Fúria

24 Capítulo 23 - Penélope (2022)


For you, I would fall from grace

Just to touch your face

A casa de Louis ficava em um local afastado da cidade. Era uma propriedade grande, um antigo chateau reformado, com vinhedos e muito espaço ao ar livre nos seus arredores. Durante a noite, o local caía em um silêncio que fazia Penélope pensar no interior. Ao contrário da casa da cidade, que era mais conhecida e tinha mais segurança, aquela casa em particular era conhecida apenas por poucas pessoas

Era madrugada quando eles chegaram. Os seguranças não estavam em seus postos, e as câmeras estavam desligadas para uma manutenção programada. Os alarmes foram desarmados assim que entraram. Franco tinha tido um gasto exorbitante para que os seguranças de Louis fossem para casa e deixassem o caminho livre. Os seus homens tinham cercado a casa e revistado os cômodos com um profissionalismo e silêncio que Penélope só tinha visto em filmes. As empregadas dormiam em uma casa separada, no mesmo terreno, e tinham trancado as portas e ficado em silêncio assim que os viu. Elas ligariam para a polícia pela manhã, conforme o combinado.

Ela, Franco, Caim e dois seguranças esperavam do lado de fora pelo sinal para entrar. Franco sorriu satisfeito para ela, beijando sua mão.

— Logo tudo vai acabar, mon coeur.

Penélope sorriu de volta.

— Estou contando com isso.

Do lado de dentro, eles subiram as escadas e aguardaram no quarto de hospedes. Penélope ouviu quando Louis foi acordado no quarto principal e gritou. Eles o ouviram chamar pelos seguranças e resistir, mas os homens contratados eram muito mais fortes que ele. Ele ainda xingava e chamava pelos seus seguranças quando entrou no quarto e se deparou com Franco ali, o esperando.

Então, Louis começou a rir. Uma gargalhada alta que Penélope odiava, e ela sentiu sua raiva por ele ser renovada. Fez um sinal para que o soltassem, e apenas Caim permaneceu no quarto com eles.

— Penélope, minha querida — ele fez uma expressão surpresa ao lhe ver, ainda sorrindo — Achei que você estava morta. Devia ter desconfiado que não era o caso. O que você e o meu irmãozinho idiota fazem aqui?

Franco estava sério, quase rangendo os dentes. Apesar de saber que estava segura, Penélope ainda se sentia nervosa ali no quarto com Louis, mas esperava que ninguém tivesse percebido como seu corpo tremia.

— Eu achei que era alguma ameaça — continuou. — São apenas vocês dois? Falem o que querem e eu vou voltar para a cama.

Ela observou Franco caminhar até ele, quase lentamente. Parecia estar respirando fundo quando parou na sua frente, se contendo. Então, avançou sobre o irmão, batendo onde conseguia alcançar.

— Como você teve coragem de matar Mia? Como? Ela era apenas um bebê!

As risadas pararam, e quando Franco o ergueu do chão e o segurou firme com as mãos, ofegante, Louis parecia surpreso de verdade.

— O que? Você veio até aqui buscar ela? Achei que sobre os negócios.

— O que? — Penélope se aproximou, indignada. Como ele podia brincar sobre isso depois de tudo que tinha feito? — Não brinque sobre a minha filha!

— Ah, — ele sorriu. — É verdade. Eu tinha esquecido, você realmente acha que ela morreu. Eu levei a garotinha para o seu lugar devido, ao meu lado. Onde mais ela estaria?

— O lugar da Mia era conosco! — Franco rosnou, dando mais um soco no irmão que o fez cair no chão, e então o erguendo novamente, o segurando pelo roupão. — Eu e Penélope poderiamos ter tido uma família com ela, e você não conseguiu suportar essa ideia.

— Você acha mesmo que eu deixaria você criar a minha filha? — Louis perguntou com um sorriso.

— Ela é minha e você sabe disso! — Franco rebateu, irritado.

O sorriso de Louis ficou mais largo, mais impiedoso. Ele levantou as sobrancelhas, dirigindo seu sorriso para Penélope como se mal pudesse acreditar naquilo, e então deu uma gargalhada ao olhar novamente para o irmão.

— Você é tão estúpido — debochou. — Foi isso que ela te disse? Não vá me dizer que você acreditou.

— Onde ela está, então? — Penélope cortou a conversa. Poderia ser verdade? Mia estava viva? — Eu vi você pegar ela, eu assisti tudo. Ela não sobreviveu àquilo, você está mentindo.

— Estou? Tudo bem então.

