Fúria

11 Capítulo 10 - Marcos (2022)


"Sometimes I think it's getting better

And then it gets much worse

Is it just part of the process?

Jesus Christ, it hurts"

A sua mãe estava lhe ligando pela quinta vez, e pela quinta vez Marcos ignorou a chamada. Estava ansioso, nervoso, preocupado. Por que as pessoas não poderiam coletivamente se manter em segurança e em paz, e assim ele poderia relaxar?

Ele não tinha conseguido voltar a dormir depois da chamada de Marina, mesmo que Penélope tivesse lhe tranquilizado falando que o homem que estava atrás dela não era o seu marido. Pela maneira como ela falava e estava pensativa, ele sabia que ele fazia parte das muitas coisas que ela não estava lhe contando.

Lily lhe mandou mensagem perguntando se podia buscar Giovanna na escola, e ele concordou sem prestar muita atenção.

Penélope estava trancada no quarto, Giovanna ia reprovar em francês, Aline tinha lhe mandando uma longa mensagem sobre as férias de Giovanna que ele ainda não tinha aberto, sua irmã tinha voltado a desaparecer depois da breve ligação, ele tinha um jantar com a família de Lily naquela noite, sua mãe não parava de tentar falar com ele e Marcos sabia que era sobre o seu pai.

Marcos respirou fundo, tentando não explodir.

Era tanta coisa, tantas pessoas, contando com ele e dependendo dele que às vezes ele pensava que ia explodir. Sempre tinha sido assim, desde que ele era uma criança, e ele se sentia puxado em muitas direções diferentes, sem nunca poder se concentrar em si mesmo.

Durante sua adolescência, foi Penélope quem lhe ensinou a ser egoísta, e isso tinha provavelmente salvado a sua vida apesar de ela achar que era algo ruim. Na vida adulta, foi o cuidado com Giovanna que o tinha feito se firmar longe dos pais, e não se deixar mais ser arrastado para os problemas dos dois.

Mas ainda tinham dias em que tudo parecia dar errado, em que tudo parecia cair sobre ele sem aviso e o deixava exasperado. Nesses dias ele dizia a si mesmo que não tinha nada que pudesse fazer a não ser respirar fundo e esperar. Ou, pelo menos, era o que a sua terapeuta tinha dito anos atrás.

— Paaaai! Pai, pai, pai, pai, pai! — Giovanna correu até ele assim que chegou, se jogando sobre ele no sofá. Tinha um sorriso enorme e Marcos ficou mais tranquilo — Eu passei! Cadê a Penélope? Vamos sair pra comemorar?

Marcos riu da afobação da filha, dando beijo na sua testa.

— Parabéns, eu sabia que você ia passar! Tão inteligente, amorzinho do papai.

Giovanna se levantou rindo, tão de bom humor que não fez uma careta. Lily se aproximou, sentando ao lado de Marcos no sofá e lhe dando um beijo rápido.

— Ela não calou a boca sobre a prova a viagem inteira — riu. — A gente precisa mesmo comemorar.

Ele observou a filha subir as escadas correndo, dois degraus de cada vez, e ouviu quando ela invadiu o quarto de Penélope.

— Tudo bem com você? — Lily lhe encarava sorrindo, mas ele percebeu que ela estava preocupada. Tocou seu cabelo, colocando uma mecha atrás da orelha. — Parece preocupado.

— Só cansado — era uma meia verdade — Você soube sobre o garotinho do acidente, né?

Ela assentiu, em solidariedade, e então se aninhou no peito dele, relaxando.

— Você fez o melhor que conseguiu. Foi um acidente muito feio, não tinha muito a ser feito.

— Eu sei — suspirou.

Marcos queria poder falar com ela. Falar de verdade, contar tudo. Ele se sentia mal por estar escondendo que Penélope era sua ex-namorada. Não achava necessariamente que ela ficaria com raiva, mas sabia que Lily ficaria decepcionada e isso seria pior.

Ela era tão boa, tão paciente e tão carinhosa, e Marcos tinha passado o último ano inteiro acreditando que finalmente tinha encontrado alguém com quem poderia passar o resto da sua vida com tranquilidade e sem problemas. Até Penélope voltar.

O seu celular tocou novamente, e ele não se incomodou em olhar antes de recusar.

