Full Moon
29 Sangue
Notas iniciais

“You don’t need to push your luck.”
Jacob laughed, louder than before — he found what I’d said very funny indeed.
“Bella,” he finally said — still chuckling — as he shut the door behind me, “you can’t push what you don’t have.”
— Jacob and Bella, Eclipse
Conversar com Jacob sobre os meninos cessarem as rondas ao redor da escola foi mais difícil do que eu imaginara. Ele ouviu o que eu tinha a dizer sem demonstrar nenhuma emoção, e conversou com Sam — que disse que iria considerar por alguns dias antes de tomar alguma decisão — sobre o assunto, porém, passou o resto da semana de cara emburrada, trajando um bico enorme no rosto toda vez que conseguia me visitar.
Ele havia deixado claro que não estava feliz com o meu pedido, e as coisas não estavam exatamente “perfeitas” entre nós.
Mesmo que mudássemos de assunto, mesmo que passássemos algumas horas juntos focados em outra coisa, meu pedido para que o bando parasse de vigiar a escola parecia um mosquito chato, zumbindo ao nosso redor a todo momento.
Eu não estava me sentindo bem desde o dia anterior, e poderia apostar que a culpa era de todo o estresse que as últimas semanas haviam trazido. Me senti enjoada a noite toda e, mesmo com Jacob passando algumas horas ao meu lado, não consegui dormir direito.
“Eu só não entendo quem ele pensa que é, pra ficar dando palpite na vida dos outros.” Resmungou Jacob — mais uma vez — ao meu lado, enquanto eu dirigia em direção a casa de Sam e Emily, sábado à tarde, depois que saí do trabalho.
Jake havia esperado durante todo o meu turno na caminhonete — que estava estacionada na rua -, sentado no banco do passageiro. Desde que mencionei a possibilidade dele ser visto pela população da cidade, ele decidiu passar todo e qualquer tempo, em que estivesse livre, montando guarda em forma humana; e fazia questão de deixar claro quão descontente estava, cada vez que isso acontecia.
“Você já pensou que, talvez, pela primeira vez, ele esteja tentando ajudar?” Respondi, já cansada daquele seu argumento. “Esse é o motivo dos Cullen terem voltado, afinal. Não iremos conseguir trabalhar em conjunto, se os lobos acabarem na mira dos caçadores da cidade.”
Jacob bufou, cruzando os braços sobre o peito, como uma criança.
“Pra mim, parece mais é que ele está tentando se fazer de bom moço, enquanto faz os lobos soarem irresponsáveis e despreparados, isso sim!” Respondeu, com cara de poucos amigos. Foi a minha vez de bufar para ele.
“Nem tudo precisa ser uma teoria da conspiração, sabia? Além do mais, eu sei que vocês não são nenhuma das duas coisas.” Suspirei, cansada da conversa repetitiva. “Mas tem que admitir que, neste ponto, eles têm alguma razão. Se forem vistos, será um pandemônio; e essa é a última coisa de que precisamos, no momento.”
Tentei voltar minha atenção ao caminho à minha frente, mas a força de seu olhar penetrante, ao meu lado, parecia estar cavando um buraco em minha cabeça.
“O quê?”
“Não sei porque ainda fico surpreso ao ver que ele consegue entrar na sua cabeça.” Murmurou, quase que para si mesmo. “Você não pode deixá-lo te usar assim, Bella. Eles tem o número de Sam, então que liguem se tiverem algo para dizer sobre Victoria.”
Espiei-o pelo canto do olho, e notei o quanto aquele assunto ainda o deixava tenso. Apesar de discordar, e não achar realmente estar sendo manipulada por Edward, não quis contradizê-lo. Ainda não me sentia bem, depois da noite mal dormida, e estava cansada demais para continuar aquela discussão. Dirigi o resto do caminho em silêncio, sentindo uma dor de cabeça surgir, aos poucos, e torcendo para que a paz da casa de Emily me ajudasse a melhorar.
Claro que nada seria do jeito que eu desejava.
