Fúria

13 Capítulo 12 - Marcos (2022)


"I watch the skies getting light as I write, as I

Think about those years

As I whisper in your ear

I'm always going to be right here

No one's going anywhere"

Marcos riu vendo Penélope e Giovanna se atrapalharem com a canoa, as duas rindo ao remarem em círculos. Penélope parecia tão leve, tão contente, sua expressão muito mais jovem e satisfeita. A noite chorando parecia esquecida. Ele e Lily estavam deitados na areia, aproveitando o resto de sol.

Ela queria ter ficado em casa, mas Marcos não gostava da ideia de deixar as duas sozinhas, com medo que alguma coisa pudesse acontecer, então sua noiva o acompanhou.

Marcos sabia que era um homem de muita sorte. Ele tinha consciência disso. Sabia que pessoas que vinham do mesmo lugar que ele não construíram uma carreira, não tinham um relacionamento bom com a filha e não encontravam duas mulheres bonitas e talentosas dispostas a se casar com ele. De onde ele vinha, daquele prédio com mais gritos que risadas, homens acabavam como os seus pais: violentos, bebendo até cair e repetindo o ciclo com seus próprios filhos.

— Você tá prestando atenção? Alô, alô — Lily bateu no seu peito.

— Desculpa. — Sorriu para ela. — O que você disse?

Então por que, ele se perguntava, por que ele tinha tanta vontade de jogar tudo para o alto quando ouvia a risada de Penélope? Ele sabia bem o quanto ela era complicada, o quanto uma vida com ela nunca seria tranquila. Não com os seus inimigos espalhados a cada esquina, todas as vezes em que ela brigava sem motivo, sua impulsividade, sua arrogância com os outros, o desafio no seu olhar, o timbre da sua voz, o carinho com que ela o olhava, a maneira como seu cabelo brilhava no sol, a curva da sua cintura quando ela se virava...

— Giovanna disse que iria comigo para Minas. — Lily parecia tão feliz com isso — Acho que as coisas vão se acertar entre a gente.

— Claro que vão. Eu te disse, era só questão de tempo. — puxou a mulher para um abraço, e Lily descansou no seu peito.

— Então, eu queria te perguntar... Até quando Penélope vai ficar? Já faz mais de um mês que está na sua casa. Eu até gosto dela, mas não é o cenário ideal pra começar uma família, né.

— É complicado.

— Complicado como? — indagou.

— Complicado porque... Porque é complicado.

Lily olhou para ele, apoiando o queixo no seu peito. Ela era tão inteligente, tão sagaz. Marcos se perguntou quanto tempo mais daquele arranjo familiar com agregados ela aguentaria.

— Marcos, eu entendo, ok? O marido era violento, ela não tem familiares, tudo isso eu entendo. Mas ela não pode ficar morando com a gente pra sempre. Ela precisa de um emprego, de terapia e se reerguer, construir uma vida para si mesma. Você não pode dar tudo pra ela de bandeja e esperar que ela melhore assim. Eu não quero que a nossa vida juntos comece com uma estranha na casa.

— Eu não vou pedir pra ela ir embora — negou. Só de pensar nisso, Marcos sentia o coração acelerar.

— Tudo bem, mas pelo menos conversa com ela pra arrumar um emprego. Se você não falar, eu falo — avisou — Hoje poderia ser uma viagem de família, e ela tá aqui com a gente. Ela é uma estranha no meio da nossa família.

— Penélope não é uma estranha — Marcos notou o seu tom grosseiro e se arrependeu imediatamente. — Desculpa. Eu não quis falar assim.

Lily se sentou na areia, parecendo chateada, e Marcos também se sentou.

— Lily... Penélope fez parte da minha vida em um momento muito ruim. Todo o drama dos meus pais, os problemas de Marina, ela acompanhou tudo e apoiou a gente em tudo. Eu não posso determinar um prazo de ajuda para ela agora que ela precisa. Isso eu não posso fazer, não vou fazer.

Era verdade, mas Marcos sabia que o problema era maior que esse. O problema era que ele não queria que Penélope fosse embora nunca mais. Ela poderia ficar, e ele a ajudaria. Ele não se incomodaria, mesmo que ela saísse da sua casa. Só queria a certeza que ela estaria por perto, que ela estaria bem e segura, longe de problemas e confusões.

Lily o analisou com o olhar, parecendo à beira do choro. Ela mordeu os lábios, olhando para as duas na água e então de volta para Marcos. Tinha um olhar magoado, ressentido.

— Ela não vai embora porque não pode ou porque você não quer que ela vá?

Ele não respondeu.