— É a sua mãe — Lily não sabia exatamente qual era o problema entre Marcos e seus pais, mas respeitava a decisão dele de se manter afastado. — Você quer que eu atenda? Eu to vendo que você não tá legal. O que aconteceu?

— Só... Só cansaço mesmo. Não precisa atender, ela logo desiste.

Lily lhe encarou, parecendo ler sua mente, e ele se sentiu culpado.

— Você quer conversar?

Marcos sorriu, lhe dando um beijo leve.

— Agora não, tudo bem? A gente conversa mais tarde.

Lily concordou, mas sua expressão preocupada não se desfez.

— Eu vou chamar a Giovanna e a gente sai pra almoçar, que tal? Comemorar a nota dela.

— Podemos almoçar com os meus pais — sugeriu, os olhos brilhando. Ela adorava qualquer oportunidade que tinha de aproximar os pais e o noivo — Eu fiquei de passar lá hoje.

Ele concordou. Giovanna não gostava particularmente dos pais de madrasta, mas era simpática sempre que saíam juntos. Ele pensou que poderia lhe levar para tomar um sorvete depois, na sorveteria que ela gostava.

Penélope não iria, ele tinha certeza. Mas Marcos, apesar de ainda não gostar de lhe deixar sozinha, ficava mais tranquilo em fazer isso depois de algumas semanas. Ele subiu as escadas para trocar de blusa e chamar a filha.

— ... e ele disse isso. O que você acha?

Se aproximou do quarto de Penélope, curioso. Era a voz de Giovanna, baixa como nunca era. Elas estavam trocando segredos? Por essa Marcos não esperava.

— Acho que ele definitivamente tem catorze anos de idade. — A voz de Penélope aparentava tédio, mas Marcos notou um tom de graça. — E acho que ele tá mentindo, é claro.

— Por que? — a voz da sua filha parecia tão magoada que ele ficou com raiva. Quem estava mentindo para ela? E por que?

— Ele tava sem celular, mas podia usar o computador... Se realmente quisesse falar com você ele teria usado o computador. Pensa, Giovanna, pelo amor de Deus. Tem coisas que são óbvias.

Elas ficaram em silêncio um momento, e Marcos queria tanto entrar no quarto. Mas ficou com medo que elas parassem de conversar. Uma parte dele estava surpresa, mesmo sabendo que não deveria: elas passavam muito tempo em casa juntas quando ele estava no trabalho, e era natural que conversassem mais.

— É verdade — Giovanna concordou, mas sua voz parecia decepcionada, até um pouco chorosa, mas ela logo mudou de assunto, mais animada: — Você vem com a gente? Papai disse que a gente vai sair pra almoçar.

Giovanna deu uma risada, e Marcos imaginou que Penélope fez uma careta.

— Tá bom... Eu trago um sorvete pra você.

Marcos correu em silêncio até o próprio quarto, não queria ser pego espionando as duas. Lily gritou por ele, dizendo que estava morrendo de fome, e Giovanna gritou que estava indo para o carro.

Ele respirou fundo, saindo do quarto. Caminhou até o quarto de Penélope, envergonhado por ter estado ali minutos antes sem que ela soubesse. O quarto cheirava a cigarros apesar da janela aberta.

— Vamos sair para almoçar, você vem?

Ela estava tão bonita com os cabelos soltos, sentada ao lado da janela e balançando a cabeça em reprovação. Quando se aproximou, Marcos notou Giovanna fazendo caretas para ela de dentro do carro. Ela riu e levantou as mãos, como se pedisse desculpas, assim que viu o pai.

— Não, vou aproveitar um pouco de silêncio.

Ele concordou, balançando a cabeça. Marcos gostaria de poder fazer o mesmo.

— Tá tudo bem mesmo? Depois da ligação de Marina... Você não precisa ficar aqui sozinha, se não quiser.

— Tudo bem, juro. Vai comemorar que agora Giovanna é quase francesa.

Marcos riu.

— Então você devia vir, já que foi a professora.

— Não, eu...

Ela balançou a cabeça, mudando de ideia, e se levantou. Penélope se movia muito mais livremente, e Marcos fez uma anotação mental para tirar os pontos dela nos próximos dias. Ela achava que disfarçava bem a dor e o incômodo, mas ele podia notar pela maneira que ela se movia quando estava com dor.