Assim que parei o carro em frente a casa — geralmente tranquila — de Emily, pude ouvir diversas vozes soando em tons elevados, do lado de dentro. Jacob franziu a testa enquanto olhava para a casa, antes de sua postura mudar completamente. Seus olhos, agora preocupados, voaram para meu rosto, e eu congelei com a mão na maçaneta da porta do carro. Todas as possíveis causas daquele olhar passaram pela minha mente, e eu, imediatamente, comecei a sentir a dor de cabeça aumentar.
“Talvez seja melhor irmos para outro lugar.”
“O quê? Por quê?” Perguntei, confusa, ainda encarando seu olhar indecifrável. Jake abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas parou a meio caminho. As palavras pareciam estar presas em sua garganta, e, por mais que tentasse, não saíam.
Eu conhecia aquela expressão; já o havia visto agir daquela maneira antes, há apenas alguns meses, quando pulou a janela do meu quarto depois de dias sem falar comigo.
Não esperei mais nenhum segundo, antes de abrir a porta da caminhonete, e pular para fora. Me apressei em direção a casa, sabendo que Jacob estaria em meus calcanhares.
A casa de Emily estava um caos, e nada poderia ter me preparado para o que estava prestes a presenciar.
Minha dor de cabeça parecia ter feito o mundo rodar em câmera lenta. Jared segurava Emily, que estava completamente histérica; suas pernas chutavam para todos os lados, lutando contra os braços restritivos do lobo, que a impedia de avançar.
Paul e Embry apareceram na entrada do corredor que dava aos quartos, com as cabeças baixas. Paul passou por mim apressadamente, sem nem ao menos me notar, e foi em direção à cozinha. Embry, porém, estacou, e seu olhar encontrou o meu, antes de descer para suas mãos e voltarem para mim, em seguida.
O cheiro me atingiu antes que meu cérebro pudesse registrar o que via.
Meu estômago — ainda enjoado da noite anterior — deu um pulo, e tive que me segurar para não vomitar ali mesmo.
Sangue. As mãos, os braços e o peito de Embry estavam cobertos de uma grossa camada de sangue fresco. Senti meus joelhos fraquejarem, e Jacob agarrou meu braço, me firmando em pé.
“Me solte! Jared, eu preciso vê-la!” Berrou Emily, se debatendo o mais forte que podia, porém nada o fez se mover. Era como se ela estivesse lutando contra uma parede.
“Emily, você precisa se acalmar primeiro!”
“Mãe? Aonde você está?!” Ouvi Seth exclamar de algum lugar da casa, parecendo estar ao telefone. “Você precisa vir até a casa do Sam, agora!”
“Bells? Bella, está me ouvindo?" Jacob chamou. Preocupação transbordava em sua voz, porém, não consegui responder. Meus olhos estavam grudados em Embry, e seguiram-no quando se apressou em direção à cozinha — para onde Paul havia ido -, com a cabeça baixa.
Quando ele desapareceu, meus olhos se voltaram para o corredor, agora vazio, à minha frente. No último quarto — o único que tinha a porta aberta -, notei que a pessoa de quem todo aquele sangue viera estava deitada sobre a cama, inconsciente.
Leah Clearwater.
Sam parou em frente à porta — ao lado de Leah, dentro do quarto -, e bloqueou a visão que eu tinha do corpo retorcido da loba. Assim como havia acontecido com Embry há poucos momentos, nossos olhares se encontraram, e sua expressão não poderia ser descrita por outra palavra, a não ser atormentada. Ele também tinha sangue — um pouco menos do que Embry — em seu torso, e suas mãos tremiam conspicuamente.
Quando virou de costas, o baque da porta se fechando foi o que me tirou do transe em que havia entrado sem notar.
Percebi que, a este ponto, Jacob praticamente me chacoalhava, tentando capturar minha atenção, e tive que piscar diversas vezes, antes de conseguir achar a minha voz.
“O-O que aconteceu com a Leah?” Perguntei, minha voz falhando ao dizer seu nome.
O silêncio que surgiu, no lugar de uma resposta, foi ensurdecedor.
Um segundo depois, Emily soluçou. Seu corpo chacoalhou, enquanto chorava copiosamente, ainda presa nos braços de Jared.
