Full Moon
43 Vi(c)tória!
Notas iniciais

"Nunca pensei muito em como iria morrer, mas morrer no lugar de alguém que eu amo me parece uma boa maneira de partir."
Bella Swan, Crepúsculo
O clima quente e agradável não se repetiu no dia seguinte. Pelo contrário; o céu estava cinza, a floresta e os penhascos estavam cobertos de neblina, e — não sei dizer se por conta da ausência de Jacob, ou pelo medo que sentia — o dia parecia estar mais frio do que o normal.
Por mais que tentassem, as meninas já não conseguiam mais esconder que também estavam ansiosas e preocupadas com os possíveis resultados dos eventos que ocorreriam naquele dia. Era evidente que elas, assim como eu, sentiam — quase que fisicamente — a falta dos meninos.
Espiei pela janela da cozinha Seth, em sua forma de lobo, deitado perto da casa. Seus olhos estavam fechados, porém, suas orelhas estavam em pé, deixando claro que estava completamente alerta aos sons ao redor enquanto concentrado na conexão mental com os meninos.
Passei pela porta da varanda — ficar dentro da casa estava me fazendo sentir claustrofobia -, e sentei ao seu lado, no chão. A única indicação de que havia percebido minha presença foi uma leve tremida em suas orelhas quando abracei os joelhos junto ao corpo.
O calor exalado por ele me fez pensar em Jacob, e no olhar em seu rosto quando me deixou na casa de Emily, mais cedo, naquela manhã. Seus olhos, que normalmente exibiam um brilho de humor, expunham sua preocupação; O sorriso em seu rosto, percebi, servia mais para tentar acalmar a nós dois, do que para explanar suas verdadeiras emoções.
Ficamos abraçados em frente à varanda por um bom tempo. Minhas mãos tremiam, mas sabia que não podia demonstrar o real pavor que sentia, para não deixá-lo ainda mais preocupado, e atrapalhá-lo de alguma forma. Tudo estava indo bem, e tudo iria sair conforme o planejado.
Era o que eu esperava.
Lembrei de como, na hora de ir, o esforço para nos desvencilharmos um do outro foi tão grande, que Embry teve que — quase literalmente — puxar Jacob para longe de mim.
“Te vejo mais tarde, amor.” garantiu, depositando um último beijo em meus lábios, seguido por um em minha testa, antes de ser arrastado até a orla da floresta.
“Te vejo mais tarde, Jake.” Suspirei; minhas palavras soando mais como uma súplica do que como um “até logo”. Não havia outra opção. Não existia universo paralelo em que a possibilidade de ele não voltar era real.
Em algumas horas, quando tudo acabasse, ele teria de estar lá.
Pelo último olhar que me lançou, antes de desaparecer, eu soube que ele havia entendido.
Agora, aquela lembrança apenas fazia meu coração apertar ainda mais, ali sentada na grama molhada ao lado de um Seth praticamente imóvel.
Pelo menos, pensei observando como o lobo estava concentrado, tenho como saber caso algo aconteça.
Por um momento, imaginei que Seth tivesse lido meus pensamentos, pois no segundo seguinte, seus olhos se abriram de supetão, encarando diretamente aos meus. Ele rosnou baixinho, claramente reagindo a algo que não acontecia ali. Abri a boca para perguntar o que estava acontecendo, mas me segurei. Ele não iria me responder, de qualquer forma; tudo o que eu podia fazer era assistir suas reações, e esperar que aquilo — de alguma forma — fosse o suficiente para entender se estavam bem.
Seth se sentou, e pude ver os músculos do seu corpo se retesando, como se estivesse se tensionando na preparação para algo.
Havia chegado a hora.
Me levantei, sabendo que seria impossível ficar parada por mais tempo — as unhas que tinham sido tão bem feitas no outro dia, seriam destruídas em poucos segundos -. Decidi, então, andar de um lado para o outro em frente a Seth — que tinha o olhar desfocado, vendo algo longe dali -, para aliviar a tensão.
Assisti o lobo se remexer inquieto, reagindo ao que ouvia em sua mente, e qualquer que fosse o plano dos lobos, apesar de Seth estar inquieto, não parecia estar dando errado. Eu só podia rezar para que tudo seguisse do jeito que haviam planejado.
