ninfa chamada Nina?
— Ah… aquela menina que mora no Lago Negro? — Alvo disse, arfando – sim. Hagrid a apresentou na última aula de Trato das Criaturas Mágicas. O que tem ela?
— Ela falou comigo… — Rose respondeu numa voz baixa – mentalmente… — arquejou – quer que eu a encontre no lago. Pediu para eu levar alguém…
— E esse alguém, pelo visto, não sou eu – Alvo chiou, com azedume.
Percebi Rose refrear um revirar de olhos.
— Bem… já que trouxe a capa, acho que nós três podemos ir juntos – suspirou – está quase anoitecendo, e não quero me deparar com Filch ou a gata dele. Melhor irmos logo.
Enquanto os acompanhava a passos velozes, indo em direção ao lago do castelo, senti minha testa se vincar em perplexidade.
A náiade que havíamos visto na aula estava querendo se encontrar com Rose.
E a primeira pessoa que ela pensou em chamar para acompanhá-la, contra todas as probabilidades, nem sequer era um membro de sua família.
Por que eu?
Não tive muito mais tempo para pensar nisso.
Depois de uma pequena corrida, finalmente chegamos ao lago. Passamos entre as várias árvores que delimitavam o limite entre o Lago Negro e a Floresta Proibida, tomando cuidado para não causar muito barulho, e evitando, assim, atrair atenção indesejada.
Antes que pudéssemos nos aproximar do ponto de encontro, porém, ouvimos um guincho alto ecoar adiante.
Surpreendidos, nos ocultamos nos troncos mais próximos, nos esgueirando apenas o bastante para vermos o que acontecia ali.
Arregalei os olhos, vendo a ninfa da água erguer o queixo imperiosamente, as mãos fechadas em punhos, lançando um olhar de profundo desprezo a algum ponto à frente.
Espantado, vi a silhueta de uma figura encapuzada se aproximar dela.
— Eu já lhe disse para ficar longe de mim – rosnou Nina. Percebi a água ao redor dela tremular com sua raiva.
O vulto suspirou.
Uma voz trovejante – e terrivelmente familiar – preencheu meus ouvidos.
Embora sussurrasse em tom baixo, senti a floresta mergulhar num silêncio aterrador, como se só a sua verbalização pudesse controlar os sons do bosque.
— Nunca quis que aquilo acontecesse, Nina.
A náiade recuou, erguendo as mãos ameaçadoramente.
— Foi tudo culpa sua – vociferou, expondo os caninos afiados, numa voz que em nada lembrava seu tom gentil e tímido – e eu… — um sorriso surpreendentemente maldoso cortou o rosto de Nina – graças ao seu maldito poder, perdi tudo que eu tinha. Só irei lhe fazer um favor. Você sentirá na pele o que eu passei. Eu prometo.
A pessoa encapuzada rosnou. O simples som de seu murmúrio enfurecido foi o bastante para arrepiar cada poro de minha pele.
Vi Rosa e Alvo se retraírem, alarmados, quando o vulto ergueu a mão, içando Nina no ar. Vi, horrorizado, a náiade convulsionar levemente, fechando os olhos em terrível agonia.
— Já que gosta tanto de quebrar promessas… — sibilou, de um modo imponente e letal – não vai se importar que eu quebre a minha… não é?
Nina ofegou, reabrindo os olhos, fitando a figura em desafio.
— Vá em frente. Mate mais uma pessoa…. — disse, arquejando – faça o que faz de melhor.
Enjoado, segurando um grito, esperei que o vulto realmente fizesse algo de terrível à Nina.
No entanto, sua reação foi a contrária.
Baixando a mão, desceu-a de volta à água, dando vários passos para trás.
E aparatou, desaparecendo.
Assim que percebemos que Nina finalmente estava sozinha, corremos até ela, ajudando-a a levantar à beira do rio.
— Você está bem? — Rose falou, aterrorizada.
A ninfa inspirou profundamente, ainda trêmula de dor e cólera.
— Estou.
— Quem era aquela pessoa? — engoli em seco, abalado.
Ela pousou os olhos dourados em mim, franzindo o lábio. Percebi que lançou um olhar levemente hesitante para Rose.
— Uma…. velha conhecida – seu tom indicava que não responderia mais nada sobre aquele assunto – não se preocupem. Vou ficar bem – ela voltou-se para minha amiga — que bom que conseguiu chegar até aqui. Fiquei com medo que apanhassem vocês.
— Tudo bem – Alvo sorriu, ainda meio perturbado – trouxemos a capa.
— Que capa? — voltei a perguntar, impaciente.
— A Capa da Invisibilidade, cara – Alvo riu baixinho – meu pai me deu de presente no meu aniversário de onze anos. Maneiro, não é?
Meus olhos saltaram.
Alvo tinha uma Capa da Invisibilidade?
E, até onde eu sabia – o que era bem provável – devia ser justamente a Capa da Invisibilidade que diziam ser pate das Relíquias da Morte, pertencente à Harry Potter.
Uau. Aquilo era mesmo incrível. Que presente de aniversário!
— Bem… — a náiade assentiu – não vou tomar muito mais do tempo de vocês – ela segurou a mão de Rose, olhando-a atentamente – você lembra que eu disse que tínhamos o dom da profecia?
Alvo ergueu a cabeça, surpreso – assim como também o fiz.