Com um pouco de persuasão, eles conseguiram fazer com que Emily se acalmasse, e aceitasse se sentar. Quando passou por mim, com Jared ainda apoiando seu peso, ela agarrou minha mão e me arrastou junto, forçando-me a sentar ao seu lado, no pequeno sofá da sala de estar. Agradeci mentalmente, sabendo que meus joelhos, provavelmente, também não aguentariam muito mais tempo.
Quando Embry e Paul retornaram, estavam completamente limpos. Apesar de estar agradecida por não ter mais de vê-los cobertos de sangue, o cheiro distinto de metal e ferrugem, que apenas sangue poderia exalar, parecia ainda grudado em minhas narinas.
Jacob apareceu com dois copos d’água, que, apesar de aceitarmos, nenhuma de nós se mexeu para beber. “Está se sentindo melhor?”
“Não se preocupe comigo. Quero saber o que aconteceu com a Leah.” Insisti, buscando uma resposta direta. Jared, Embry e Paul trocaram um longo olhar, quase como se estivessem tendo uma conversa interna, decidindo quem iria contar.
“Ela acabou emboscada por dois sanguessugas.” Foi Paul quem finalmente respondeu, depois do que pareceram horas.
“Em La Push?! Alguém mais se feriu?” Passei os olhos pelos três lobos, à procura de algum machucado, ou até mesmo alguma linha que indicasse alguma ferida já curada, porém, não encontrei nada. Me senti começar a entrar em pânico quando notei que, até aquele momento, não havia visto Quil Ateara. “C-Cadê o Quil?”
“Ele está patrulhando.” Respondeu Embry, trocando seu peso de pé, visivelmente desconfortável. “Ninguém mais se machucou; o ataque não foi aqui.”
Eu respirei um pouco aliviada, sabendo que todos os demais estavam bem.
“Então… Se não foi aqui, onde foi? Como eles conseguiram pegá-la?” Percebi que havia acertado na pergunta, quando os quatro lobos abaixaram as cabeças, quase em sincronia. Encontrei os olhos de Jacob por um segundo, e vi, novamente, a mesma expressão de quando estávamos na caminhonete, estampada ali.
Naquele momento — finalmente -, entendi. Não era que nenhum deles quisesse falar. Não. Sam os havia proibido de falar onde Leah estivera.
“Ela estava sozinha.” Explicou Emily, ainda sentada ao meu lado. Sua voz estava tão baixa que não passava de um sussurro. “Ela decidiu ir embora; sair da alcatéia, e é minha culpa.”
“Emily, você sabe, melhor do que ninguém, que não é assim-” Jared começou a dizer, em um tom diplomático, porém, o olhar cortante que Emily lhe lançou, o calou.
“Não é? Então de quem é a culpa?" Seus olhos eram tão ferozes quanto os de um lobo raivoso. “Ela não está sofrendo porque quer. Se não eu, quem a fez ficar desse jeito? Quem causou tudo o que está acontecendo agora? Estaria ela deitada naquela cama, naquele estado, se não fosse por mim?”
“Emily…” Embry tocou o seu ombro, ajoelhando em sua frente. “Nada disso é sua culpa.”
Emily fez menção de negar, mas pareceu não conseguir formar as palavras. A porta de entrada se abriu com força, batendo na parede.
“Onde está minha filha?!” Exclamou Sue Clearwater, afobada, carregando uma maleta. Seth, que eu não havia visto até o momento, apareceu atrás dela, e, assim como Embry alguns minutos antes, estava coberto de sangue; desta vez, seco.
Embry guiou-os até a porta do quarto, no fim do corredor. Quando as vozes cessaram novamente, Emily voltou a cair em prantos ao meu lado, e tudo o que pude fazer foi passar meus braços ao seu redor, tentando confortá-la.
Quando Embry voltou, Paul e Jared anunciaram que iriam render Quil, que não descansava há horas, e, assim que passaram pela porta, Sam apareceu pelo corredor.
“Emily.” Sam a chamou. Sua voz soou mais grossa do que o normal.
Assim que o ouviu, ela parou de chorar. Seu corpo tencionou, mas ela não se moveu.
“Emily, por favor…” Ele se aproximou, porém, quando estava prestes a tocá-la, Jacob o parou.
