Fúria

12 Capítulo 11 - Penélope (2022)


"Would you leave me

If I told you what I've done?

And would you leave me

If I told you what I've become?"

Quando Penélope acordou, ela e Marcos ainda estavam abraçados na cama. Estavam tão entrelaçados um no outro que ela pensou que não conseguiria se levantar sem acordar ele, e em parte queria acordá-lo porque adorava como ele ficava quando estava envergonhado.

Mas ela já tinha atrapalhado o sono dele o suficiente na madrugada, então deu um jeito de deslizar dos braços dele para fora da cama. Ainda estava cedo demais, o relógio marcava 5h e o céu começava a clarear. Uma noite nos braços dele até a fazia se sentir disposta e mais tranquila.

Ela tomou banho e voltou para o quarto para se arrumar, e mesmo que Marcos tivesse se mexido um pouco na cama, ele não acordou. Era sábado e ele não iria trabalhar, porque tinha tirado plantão de quinta para sexta. A casa e a rua estavam silenciosas, e isso dava a Penélope uma sensação de paz.

Depois que se vestiu, pensou em voltar para a cama. Marcos estava tão bonito, dormindo com uma expressão tão suave. "Mas a expressão dele sempre é suave", pensou. Ela sempre tinha sido caótica, com explosões de sentimentos que lhe deixavam arrependida depois, enquanto ele se mantinha calmo, uma gentileza que ela nunca tinha conhecido.

Penélope desceu, antes que voltasse para os braços dele. Giovanna ainda dormia, e ela não esperava que Marcos acordasse nas próximas horas. Ela checou novamente as portas e janelas, e foi para a cozinha quando constatou que estava tudo trancado.

Ela precisava pensar no que fazer.

Tinha ligado para Iago na tarde anterior quando ficou sozinha, cancelando o pedido de que encontrasse Franco. Ele não ficou feliz, insistiu que queria lhe ver, mas Penélope tinha conseguido contornar. Disse que o avisaria quando pudesse lhe encontrar, e ele não parecia muito satisfeito. Mas Iago já não lhe preocupava tanto.

Franco estava atrás dela. Ele estava fazendo isso por Louis, tentando voltar aos bons termos com o irmão? Ou estava fazendo por ela, porque um ano depois ele finalmente se arrependia do que tinha feito? Talvez os seguranças estivessem apenas trabalhando para ele, ou talvez estivessem com ele para passar informações ao chefe.

O que quer que fosse, ela sabia que precisaria arriscar se realmente fosse seguir adiante.

Penélope tinha 5 bilhões em uma conta na Suíça, uma conta que Louis não conhecia. Se conhecesse, ele teria zerado sua conta quando a manteve presa, como tinha feito com todas as outras. Não era tanto dinheiro quanto o marido tinha, mas ela calculava que era o suficiente para poder voltar para a França em segurança e subornar o caminho até ele, antes que ele soubesse que ela tinha voltado. Para acessar a conta, ela precisava dos seus documentos originais, que tinham ficado na Grécia, e uma chave numérica que ficou na casa de Franco, na Itália, quando ela foi burra o suficiente para fugir com ele.

A segurança do banco era excepcional, e documentos falsos não funcionariam como tinham funcionado para que ela pegasse um avião. Mesmo com os documentos em mãos ela não poderia acessar o dinheiro sem a chave numérica, então Penélope precisava dos documentos originais e da sua chave, e assim ela poderia voltar para a Europa e resolver suas pendências uma a uma: na Itália com Franco, na Grécia com todos que tinham fechado os olhos para o que ela viveu, e na França com o seu marido.

Franco era covarde e irresponsável, mas ela achava que poderia lhe convencer pelo tempo que fosse preciso para lhe ajudar. Se o drama que ela tinha vivido não o convencesse... Bem, ela sabia que aquilo iria lhe convencer, o virar de uma vez por todas contra o irmão mais velho. Ele nunca precisou de muitos motivos para se rebelar contra Louis, mas o desafio seria conseguir manter sua lealdade, que se desfazia diante do medo que tinha do irmão. A herança ajudaria, ela sabia, porque com Louis morto todo o dinheiro da família ficaria para ele.