Imaginei que, naquele momento, os lobos e os Cullen estivessem correndo pela floresta, em algum lugar a quilômetros dali, tentando finalmente acabar com aquela novela que a vingança de Victoria havia se tornado. Imaginei Jacob correndo tão rápido que eu, uma mera humana, não poderia vê-lo.
Um movimento repentino em minha frente tirou-me de meus pensamentos, e me trouxe de volta a realidade. Seth havia se levantado e começado a rosnar, encarando a floresta com os olhos cerrados.
Eu congelei.
O mau pressentimento que sentia em meu âmbito se espalhou pelo resto do corpo, fazendo minhas mãos começarem a tremer ainda mais. Eu podia sentir meu coração bater forte em meus ouvidos.
Seth prestava atenção no que quer que estivesse vendo em sua mente, enquanto eu tentava desesperadamente captar algum sinal em sua expressão que me dissesse que algo estava dando errado, ou que alguém havia se machucado.
Olhei por cima do ombro pela porta da varanda, e notei que todas ainda continuavam com os afazeres que haviam escolhido para distrair a mente.
“Seth?” Minha voz, apesar de ter falhado, saiu calma, tentando não deixar transparecer meu desespero.
Um arrepio percorreu seu corpo, antes de virar-se para mim. Ele tinha os olhos arregalados, como se tivesse esquecido que eu estava parada ao seu lado, e soltou um ganido que quase literalmente me fez sentir dor no peito. Não havia dúvida alguma. Algo havia dado muito errado.
Seth virou a cabeça para a direita abruptamente, onde a floresta levava à linha do tratado, e imediatamente seu corpo ficou ainda mais tenso. A cabeça do lobo gigante se abaixou quase até tocar o chão, e ele começou a andar lentamente até a orla, rosnando levemente, como se estivesse se preparando para atacar alguma coisa.
Alguma coisa que vinha em nossa direção.
Engoli em seco, sentindo, por um momento, meu corpo completamente sem forças.
E então Seth olhou para mim pelo canto do olho, e seu olhar não deixou dúvida alguma de que estávamos em perigo.
Quando imaginei que algo daquele tipo poderia acontecer, pensei que minha reação seria entrar em estado de choque e congelar; Imaginei que não conseguiria fazer nada além de entrar em desespero e fazer algo idiota, como correr.
Mas, no breve segundo em que os olhos desesperados de Seth encontraram os meus, tive um momento de clareza. Era como se soubesse desde o início o que teria de fazer.
Sem pensar duas vezes, corri para a casa, passando pela porta da varanda e, em seguida pela da cozinha, trancando-a às minhas costas. Passei a chave por baixo da porta, para que, assim que fosse seguro, um dos meninos pudesse abri-la pelo lado de fora.
Corri em direção à sala de estar, onde todas as meninas se encontravam, sentindo meu coração bater mais forte a cada passo que dava. Não foi necessário chamar a atenção das meninas; o pânico que sentia naquele momento devia estar estampado em meu rosto.
“Bella, o que está acontecendo? Onde está Seth?” Questionou Sue, imediatamente preocupada com seu filho.
“Lá fora; algo deu errado. Acho que ela conseguiu passar por eles.” Expliquei de uma só vez, quase me embolando enquanto falava. “Precisamos ficar juntas! Emily, podemos usar seu quarto?”
Enquanto falava, eu as virava, tentando cercar a todas e levá-las em direção às escadas para que subissem até o segundo andar — onde se encontrava o quarto de Sam e Emily — sem nem esperar por sua aprovação.
Emily tentou me questionar, mas não lhe dei chances. Eu era uma péssima mentirosa, e não podia arriscar que ela hesitasse. Apressei todas para que subissem o mais depressa possível.
Assim que pisaram no cômodo, antes mesmo que pudessem fazer mais alguma pergunta, retirei a chave da porta e saí pela mesma, trancando-a atrás de mim. As reações foram imediatas:
“Bella, o que pensa que está fazendo?!”
“Isabella Swan abra esta porta agora mesmo.”
“Bella, por favor.”
“Me desculpem, mas vocês precisam ficar em segurança.” respondi; minha voz tremendo contra a minha vontade, enquanto terminava de girar a chave. Respirei profundamente enquanto ouvia as batidas na porta atrás de mim, e as súplicas para que abrisse e não fizesse seja lá o que estivesse pensando em fazer.