“Sam, você precisa se limpar primeiro.” Disse, segurando o braço do alfa, e apontando para o sangue que cobria seu corpo. Respirei fundo, sentindo meu estômago revirar, mais uma vez.
Sam assentiu — tão rapidamente que quase nem notei -, antes de desaparecer. Quando voltou, encontrou Emily em pé, andando de um lado para o outro na sala.
“Emily…”
“Você mentiu pra mim.” Ela acusou, sem nem esperá-lo completar a frase. A expressão nos olhos do lobo caiu quando ela falou tão rispidamente, porém ele não negou. A culpa ficando evidente em seu rosto. “Samuel, você olhou nos meus olhos, e disse que ela estava só “ocupada”. Eu te perguntei diversas vezes se você a tinha visto, e você vem mentindo há semanas.”
“Eu não tive escolha, Emy.” Ele declarou, fechando os punhos com força, apenas para abri-los novamente, como se aquilo o deixasse mais calmo.
“Não teve escolha?!” Emily riu com sarcasmo. “Ela podia ter morrido! Como pôde deixar que algo assim acontecesse com ela?!”
“Em, não é bem assim.” Disse Embry, se metendo na conversa. Emily o olhou com desgosto. “Você não pode ser tão dura assim, sem saber de tudo o que aconteceu!”
“Mas eu sei! E sei que não estou sendo dura o suficiente! Você acha que ela merece menos cuidado do que o resto da alcateia, só por ser quem é, Embry? Por que eu sei que, se algum de vocês tentasse fugir de casa, não há universo em que seu alfa o permitiria!” Emily acusou novamente, tirando o olhar de Sam, e virando para Embry. “Ela não é menos importante que nenhum de vocês; então me digam por que?! Porque deixou que ela simplesmente fosse embora, Sam? Porque mentiu para mim sobre isso?”
Sam apenas encarou os próprios pés, respirando pesadamente.
“Samuel! Você não vai me responder?” perguntou Emily. Sua voz começando a fraquejar. “Sam!”
“Leah implorou!” Jacob disparou, respondendo pelo alfa.
“Jacob!” Sam alertou, lançando um olhar de aviso em sua direção.
“Uma hora ela vai ter que saber exatamente o que aconteceu, Sam.” Embry reiterou.
“Não é sua história pra contar.” Sam insistiu.
“Então conte de uma vez!” Jacob insistiu.
“Você sabe muito bem por que eu não posso!” Vociferou Sam. “Então pare de se meter. E você também Embry. Isso não tem a ver com vocês.”
Jacob fechou os punhos com força, tentando controlar seu temperamento e, agora, também suas mãos, que começavam a tremer. Embry apenas desviou os olhos.
“Mas tem a ver comigo.” Declarou Emily. “Então fale, Sam, antes que eu perca a cabeça!''.
“Eu não posso! Ela me pediu para não contar a ninguém, especialmente para você.” Sam informou, antes de ficar em silêncio. Eu podia ver por sua postura, e expressão facial, que ele queria contar tudo à ela. Vê-la tão brava consigo o estava destruindo de dentro para fora. Ainda assim, ele não abriu a boca.
Emily observou o rosto de Sam como se estudasse um problema de cálculo, antes de tentar resolvê-lo. Seu peito subia e descia por conta da respiração pesada, enquanto parecia decidir o que fazer em seguida.
“Então o que pode me contar?” Ela finalmente perguntou. A decepção e a raiva em sua vez ainda eram palpáveis.
Sam encarou as próprias mãos, e pensou, por um momento, antes de responder. “Leah quis sair por aí, sozinha, eu permiti, e, como pode ver, as coisas não deram certo.”
Aquilo não pareceu ser suficiente para satisfazê-la, entretanto, ficou bastante claro que era tudo o que Sam estava disposto a dizer. Jacob parecia estar pronto para entrar na discussão do casal, novamente, então segurei seu braço, parando-o antes que pudesse. Quando nossos olhos se encontraram, eu balancei a cabeça, implorando para que ficasse quieto.
Emily lançou um longo olhar na direção de Sam, antes de sair da sala e se trancar em um dos quartos, deixando seu imprinting para trás, completamente devastado. Eu nunca havia visto aquela expressão no rosto de alguém, antes. Sam parecia mergulhado em tanta agonia, que era como se tivesse perdido tudo o que lhe era mais precioso no mundo.