E Louis... Ela sentia o corpo todo ferver de ódio cada vez que se lembrava dele. Nunca achou que, depois de tantos anos de casamento, ele se revelasse ainda mais perverso e cruel do que ela tinha imaginado. Ele ia pagar por tudo que tinha feito. Quando fechava os olhos, ela ainda pensava nas chamas queimando, nos seus gritos de desespero enquanto ele assistia impassível, seus seguranças a segurando. O cheiro que consumiu o quarto, que ela nunca tinha conseguido deixar de sentir, como se tivesse impregnado na sua alma.

Todos eles pagariam.

Penélope sabia que, uma vez que voltasse para a Europa, não teria mais volta. Ou ela se livraria de Louis, ou ele se livraria dela. Mesmo que não quisesse admitir, ela sentia que o tempo extra que tinha conseguido ali no Brasil não seria o suficiente para poder se despedir de Marcos com calma, aproveitar a presença dele por mais algum tempo. Queria ter chegado antes, ter passado mais tempo naquela casa...

— Você caiu da cama? — Marcos apareceu na porta da cozinha, com o cabelo bagunçado e ainda sem camisa, o rosto amassado de sono.

— Eu não, mas você parece que sim.

Marcos sempre tinha sido bonito, mas o tempo tinha sido ainda mais generoso com ele. Penélope evitava ficar lhe encarando, especialmente quando Lily e Giovanna estavam por perto, mas às vezes ela simplesmente não conseguia evitar. Aquele homem lhe deixava fraca, distraída.

— Quer café?

Ela acenou, concordando.

— Volta pra cama, Marcos. Ainda é cedo, Giovanna não tem aula hoje.

— Não, eu não consigo dormir sem v... — ele tossiu, se atrapalhando enquanto pegava a panela — Eu já acordei, não vou conseguir voltar a dormir.

Penélope engoliu um sorriso.

— Pode tirar os pontos hoje? Eu acho que os cortes já cicatrizaram.

— Sim, claro. Vem comigo.

Penélope não entrava muito no escritório dele, o lugar da casa que todos menos frequentavam. Giovanna tinha lhe contado que, logo que se mudaram para aquela casa, Marcos costumava fazer atendimentos aos domingos, mas tinha parado por um tempo quando a rotina ficou mais pesada. O cômodo ficava fechado quase sempre.

Não era muito espaçoso, a maca dividia espaço com as estantes de livros, a mesa pesada e muitos tapetes enrolados e empilhados contra a parede.

— São de Aline — ele seguiu seu olhar enquanto pegava uma caixa em um dos armários. — Ela é obcecada com tapetes, deixou vários aqui quando se mudou.

— Há quanto tempo ela mora na Argentina?

— Três anos, logo depois do divórcio. Giovanna era criança quando ela foi embora. Quer dizer, — ele riu, de bom-humor, se aproximando dela — Pra mim ela ainda é uma criança. Mas era uma criança menor.

Penélope sorriu. Marcos era exatamente o tipo de pai que ela sempre achou que ele seria: carinhoso, orgulhoso e gentil.

— Como vocês se conheceram?

Ela tirou a blusa, envergonhada. Penélope sabia que as cicatrizes ficariam para sempre, manchando sua pele e estragando o seu corpo. Logo ela, que sempre tinha sido tão orgulhosa da própria aparência, que mesmo quando não tinha nada para se orgulhar tinha algum consolo em saber que era sempre a pessoa mais bonita de onde quer que estivesse. Não queria que Marcos lhe visse assim, tão feia.

Ele fez uma careta quase imperceptível, mas ela percebeu. Marcos disfarçou limpando o material que usaria com álcool. Sabia que estava certa, que não era mais desejável. Pelo menos as cicatrizes podiam ser escondidas, e contanto que ela cobrisse os braços ninguém saberia o estrago por baixo das blusas.