— Eu tô bem. Prometo. Fiquei assustada, sim, pensando que era Louis, mas não era ele. Está tudo bem.

— E você vai me contar quem era? — Marcos cruzou os braços, sem tentar disfarçar sua curiosidade. Já existia tão pouco que ela lhe contava. Penélope sorriu, como se adivinhasse seus pensamentos.

— Desce, Marcos. Elas estão te esperando. Tá tudo bem, pode ir tranquilo.

*

— Tem alguma coisa que você queira me contar?

Marcos levantou as sobrancelhas para Giovanna pelo espelho retrovisor, e ela ficou envergonhada. Tinha passado o caminho todo dando risadinhas para o celular, e Marcos achava que seu pior pesadelo tinha acontecido: sua filha estava namorando.

— Não, pai. O senhor tem alguma coisa para me contar?

Lily deu uma risadinha no banco do carona antes de se virar para a adolescente.

— Você não para de rir pra esse telefone. O que foi, hein?

Giovanna lhe olhou atravessado, mas mordeu a língua quando o olhar cruzou com o do pai pelo espelho. Ele até podia ouvir a voz dela dando uma resposta mal educada, mas Giovanna deu um meio sorriso para a madrasta.

— Era só uma thread com uns vídeos engraçados... Mas atualizei e saiu. Por que a gente tá no hospital? — ela finalmente olhou ao redor — A gente não vai levar o sorvete da Penélope?

Ele podia ver que a recente amizade entre as duas magoava Lily, que estava a meses tentando se aproximar mais da enteada. Mas a médica sorriu para ela novamente, disfarçando o incômodo, e Marcos se sentiu mal por isso.

— Eu estou de plantão hoje. — ela soltou o cinto, virou mais no banco — Giovanna, eu falei com o seu pai... Você não quer vir comigo para Minas? Eu vou semana que vem com a minha mãe fazer a prova do vestido. Já que você está de férias... Só se você não tiver outros planos, é claro.

— Ah — a garota aparentou surpresa — Não, mas obrigada. É que...

Então ela ficou calada, aparentemente pensando em uma desculpa. O silêncio dentro do carro ficou tão alto que era ensurdecedor.

— Tudo bem — Lily assentiu, Marcos sabia que ela estava chateada. — Se você mudar de ideia é só falar.

Giovanna passou para a frente quando Lily saiu, e ela parecia minimamente envergonhada de ter recusado o convite tão depressa.

— Você podia pelo menos fingir que estava considerando — Marcos ralhou. — Lily ficou chateada, ela está tentando se aproximar de você, filha.

— É, eu percebi — ela parecia envergonhada. — É só que...

O celular vibrou novamente, mas Giovanna o guardou na bolsa sem verificar, e se virou para a janela. Marcos suspirou, desanimado.

— Por que a gente quase não vê a sua família?

Ele ficou surpreso. Tinha esperado essa pergunta tantas vezes, mas definitivamente não naquele momento.

— O que você quer dizer?

— Pai, eu não sou criança. Eu sei que a gente não fala com eles, eu nunca nem conheci o seu pai. A tia Marina mora do outro lado do oceano, o senhor não tem tios, primos, nada... Eu não tô reclamando, eu gostava de ser só a gente e a mamãe. Mas agora do nada o senhor quer que eu adote uma família inteira e eu nem sei porque a gente não fala com a sua família.

Marcos ficou calado, apertou o volante nas mãos. Se tinha uma coisa que ele gostaria de esconder da filha para sempre, era o seu passado e a sua família caótica.

Mas ela olhava para ele, esperando uma resposta. Os mesmos olhos enormes que tinham encarado ele pela primeira vez catorze anos atrás, irritada por ter chegado num mundo enorme e assustador. Marcos amava Giovanna mais do que qualquer coisa no mundo, e sabia que aquele era um daqueles momentos em que ela se lembraria muito bem do que quer que ele falasse.

— Eu vou ficar sem resposta mesmo? — sua voz agora estava embargada, mesmo que ela tivesse os braços cruzados e o queixo erguido.

Marcos estacionou o carro, ignorando as buzinas que recebeu por ter mudado a direção rápido demais.