Ele cambaleou, como se tivesse sido atingido por um soco invisível, antes de ser pego por Embry, que o firmou de pé. Pude ver seus olhos encherem de lágrimas, e ele soluçou, antes de cobrir o rosto com as mãos.
Tive que desviar os olhos, sentindo meu próprio peito apertar em resposta à sua dor. Logo Embry saiu da sala, arrastando o alfa atormentado com ele.
Minha mente deu voltas, tentando dar sentido a confusão que havia presenciado nos últimos minutos. Minha cabeça parecia pulsar, tão forte era a dor, e me perguntei se, talvez, devesse tomar algum remédio.
“Você não parece muito bem, Bells.” Jake sussurrou, prendendo minhas mãos entre as suas. A sensação do calor em minha pele ajudou um pouco. “Acho que é melhor te levar pra casa.”
Eu neguei, puxando-o para o sofá, e nos sentando ali.
“Apesar de querer minha cama, não acho que eu vou conseguir relaxar até ter certeza de que Leah está bem.” Apoiei minha cabeça dolorida em seu ombro e fechei os olhos, aproveitando o leve alívio que a sensação quente de sua pele contra a minha trazia.
“Ela vai ficar bem, apesar de ter perdido bastante sangue. Sue cuidou da pior parte quando chegou, enquanto ela ainda estava inconsciente.” Jacob explicou. "Mas conhecendo a Leah, se estivesse consciente na hora, duvido faria um barulho sequer, mesmo que estivesse morrendo de dor. Ela é cabeça dura demais para não querer demonstrar fraqueza, mesmo em um momento como esse.”
“Leah está acordada?!” Exclamei, surpresa por, apenas naquele momento, descobrir aquela informação. Quando a vi — brevemente — deitada naquela cama, no último quarto do corredor, ela parecia estar entre a vida e a morte! Eu sabia que os lobos se curavam rapidamente — Seth sendo a prova viva daquilo -, mas com todo aquele sangue…
“Sim, e já está reclamando. Sue tem uma paciência de anjo.” Ele riu pelo nariz, enquanto brincava distraidamente com uma mecha do meu cabelo. “Tem certeza de que está bem?”
“Estou. É só uma dor de cabeça.” Respondi, voltando a fechar os olhos. “Não quero ir embora, ainda.”
“Tudo bem.” Ele respondeu, apoiando a cabeça sobre a minha, e nós ficamos daquele jeito por algum tempo, em completo silêncio.
Em meio à quietude do ambiente, repassei a discussão de Sam e Emily em minha mente, e tentei imaginar quais fatos poderiam preencher todos aqueles buracos da história, que Sam se recusava a compartilhar, e não deixava que os demais o fizessem, também. Jacob havia dito que Leah implorou a Sam que a deixasse sair do bando, e seguir seu caminho sozinha. As palavras que usou para explicar, deram a entender que Sam não queria deixá-la fazer aquilo.
Me perguntei se seria apropriado perguntar a Jacob sobre o ocorrido quando estivéssemos a sós, mas ele não havia dito nada antes, e, se Sam o havia proibido de falar, então, talvez, perguntar não adiantasse nada.
A expressão destruída de Sam sondava minha mente quando Sue e Seth saíram do quarto, cerca de quarenta minutos depois. A mais velha tinha uma expressão séria, porém, havia recuperado a cor de seu rosto que, quando chegou mais cedo, com Seth em seu encalço, estava completamente pálido.
Me levantei do sofá, travando meus olhos nos seus, enquanto tentava evitar olhar para suas roupas e para Seth, ambos ainda sujos de sangue. “Como ela está?”
“Ela vai ficar bem. Seu corpo já está se curando, então, para a maioria dos ferimentos, não precisei nem dar pontos. Ainda assim, ela está cansada e precisa de descanso. Eu não recomendaria que saísse da cama até, pelo menos, amanhã, mas não duvido que acabe pulando janela afora assim que acordar, ou quando o osso de sua perna terminar de colar.” Assim que terminou de explicar a situação, Sue suspirou profundamente. Seu tom de voz deixava claro que não aprovava as atitudes de sua filha.