Quando voltei ao primeiro andar, ainda podia ouvir os punhos batendo contra a porta; suas vozes abafadas.
Sabia que aquilo não seguraria Victoria de maneira alguma, mas aquela não era a minha intenção. Elas estavam no segundo andar; dificilmente conseguiriam sair pelas janelas, e, mesmo que Emily tivesse uma outra chave para a porta, torci para que levasse tempo suficiente para achá-la, permitindo que eu me afastasse e fizesse com que Victoria captasse meu cheiro na brisa forte que percorria o ar.
Atraí-la até mim era a coisa mais idiota que poderia fazer naquele momento, mas se isso a desviasse do caminho da casa de Emily, eu não me importava.
Não iria deixar que Victoria chegasse perto delas.
Passei pela porta da frente, trancando atrás de mim, assim como fiz com a da cozinha, e corri em direção a floresta, na direção oposta à que Seth se encontrava. Eu queria também evitar que Victoria entrasse em um embate com ele. Talvez… Talvez, se eu estivesse longe o suficiente, conseguiria fazer com que sua única vítima fosse eu.
Queria acreditar que ter meu sangue em suas mãos seria o suficiente para que fosse embora e deixasse a todos que eu amava em paz. Que minha morte servisse de moeda de troca pela vida deles.
Levantei do chão forrado de galhos e folhas, depois de tropeçar enquanto tentava correr pela floresta. Senti minha calça esquentar, e tive certeza de que os machucados em meus joelhos foram reabertos com aquele tombo. Meus pulmões doíam com o esforço de respiração durante a corrida, mas me forcei a continuar correndo para o mais longe possível, ainda que minha visão estivesse começando a ficar turva, e minhas pernas falhassem.
Não pude evitar olhar por cima dos ombros, procurando sinais dos seus cabelos de fogo, mesmo sabendo que, qualquer sinal deles seria a garantia de minha morte.
Uma risada de sinos ecoando pelas árvores foi o que me fez parar de correr. Senti os pelos em minha nuca arrepiarem e um calafrio subir por minha espinha, enquanto o suor escorria em minhas costas.
Todas as células do meu corpo gritavam que aquele era o meu fim.
“Te achei.” ela ronronou no pé do meu ouvido. Eu me virei de uma só vez, e a visão de seu rosto pálido e cabelos vermelhos preencheram minha visão. “Para uma humana, você até que deu trabalho, Isabella Swan.”
“Victória.”
“Por que a cara de surpresa? Pensou que eu não viria?” Ela riu, dando passos lentos em minha direção. A cada passo seu para frente, eu dava um para trás. Ela não pareceu se importar com a nossa “dança”, e continuou falando. “Você pôde se esconder atrás dos Cullens e de um bando de cachorros, mas nunca poderia parar o que é, afinal, inevitável.”
“Você não tem que fazer isso.” Disse, quase tropeçando em um galho enquanto andava para trás. “Você quer se vingar do Edward, mas não estamos mais juntos. Ele me deixou. Não fará diferença alguma pra ele.”
Ela estalou a língua, me calando. “Se não fizesse diferença, por que ele ainda está tentando me parar? De qualquer maneira, é apenas justo. Um parceiro por um parceiro — ou ex. Nada pessoal.”
Ela parou, deixando claro que a nossa dança havia chegado ao fim. O tempo para conversa havia acabado.
No segundo em que eu pensei que iria morrer, um vulto passou bem em frente aos meus olhos, em direção a Victoria. O lobo gigante, cor de areia, se posicionou do outro lado da pequena clareira, rosnando alto e mostrando os dentes para a vampira.
Minha cabeça foi inundada por um turbilhão de pensamentos, que pareciam rodar a cem quilômetros por hora. Não era para ele estar ali; ele deveria estar garantindo a segurança de todas as outras, e não a minha. Ao mesmo tempo, porém, não pude deixar de me sentir grata ao imaginar que, talvez, nós dois conseguíssemos distraí-la por tempo suficiente até os outros chegarem.
Seth rosnou novamente, porém, desta vez olhava em minha direção. Não precisava ser um telepata, ou um dos lobos, para saber o que se passava por sua mente. Ele queria que eu corresse.
