Férias Do Instituto Gore
5 O que está acontecendo?
Notas iniciais
Nós almoçamos em uma mesa em frente a uma lanchonete. Almoçamos um sanduíche inclusive.
- Desculpe. Eu estou te causando um monte de problemas e te fazendo pagar tudo para mim...
- O que você está dizendo? Se não fosse por você eu nunca teria provado esse lanche e eu acho que é um dos melhores que eu já comi. – Ela acenava com toda sua sinceridade.
Nossa conversa estava fluindo com uma extrema naturalidade e bem discontraída na verdade, sobre as coisas que ocorriam a nosso redor, sem muita profundidade por mais que eu queria muito chegar nesse ponto com ela. Precisava saber mais sobre essa pessoa.
- Por que você está me olhando assim? – Annie então me perguntou. – Será que nos conhecemos antes?
- Antes quando? – Eu perguntei sem entender onde ela queria chegar.
- Sei lá. De vidas passadas, claro.
Por mais louco que aquilo pudesse ser e eu poderia simplesmente considerar alguém que falasse disso para mim ontem como um bêbado inútil, hoje era realmente a única explicação para tudo isso... Até que eu a vi revirar os olhos e empurrar o meu ombro rindo.
- Estou brincando com você. Você estava mesmo levando a sério? Eu só quis dizer que a gente provavelmente veio no mesmo voou. A gente pode ter se visto em outro lugar...
- Ah... Então, você não acredita nessas coisas?
- Claro que não. – Aí seu rosto murchou desfazendo seu sorriso sincero e deixando seus olhos irem para o chão. – Destino... É só besteira. Eu... Eu acho. – Forçou seu sorriso de volta na minha direção fugindo com seus olhos de qualquer ponto fixo.
Então seus olhos pareceram cair sobre algo às minhas costas. Eu os vi naquele mesmo momento marejarem quase que instantaneamente, como eu nem imaginava ser possível. Nisso, eu virei o rosto para trás, tentando ser discreto, nem sei ao menos porquê, mas então vi o que ela olhava, havia um casal na mesa atrás de mim.
Era um casal de idosos, o coroa dava umas frutas na boca da sua senhora.
Annabel encostou a cabeça em sua mão e se debruçou na mesa os olhando.
- Olhe para eles... – Ela disse sonhadora, parecendo a meio passo de chorar, eu não estava entendendo o que estava acontecendo, mas não estava gostando. Aquilo a fazia chorar, não podia ser bom. – Eles devem estar tão felizes. Devem ser extremamente abençoados. Quando a gente vê coisas assim a gente pensa que destino não é besteira. Achar alguém para compartilhar e dividir todas as partes da vida juntos... Mas quando é relacionado a coisas tristes, a gente gostaria que fosse...
Eu ainda a olhava sem entender, eu queria poder fazer alguma coisa. Por mais que eu odiava a ver assim eu precisava que ela continuasse falando, eu precisava entender o que estava lhe acontecendo...
Annie olhou então na minha direção.
- Me ignore. – Ela passou os dedos meio rudemente abaixo dos olhos os secando em um movimento rápido. – Só come seu lanche, ele frio não vai ser mais tão gostoso assim... – Forçou seu sorriso, ela parecia tentar me confortar, mas quem precisava de conforto era ela. Nesse momento eu desejei ter treinado mais esse tipo de coisa, eu não fazia ideia do que dizer para uma pessoa nessa situação. Eu nunca tinha me importado e agora eu precisava desse tipo de experiência social que eu nunca valorizei ou me preocupei de desenvolver...
- Não. Você pode... Falar comigo. Sobre o que você quiser. Annie eu... Quero entender você...
Quando eu terminei de dizer eu via lágrimas saíndo com mais força de seus olhos, ela sacudiu a cabeça. Aquilo tudo parecia estar sendo barrado por uma película tão fina, tão delicada quanto aquela garota era.
Aquelas minhas poucas palavras pareceram o suficiente para arrebentar isso, pelo menos alguma parte daquilo. Ela ainda debruçada sobre a mesa balançava sua cabeça negativamente.
- Eu me odeio. Eu realmente me odeio. A culpa é toda minha. Eu não posso ficar culpando mais ninguém. Por que eu não me cuidei mais? Me tratei melhor? – Sua voz mal saía, suas lágrimas escorriam violentamente. Ela estava desmoronando de novo, mas então parecendo se controlar, ela secou um pouco sua bochecha com as mãos e olhando vagamente para o nada continuou dizendo como se estivesse a conversar consigo mesma. – Talvez assim, eu poderia viver mais. Pelo menos até a ponto de encontrar alguém que eu ame. E poderíamos envelhecer juntos. Viver felizes juntos. Ter uma vida...
Annie agora só olhava para aquele casal, com um sorriso leve, mas extremamente sincero e dolorido no rosto. Eu não sabia o que estava acontecendo ou porque ela estava assim. Mas eu não queria vê-la desse jeito. Cara, eu não queria mesmo vê-la assim. Ela estava mal e eu sentia que tinha algo a ver com aquele casal atrás de mim. Então levantei, peguei sua bolsa na cadeira, peguei em seu ombro me aproximando o mais sutilmente possível dela para dizer baixinho.
- Vamos, Annie. – Eu não tinha muita certeza se aquilo era uma pergunta ou afirmação, mas ela simplesmente veio comigo. Aceitando que eu guiasse pela mão.
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