Ela pediu por detalhes do que havia acontecido, mas acabou desapontada quando Jacob disse que também não sabia nada sobre o confronto, já que estava de guarda o dia todo em frente a loja dos Newton. Seth, por outro lado, havia participado de parte da missão de resgate de Leah, e foi quem acabou contando, sem muita vontade, sobre como Leah havia cruzado o caminho de dois vampiros, no Canadá, e que eles a perseguiram até Seattle a manhã inteira. Quando o bando finalmente a alcançou, eles já haviam feito um bom estrago.
A expressão impassível no rosto de Sue não mudou enquanto Seth falava, como se estivesse ouvindo um relatório médico, e não o relato de algo que havia acontecido com sua filha. Imaginei que, naquele momento, — enquanto seu rosto era sério e seus nervos pareciam ser feitos de aço — Sue não estava ali como a mãe da garota ferida, ou como enfermeira, mas sim como um membro do conselho tribal.
Ela se despediu rapidamente logo em seguida, ordenando a Seth que a seguisse, pois precisava urgentemente de um banho. O mais novo saiu pisando duro e resmungando que não queria ir embora, porém, não disse em um tom que a mãe pudesse ouvir.
A porta nem teve tempo de se fechar completamente, antes que Quil passasse por ela, parecendo avaliar bem a situação para saber se era seguro entrar, sem interromper alguma discussão.
“Como ela está?” Ele perguntou, enquanto se sentava na poltrona da sala de estar.
“Sue disse que ficará bem.” Garantiu Jacob, parando atrás de mim, e passando os braços ao meu redor. “Logo acorda.”
O barulho de uma porta abrindo chamou nossa atenção, nos fazendo virar em direção ao corredor, onde Emily hesitava em andar até a sala, ou seguir até o último quarto, onde Leah estava. Por fim, ela andou em direção à sala, onde todos estávamos; tinha uma expressão triste, quase envergonhada no rosto, e corou, quando pediu desculpas pela sua explosão de mais cedo, e insistiu para que ficássemos para o jantar.
Não tivemos tempo nem de concordar, já que ela havia desaparecido pela porta da cozinha, antes mesmo que tivéssemos a chance.
Quil assoviou. “A briga deve ter sido pior do que eu imaginei.”
“Os caras não te contaram nada?” Perguntou Jacob, e Quil apenas chacoalhou a cabeça. “Então você não sabe da metade da missa.”
“E cadê o Sam?” Quil perguntou, colocando os pés sobre a mesa de centro, e buscando pelo controle da televisão. “Achei que o plano dele era ficar pendurado nos pés da Emily pelo resto da semana, implorando para que ela o perdoasse, ou algo assim.”
“Embry o levou para esfriar a cabeça. Mas tenho certeza de que ele logo estará desse jeitinho mesmo, não se preocupe.” Jacob garantiu, me puxando de volta para o sofá, e eu me deixei sentar ao seu lado.
Ambos continuaram a conversar sobre os acontecimentos, porém, nenhum dos dois chegou a falar nada além do que eu já sabia. Eu não quis me meter, e minha dor de cabeça ainda me incomodava demais para que eu me juntasse à conversa, quando finalmente trocaram de assunto.
Apesar de todos parecerem mais calmos, eu ainda me sentia inquieta. Imaginei que, talvez, a briga entre Sam e Emily tivesse mexido comigo; O rosto de Sam; sua expressão de puro desespero continuava voltando à minha mente, de novo e de novo, me fazendo relembrar de momentos da minha própria vida. Momentos que eu preferia esquecer.
O som alto e irritante do noticiário interrompeu meus pensamentos, e me fez voltar a prestar atenção na realidade. O repórter, bem vestido, segurava o microfone em frente ao rosto, enquanto comunicava sobre o aumento de homicídios em Seattle e na região da península.
Pessoas estavam desaparecendo e, até o momento, apenas metade delas havia sido encontrada, todas mortas. Aparentemente, quem quer que fosse o serial killer, torturava suas vítimas ainda vivas, de forma que perdiam muito sangue, antes de largá-las em alguma viela qualquer. Sem digitais, DNA, ou qualquer outra pista que ajudasse a indicar quem poderia estar por trás daquilo.