Victória pareceu perceber nossa pequena troca de olhares antes mesmo que eu pudesse pensar em mover um músculo, pois, quando Seth avançou em sua direção, ela me arremessou com facilidade para trás, fazendo com que eu atingisse uma árvore com toda força.
A batida tirou meu fôlego imediatamente, e eu não sabia se o estalo que ouvi havia vindo da árvore, ou de meus ossos se partindo. Eu vi estrelas, por um momento confusa, sem conseguir diferenciar o céu da terra.
Uma pontada incessante em minhas costas me impossibilitava de conseguir recuperar o ar. Fiquei no chão, completamente desnorteada, pelo que me pareceu uma eternidade.
Se a dor não me cegasse, conseguiria ver a batalha entre Seth e Victoria acontecer não muito longe de mim. Podia ouvir rosnados, baques e galhos se partindo por todos os lados.
Foi um ganido mais alto de Seth que me fez sair do meu estupor. Me forcei a abrir os olhos e tentar enxergar alguma coisa; garantir que Seth estava bem. Minha visão girava, como se o chão tivesse ganhando vida, e eu soube que eu tinha também uma contusão.
Outra risada soou pela floresta, seguida de um baque forte. Forcei meus olhos a focar nos vultos à minha frente, e, tirando forças do fundo de meu âmago, me apoiei em pernas e braços, antes de conseguir levantar totalmente.
O que vi quando finalmente consegui me estabilizar sobre os pés fez meu estômago afundar. O lindo pelo cor de areia de Seth estava manchado de vermelho. Ele se levantava com dificuldade, com a pata dianteira recuada, definitivamente quebrada, enquanto Victoria o rodeava com um grande sorriso no rosto.
"Que foi, lobinho? Já está cansado?" Ela riu, se divertindo "Não me surpreende. Claramente, é o mais fraco de todos."
Victoria estava ganhando. O modo elegante de seu andar deixava claro que Seth não havia conseguido ao menos arranhá-la.
Ambos pareciam completamente alheios a mim.
"Nem posso dizer que acabar com você vai ser um desafio… está mais para tirar doce de uma criança. " ela provocou, sorrindo abertamente. "Como se sente sabendo que falhou em protegê-la? Como se sente, sabendo que é tão fraco que nem conseguiu ganhar tempo pros outros cães chegarem?"
Seth rosnou, seu corpo todo se retesando mais com cada palavra que a Victoria cuspia. Ela o provocava, tentando fazer com que perdesse o foco, e parecia que estava conseguindo. Seth era o mais novo do bando; sua inexperiência havia sido o fato principal na escolha de deixá-lo fora da linha de frente da caçada.
Victoria parecia tê-lo lido como um livro aberto. Ela era experiente; havia, de algum modo, burlado o plano tão bem preparado de todos, e me encontrado facilmente, apenas com seu instinto. Eu sabia, mesmo que não quisesse admitir, que Seth não seria páreo para ela.
E eu não podia simplesmente ficar ali sem fazer nada, apenas assistindo enquanto ele perdia a vida por minha causa.
Havia muito pouco que pudesse fazer para ajudá-lo, e todas as minhas opções pareciam muito burras e frívolas. Eu era, afinal, uma humana, sem qualquer poder ou vantagem. Era como se eu fosse apenas uma formiga em comparação a ela; Se quisesse — e queria -, seria capaz de acabar comigo com apenas um movimento.
Eu havia quebrado alguns ossos e mal conseguia respirar depois que apenas um empurrãozinho me fez atingir aquela árvore.
Lembrei da terceira esposa, que Billy havia mencionado na fogueira. Ela também era apenas humana, sem poderes sobrenaturais, mas havia levantado e feito alguma coisa mesmo assim; não havia ficado parada esperando ser protegida.
Enquanto tentava pensar em algo que pudesse ajudar, vi o mesmo velho que vira na loja, parado a alguns metros de distância. Ele tinha um olhar tranquilo no rosto, enquanto me encarava.
Seth avançou novamente na direção de Victoria, e eu me forcei a me mexer. Desesperada, busquei aos arredores algo que pudesse, de alguma forma milagrosa, ajudá-lo. Olhando para a orla da clareira, uma luz pareceu acender em minha mente, quase como se iluminasse aquele ponto em específico.
Uma pedra estranhamente afiada me chamou a atenção. Seu formato era parecidíssimo com a cabeça de uma flecha, como se de propósito.