— Sim. Eu me lembro, Nina – ela parecia aturdida.
— Pois bem… — a ninfa colocou a outra mão sobre a de Rose – eu… temo que tenha recebido uma… sobre você, querida.
Agora eu estava realmente chocado.
Uma profecia… sobre Rose?
O pesadelo que eu havia tido voltou a repassar-se em minha mente. Afoito, percebi de onde eu achava que já havia visto aquela figura encapuzada.
Os trejeitos. A voz. Eram exatamente os mesmos. Aquela pessoa encapuzada era a mesma que havia me aparecido em sonho.
Levei minhas mãos à cabeça. Céus… o que estava acontecendo?
— Mas… mas como…?
Vi Alvo apanhar algo de sua bolsa de couro de bibra – um pequeno pergaminho e uma lasca de grafite.
— Só poderei dizê-la uma vez. Eu posso não entendê-la…. E talvez também não a compreendam. Mas ela irá se explicar no futuro. Sempre é assim. E, Rose…. é importante – alertou Nina – vocês não poderão contar sobre ela à ninguém. Guardem esse segredo. Coisas ruins acontecerão se ela for revelada às pessoas erradas. Não confie em ninguém!
Ainda aflita, Rose concordou com a cabeça.
Nina baixou a cabeça, cerrando os olhos. Sua voz modificou-se surpreendentemente, tornando-se muito mais impetuosa e solene, conforme as palavras saíam de sua boca. Alvo começou a anotar febrilmente em seu pergaminho.
— Da Terceira, Uma Quarta. Sangue que obliterou as Trevas, nascida da intempérie, do Cavalo primeira primícia. Em peleja terá enredamento. Escravo, Semente e matriarca confrontará Chama segunda do Dragão na nova Esfera, com sangue selará sua sina, salvação ou fim de nossa Era.
A ninfa soltou-a, sacudindo a cabeça.
Eu estava simplesmente aparvalhado. Alvo lia e relia sua escrita, como se não acreditasse no que havia redigido.
Mas nenhum de nós estava mais arrebatado que Rose.
— Nina… isso… é loucura – ela gemeu, sacudindo a cabeça em negação – uma profecia sobre mim… eu… como eu poderia cumprir alguma profecia? Sou só uma garota comum – ela nos fitou, como se pedisse mudamente por ajuda – e o que significa isso… eu…
— Ei, Rosie – me aproximei dela, colocando a mão sobre o seu ombro – vai ficar tudo bem. Nós teremos tempo de ver isso com calma depois. Vamos descobrir o que essas palavras significam. – olhei para cima, ficando apreensivo ao encarar o céu já escuro – mas é melhor voltarmos para o castelo agora.
— Ele tem razão, Rose – vi Nina concordar – era tudo que eu tinha para dizer. Eu… sinto muito por não poder lhe explicar.
— Tudo bem, Nina – Rose disse, embora parecesse decididamente perdida – obrigada por… me contar.
Por um momento, jurei ter visto um laivo de um sorriso tenebroso surgir no rosto de Nina.
— Eu que agradeço, Rose… eu que agradeço.
E, dizendo isso, submergiu nas águas do lago, desaparecendo.
Corremos colina acima, ocultados pela Capa da Invisibilidade de Alvo. Pela escuridão, eu podia apostar que já passara há muito do toque de recolher.
— Se formos pegos, estamos perdidos – cochichei, aflito.
Rose mal parecia estar se incomodando com a ameaça de sermos apanhados fora do horário. Devia estar com a mente decididamente ocupada com aquela estranha e assustadora profecia que Nina lhe contara.
— Ela disse para não contarmos á ninguém – Alvo parecia ter lido os pensamentos da prima – se acalme, Rose. Vamos tirar tudo isso a limpo.
Embora estivesse apreensivo, tinha que confessar que gostava daquilo. A adrenalina. A companhia de Alvo e Rose. Um tipo estranho de missão secreta, e um segredo a ser guardado. Era emocionante.
E ter aqueles dois comigo, por alguma razão, me parecia ser a melhor coisa do mundo.
Recordei-me do que papai dissera sobre fazer amizade com os Potter e os Weasleys. E – ironia das ironias – não é que ele tinha acertado em cheio?
— Estamos quase lá – Alvo falou, animado.
Antes não tivesse dito nada. A poucos metros de adentrarmos, Rose acabou pisando numa das pontas da Capa da Invisibilidade por acidente, tropeçando nela e fazendo com que os três caíssem no chão.
— Não! — Rose exclamou, tentando reerguer-se, com Alvo lutando para voltar a nos cobrir com a Capa.
No entanto, antes que pudéssemos retomar nosso caminho, sentimos alguém retirar o tecido de cima de nós, tornando-nos visíveis outra vez.
A Professora Hawkes surgiu em meu campo de visão, sustentando a Capa da Invisibilidade na mão erguida, com uma expressão de choque.
— O que raios estão fazendo aqui fora?
Não tive nenhuma chance de cuspir alguma desculpa esfarrapada.
Yara arregalou os olhos, olhando para Rose. Não entendi por que seu rosto adquiriu repentinamente as feições de uma pessoa horrorizada.
Foi só quando me aproximei que pude enxergar, ensandecido, a pequena chama flamejante que surgira na mão de Rose.
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