Ele continuou, dando detalhes sobre as vítimas, as condições dos corpos quando encontrados, e os próximos passos a serem tomados pela polícia, para determinar quais foram as causas de suas mortes.
“Isso é tão triste.” Comentei, interrompendo a conversa dos dois; eles prestaram atenção nas notícias por um momento, antes de concordarem comigo.
“Esse tipo de coisa nunca aconteceria aqui. Se alguém fosse atacado, estaríamos na garganta do assassino num piscar de olhos, pronto para fazê-lo pagar.” Anunciou Quil, com quase orgulho em sua voz. “Não há chance alguma para um serial killer aqui na reserva.”
“Ah, isso me lembra uma coisa!” Anunciou Seth, me fazendo pular de susto. Tive que me virar para ter certeza de que ele estava realmente ali, e o encontrei sentado no chão, em frente a entrada do corredor, como se estivesse guardando-a. Seu cabelo estava molhado, e ele trajava um par de shorts limpo, e eu me perguntei há quanto, exatamente, ele havia voltado.
“Alguns dias atrás, na escola, acabei ouvindo o grupinho do Noah West conversando na cafeteria.” Ele contou. “Estavam falando sobre quão fácil seria assaltar a mercearia perto da escola durante a noite, já que aquela parte da reserva está sempre vazia depois do anoitecer.”
Jacob gargalhou, e Quil bufou, parecendo contráriado.
“Noah West?” Perguntou Jacob, ainda rindo. “O pivete do primeiro ano? O que ele vai usar? A faca de manteiga da mãe?”
“Esses pirralhos de hoje em dia perderam completamente a noção do perigo.” Quil chacoalhou a cabeça, desacreditado. “Ainda me pergunto se tem algo na cabeça, além de merda.”
“Mas o que exatamente eles pretendem roubar?” Jacob olhou para Seth, curioso. “Se estão atrás de dinheiro, deviam saber que a mercearia não tem ido muito bem. Não vão conseguir quase nada lá.”
“Além de idiotas são mal informados.” Quil comentou, rindo.
“Não acho que estejam atrás de dinheiro.” Seth respondeu. “Pelo que entendi, o que querem são as cervejas que ficam guardadas nas geladeiras atrás do balcão. Mas não duvido que tentem arrumar algum dinheiro no caixa, também.”
“Eles vão arrumar apenas uma sova, isso sim.” Disse Quil, com um sorriso grande no rosto. Jacob sorriu de volta, cúmplice. Acompanhei a troca de olhares dos dois, tentando entender o significado por trás deles.
“Ok, eu desisto, do que vocês estão falando? De quem eles vão levar uma sova?” Perguntei, deixando a minha curiosidade vencer.
“Nós, é claro!” Sorriu Jacob, presunçoso, e eu fiquei em silêncio por alguns segundos, absorvendo a informação.
“Vocês andam por aí dando uma surra em todo mundo que faz algo errado em La Push?” Questionei, incrédula. “Não me surpreende que achem que vocês façam parte de uma gangue, então. Por que não ligam para a polícia? Tenho certeza de que Charlie adoraria colocar uns pivetes na cela da delegacia.”
“Nós ligamos pra polícia.” Garantiu Quil, ainda com o sorriso maléfico no rosto. “Depois de termos mostrado a eles quem manda na reserva.”
Fiquei boquiaberta, observando o modo como Jacob e Seth concordavam com ele abertamente. “Nossa, Quil, você mal entrou no bando… Não acredito que já tenha sido corrompido.”
“Corrompido? Nós não somos protetores de La Push apenas quando estamos transformados.” Informou Seth, com orgulho cobrindo suas palavras. “Nós cuidamos dos vampiros, e dos idiotas também.”
“E você, Seth, qual é sua função, exatamente?" Perguntei, surpresa por ele também estar envolvido naquilo. Aos meus olhos, Seth sempre pareceu inocente. Era estranho vê-lo agindo daquele jeito. "Você é algum tipo de agente duplo, ou espião? Fica de olho nas fofocas na escola para passar para frente?”
