Fúria
23 Capítulo 22 - Marcos (2022)
Cross my heart, won't tell no other
And though I can't recall your face
I still got love for you
O pai de Marcos morreu quando ele estava no hospital. Um dos médicos o avisou, mas ele não fez questão de ir até onde ele estava para se despedir. Para ele, a despedida já tinha acontecido muitos anos atrás, quando a polícia o levou de casa e eles seguiram caminhos diferentes.
Aline tinha acabado de sair e Giovanna lhe fazendo companhia quando um de seus colegas foi lhe avisar. Sua mãe não foi visitá-lo no quarto mesmo quando ele pediu para que uma das enfermeiras a chamassem, e no fundo ele até preferia assim. Se preocupava com ela, com o que ela faria agora que o marido estava morto, mas a sua recusa em falar com o filho talvez fosse resposta o suficiente. Sonea tinha passado uma vida inteira escolhendo o lado do marido, e àquela altura da sua vida Marcos não esperava nada diferente dela.
Giovanna tinha estado cabisbaixa desde que tudo tinha acontecido. Chorosa, nervosa, e Marcos tentava convencer a si mesmo que era temporário e não duraria muito. Se sentia culpado por ela estar assim, mas ficava grato que ela parecesse um melhor a cada dia. Ele pensou, não pela primeira vez, em como tinha dito para ela não se apegar à Penélope, e na ironia que era eles dois estarem ali naquele quarto, sofrendo com a falta dela.
Sua filha tinha lhe contado, quando estavam a sós, os detalhes que ele tinha perdido. Talvez fosse melhor mesmo que Penélope ficasse longe, porque a família de Iago com toda certeza não iria aceitar por muito tempo o sumiço dele sem investigar. E, se descobrissem o que de fato tinha acontecido, o que aconteceria com ela? Seria presa, jogada em uma cela? A polícia tinha aceitado sem muitos questionamentos o depoimento dele e de Giovanna como um assalto, e ele sabia que aquela falta de interesse em investigar devia ter o toque de Penélope.
Ela tinha subornado a polícia mais uma vez para lhe livrar de investigações? Talvez ela e Franco. O que quer que fosse, todos acreditavam que ele e Giovanna tinham sofrido um assalto ao entrar em casa, Marcos foi agredido, e o assaltante tinha fugido. Aline tinha acreditado, também, o que o fez pensar que toda a gasolina na sua casa devia ter desaparecido antes dela chegar.
— Eu posso ver ele? — Giovanna questionou, curiosa.
— Quem? — perguntou, confuso.
— O seu pai.
Marcos estranhou.
— Por que?
— Porque ele era seu pai, ora. Eu nunca vi ele — respondeu como se fosse óbvio, e ele quase podia enxergar o quanto ela tinha se esforçado para não revirar os olhos. Marcos deu um pequeno sorriso.
— Vai, mas cuidado. A sua avó deve estar nervosa, e...
— Relaxa, pai. Eu vou e volto, é rapidinho.
Pelo menos um dos dois podia se distrair com outros assuntos.
*
Marcos devia ter dormido, pois quando abriu os olhos Giovanna estava entrando no quarto novamente. Ela abriu a porta e logo foi seguida por um homem que Marcos já não via há anos.
— Ele tava dormindo, mas pode esperar que eu acordo ele e... Ah, pai, ele perguntou por você lá na recepção.
Marcos franziu a testa, confuso, e sua confusão logo se transformou em preocupação. Se ele estava ali, não era por um bom motivo. Algo tinha acontecido com Penélope? Ele escolheu não se desesperar porque Giovanna agora estava ao seu lado, olhando curiosa de um para o outro, sem ter ideia de quem tinha guiado até ali.
— O que você faz aqui?
O sorriso de Carlos era mínimo, debochado.
— O que você acha? Eu estou procurando a minha filha.
— Quem é você mesmo? — Giovanna perguntou, desconfiada.