Marcos se concentrou, tirando os pontos com uma pinça e uma tesoura. Penélope tremeu.

— Você faz muitas perguntas pra quem nunca quer me contar nada — observou. Ele parecia irritado, o seu bom-humor tinha sumido.

Penélope não respondeu.

Quando ele terminou, largou o material ao lado de Penélope na maca e continuou lhe encarando, com os braços cruzados. Ele estava sério, e Penélope até esqueceu de colocar novamente a blusa.

— O que você quer que eu diga? — perguntou, exasperada pelo seu silêncio.

— Você não me disse uma palavra sobre o homem que está te procurando, não me explicou nada do que aconteceu até aqui! — respondeu, igualmente exasperado — Eu fico esperando você me dizer, e você nunca me diz nada. Eu não gosto disso. Eu sei que você está com problemas, isso é óbvio, mas por que você se recusa a me deixar te ajudar?

Penélope detestava quando ele brigava com ela, se sentia terrível. Mas não queria dizer demais, não queria complicar as coisas para ele.

— Marcos, é melhor assim. Eu vou embora logo, ok? E você não vai mais precisar se preocupar comigo.

Marcos riu, uma risada irônica.

— E você acha que eu vou parar de me preocupar? Eu passei dezessete anos me preocupando com você, Penélope. Onde você estava, se você estava bem, o que estava fazendo... Não foram dias, não foram alguns meses. Eu me casei, eu tive uma filha, e mesmo assim eu passei todos esses anos pensando em você. E agora você me diz que vai embora, mas não me diz para onde, não me diz o que vai fazer... Você sequer lembrava de mim enquanto estava por aí, arrumando confusão e vivendo a sua vida? Porque eu pensava em você a cada novidade que acontecia na minha vida.

Ela sentiu os olhos marejarem, culpada e com remorso, mas engoliu o choro. Não queria chorar de novo na frente dele.

— Eu não lembrei, ok? É isso que você quer ouvir? Que eu não lembrei, que eu não me importei, que eu nunca pensei, que eu vivi a droga da minha vida e eu nem me lembrava que você existia? — ela piscou e piscou, tentando conter o choro, com raiva de si mesma por saber que ele notava as lágrimas mesmo assim. — É isso que você quer ouvir?

— Eu quero ouvir a verdade, Penélope. É isso que eu quero ouvir.

Eles se encaram, olhos azuis e olhos castanhos. Penélope pensou no azar que tinha, precisar discutir a relação com ele quando nem tinham uma relação. Ela ficou em silêncio novamente, desviando o olhar. Os minutos passaram e nenhum dos dois disse nada. Ficou surpresa quando Marcos suspirou, se aproximando e segurando o seu rosto.

— Eu não gosto de te ver machucada. Eu não gosto de saber que tanta coisa aconteceu e eu não fiz nada — falou baixo, lhe puxando para um abraço. A pele dele tão quente contra a dela — Não gosto de saber que você estava sofrendo, que estava em perigo e eu não fiz nada. Eu odeio isso, Penélope. Odeio saber que eu estava vivendo a minha vida, e você estava sofrendo.

— Vai se foder, Marcos — Sussurrou, sentindo o corpo dele tremer quando ele riu — Eu senti a sua falta, mas eu não podia pensar em você, entende? Eu não podia... Se eu pensasse em você eu teria desistido de tudo, corrido de volta pra você — confessou. — Eu só queria que você fosse feliz, tivesse paz, e você teve.

Penélope não iria, em hipótese alguma, lhe preocupar contando todo o resto. Ela preferia voltar para a Grécia a ter que lhe contar tudo que tinha passado, lhe deixar tão triste se ele soubesse de tudo. Ela ficaria em silêncio e aproveitaria o tempo que restava ao lado dele com tranquilidade. Era tudo que ela queria, porque sabia que as chances de voltar eram poucas.

— Eu não quero conversar sobre isso, Marcos. Sobre tudo que passou, todo o drama... A gente não pode só ficar de bem? Eu e você, até a hora de ir embora?