— Você gosta dela. Eu não sou cega, Marcos. Nem idiota. Você não tira os olhos dela, desde que ela chegou.

— Não tem nada acontecendo — e, por mais que fosse verdade, Marcos sabia que nem ele nem ela acreditaram. — Eu vou me casar com você, eu gosto de você.

— Gosta? Eu achei que você me amasse.

— Amo — se corrigiu, confuso. Marcos não fazia mais ideia dos próprios sentimentos. Um mês atrás ele tinha tanta certeza que amava Lily, que queria casar com ela e ter uma vida ao seu lado.

Como Penélope tinha conseguido mudar tanto em tão pouco tempo? Virar seus planos de vida do avesso?

Lily não respondeu, o olhando impassível. Os pássaros cantavam alto, anunciando o final da tarde. Logo ficaria escuro. Ela se levantou, limpando a areia das pernas e dando um último olhar para o rio e então para Marcos.

— Eu quero ir pra casa agora — ela hesitou, querendo falar algo mais — Mas você deveria saber que ela não tem tanta consideração assim por você. Não quando fica recebendo visitas de homens quando você não está em casa.

Marcos franziu a testa, confuso.

— Homens? Que homens?

— Pergunta pra ela, já que vocês têm uma amizade tão sincera.. — Lily se virou, caminhando para a estrada. — Um tipo mauricinho, arrogante. Parecido com ela.

Era Iago. Marcos tinha certeza que era Iago. Penélope não pensava? Como ela tinha tido coragem de se encontrar com ele depois de tudo que ele tinha feito? Para ela, para Marcos. Marcos tinha sido preso por culpa dele. Levar Iago na sua casa, onde sua filha morava...

Ela simplesmente não pensava?

Marcos sentiu a raiva crescer.

— Pai! — a voz de Giovanna estava longe. — Pai! A gente não tá conseguindo voltar.

A canoa estava distante, levada pela correnteza. As duas eram pontinhos que acenavam para ele do meio do rio.

Marcos respirou fundo, ainda irritado, e entrou na água gelada. Nadou até elas rapidamente, as palavras de Lily ecoando na sua mente. Ele ignorou o olhar curioso de Penélope quando subiu na canoa, com frio. A canoa balançou, e Penélope e Giovanna se apoiaram uma na outra enquanto ele pegava os remos.

Iago... De todas as pessoas, Iago?

— Vocês não deveriam ficar brincando com a canoa se nenhuma das duas sabe remar — brigou — E se a correnteza leva vocês pra longe?

— A gente gritava mais alto — Giovanna brincou, de bom humor, mas Penélope não respondeu.

Eles se encararam, e Marcos percebeu que ela notou seu mau humor. Franziu as sobrancelhas para ele, curiosa, mas não falou nada. Giovanna, parecendo notar o clima pesar, também não disse mais nada.

Quando chegaram na margem, Giovanna pulou para fora e Penélope tentou lhe ajudar a puxar a canoa para a areia, mas ele não deixou.

— É melhor vocês irem arrumar as coisas. A gente vai voltar pra cidade.

— Por que?

— Marina precisa voltar.

— Então quem tem que voltar é ela, não a gente. — Giovanna cruzou os braços.

— Giovanna, eu não tô brincando. Vai pra casa e arruma as suas coisa. Agora.

Ele encarou a filha, falando sério, e ela pareceu ter percebido que ele não estava mesmo pra brincadeira. Ela olhou para Penélope de canto de olho, que anuiu com a cabeça, como se falasse que estava tudo bem, antes de se afastar seguindo para a estrada.

Marcos tentou lhe seguir, mas Penélope se colocou na sua frente, de braços cruzados.

— O que foi?

Ele mordeu a língua, não queria ter aquela conversa naquele momento, mas ela não saiu da sua frente, levantando as sobrancelhas como se esperasse uma resposta. Giovanna tinha sumido da sua visão e os dois estavam sozinhos. Cruzou os braços.

— O que Iago estava fazendo na minha casa?

Penélope empalideceu, desviando o olhar para a areia.

— Então Lily te contou.

— Sim, ela me contou! O que você estava pensando? Eu não quero ele na minha casa, perto de mim ou de você. Muito menos de Giovanna! Sinceramente, o que você estava pensando?

Penélope se encolheu, parecendo envergonhada, mas o olhou novamente, dessa vez parecendo mais firme.

— Foi só uma vez. Não vai se repetir.

— O que ele estava fazendo lá, Penélope? — Marcos sabia que estava quase gritando, mas ele não conseguia se controlar.

— Me ajudando com uma coisa.

Ele respirou fundo, nervoso.

— Que coisa?

