Fé E Pecado
24 Capítulo 23 - Itália aqui vou eu!
Notas iniciais
Algum telefone tocava, mas eu rezava para que parasse rapidamente. Minha cabeça doía tanto que esse toque já estava me infernizando. Abri os olhos e me senti um pouco tonto. Tentei me levantar, mas a vertigem fez com que eu tombasse de novo na cama. Tateando, peguei o celular sobre a cabeceira da cama.
Número privado.
-Alô? – Atendi meio grogue, minha voz estava muito embolada.
-Padre Edward, por favor. – Uma voz grave falou do outro lado da linha.
-Sou eu, quem é? – Perguntei tentando me levantar novamente, só que um pouco mais lentamente e me apoiando na cama.
-Dom Aro. – Falou num tom solene. – Onde está? Estou te esperando há quase uma hora...
Merda!
-Ah, bom dia bispo. – Cumprimentei-o pondo minha mão na cabeça. – Eu tive que ir... Resolver um problema, mas já estou indo para aí. – Inventei uma desculpa.
-Tudo bem, mas não demore. – Disse sério. – Eu não tenho o dia inteiro.
-Tá, tchau. – Desliguei e joguei o celular na cama.
Como eu poderia ter me esquecido da chegada dele?!
Levantei-me abruptamente e vesti-me às pressas. Eu não me lembrava de muita coisa da noite passada, mas eu deveria ter passado a noite aqui com Bella, pelo meu estado e o fato de que eu não estava usando roupa alguma.
O que eu não entendia era por que ela já tinha ido embora, sem sequer se despedir, ou me acordar. Eu não quis pensar muito sobre o assunto, pois minha cabeça doía muito. Fui direto para o carro e a toda velocidade, voltei ao colégio.
-Bom, pelo menos, tudo se resolverá. – Murmurei comigo mesmo.
Eu aproveitaria a vinda de Dom Aro para pedir meu afastamento da igreja. Ele morava na Itália e seria meio caminho andado para que meu pedido chegasse ao Vaticano. Depois disso, eu estaria livre para ficar com Bella em paz e Tanya não poderia nos chantagear mais.
Cheguei em, aproximadamente, vinte minutos. Dom Aro já me esperava no saguão, com sua postura altiva e severa de sempre. Rezei para não aparentar o desastre humano que eu estava me sentindo por dentro, quando me aproximei:
-Olá, Dom Aro. Como foi a viagem? – Forcei meus lábios a sorrirem, mesmo que minha vontade era gemer por causa da dor na cabeça.
-Cansativa, como sempre. – Disse seco, olhando-me de cima abaixo. – Costuma sair à paisana? – Seu tom desaprovador era evidente. Ele começou a andar e eu o segui.
-Não, mas eu tive que resolver um problema pessoal. – Disse engolindo a seco.
Ele me lançou um olhar incisivo, como se dissesse que aquilo não era desculpa. Respirei fundo e tentei me lembrar de todo o discurso que eu já tinha preparado para sua chegada:
-Dom Aro, eu... – Comecei, mas ele me interrompeu.
-O assunto a que eu vim tratar com você é mais urgente do que suas frivolidades. – Falou austero. – O Vaticano está convocando padres para uma missão e eu quero que você se apresente. – Ele disse de uma maneira que eu sabia que eu não tinha escolha.
-Era sobre isso que eu queria falar... – Murmurei olhando para baixo.
-Você vai me desobedecer? – Perguntou em descrença. – Eu sou seu superior, rapaz insolente.
-Não, eu sei... E é por isso que quero conversar com o senhor sobre uma coisa. – Falei, mas parei quando vi Alice, vindo à nossa direção com uma expressão desolada. – O senhor me dá um segundo? – Pedi e ele assentiu contrariado. Fui até ela e perguntei: — O que foi, Ally?
-A Bella. – Murmurou fungando. Pelo seu tom fúnebre até pensei o pior.
-O que foi, aconteceu alguma coisa com ela? – Perguntei preocupado.
-Você ainda pergunta? – Perguntou incrédula. – Depois de tudo que aconteceu ontem... Ela foi embora.
-Ãh, como assim? –Perguntei confuso.
-Ela. Foi. Embora. – Disse pontuando cada palavra, ela parecia estar com raiva de mim. – Entendeu agora, ou quer que eu desenhe?
-Entendi, mas não entendi o porquê, ela disse o motivo? – Falei sofrido, sentindo agora uma dor inenarrável no peito.
-Nossa! Você não se lembra? – Perguntou irônica, mas quando percebeu que eu não sabia mesmo, ela falou: — Você a traiu com Tanya e ela assistiu tudo de camarote!
-Mentira! Como eu a traí, se eu não me lembro? –Perguntei confuso.
-Eu não sei, mas você fez. Eu sei, pois estava lá. – Garantiu-me. – Se quiser ver, está tudo gravado.