Ele demorou a responder, respirando fundo contra o seu pescoço e fazendo Penélope se arrepiar.

— Não é como se você estivesse me dando outra opção — disse, finalmente.

— Ah, tem sempre a opção de você me mandar embora pra bem longe, e parar de bancar o bom samaritano.

Marcos riu, saiu do seu abraço mas não se afastou. Ele ainda estava chateado, mas Penélope pensou que ele não insistiria no assunto por pelo menos alguns dias.

— Você sabe que eu nunca faria isso. Além disso, agora que você e Giovanna decidiram ser amigas ela não vai deixar. Que tanto segredinhos vocês tem, hein?

Penélope sorriu, se sentindo mais tranquila pelo assunto ter mudado.

— Você vai ficar muito assustado se eu disser que me vejo um pouco nela? Exorcizar, trancar ela num colégio interno, proibir que coloque o pé para fora de casa?

— Todas as opções — mas ele estava passando a mão pelo seu cabelo, sorrindo com carinho, e ela sabia que não estava falando sério

— Então eu vou dizer que acho ela terrível, uma completa palerma.

Marcos revirou os olhos, e Penélope pensou no quanto ele e Giovanna se pareciam. Ele lhe ajudou a vestir a blusa, mesmo que não fosse realmente preciso ajuda, e então segurou sua mão para que ela descesse da maca. Ela se sentia muito melhor sem os pontos, podia se mexer muito mais livremente.

— A água do café deve ter evaporado — Marcos comentou quando saíram do escritório — Vou colocar de novo, e então você acorda a minha filha-que-não-é-palerma e nós podemos tomar café.

*

— Por que vocês acordaram tão cedo? Jesus, eu tô de férias.

Giovanna resmungou, a cabeça apoiada nas mãos enquanto olhava feio para o pai e para Penélope.

— Assim você aproveita o dia — Marcos respondeu, e a resposta rendeu mais resmungos. — Eu tô de folga hoje, o que você quer fazer?

— Quero voltar pra cama.

— Ah, vamos lá. Não queria ir pra praia? Hoje eu posso ir com você.

Giovanna acordou de vez, mexendo o café na sua xícara roxa com uma colher. Ela usava a mesma xícara todos os dias, Penélope tinha percebido.

— Mas eu não tenho biquíni...

Marcos sorriu para Penélope, como se dissesse "você acredita nisso?".

— Eu te levo pra comprar um novo. Você também vem?

Penélope não queria muito sair de casa, mas os dois pares de olhos castanhos que a encaravam, pidões, tiraram sua coragem de dizer não. Não queria ficar na frente deles com as cictrizes, também.

— Eu também não tenho biquíni.

Marcos sorriu.

— Eu compro um pra você, também.

— A minha dívida com você tá ficando muito alta.

Marcos fez um gesto de descaso com a mão, e Penélope podia ver o olhar de Giovanna, muito mais acordado e sugestivo, acompanhar os dois como se estivesse numa partida de tênis.

— Se a gente fosse colocar numa calculadora eu ainda te deveria muito mais.

Penélope se remexeu na cadeira, desconfortável. Ainda estava cedo, mal passava de 7h, mas ela sabia como as praias lotavam nos finais de semana. Ela se sentia muito menos nervosa quando saia de casa, mas ainda assim...

— É uma praia pequena. Nós vamos desde que Giovanna nasceu, Aline tem uma casa lá.

— A gente vai dormir lá? — os olhos de Giovanna brilharam em expectativa, e Marcos olhou para Penélope, aguardando uma resposta.

— Tudo bem — cedeu. — Mas eu não quero sair para comprar biquínis, você escolhe pra mim.

— E o senhor tem coragem de me chamar de mimada... — Giovanna alfinetou. Então olhou para Penélope com um olhar tão inocente que ela sabia que era falso — Lily também vai?

— Vou chamar, é claro. — Mas ele tossiu, disfarçando, e Penélope soube que ele tinha esquecido dela por um momento — Agora fora da cozinha, vai arrumar suas coisas. Eu quero o quarto limpo antes de sair, viu?