Ela não respondeu, lhe encarando como se fosse óbvio: lhe ajudando com as coisas que ela escondia de Marcos, que recusava a lhe contar. Marcos sentiu a irritação crescer.

— Como você tem coragem de encontrar com ele, depois de tudo? Você não pode realmente achar que ele iria te ajudar por pura bondade no coração — ironizou — O que você estava pensando?

— Para de gritar comigo! — gritou. — Eu já disse que ele não vai voltar!

A praia estava vazia, e Lily e Giovanna não podiam lhes ouvir de casa. Mesmo assim Marcos baixou a voz, engolindo a vontade gritar com toda sua força, porque não queria gritar com ela.

— Eu não quero ele na minha casa — avisou. — Não quero ele perto de você.

— Desde quando você manda em mim? — ela estava irritada, os olhos azuis faiscando.

— Desde que você está na minha casa, na minha vida, na vida da minha filha — gritou, alterado. — Se você não consegue tomar boas decisões, então eu vou mandar em você, sim.

— Você não é meu pai, Marcos! — apontou, lhe acusando — Eu já disse que não vai se repetir. Eu sei o que eu tô fazendo. Já chega, para de gritar comigo.

Marcos riu, sem achar graça.

— É claro que eu não sou seu pai, porque se eu fosse eu não daria a mínima pra você!

Ele percebeu o que disse no momento em que as palavras saíram da sua boca. Penélope lhe encarou, surpresa, mas logo se recompôs, se virando em direção a estrada. Ainda assim ele captou a mágoa no seu rosto antes dela se virar.

— Desculpa. Eu não quis dizer isso. Penélope, espera.

Marcos correu até ela, mas Penélope o empurrou para fora do seu caminho. Ela não disse nada, ignorando completamente Marcos até chegarem na casa. Toda a felicidade que ela aparentava quando tinha chego ali pela manhã tinha desaparecido, e ele se sentia a pior pessoa do mundo.

*

A volta para casa foi terrível. As três mulheres estavam com raiva dele, e seguiram o caminho todo em silêncio. Quando chegaram na sua casa, Giovanna e Penélope saltaram para fora e ele seguiu para a casa de Lily.

Ele não se arrependia de ter brigado com Penélope sobre Iago, porque sabia que estava certo, mas não conseguia esquecer a expressão dela quando ele falou sobre o seu pai. Marcos sabia que aquele sempre tinha sido um tópico sensível pra ela, e se xingava mentalmente por ter sido tão estúpido.

Quando estacionou em frente à casa de Lily esperou que ela também saísse sem falar com ele, mas sua noiva se virou para ele com uma expressão séria.

— Você precisa resolver a sua vida — disse. Lily se inclinou, beijando o canto da sua boca, e então fez carinho na sua bochecha, mas seus olhos indicavam seriedade — Você precisa resolver a sua vida e então me procurar. Eu te amo, mas eu não vou ficar me prestando a esse papel. Não quando você tão obviamente está apaixonado por ela.

— Lily...

— Você quer se casar comigo?

Marcos ficou em silêncio. Ele queria, no passado. Agora, já não tinha tanta certeza. Lily pareceu magoada, e então riu, indignada.

— Tão fácil assim, Marcos? Você me ama e então ela aparece por meio segundo e você resolve que ama ela? É fácil assim? Você não costumava ser tão indeciso.

— Não é isso, Lily. A Penélope foi muito importante... ela é... É mais complicado que isso. Eu...

Ela o calou, colocando o dedo no seu lábio.

— Você precisa resolver a sua vida — repetiu, antes de descer do carro.

Marcos esperou ela entrar, apertando o volante nas mãos, com raiva de si mesmo. Por ter magoado Lily, por ter magoado Penélope, e porque sabia que ela tinha razão, mas não queria correr aquele risco de novo. O risco de se apaixonar de novo por Penélope, quando sabia que ele iria lhe abandonar de novo.

"De novo?", sua mente lhe respondeu com escárnio. "De novo não, porque você nunca conseguiu parar"

Marcos se sentia um viciado caindo novamente em tentação. Ele respirou fundo, ligando o carro, e seguiu para sua casa.

*

— Pra onde você vai?

Penélope dobrava suas poucas roupas, parecendo decidida. Ela não olhou para Marcos, sua expressão neutra do jeito que ele odiava, porque significava que estava escondendo alguma coisa.

— Não sei. Ainda não sei. Mas é óbvio que você não me quer mais aqui, então...

Ele se sentou ao lado da mala, que era de Giovanna, segurando sua mão quando ela tentou fechar o zíper.

— Para com isso, você não precisa ir embora — pediu — Eu não quero que você vá.