-Tudo bem... – Assenti. – Tem alguma coisa muito estranha nessa história. – Disse pensativo. – Será que ainda alcanço Bella? – Perguntei esperançoso. – Ela tem que acreditar em mim!
-Duvido. Ela estava muito ferida, disse que nunca mais queria ver você... E ela já deve estar no avião, pelo tempo. – Falou olhando para o relógio em seu pulso.
Eu assenti, não por concordar, mas por que eu não sabia mais o que fazer. Resignado, fui aonde deixei o bispo, porém ele não estava mais lá, invés dele, Tanya me olhava contente.
-Ele foi para o seu escritório. – Ela avisou-me apontando o caminho. – Já soube das novas? – Perguntou-me com um sorriso vitorioso no rosto que me repugnou a natureza.
-Sei e também sei que a culpa foi sua. – Acusei com ódio em meus olhos.
-Minha? – Se fez de inocente. –Pelo que eu saiba, nós fizemos. A culpa não é só minha, meu amor.
-Não me chame de “meu amor”, sua vadia! – Ruminei. – Você fez alguma coisa comigo ontem, eu tenho certeza. Eu jamais faria uma coisa dessas com Bella. Eu a amo.
Ela bufou.
-Ama nada, pois senão não teria feito o que fez comigo. – Revirou os olhos.
Eu segurei seu braço com força, eu pouco me importava se estava a machucando. Meus olhos deviam estar trasbordando de cólera, pois vi que ela estava ficando com medo. Escolhi bem as palavras e as pronunciei bem lentamente, para ver se ela entendia de uma vez por todas:
-Eu não te quero, eu nunca te quis. Na verdade, eu tenho até nojo de você. Eu amo Bella e você não conseguirá destruir esse sentimento com seus planinhos infantis. – Ela se encolheu e eu continuei: — Você venceu agora. Bella foi embora. Parabéns. Ela provavelmente não vai querer me ver por um bom tempo, mas eu tenho paciência. Sei que algum dia, ela me escutará... Nosso amor é grande o suficiente para superar essa crise... Eu só vou esperar essa poeira baixar para agir. Você está muito enganada se acha que eu vou ficar de braços cruzados depois de tudo... E ficar com você, então? – Bufei. – Eu prefiro continuar padre por toda eternidade a passar um dia com você. Se Bella não ficar comigo, você muito menos.
Soltei-a e ela cambaleou alguns passos para trás. Eu sequer fiquei para escutá-la dizer:
-Eu não vou deixar isso barato! – Prometeu enfurecida. – Você vai se arrepender amargamente por ter sido tão grosso comigo... Ah, vai!
Eu revirei os olhos. Essa garota era apenas um ser miseravelmente infeliz, que se satisfazia com as desgraças das pessoas. Eu nem me dignaria a tentar me vingar dela, pois ela não valia à pena tanto esforço... Agora eu tinha que pensar num modo de conseguir com que Bella me ouvisse. Eu sabia que teria que lhe dar algum tempo para que ela digerisse toda sua raiva, pois ela agora, não daria o mínimo crédito em nada que eu dissesse.
Fui até minha sala e no caminho, deixei que lágrimas rolassem pelo meu rosto. Quando abri a porta, escondi todo o meu sofrimento e entrei. Mas mesmo assim, Aro percebeu meu olhar abatido e perguntou:
-O que você queria me dizer?
Respirei fundo e disse:
-Quero largar a batina, eu não desejo mais ser padre. –Seus olhos se arregalaram.
-Posso saber o motivo? – Perguntou-me sério. – Não me diga que é por causa de uma moçoila qualquer...
-Bella não é uma moçoila qualquer! – Exclamei irritado.
-Hum... Então é pior do que eu imaginava. – Murmurou pensativo. — Está mesmo apaixonado?
Eu assenti.
-Está decidido a largar a vida cristã para seguir o caminho da perdição? – Abstrai o seu tom extremamente desaprovador.
-Se isso quer dizer que eu irei passar o resto da minha vida ao lado dela, sim. – Falei categórico.
-Então, tenho uma proposta pra você. – Disse-me e eu esperei que continuasse: – Se você aceitar a convocação do Vaticano, assim que voltar eu te libero do sacramento.
-Sério? – Perguntei esperançoso.
-Sim, mas você terá que ir à Itália, imediatamente. – Explicou-me. -Depois que completar a missão, estará livre para ficar com a tal moça... Bella. Aceita?
-Aceito! – Disse prontamente o abraçando feliz, mesmo que isso fosse contra os bons costumes.
-Então, arrume as malas, pois você viajará comigo essa noite. – Avisou-me já se retirando.
Despenquei numa cadeira qualquer e pus o rosto nas mãos. Ir a Itália agora não estava em meus planos, mas esse era o único modo de Dom Aro me liberar sem toda aquela burocracia que poderia se arrastar por anos. E também, isso me daria o tempo que preciso afastado de Bella... E de Tanya.
Itália aqui vou eu!
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