Giovanna levantou se espreguiçando, preguiçosa como um gato.

— A gente podia passar a semana toda lá, né?

— Eu trabalho, filha, não tem como.

Penélope estava olhando para ele quando Giovanna saiu. Ele olhava para a filha com tanto carinho, com tanta devoção, que ela podia se apaixonar por ele de novo só por isso.

*

— Você não me disse que era a casa da sua avó! — Penélope praticamente gritou, feliz por voltar ali. — A casa não era da sua ex-mulher?

— Ela comprou, é dela. — deu de ombros, sorrindo para ela pelo retrovisor.

Tinham buscado Lily em casa, o que tinha atrasado um pouco o cronograma. Mas ela tinha dormido a viagem toda, exausta. Giovanna passou as horas na estrada tentando convencer Marcos a lhe deixar ficar vários dias lá, mas ele estava irredutível.

A casa tinha passado por uma reforma, mas permanecia exatamente no mesmo lugar e com a mesma energia mística de sempre. Era praticamente uma cabana, meio escondida entre palmeiras e outras árvores, e na primeira vez que Penélope tinha estado ali, ela pensou que era como uma casinha de contos de fadas. A praia de água doce não ficava muito longe, era uma caminhada de dez minutos.

— Você já veio aqui? — Lily a olhou, confusa.

— A gente sempre vinha aqui quando precisava de um tempo do resto do mundo — ela saiu do carro, encantada, sem pensar que podia estar falando demais. Tudo continuava no mesmo lugar — Não acredito que você não me disse que ainda tinha a casa.

Marcos deu uma risada, ajudando Giovanna com as bolsas.

— Não vai me dizer que você também vai ficar empentelhando pra passar a semana aqui?

Os olhos de Giovanna brilharam com a possibilidade.

— Por favor, pai! Olha, a Penélope...

— Ah não, você não vai começar com isso de novo, né? — Penélope implorou — Vem, vamos olhar a praia. Mas pode parar de pedir, não aguento mais essa ladainha.

Ela puxou Giovanna pelo braço, ouvindo as risadas de Marcos e Lily, e deixou que a adolescente guiasse o caminho, com medo de se perder. Giovanna ria caminhando pela estrada de chão, e Penélope não se importou tanto assim em ouvir as reclamações dela, feliz em voltar aquele lugar. Ela amava a estradinha de chão, a mata fechada e a praia de areia, com a água escura do rio. Tinha tantas, tantas lembranças boas ali.

Ela estava com os pés na água, de olhos fechados, quando Giovanna falou, parecendo receosa:

— Então, você já sabe quando vai embora?

— Você tá tão desesperada assim pra se livrar de mim? — sorriu.

A filha de Marcos lhe empurrou com o ombro. Ela usava um biquíni rosa de cintura alta, um modelo que imitava a moda dos anos 1950. O de Penélope era um maiô mais modesto, com mangas compridas e um decote alto que escondia suas cicatrizes.

— Não. Eu só tô curiosa. Pra onde você vai?

— De volta pra casa — deu de ombros. — O plano sempre foi ficar pouco tempo aqui, eu tô só esperando minha carona chegar.

— Você vai voltar pro seu marido?

Ela parecia verdadeiramente preocupada, como se temesse que Penélope voltasse para os braços do homem que tinha lhe machucado. Ela e Marcos ainda achavam que os cortes nos braços dela tinham sido feitos por Louis, mesmo que não fosse o caso.

— Nem que ele me desse todo o dinheiro do mundo.

Giovanna ficou visivelmente mais tranquila, e sorriu para ela.

— Você devia ficar, casar com o papai e morar com a gente. Ele gosta de você, eu tô falando. E você gosta dele também, vocês nem disfarçam. Se eu fosse Lily já teria batido nos dois e feito um escândalo.

Penélope riu, entrando na água com Giovanna. Ela não respondeu, nadando até seus pés não tocarem mais a areia.