Mas te lembre: A mais afiada nem sempre ‘tá entre as árvores.
Com dificuldade, me abaixei para pegá-la, observando seu formato estranho, e cantos extremamente afiados. Prendi a respiração enquanto as palavras do velho ecoavam em minha mente. Não era possível que falava daquilo, era?
Com olhos arregalados, levantei o olhar da pedra em minha mão para o velho, que ainda me encarava. Todos os sons ao meu redor agora soavam abafados. Ele me lançou um pequeno sorriso, com um leve brilho em seu olhar.
“Cachorro nojento, você está começando a me irritar.” gritou Victória, depois de Seth empurrá-la, quase arrancando-lhe o braço no processo. A fúria em sua voz parecia ter se multiplicado cem vezes desde a última vez em que a ouvi.
Baixei o olhar para a pedra em minha mão novamente… E entendi.
Se ‘ocê quer mesmo ficar, vai ter que desistir de novo.
Olhei para o velho novamente; ele continuava no mesmo lugar. Desta vez, porém, assentiu. Suas palavras soaram em minha mente, claras como a neve.
Vai ter que desistir de novo.
Um sentimento de calmaria tomou minha mente; tão forte que nem senti dor quando a pedra afiada rasgou a pele de meu braço, liberando um forte e imediato jorro de sangue para fora de meu corpo.
Aquilo pareceu funcionar. Victória — que tinha um dos braços completamente ao redor do pescoço de Seth, pronta para quebrá-lo — soltou-o imediatamente, fazendo-o cair no chão com um baque surdo, e um ganido.
Seus olhos vermelhos se tornaram a única coisa que eu via; Seu olhar pareceu atravessar minha alma, e a temperatura ao meu redor caiu drasticamente. Seus lábios se repuxaram, deixando à mostra seus dentes afiados; deixando claro que ela estava fora de controle. Edward havia me dito, uma vez, que quando um vampiro sente o cheiro de sangue e entra naquele estado de frenesi, há pouco que o faça parar.
Por um segundo, eu me senti grata por conseguir, pelo menos, tirar sua atenção de Seth. Assim que Victoria provasse meu sangue, não conseguiria parar até eu estar morta e, até lá, Jacob e os outros já teriam chegado para ajudá-lo.
Em menos de um segundo, eu estava sendo empurrada contra a árvore, enquanto ela mantinha uma mão em meu pescoço, apertando com o que eu sabia não ser nem um porcento da força que ela tinha, mas que impedia o fluxo de ar facilmente.
“Devo admitir, Bella, que não esperava tal ato vindo de você.” cuspiu, com um sorriso quase que zombeteiro no rosto. “Sempre se escondendo atrás de um de seus guarda-costas e, agora, quem diria, a protegida, virou a protetora.”
“Antes eu do que algum deles.” sussurrei com o pouco ar que me restou.
Pontos escuros começavam a tomar minha visão. A pontada em minhas costas — causada pelo choque com a árvore, mais cedo — voltou com toda força. Parecia que eu estava sendo perfurada por dentro enquanto sangue escorria do corte profundo em meu braço, pingando no chão sem parar.
Cada gota que atingia as folhas aos nossos pés parecia fazer um barulho tremendo, como se tudo ao nosso redor estivesse silenciado. Imaginei estar delirando, mas poderia jurar — naquele momento — que a terra parecia tremer levemente, cada vez que uma delas a atingia.
Tentei arrancar a sua mão do meu pescoço, me debatendo para sair de seu aperto de aço, mas em vão. Na verdade, apenas parecia dar a ela mais prazer, enquanto assistia, com um sorriso presunçoso, minha vida se esvair por suas mãos.
Mas eu não queria morrer. Queria voltar para os braços de Jacob, como havíamos combinado. Queria jantar peixe frito com Charlie de novo, e conversar com Angela durante o intervalo entre as aulas; Queria me formar em uma faculdade e trabalhar em algo que eu realmente gostasse; me casar e ter filhos…
Minha visão escureceu ainda mais, e eu já não tinha forças em meus braços ou pernas.
Aquele era o meu fim.
"Adeus, Bella." cuspiu Victoria, se aproximando para me morder.
Foi de repente.