— Olha, chega, tá bom? Chega disso. O que quer se seja isso — indicou os dois, e afastou sua mão da dele, colocando as mãos na cintura quando lhe encarava — Eu sei que o Iago não deveria ter vindo aqui. Eu me encontrei com ele sim, porque precisava que ele me ajudasse com algumas coisas, mas eu nunca chamei ele aqui. Ele veio sozinho. Eu nunca colocaria você ou Giovanna em perigo, não sou idiota. É por isso que eu vou embora. Franco vem me procurar, Louis está atrás de mim... É idiotice continuar aqui com vocês. É ridículo ficar brincando de família feliz e atrapalhando a sua vida, quando eu sei o que me espera. Já chega disso.

Ela empurrou Marcos, fechando a mala com pressa. Marcos não podia suportar a ideia de que ela iria embora de novo. Odiava ainda mais a maneira como ela dizia que sabia o que a esperava, como se fosse algum futuro terrível do qual ela não podia escapar.

— Não vai — pediu, sabendo que soava mais como se estivesse implorando. — Você não precisa ir embora. Não agora.

Mas ela caminhou até a porta, decidida. Marcos se levantou, ficando na frente da porta para lhe impedir.

— Para com isso. Para, para. Você não vai pra lugar nenhum.

Penélope cruzou os braços, o encarando da maneira arrogante que Lily reclamava que ela olhava para todos.

— Cadê a sua noiva, hein? Porque você não se preocupa mais com a vida dela e menos com a minha? Eu não sou problema seu.

— É claro que você é problema meu! — ele balançou a cabeça, arrependido das palavras — Ou, melhor dizendo, você não é um problema!

— Não fode, Marcos. Eu não sou problema seu — repetiu mais devagar, como se querendo que ele entendesse.

— Para de dizer que você é um problema!

Penélope se sentou, parecendo cansada, e Marcos se sentou ao seu lado. Ela respirou fundo, empurrando a mala para o chão, e encostando a cabeça no seu ombro. Marcos deixou sua cabeça encostar na dela, sem saber o que dizer.

— Desculpa.

— Penélope, eu não quero que você vá. Não vai, por favor? Esquece essa vingança, esquece tudo, fica aqui com a gente. Você recomeça do zero, comigo do seu lado. Eu não quero que você vá.

Ela levantou o rosto para lhe encarar, e Marcos podia ver sua determinação fraquejar. Por um momento pensou que ela fosse ceder, mas logo seu olhar endureceu, duas safiras furiosas o encarando. Tão determinada, com tanta mágoa guardada.

— Eu preciso voltar. Louis vai me pagar por tudo que me fez, Marcos. Todos eles vão me pagar. Eu não posso esquecer, eu não consigo esquecer.

Marcos não tinha o que dizer. Pedir para que ela não fizesse nada? Que se contentasse com uma vida ali? Ele conhecia muito bem aquela mulher, sabia que Penélope não faria isso. Tudo que ele sempre quis foi que Penélope se mantivesse em segurança, e isso foi a única coisa que ele sempre desejou e nunca se tornou realidade.

— Não hoje. Não vai hoje, ok? — sussurrou. Ele segurou seu rosto, encostando a testa na nela, de olhos fechados — Fica aqui até a hora de ir. Não sai de perto de mim até a hora de ir.

— Marcos... — a voz dela era um aviso. A forma como suas mão subiram pelos braços dele, também. — Eu não quero te magoar.

Ele sabia que ela ia embora, talvez antes mesmo do que ele esperava, e não sabia se ela ia voltar. Lily estava com raiva dele, e com razão, Giovanna estava com raiva dele, trancada no quarto com a música alta ecoando pelas paredes, sua mãe tinha deixado dezenas de áudios pedindo que ele mandasse dinheiro para o pai, tudo estava o mais completo caos na sua vida.

Mas Penélope estava ali, depois de anos, tocando a sua pele, respirando o mesmo ar que ele, com o rosto vermelho pelo dia no sol. Marcos poderia lidar com todo o caos no resto da sua vida se ela continuasse ali pra sempre, sem sair dos seus braços.

— Você disse que não ia me beijar.

— Todos os dias eu te vejo, e todos os dias eu quero te beijar, Penélope — respondeu, abrindo os olhos porque queria lhe ver. Os olhos dela brilharam felizes, encarando os seus — E mesmo nos dias em que eu não te vi... Eu passei todos os dias dos últimos dezessete anos querendo te beijar.

Então ele beijou.

Notas finais
Será que esse casal volta definitivamente?? Me contem o que vocês estão achando deles dois E será que a Lily vai ficar de boa com tudo isso? Confesso que eu não ficaria.