Penélope odiava o ar de risos dele, como se soubesse um segredo. Mia não estava viva, ela não podia estar viva. Não depois de tudo. Ela trocou um olhar com Franco, confusa, mas não queria realmente acreditar. Tinha sangue escorrendo pelo canto direito da boca de Louis, mas mesmo assim o sorriso continuava inalterado mesmo quando o seu irmão mais novo o jogou contra a parede e foi possível ouvir sua cabeça bater.

— Como você teve coragem de fazer isso com alguém do seu sangue? Com a minha filha?

— Você sempre foi uma desgraça, um fraco, um arrependimento — xingou, irritado. — Você é tão burro, mon frère, a ponto de achar que esse filho é seu só porque ela disse que é? Uma brasileira qualquer, que você sabe que nunca foi fiel a ninguém?

Penélope percebeu Franco diminuir o aperto, suas mãos se abrindo lentamente enquanto ele processava. Ela sabia que se ele realmente pensasse sobre aquilo, seria convencido da verdade.

— É claro que ela era sua filha! Por que mais ele teria a matado?

— Exceto que eu não matei ninguém, sua imbecil — cuspiu as palavras.

— Eu vi ela queimar, Franco! — sua voz estava mais alta, mas ela não podia evitar. Podia sentir Caim se agitar, percebendo a mudança de ânimos ali. — Eu vi ela queimar e então eu vi eles tirarem o corpo dela das cinzas. Ele teria feito isso com uma filha dele? Ele teria me torturado com isso se Mia fosse filha dele?

Franco a olhou de canto de olho, parecendo considerar. Louis parecia tranquilo, nem um pouco temeroso. Fora do quarto, a casa estava em silêncio exceto pelo ocasional barulho de passos dos homens que aguardavam do lado de fora, no corredor. Penélope sentiu seu coração acelerar, nervosa. Louis começou a falar também, debochando dos dois até que o silêncio foi preenchido completamente por suas vozes.

— Tantos anos de casamento e ele nunca me deu um filho! — gritou. — Você não acha isso estranho? Como ela poderia ser filha dele? Ele provavelmente é estéril, esse velho acabado.

— Sua vagabunda! — rosnou — Uma puta brasileira, isso que você é! Salope! E você é um idiota se acredita nela.

— Você matou a minha filha! — acusou, faíscando de ódio.

Ferme-la! — Franco gritou, irritado. Os nós de seus dedos estavam brancos pela força com que agarrava o tecido — Se ela era sua filha, se você não a matou, se Penélope está mentindo, então o que aconteceu?

— Ah, você adoraria saber, não?

Penélope queria bater nele. Queria bater nele até suas mãos sangrarem, até seus braços doerem. Mas ela não podia fazer isso, não podia deixar que nada afetasse o plano que tinha traçado. Trocou um olhar com Caim, irritada, e então gritou, exasperada.

— Acabe logo com isso! Você não sabe que ele nunca foi capaz de dizer uma verdade em toda a sua vida? Por que diria agora? Ela morreu, ela está morta! Ele matou a sua filha e agora você quer conversar?

Quando Franco o soltou, Penélope percebeu uma breve relutância. Mas ele segurou seu braço e foi até o outro lado do quarto, indicando para que Caim prosseguisse. O sorriso vitorioso de Louis morreu rapidamente, e ele ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo ainda que não tivesse chance alguma desde o princípio.

— Eu posso provar. Você é meu irmão, e família é importante. — Ele fuzilou Penélope com o olhar. — Você se deixou levar por ela, deu um mau passo, mas já chega de toda essa briga. Nossos pais odiariam ver os filhos brigando. O que ela entende de família, de lealdade? Eu posso provar que ela mentiu pra você.

— Acabe logo com isso — Penélope repetiu, mais firmemente. Dessa vez falou diretamente a Caim.

— Ela está no final do corredor. — Louis a cortou, rápido. E a arma de Caim ficou parada, sem atirar quando Franco ergueu a mão — A minha filha está no final do corredor. Mande alguém buscar ela. Você acha que eu traria para a minha casa uma bastarda? Se isso não for prova o bastante, eu tenho todos os exames, tenho o registro em meu nome. Eu registraria uma batarde?

Penélope gelou ao ouvir a palavra que ele tantas vezes tinha usado para se referir a sua bebê. Sentiu seu coração acelerar ainda mais, o quarto ao seu redor girar. Podia ser um truque. Podia ser Louis tentando escapar, tentando dar a volta por cima. Ela viu Mia queimar. Ela assistiu tudo. Mas... Mas e se fosse verdade? Ela deu um passo em direção a porta, mas Franco lhe segurou no lugar, sua mão agarrando com força o braço de Penélope.