Em um segundo, dentes afiados estavam a apenas alguns centímetros de meu rosto; seus olhos vermelhos encaravam os meus com as pupilas dilatadas, e sua expressão era como a de um louco obsessivo, salivando pela refeição deliciosa que estava prestes a saborear; no segundo seguinte, dois pares de dentes afiados se fecharam ao seu redor, vindos de lados diferentes, e a despedaçaram, jogando-a para longe de mim.
Caí no chão com um baque, sentindo como se facas perfurassem meu peito, causando uma dor insuportável. Tossindo incontrolavelmente, tentei puxar o ar e recuperar um pouco do meu fôlego, mas o sangue que invadia a minha boca só me fez engasgar ainda mais.
Em meu pescoço, um pedaço do que um dia fora a mão de Victória jazia ainda apertando minha traquéia; levantei minha mão ensanguentada e arranquei-o de lá, sentindo alívio quando o frio do mármore não estava mais em contato com a minha pele.
Eu tinha noção de que o tempo estava passando cada vez mais devagar.
Se ‘ocê quer mesmo ficar, vai ter que desistir de novo.
O velho da loja agora jazia parado em pé, ao lado de onde eu estava estirada. Ele se agachou e pressionou dois dedos sobre a minha testa. Me perguntei qual era o seu nome.
"‘Brigada por decidir ficar. " Ele disse, sem mover os lábios.
Mãos grandes e quentes fecharam ao redor do meu rosto, e só naquele momento percebi que meus olhos haviam se fechado.
O rosto de Jacob flutuava sobre o meu, tapando a vista do céu acinzentado de La Push. Ele parecia dizer algo freneticamente, mas eu não conseguia ouvir. Minhas pálpebras pareciam pesar toneladas cada uma, e eu tinha dificuldade em mantê-las abertas.
As mãos se moveram de meu rosto, e se fecharam ao redor de meus ombros, antes de balançarem-nos levemente.
Meus olhos se abriram novamente, e Jacob continuava lá. Desta vez, consegui ouvir sua voz.
“...lla? Bella, fique comigo!” A voz de Jacob soava cada vez mais alta, como se estivesse andando até mim através de um túnel. “Bella, consegue me ouvir?! Preciso que fique de olhos abertos, amor. Entendeu? Preciso que olhe pra mim.”
Podia sentir o sangue escorrer pelas laterais de minha boca; o cheiro de sal e ferrugem estava me deixando enjoada e tonta, mas — com muita dificuldade — consegui fazer o que me pediu. Meus olhos estavam abertos, e encaravam o poço de chocolate que eram os seus.
Podia sentir alguém enrolando alguma coisa ao redor do meu braço cortado, provavelmente tentando estancar o sangue que ainda escorria quente sobre minha pele, mas eu sabia que era tarde demais. Eu já não sentia mais dor.
Eu me sentia… calma.
O velho ainda estava agachado ao meu lado, mas Jacob não demonstrava reação a ele; assim como Victoria e Seth não haviam feito. Talvez eu realmente estivesse ficando louca, afinal.
Ele colocou a mão em meu braço, e sua voz soou em minha mente novamente.
‘Cê fez um ótimo trabalho, agora pode descansar.
“Jake.” eu tossi, expelindo ainda mais sangue que ainda subia pela minha garganta. “Seth… está bem?”
Ele assentiu, enquanto as lágrimas inundavam os seus olhos e escorriam pela lateral do seu rosto.
“Todos estão bem, Bells; Seth também." garantiu, fungando. “E você vai ficar bem também, tá bom? Sam está ligando para Carlisle agora mesmo… Logo ele vai estar aqui para te ajudar.”
Assenti, com dificuldade. A tarefa solicitava mais energia do que eu tinha para gastar.
Os pontos pretos em minha visão pareciam crescer cada vez mais, mas, estranhamente, eu não sentia medo. Na verdade, a calmaria de antes ainda se espalhava por dentro de mim.
Jacob beijava meu rosto e movia meus cabelos que haviam grudado no sangue, enquanto continuava a falar, mas eu já não entendia muito de suas palavras.
“Jake?” o chamei, fracamente. Minhas pálpebras pesavam mais a cada segundo, e eu já não sentia mais vontade de mantê-las abertas. Só queria dormir.
…agora pode descansar.
“Sim?”
“Eu… te amo… tanto.” sussurrei, e deixei que a escuridão tomasse conta de mim, finalmente.
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