Ele podia sentir o olhar da filha fixo nele, mas não conseguia lhe encarar. Se sentia tão envergonhado quanto naquele dia, anos atrás.

— O meu pai foi preso, Giovanna. Ele... era violento. Com a sua avó, comigo, mas principalmente com Marina, porque ele não aceitava ter uma filha lésbica. Ela saiu de casa muito cedo, para ficar longe dele, mas precisou voltar quando a nossa avó morreu. Foi nessa época que ele foi preso, ainda bem.

Ele ficou sem silêncio novamente, sem querer revelar mais do que o necessário. Sem querer falar para a filha que a sua vida era um inferno, que mesmo anos depois ele ainda podia se lembrar com perfeição de detalhes as surras que levou, as ameaças que recebeu, as muitas vezes em que fugiu de casa do meio da noite com Penélope, porque queria a companhia dela mas também porque não queria que ela fizesse nenhuma loucura. Se lembrava, acima de tudo, da omissão e conivência da sua mãe.

— Você não tem família porque a minha família é ruim, Giovanna. Eu sempre deixei eles o mais distante possível de você, porque você é o meu bebezinho — ele sorriu para ela, segurando as lágrimas, e notou que ela não tinha conseguido — Mesmo que agora o meu bebê seja uma adolescente respondona.

Giovanna fungou, abraçando o pai. Sua maquiagem tinha escorrido e deixado rastros pretos abaixo dos olhos.

— Desculpa — choramingou — Eu não devia ter falado nada.

— Tudo bem. Uma hora você ia saber... — Marcos lhe abraçou apertado, lhe consolando. — Tá tudo bem agora, não é? Nós estamos bem, nossa família é boa, seus pais te amam. Tá tudo bem, filha. Você não precisa se preocupar com nada disso.

Ela balançou a cabeça rápido, concordando, mas continuou abraçada ao pai.

— Eu posso ir com a Lily se você quiser — falou contra o seu ombro.

— Não precisa, filha. Não se você não quiser. Eu acho que você tem razão, ganhar uma outra família do nada é muita coisa. A gente pode viajar só nós dois, que tal? Ir visitar a sua mãe?

Giovanna fungou, se afastando. Ela tentou limpar o rosto, mas acabou espalhando mais a sujeira. Seus olhos enormes estavam sinceros quando ela falou:

— A Penélope também?

— Pra quem não queria que a "Pâmela" ficasse em casa vocês estão muito amigas — provocou, e Giovanna riu.

— O meu voto era pra Pâmela ficar — corrigiu, rindo.

— Gigi... Tenta não se apegar muito — aconselhou. — Você sabe que ela vai embora, não sabe? Ela já fez isso uma vez. Ir embora e nunca mais dar notícias.

Marcos sabia que estava falando não só com a filha, mas consigo mesmo. Esperou que ela não notasse.

— Ah, merda — Giovanna se virou para o banco de trás fazendo uma careta sofrida — O sorvete caiu.

— Você vai limpar isso, mocinha.

— Mas eu... Tá — ela ficou emburrada.

Marcos sorriu. O momento triste tinha acabado e a sua filha estava de volta.

*

Marcos acordou com os gritos de Penélope, como naquela primeira noite. Ele correu até ela mesmo sabendo que podia ser só um sonho ruim, porque talvez não fosse.

Ela se debatia na cama, agarrando o lençol.

— Penélope! Penélope!

Ela acordou assustada, sem conseguir conter as lágrimas. Escondeu o rosto nas mãos, soluçando tão alto que ele pensou que Giovanna fosse acordar. Marcos sentou ao seu lado, lhe abraçando, mas ela não parou.

Penélope chorava tanto que ele ficou desesperado. Chorava mais do que tinha chorado no dia em que apareceu na casa dele. O seu corpo todo tremia como se estivesse convulsionando, e Marcos lhe apertou mais contra si.

Tentou falar com ela, mas a mulher não respondeu.

Foi apenas meia hora depois, quando ela já não parecia ter mais lágrimas para derramar, que Penélope aos poucos se acalmou.

— Desculpa — fungou, ainda agarrada a ele.

— Tudo bem. Tudo bem. — Marcos passou as mãos nas suas costas, tentando lhe acalmar. — Você quer conversar?