— Carlos Bélanger — Marcos podia jurar que o rosto inexpressivo da filha tinha decepcionado o homem mais velho, tão acostumado a ser reconhecido. — Você deve conhecer a minha filha, Penélope.
O homem olhou ao redor do quarto, e escolheu permanecer de pé. Olhou no seu relógio que, Marcos tinha certeza, devia custar um mês do seu salário, como se estivesse com pressa. Mas Marcos não era mais um adolescente intimidado pelo pai milionário da sua namorada.
— O que você quer, Carlos? — perguntou, impaciente.
— Eu vou ser breve: o meu cunhado não dá notícias há dias, e Iasmim acha que Penélope pode saber o motivo. Então eu fui atrás dela e você pode imaginar como eu fiquei surpreso quando soube que você estava no hospital depois de um assalto que deu errado, e ela tinha desaparecido de novo.
Giovanna se encolheu um pouco na cadeira, mas não disse nada.
— E o que nós temos a ver com isso?
— Eu não sou idiota, rapaz. Santiago pode não ser a pessoa mais correta do mundo, mas ele é uma pessoa do bem, ele é da família. Se alguma coisa acontecer com ele não pense que nós ficaremos de braços cruzados.
— Seria ótimo se você mostrasse o mesmo interesse pela sua filha — acusou, irritado. — Nós não sabemos nada sobre ele, nem queremos saber. Agora vá embora, por favor.
— Ah, faça-me o favor. — Levantou a voz. — Você realmente acha que eu não sei que ele estava com raiva dela? E então ele desaparece e ela some de novo. Quer que eu acredite que é coincidência?
— Então um bandido estava com raiva da sua filha, e você vem aqui saber notícias dele, mas não dela? — Marcos mais que ninguém sabia que não devia gritar no hospital, mas parecia não conseguir controlar a própria voz.
— Minha filha — bufou, revirando os olhos. — E como eu sei se ela é minha? A mãe dela era uma vagabunda, sabe-se lá de onde a Penélope pode ter saído.
Foi o asco na voz dele ao falar o nome da filha que fez Marcos atingir o seu limite. Quem ele pensava que era, aparecendo num quarto de hospital para exigir informações?
— Você despreza sua própria filha! — acusou, com raiva. — Você a desprezou e a ignorou, tratou ela com descaso e sem amor. Que tipo de pai faz isso? Você tinha uma filha maravilhosa, inteligente, carinhosa, que te amava e teria feito tudo por você se tivesse tido a decência de amar ela pelo menos um pouco.
— Você não sabe nada sobre a minha família, seu moleque — respondeu, com descaso, e isso deixou Marcos ainda mais irritado.
— Não sei? — Marcos tentou se levantar, mas Giovanna o impediu, pedindo que ele se acalmasse — Não sei? Eu sei tudo sobre ela, eu conheço ela mais do que a mim mesmo! Ela é uma mulher brilhante, maravilhosa, encantadora, e salvou a minha vida mais de uma vez! Você saberia as qualidades dela se desse a mínima importância para a sua filha, se não substituísse as pessoas como se fossem objetos. Como você pode não amar ela? Como você tem coragem de vir até aqui para ofendê-la? Você realmente acha que por qualquer motivo que fosse eu não ficaria ao lado dela?
— Ela era um problema — Carlos corrigiu, já sem paciência. — Foi um problema a vida toda, isso sim. Se você não quiser me falar onde ela está, eu vou achar sozinho. A minha mulher está grávida e não pode passar por esse estresse. É a última vez que eu vou perguntar: o que aconteceu com Iago?
Marcos sentiu o seu sangue ferver, a raiva o consumir, e sabia que não podia dar motivos para que Carlos continuasse com aquela procura.