Ele parecia irritado, parecia furioso e impaciente, e a expressão de desdém de Louis não ajudava. Chamou um dos seguranças, dando ordem para que buscasse a criança.

O mundo parecia ter parado enquanto eles esperavam, e Penélope queria sair correndo do quarto e ela mesma procurar pela criança pois eles demoravam demais, mas Franco lhe segurava com firmeza no lugar. Louis se sentou na poltrona, esperando como se fosse um rei em seu trono.

Depois do que para ela pareceu uma eternidade, um dos homens voltou trazendo um bebê enrolado em uma manta azul. Apesar de toda a confusão e de ter sido retirada do berço, Mia dormia serena. Louis se levantou da poltrona, parecendo uma criança serelepe, e pegou a criança com cuidado. Ele claramente não tinha tato para segurar a criança, e quando ela abriu os olhos e chorou, Penélope reconheceu os olhos azuis como o céu que ela tinha visto pela primeira vez no hospital. Ele caminhou de volta até eles, exibindo a filha para os dois.

Penélope sentiu que o mundo tinha acabado, e ela estava no inferno. Devia ser a única explicação. As lágrimas começaram a escorrer junto às da filha, ela não conseguia respirar, e estava furiosa. Tentou segurar a criança, mas Louis se afastou, colocando ela em cima da cama e sentando ao seu lado.

Franco lhe segurou no lugar pelos braços, com força independente do quanto ela se debatesse.

— Você mentiu para mim?

— É claro que não! Me deixe pegar ela, me deixe segurar Mia — ela tentou se soltar, mas ele a obrigou a olhar nos seus olhos, segurando seu rosto com força.

— Ela é filha dele, não é? Louis não se daria a todo esse trabalho se não fosse. Você mentiu pra mim, mon coeur.

— Não! — rosnou, o encarando — Ela não é. Eu não sei o que caralhos ele fez, porque ele a mantém aqui ou como ele fez para me enganar, mas é óbvio que o que Louis quer é nos dividir. Não deixe ele vencer.

Mia tinha parado de chorar e se revirava na cama, e Louis riu. Penélope e Franco se viraram para ele.

— Você sempre foi um idiota quando se tratava de mulheres. Quer saber o que aconteceu, mon petit frère? — ele se levantou — Eu primeiro tive certeza que a filha era minha, mandei fazer os exames assim que ela foi transferida de hospital. Nunca deixaria a minha filha ser criada por uma traidora como ela. A ideia era dar um fim em Penélope, mas antes eu decidi me divertir um pouco. Não me leve a mal, mas você não pode me largar pelo meu irmão, me humilhar assim na frente de todos, e esperar que nada aconteça.

Caim se aproximou mais, trocando um olhar com Penélope, mas ela sequer conseguia prestar atenção. Precisava escutar o que Louis dizia.

— A garota que eu te entreguei quando ela voltou para a ilha não era ela. Era alguma bastardinha que conseguiram para mim. Parecia com ela, sim, mas você ficou semanas sem vê-la, e recém nascidos mudam tão rápido... Você não tem instinto materno nenhum, não? — riu. — Eu podia ter te dado qualquer coisa e você acharia que era sua filha. Você acreditou tão facilmente que era ela que foi patético. Ah, a propósito, não fique chamando minha filha de Mia. O nome dela é Camille, em homenagem a minha avó.

Penélope deu um olhar significativo para Franco, que finalmente a soltou. Sabia que ele estava com raiva, que estava acreditando mais em Louis que nela, mas não se importava. Mia estava viva, estava ali, e nada mais importava. Ela caminhou até a cama, ficando frente a frente com Louis. O sangue em sua boca estava seco, e Penélope o odiava. Mia estava rolando de um lado para o outro, curiosa, com as mãos enfiadas na boca enquanto resmungava.

Sua filha.

Ela ainda era tão pequena, com mãozinhas minúsculas e pézinhos que chutavam o ar. A fez pensar em Rodrigo.

Penélope não tinha coragem de segurar ela, com medo de lhe machucar, mas o medo de que ela voltasse para os braços de Louis era ainda maior. Então ela se inclinou e segurou a bebê nos braços, claramente sem jeito, não que Mia parecesse se importar. Ela se aninhou no colo da mãe, como se tivesse passado a vida inteira ali.

