Férias Do Instituto Gore

6 Por que eu me importo?


Notas iniciais
Algumas revelações :s

Andamos um pouco pela orla da praia, eu estava procurando por um local tranquilo e vazio. Não foi difícil achar um canto mais deserto na praia por aqui, até porque ela não é extremamente lotada.

Queria um lugar onde ela pudesse se sentir a vontade, pudesse falar comigo e pudesse chorar o quanto quisesse, eu não iria me importar e não haveria mais ninguém ao redor para fazê-la se sentir mal ou se reprimir sobre isso.

Havia então um tronco deitado na areia e a gente seguiu e sentou lá.

Eu fiquei olhando para o mar, eu sabia que ela iria se sentir mal se eu olhasse para ela nesse estado. Eu normalmente não ligo para essas coisas, pelo contrário, normalmente eu acho necessário e até mesmo divertido não fugir do olhar das pessoas e muitas vezes leva-las a encarar seu próprio constrangimento. Sempre foi interessante vê-lo surgir e se espalhar por um rosto até o momento da pessoa estar gaguejando na sua frente, sem saber o que dizer. Eu era bom em deixa-los assim. Eu me orgulhava disso. Fracos e lerdos, eram as únicas categorias que eu dava a eles...

Mas nesse único estranho dia que eu me envolvi eu já me vi fazendo pior do que muitos dos que eu menosprezei pelo menor indício de fraqueza na minha frente.

Eu posso ter só dezessete anos, mas eu já tomo conta de mais de 104 marcas e empresas. Não tenho um cargo fixo, eu faço isso por diversão. Sim eu gosto de ir até lá, dar ideias, mudar padrões, fazer reuniões e analisar o pessoal, julgar projetos... Por mais que meu pai me obrigou no início, novos desafios sempre me estimularam.

Agora eu ainda só esperava enquanto a via de relance ao meu lado terminando de enxugar suas lágrimas. Aqui, a coisa mais importante do meu mundo, parecia ver essa garota do meu lado bem. Não importava quais fossem meus padrões, quais eram minhas metas até o momento, agora tudo tinha se tranformado dentro da minha cabeça, para um objetivo aparentemente complexo, mas de extrema importância. Annabel.

A ouvi rir ao meu lado.

- Me desculpe, Alexander. Você me chamou pro almoço e eu nem pude termina-lo. – Sua voz ainda não estava normal, estava meio abafada por causa do seu choro anterior, por mais que continuava tão hipnotizante quanto todo o resto dela.

- Alex. – Eu disse imediatamente depois que ela terminou. – Me chama de Alex.

- Eu também envergonhei você...

O quê?? Eu ri pelo absurdo que foi ouvir isso. Do que ela estava falando exatamente? Uma garota linda, delicada, completamente sincera como ela jamais poderia me envergonhar. Eu sei que é loucura, mas eu sentia que a cada segundo que eu passava a seu lado, eu a conhecia como se tivesse se passado um ano inteiro.

- Você não está falando sério... Aquilo não foi nada, você não tem que se preocupar com isso. – Ela permaneceu quieta, eu não tinha certeza se ela entendeu ou acreditou... – Nunca, Annie. Isso é simplesmente impossível. – Olhei para ela de lado e sorri em sua direção. – Se quiser só chorar ou falar comigo do que está acontecendo... Eu estarei aqui para ouvir.

Percebi a garota ao meu lado abaixar o rosto, o escorrando em seus joelhos, entre suas pernas. Então além do choro, sua voz estava ainda mais abafada agora, mas felizmente para mim, ela aceitou conversar comigo. Começou a dizer:

- Agora, eu tenho 21 anos. Mesmo que meu aniversário seja amanhã eu só chegarei a ter 22. Eu não deveria ter um aniversário perfeito e um belo futuro? – Ela perguntou muito baixinho, eu mal pude ouvir, eu sabia que aquela pergunta era para si mesma, ela nem chegava a olhar para mim com sua cabeça ainda enterrada.

Foi quando ela voltou a se erguer e seus olhos estavam vermelhos de chorar:

- Eu já tinha pensado como seria meu futuro. – Ela riu sem achar realmente qualquer graça. – Eu construiria minha profissão até os 25. Aos 28 eu já estaria estabilizada e encontraria o amor da minha vida. Eu iria encontrar um amor de verdade, sabe?

Ela me olhou por meio segundo, antes de voltar-se para o mar novamente.

- Como os meus pais. Nós viveríamos juntos e felizes, porque amaríamos um ao outro e ainda que tivessemos que lutar todo o dia, a gente não iria se importar, porque seríamos felizes e nos daríamos muito bem. Aos 30 a gente teria nosso primeiro filho e eu queria pelo menos mais três deles. – Nesse momento ela sorriu, largamente e eu pude ver sinceridade ali. Sem eu sequer ter percebido, minha mão estava nas suas costas, eu tentava conforta-la como eu podia, eu a estava vendo chorar tantas vezes em um só dia e isso simplesmente estava macerando meu coração.