— Eu espero que ele esteja queimando no inferno, bem longe da minha família. Que o seu bandido de estimação tenha finalmente sido pego e esteja pagando pelos seus crimes. É o que eu espero. E se você quiser trazer a polícia aqui, eu vou ficar muito satisfeito em repetir isso para eles, e vou fazer questão de alertar para que eles façam uma investigação extensa na vida daquele marginal. Eu não sou mais o moleque que você conheceu, Carlos. Eu posso não ter tanto dinheiro quanto você, mas eu tenho uma carreira, eu tenho prestígio, e se você realmente quiser levar essa briga adiante, pode ter certeza que eu também quero. Quero principalmente que as pessoas se perguntem porque um pai procuraria e defenderia com tanto afinco o agressor da sua primogênita.
— E vai se foder — Giovanna acrescentou, sua voz tão cortante quanto o olhar dirigia para Carlos.
Carlos olhou para os dois uma última vez, mas sua expressão era conflituosa o suficiente para Marcos saber que ele não envolveria a polícia naquilo. O que eles poderiam descobrir sobre ele, se começassem a fazer investigações sobre a vida do seu cunhado?
Ele bateu a porta com força ao sair.
*
Marcos saiu do hospital dois dias depois. Teria saído antes se dependesse dele, mas todos no hospital ficaram tão preocupados que queriam ficar de olho nele por mais tempo, para ter a certeza que a concussão não traria problemas. Aline e Giovanna visitavam todos os dias, e assim que entrou novamente na sua casa insistiu para que elas fossem descansar, e ele ficaria bem na sala, assistindo TV.
Ele queria, na verdade, apenas algumas horas para poder ficar sozinho e se lamentar sem pensar que isso preocuparia ninguém. A casa tinha sido limpa e as roupas e colchão trocados, mas ele tinha a impressão que ainda conseguia sentir o cheiro da gasolina ali mesmo assim, mas devia ser apenas a lembrança, pois ne Giovanna nem Aline reclamaram. Abriu todas as janelas e deixou o vento circular na sala e na cozinha, mas nada conseguia distrair seus pensamentos de Penélope.
Onde ela estaria, o que estaria fazendo, se algum dia ele a veria de novo...
Ele não fazia ideia, e queria que sua mente parasse de insistir em tudo aquilo. Pelo menos a polícia não tinha feito muitos questionamentos. Acima de tudo, o que mais ele pensava era que duas vezes Penélope tinha salvado a sua vida e então desaparecido. Ele podia ficar mais melancólico?
Quando a campainha tocou e ele abriu a porta para Lily, pensou que poderia, sim. Ela parecia cansada, mas estava bem e sorriu para ele. Lily entrou, se sentou no sofá e Marcos não sabia o que dizer.
— Você está melhor? — a voz dela era gentil, e sua mão tocou a cabeça de Marcos levemente, sem mexer nos pontos.
— Sim. Obrigada por ter ficado com Giovanna. Por... tudo, também. Eu sei que te magoei.
— Você não imagina o que foi pra mim, quando Giovanna me ligou dizendo que você estava no hospital — fungou, deixando as lágrimas caírem, e Marcos se sentou ao seu lado — Eu pensei o pior, eu pensei que...
Ela desatou a chorar e Marcos lhe abraçou, consolador. Quando Lily o olhou novamente, ela estava com os olhos vermelhos, mas sua expressão era mais tranquila, embora ainda fosse incerta. Lily forçou um sorriso brincalhão.
— Quando eu disse que você tinha que resolver a sua vida, não era bem isso que eu estava esperando.
Marcos conseguiu sorrir, apesar de tudo.
— Eu também não.
Eles ficaram em silêncio por um momento, e Marcos pôde sentir o peso de tudo o que tinha acontecido entre eles. De uma amizade que tinha se transformado em romance e então acabado de uma das piores maneiras possíveis.
— Nós não temos chance nenhuma?
— Eu sinto muito. Você merece alguém melhor, Lily. E não vai demorar pra essa pessoa chegar.