Com a mão livre, Penélope deu um tapa forte no rosto dele, que ecoou pelo quarto, e então se virou. Louis fez menção de lhe agarrar pelo cabelo e teria conseguido, pois Penélope estava distraída, mas Caim o segurou com os braços para traz com rapidez, chutando seus joelhos para que ele caísse no chão. Franco ainda parecia um pouco sem reação, como se processasse tudo que acontecia.

— O que você pretendia fazer com ela? — apesar de todo o redemoinho de sentimentos dentro de si, a voz de Penélope estava calma.

— O que eu faria com a minha herdeira? — rosnou — Eu criaria ela para que ela fosse alguém que preste, ao contrário de você. Nem se matar você conseguiu. Devia ter continuado onde quer que estivesse e nos deixado em paz, você e o cretino do meu irmão.

Penélope pensou em tudo. No casamento infeliz, na maneira como ele lhe arrastou de volta para casa quando ela tentou se afastar, nos meses pavorosos na ilha e na cena que nunca esqueceria, da criança que ela achava ser sua filha queimando em meio às chamas. Mas, estranhamente, com a sua filha nos braços ela não se sentia mais furiosa da maneira como costumava se sentir, com chamas ardentes lhe consumindo. Sua raiva era mais fria, sua vontade de acabar logo com aquilo e poder levar Mia para longe dali era maior.

Ela não se deu ao trabalho de responder, fez um aceno mínimo para Caim e ele deu a palavra de ordem. Rapidamente o quarto se encheu de homens armados. Franco olhou ao redor, confuso.

— Eu não dei ordem alguma — gritou, irritado.

— Mas eu dei — Penélope devolveu, ainda olhando para Mia e se aproximando da janela, longe dele. — Vocês dois vão morrer hoje, e eu vou levar minha filha pra bem longe daqui.

Louis deu uma gargalhada ao olhar para a expressão no rosto do irmão. Franco tentou se aproximar dela, mas foi contido por um dos homens. Parecendo entender, finalmente, sua expressão se tranformou em algo feroz.

— O que você acha que está fazendo? Eu te ajudei, eu te trouxe até aqui. — Quando Penélope não respondeu, ainda não conseguindo olhar para nada além do rosto de Mia, ele tentou apelar para os sentimentos dela: — Em algum momento você me amou?

— Você se acha no direito de me exigir amor depois de ter me abandonado grávida de um filho seu, à merce do seu irmão psicopata?

— Não era meu filho! — rosnou — Sua cadela mentirosa.

— É, mas só enquanto você achou que era você se importou comigo. Eu poderia ter morrido, e você não teria dado a mínima se não achasse que ela era sua. Você não deu a mínima para as torturas do seu irmão até o momento em que achou que Mia era sua. Eu tenho uma última coisa para dizer para vocês: ela é minha e de mais ninguém.

Ele se virou para Caim, com o rosto vermelho de ódio.

— O que ela te ofereceu por essa traição? Você trabalha para mim!

Penélope olhou para eles bem a tempo de ver de ver Caim desferir um soco tão forte que Franco caiu no chão. Ele sorriu, parecendo aliviado por finalmente poder fazer isso.

— Ela me ofereceu a chance de livrar o mundo de vocês.

Caim e Penélope trocaram um olhar, e então ela saiu do quarto. Deixaria que Caim terminasse, que obtivesse sua própria vingança em nome dos dois. Ela tinha Mia, e ainda não conseguia acreditar que a criança estava no seu colo, tão serena. Se afastou para o jardim, ouvindo os tiros, sentindo as mãos tremerem.

— Eu sou sua mãe — disse, entre lágrimas, para a menina. Ela não estava chorando, mas olhava ao redor com curiosidade. Os olhos dela eram tão bonitos e tão familiares que Penélope sentiu os soluços começarem. — Você não lembra de mim, mas vai ficar tudo bem agora. Ninguém mais vai separar a gente. Eu não faço ideia de como cuidar de você, mas vou aprender. Vai ficar tudo bem.

A noite estava fresca, e Penélope não quis voltar para dentro da casa. Especialmente depois que Mia dormiu, e ela ficou com medo de levantar do banco onde estava sentada e a bebê acordar.

Depois de algum tempo, Caim sentou ao seu lado, em silêncio. Ele espiou a bebê no colo de Penélope com algum interesse, e logo olhou para a frente.

— Obrigada.

Ele assentiu com a cabeça, sem olhar para ela. A mão que ele tinha usado para bater em Franco estava levemente inchada, e Penélope imaginou que ele tivesse usado muita força. Ao fundo, ela podia ouvir a movimentação dos homens pela casa, tirando tudo que havia de valor e deixando a cena com menos cara de vingança e mais cara de um assalto que deu errado.