— Você precisa parar com essa besteira, se Lily te ouvir falando isso e quiser me bater eu vou te colocar na minha frente.

A presença de Giovanna era tranquilizante. Fazia com Penélope parasse de pensar demais, e pudesse focar na adolescente e nos seus dramas tão fáceis de resolver. Elas boiaram por vários minutos, relaxando ao ouvir os sons da água nos seus ouvidos e o sons distantes da natureza. A praia estava deserta, como normalmente estava. A única casa por perto era a deles. Penélope pensou que poderia ficar ali para sempre.

— Penélope?

— O que?

A voz de Giovanna estava hesitante. Penélope não deixou aquilo lhe abalar, Giovanna estava sempre fazendo perguntas demais. Ela se concentrou na respiração para continuar boiando.

— É verdade... é verdade que o seu irmão era... diferente?

"Inspirar, respirar, inspirar, respirar, inspirar, respirar..."

— Ele tinha síndrome de Treacher Collins — anos atrás Penélope sequer conseguiria falar sobre isso. Agora, se surpreendeu com a tranquilidade na própria voz — É como naquele filme do garotinho.

— Eu adoro esse filme.

— É... a vida real é menos romântica. Ele não conseguia respirar, se engasgava com comida sólida, ia pro hospital toda semana. E isso foi em 2002, as pessoas eram piores... Ninguém aceitava ele. Eu não aceitava ele — confessou. — Ele nem chegou a ter um diagnóstico na época, os médicos não sabiam o que fazer com ele. Isso deixou a minha mãe meio neurótica. Só muitos anos depois que ele morreu eu encontrei um médico que pudesse me explicar. Ele teve uma vida muito curta e muito dolorosa.

— Sinto muito — Penélope voltou a nadar, puxando Giovanna para que se aproximassem mais da margem. — Ele tinha quantos anos quando morreu?

— Quatro — a boca de Penélope ficou com um gosto amargo, e elas se sentaram na areia. — Eles morreram num acidente de carro, numa das muitas visitas ao hospital.

— Eu queria um irmão. — Giovanna divagou, se jogando na areia.

— Pede pro seu pai — Penélope sorriu, implicante, disfarçando o próprio ciúme — Você não conhece a rima? "Primeiro vem o amor, depois o casamento. Depois muitos filhos e o carrinho de bebê". Daqui a pouco a sua casa vai estar cheia de crianças correndo, gritando, mexendo nas suas coisas e sujando tudo.

Giovanna fez uma careta.

— Não, quero um único irmão e por parte da mamãe. Assim eu só vou visitar nas férias, brincar com ele e postar foto. E depois eu posso voltar pra minha casa quando ele começar a chorar.

Penélope achou graça, balançou a cabeça para Giovanna.

— Me parece um bom plano. Por que você não gosta da Lily, afinal? Você tem sorte com ela, a minha madrasta uma vez trocou todas as fechaduras de casa porque não queria mais que eu entrasse.

— E o que você fez? — perguntou, curiosa.

— Troquei as fechaduras de novo e ela e as filhas ficaram para fora.

Giovanna riu.

— Eu gosto da Lily, ela me deu ingressos pro show do Bruno Mars de aniversário... — se defendeu -Eu só não quero que ela case com o meu pai. Quero que ela fique de longe, me mandando presentes caros e nunca converse comigo sobre nada, nem tente forçar uma amizade só porque gosta do meu pai.

— Você quer muitas coisas difíceis — Penélope debochou, mas estava sorrindo. — Qualquer namorada do seu pai faria isso, ela pelo menos te dá presentes caros.

— Você era rica, me daria presentes bem melhores.

Penélope lhe beliscou, mas as duas estavam rindo. Como uma filha dele podia ser tão cara de pau?

— Eu te mandaria pra um internato na Suíça, isso sim. Desses bem gelados e com comida ruim, assim não eu ficaria ouvindo suas bobagens.

— Mandaria nada.

"E ela tem razão", Penélope pensou. "Não mandaria mesmo".