Ela fungou, suspirou uma última vez. Sua voz estava baixinha quando ela disse:
— Eu queria tanto que fosse você. Eu... Eu ouvi você no hospital, naquele dia. Você estava falando sobre ela, defendendo ela, gritando sobre ela, eu só consegui pensar "como você se desapaixonou por mim tão rápido?". Eu não entendo.
Marcos deu um sorriso triste, sem saber o que dizer. O que ele poderia falar que aliviaria a dor dela, ou o seu sentimento de culpa?
— Eu sinto muito mesmo. Se as coisas fossem diferentes, Lily... mas não seria justo com você.
— Marcos, eu te amo — fungou — Por que você não quer casar comigo? Nós estávamos tão bem antes daquela mulher chegar.
— Não é sobre isso, Lily. Não é sobre...
— Não é sobre ela? É claro que é. Nós íamos nos casar antes dela chegar, a nossa vida estava boa antes dela chegar! O que ela fez? Como ela conseguiu virar a sua cabeça desse jeito?
Marcos se remexeu no sofá, desconfortável e arrependido. Não devia ter deixado as coisas chegarem ao ponto em que chegaram com Lily. Ainda assim, ele só conseguia pensar onde Penélope estaria, o que estaria fazendo naquele momento, em quanto ele ainda precisava partir o coração de Lily de novo.
— Penélope não é qualquer pessoa. Foram quatro anos juntos, Lily, não quatro dias. Ninguém me conhecia como ela. A minha vida... — ele suspirou, sem conseguir olhar para ela. — Eu vejo uma linha do tempo na minha vida, e o ponto de divisão é ela. Antes e depois dela, com e sem ela, como teria sido com ela e como foi sem ela. A minha vida era terrível e dolorosa e triste, e então ela surgiu um dia e tudo foi diferente. Ela era... Ela era um norte, um sol, era alguém que me amava e me convenceu que eu merecia amor. Sempre foi ela, e eu podia lidar com isso quando não nos víamos há quase vinte anos e eu pensava que nunca mais nos veríamos, que eu nunca mais ouviria a voz dela, e eu nunca mais...
Marcos grunhiu, com raiva de si mesmo, e se levantou do sofá. Sabia que Lily era a última pessoa que gostaria de lhe ouvir se queixar do seu relacionamento com Penélope, mas agora que tinha começado ele não conseguia parar.
— Eu não sei como continuar, Lily. O que eu faço agora? Ela chega na minha casa, conquista a minha filha, vira a minha vida de cabeça para baixo e depois vai embora com o filho da puta que abandonou ela. E o que eu faço agora, preocupado com ela exatamente como da última vez? Me perguntando onde ela está, o que está fazendo, se está bem... Eu não consigo parar de pensar! Não consigo parar de me preocupar com ela!
Lily também levantou, caminhando até ele de braços cruzados. Marcos sabia que não era justo arrastar ela para algo assim. Sua expressão era de decepção, mas sua voz estava gentil quando perguntou:
— Com tudo que aconteceu, com todos os dramas e problemas e tudo e tudo e tudo, você quer ficar com ela?
— Sim — ele ouviu sua própria voz responder antes mesmo de pensar.
— Giovanna quer ela, você quer ela, então por que você está aqui se lamentando para mim, ao invés de ir atrás dela?
— Porque se ela quisesse ficar, ela poderia ter ficado! Porque eu pedi, pedi e pedi, e mesmo assim ela foi embora. E eu sei que ela tem os seus motivos para ir, mas... Mas eu queria que dessa vez ela tivesse me escolhido, que dessa vez ela não tivesse ido embora.
Lily suspirou alto, pegando sua bolsa e indo em direção a porta. Marcos pensou que nunca esqueceria a decepção no rosto dela.
— Você tem razão, nós não temos chance alguma. Que bom que você percebeu isso a tempo. Vai atrás dela, Marcos. Não seja tão idiota, talvez seja a sua última chance de realmente resolver a sua vida.
Dizendo isso, ela se virou e saiu.
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