— John e Hugo vão assumir a culpa daqui uma semana, assim a investigação vai ser encerrada — continuou. — As família vão receber o valor combinado. A criança complica um pouco, mas posso conseguir um registro para ela. Só não deixe saberem que você está com ela, deixe todos acharem que Camille foi levada, e Hugo vai dizer que eles jogaram o corpo no mar. Camille vai morrer, mas Mia pode ser sua. Ele não a registou no seu nome, então não terá problemas quanto a isso.

— Você pode ficar com tudo, Caim — o interrompeu. — Os negócios, as casas, tudo. Assuma tudo, faça o que quiser. Eu tenho dinheiro o suficiente para mim e para a minha filha, e não vou ficar aqui mais que o estritamente necessário. Não me importa nada que tenha a ver com qualquer um deles.

Ele finalmente a olhou, surpreso, mas logo disfarçou.

— Você já me pagou muito bem. O tudo que você fala é muita coisa. Tem certeza?

Ela assentiu novamente, finalmente o olhando.

— Por que você tinha tanto interesse em livrar o mundo deles? Eu sei o meu interesse — disse, apertando a filha nos braços, ainda sem acreditar. — Mas você... Não foi só pelo dinheiro, foi?

Caim olhou para além dela, para além do jardim e das videiras. Parecia enxergar algo muito longe e muito inalcançável. Pela primeira vez Penélope notou as linhas de expressão, o cansaço na sua aparência.

— Louis matou o meu marido. Nós dois trabalhavamos para ele. Pierre cometeu um deslize, um erro em tanto anos de trabalho, e ele foi impiedoso. — olhou para Mia novamente, com mais interesse dessa vez — Nós tínhamos um filho. Ele deixou meu garoto órfão. Eu não podia continuar trabalhando para ele depois disso, então me juntei à Franco.

"Claro", Penélope pensou, "Não é tão difícil assim encontrar pessoas que Louis tenha desgraçado." Ficaram em silêncio por um momento, um silêncio solidário. Os dois tinham sofrido nas mãos de Louis.

— Obrigada. — ela se levantou ao ver o carro se aproximar dos dois. Ficaria em um apartamento e, caso alguém aparecesse por lá, fingiria surpresa com a morte do marido. Não precisaria fingir tristeza, porque era de conhecimento comum que não estavam juntos há mais de um ano.

Apesar disso, o divórcio não tinha sido oficial, e tudo que era de Louis passaria para o seu nome. Ela pretendia se livrar de tudo, no entanto. Não ficaria com absolutamente nada que fosse ou lembrasse dele.

— Pode conseguir alguém para ficar comigo até encerrarem tudo? Vou ficar até a prisão, só até ter certeza que deu tudo certo.

Após os culpados pela morte dos irmãos serem presos e a morte de Camille ser anunciada, Penélope iria embora. Só queria ficar ali para ter certeza que ninguém estranharia se ela fosse vista indo embora do país como uma criança que poderiam achar ser uma criança desaparecida. Ela nem mesmo achava que a polícia lhe procuraria, mas só por vier das dúvidas esperaria a prisão dos dois. Caim balançou a cabeça, concordando. Então, ele sorriu com alguma diversão.

— Você está me dando um império, Penélope. Vou colocar uma pessoa em cada andar do seu apartamento. Uma em cada cômodo, se você quiser.

Apesar de tudo que estava sentindo, Penélope deu uma breve risada.

— Não esqueça, o nome dela é Mia — se sentou no banco traseiro do carro, deixando que ele fechasse a porta para ela. Deu um beijo no cabelo negro da filha, que ainda dormia. — Mia Bélanger.

Notas finais
Só uma coisa pra deixar clara, caso vocês tenham ficado confusos: a história que a Penélope contou para o Marcos é a verdadeira. A filha era sim do Louis. Ela só confirmou pro Franco que a filha era dele porque achou que com a ajuda dele seria mais fácil se vingar do Louis. E, mesmo que a filha fosse do Franco, de jeito nenhum a Penélope deixaria ele ficar com ela. Ele estava na mira dela desde antes de chegar no Brasil, por ter abandonado ela com o Louis. E, sobre o Caim, lembrem de vááááários capítulos atrás quando a Penélope disse que o plano dela envolvia subornar o caminho até o Louis. Ela pagou para ele trair o Franco e trabalhar para ela.