— Não.

— Quer lavar o rosto e voltar a dormir?

Ela assentiu, ainda tremendo, e se levantou. Estava usando uma das suas blusas de botões, uma azul que ele tinha dado como perdida na semana anterior. Ele esperou que ela voltasse, sem se levantar da cama.

Penélope evitou o seu olhar quando voltou para o quarto, se deitando no mesmo lugar. Ainda parecia triste, mais triste do que ele jamais tinha visto.

— Fica aqui comigo — pediu, a voz ainda chorosa. Seu rosto estava tão inchado que parecia outra pessoa.

Marcos se deitou ao lado dela, lhe puxando para um abraço. A porta estava fechada, e ele pensou, sem prestar muita atenção, que sairia antes de Giovanna acordar. A única coisa que ele conseguia pensar naquele momento era na mulher na sua frente, que olhava nos seus olhos. Estavam deitados de frente um para o outro.

— Eu tive um caso com Franco...

— Você não precisa me contar — mas ele queria desesperadamente saber.

— Eu quero contar — ela se aproximou mais, as mãos passando nervosamente pelo cabelo dele, mas então mudou de assunto: — Você sabia que...

Ela parou, como se não soubesse como continuar. Como se tivesse tanta coisa para contar que não sabia por onde começar. Era tão familiar, como se ainda fossem dois jovens dividindo a cama e confidências durante a madrugada. Como se o tempo não tivesse mudado nada.

— O que?

Penélope engoliu em seco, lhe encarando, e sua voz era baixa.

— Rodrigo não era filho dele. A minha mãe teve um caso, e então eles fizeram um acordo: se fosse menino, ele assumiria. Mas o Rodrigo não era um menino normal, então ele não quis. Foi o meu pai quem pediu o divórcio, quem não deixou ela ficar com nada. Todo aquele tempo eu achei que ela tinha ficado comigo por birra dele, recusado o dinheiro por orgulho, e para me punir por algum motivo. Mas a realidade foi que ele deixou bem claro que não queria saber de mim, ou do filho bastardo dela. Eu era uma idiota, eu não entendia...

Marcos lhe puxou para outro abraço, beijando seus olhos inchados. Penélope o abraçou, passando as mãos na sua cintura nua como se nunca tivessem deixado de dormir na mesma cama. Mesmo que eles estivessem deitados, com pouca roupa, Marcos não pensava naquilo como algo sexual. Era intimidade, consolo.

"Intimidade é ainda pior", sua mente lhe lembrou. "Se fosse apenas sexo... Mas com ela nunca foi apenas sobre sexo"

— Você não sabia. Era o seu pai, é claro que você confiava nele, especialmente pela maneira como ela te tratava.

— Eu não entendia como ela tinha ficado tão obcecada pelo Rodrigo, tão completamente louca que não me enxergava. Mas... Era o filho dela, né? Um filho que ela sabia que não ia viver muito. Acho que ela só quis tentar salvar ele de algum jeito. Eu não devia ter sido tão difícil.

Os pais de Penélope eram algumas das poucas pessoas que Marcos não se esforçava para defender. O pai, rico e imbecil, e a mãe que passava semanas sem falar com a própria filha. Ele pensava que os dois tinham forjado a filha para cair exatamente no tipo de relacionamento problemático que tinha lhe trazido de volta para o Brasil. Como eles podiam simplesmente não amar a própria filha? Marcos odiava os dois. Tinha detestado os dois quando era namorado, e odiou os dois ainda mais depois que virou pai.

Marcos beijou seu rosto novamente, porque não queria que ela ficasse ainda mais triste se ele falasse o que realmente queria dizer.

— Obrigada.

— Pelo que?

— Por ser você. Por me ouvir. — ela se pressionou mais contra ele, a voz ainda chateada, mas mais sonolenta — Por existir. Eu te amo. Você sabe disso, não sabe? Você deve saber. Eu não posso conversar com ninguém, mas é bom conversar com você.

Notas finais
Não esqueçam de curtir e comentar ♥ ♥ Alguém aí tá duvidando do amor da Penélope? Ou ela tá sendo 100% sincera? Marcos está há 0 dias sem precisar consolar ninguém, o recorde dele é de 0 dias. Quando esse homem vai ter paz??