Por que eu estava sofrendo nesse exato momento? Por que estava doendo internamente? Em mim?! E eu ainda queria ficar ao lado de Annie...

Eu nunca me importei com esse tipo de vidinha medíocre, por que exatamente eu estava me importando tanto com essa história dela? Senti que uma lágrima desceria do meu rosto a qualquer momento e eu me forcei a não deixa-la sair.

- Eu acredito que eu seria uma boa mãe. Eu iria vê-los crescer a cada dia. Eu brincaria e jogaria com eles. – Eu a via de perfil nesse momento, ela parecia simplesmente frágil e delicada enquanto contorcia suas mãos, uma na outra com pura ansiedade olhando o nada no horizonte.

Eu era bom em diagnosticar o sentimento nas pessoas, a partir de seus atos e expressões, talvez isso deixasse tudo ainda pior. Porque eu percebia o amor nela ao falar aquilo, percebia o quão primordial e importante tudo isso era para ela.

- Isso que deve ser como minha vida tem que ser. – Então ela enterrou seu rosto entre as pernas e braços de novo. – Então por quê? Por que eu tenho que ter esse tumor?

Minha mão saiu das costas dela naquele instante como se eu tivesse levado um choque.

Câncer? Era isso então? Ela não estava falando sério. Não podia estar falando sério.

- Isso que você está dizendo é verdade? – Eu perguntei durante a negação na minha cabeça.

Eu não podia, não queria acreditar que todo esse planejamento dela lhe seria negado de verdade, onde ela nem poderia ter a chance de tentar realizar seus sonhos...

Esse tipo de coisa nunca pareceu tão real e tão triste. Isso só poderia ser pegadinha de alguém... Olhei ao redor por meio segundo. Não importa, mesmo que não fosse real ou mesmo que seja, eu queria essa garota, com tudo que ela trouxer com ela. Eu lutaria com ela pelos seus sonhos, contra seus obstáculos, pelo tempo que ela ainda tivesse... O que eu sem dúvida também faria ser o maior possível.

- Eu queria tanto que tudo isso fosse falso. – Eu a vi resmungar olhando para o céu. Annabel se levantou e caminhou em direção a água, antes de gritar: — Deus! Por que está fazendo isso comigo? Eu trabalhei, eu me esforcei tanto no meu trabalho! Eu nunca fiz mal para ninguém! Por que você só está me dando seis meses de vida?!

Eu levantei sem saber o que deveria fazer, eu precisava fazer alguma coisa, não por ela, ela estava desabafando. Mas precisava fazer algo por mim, tudo aquilo estava acabando comigo, nunca me senti tão mal. Eu realmente podia acreditar no que ela dizia, não podia imaginar Annabel sendo má nem com uma formiga... E tanta gente que merece muito mais esse tipo de coisa que ela está passando, até mesmo eu, sem dúvida eu... Ficando vivo tanto mais tempo. Que tipo de justiça existe nesse mundo?

Fui andando o mais lentamente possível atrás dela, sem querer me aproximar demais, mas também sem querer manter qualquer distância de verdade daquele ser. Eu ia mantê-la comigo, o que eu pudesse fazer por ela, já tinha passado a ser mais do que minha obrigação fazer.

- Por quê?! O que exatamente eu fiz de errado? – Ela gritou aos céus fracamente dessa vez, se deixando dominar pelas lágrimas de novo. Peguei em seu ombro.

- Seis meses Annie?

- Tudo é tão tarde para mim. Eu não tenho tempo de fazer nada, nada do que eu quero. Eu desperdicei tudo que eu tive... Não tenho tempo de me apaixonar, não tenho tempo de me casar, de ter meus três filhos, de ter uma vida...

— Não. Você deve poder. Deve ter um jeito...

- Não minta para mim! – Ela gritou mais para a minha voz, sem sequer me olhar. – Quem iria se casar com uma mulher que vai morrer em breve?!

- Eu. – Disse por impulso. Ela olhou para mim e por um instante vi seus olhos brilharem, até ela parecer se desiludir achando perceber que eu não estivesse falando sério. Não gostei daquela perda de brilho, segurei seus braços a virando de frente para mim. – Vamos nos casar. Annabel, pense nisso.

Ela me olhava agora, parecendo sem força para sequer se dar ao trabalho de tentar sustentar meu olhar.

- Você é um cara legal. – Ela disse fracamente sem se mover. Depois me lançou seu sutil sorriso, que mais parecia ser destinado ao nada que ela encarava. Ela estava sem foco, ela estava mal e eu me sentia 100 vezes pior por isso. Soltei seus braços. Peguei na sua mão e a guiei de volta pro hotel.