“Não é como se ele precisasse estar próximo para ouvir os planos desses imbecis.” Jacob deu de ombros, vindo em sua defesa. “Os marginais não esperam que possam ser ouvidos a milhas de distância, e acabam se entregando em uma bandeja de prata. Nós só colhemos os frutos."
“E mesmo que fossem cuidadosos e não conversassem sobre isso em público…" acrescentou Quil. “Se prestarmos atenção suficiente durante as rondas, conseguimos ouvir qualquer coisa que esteja acontecendo em La Push.”
"Aliás, vocês sabiam que Sra.Hulse traiu o marido no começo do casamento? Eu os ouvi discutindo, outro dia. O marido estava perguntando se o filho era mesmo dele." Contou Seth, com a voz animada, se inclinando para frente como se contasse um segredo.
"Você os ouviu discutindo dentro da casa deles? Eles nem moram perto da orla da floresta!" Exclamou Jacob, abismado.
"Não sei porque você ainda se impressiona com a audição do moleque." Riu, Quil. "É óbvio que ele ganha de todo mundo nisso."
Eu chacoalhei a cabeça.
"Talvez vocês devessem mudar o título do bando de Protetores de La Push para Fofoqueiros de La Push." Tirei sarro, e eles explodiram em reclamações, dizendo que faziam um serviço para a tribo e que não eram fofoqueiros.
Eu ri, achando graça de suas reações exageradas.
Sam chegou nesse momento, calando a todos. Ele lançou um longo olhar para o nosso grupo, antes descontraído, e marchou em direção à cozinha, sem dizer uma palavra. Embry apareceu logo em seguida, e se jogou no chão, em frente a televisão.
“Vamos precisar de outra casa para ser o nosso ponto de encontro, pelos próximos dias.” Comentou com um ar cansado, e os outros murmuraram em concordância.
“Não olhem para mim, vocês sabem que lá em casa não dá.” Anunciou Quil, levantando as mãos no ar. “Minha mãe tem sido um porre essa semana.”
“E a minha não tem ideia que eu sou um lobo, então também não rola.” Informou Embry, antes de olhar na direção de Seth. “E, sem ofensa Seth, eu preferia ser queimado vivo a ter que passar meu tempo na sua casa, perto da sua irmã. Principalmente depois de tudo isso.”
“Não ofendeu. Leah não vai estar mesmo com o melhor dos humores depois ficar sabendo do castigo que minha mãe está planejando para ela, por ter fugido de casa.” Resmungou Seth, olhando para os seus próprios pés.
“Então só sobra você, Jake.” Embry apontou, como se fosse o óbvio.
“Como só eu? Você nem perguntou a Jared e Paul, ainda!” Jake reclamou, não parecendo nada feliz pela possibilidade de sua casa ser invadida por lobos.
“Jared mal para em casa por causa de Kim, e quem, em sã consciência, iria querer ir para a casa do Paul? O cara iria dar uma de rei-da-pica.” Explicou, e Jacob, apesar de ter feito uma cara emburrada, não retrucou, sabendo que não havia como negar que ele estava certo.
“E, além do mais, seu pai sabe do segredo, então não precisamos ser discretos.” Quil insistiu, tomando o lado de Embry.
“Vocês querem filar boia lá em casa, isso sim!” Exclamou Jake, e os quatro começaram a discutir, tirando sarro um do outro, como sempre faziam quando estavam juntos.
Eu ri, notando que não havia um dia que se passasse naquele bando sem que um não provocasse o outro, mas que, não importava o quanto um ficasse irritado ou incomodado, no final, eles sempre se apoiavam.
Mesmo naquele momento, onde estavamos apenas sentados na sala da casa da Emily, conversando e assistindo a televisão, Seth guardava a entrada para o quarto de sua irmã; Embry olhava em direção a cozinha, prestando atenção no que Sam e Emily conversavam, como se estivesse tentando ter certeza que, apesar de discutindo, ambos estavam bem; e eu sabia que Jacob ainda estava preocupado com o meu mal-estar.
Aquele sentimento de ter sempre alguém se preocupando com você, sempre te guardando, mesmo que estivesse brigando um com o outro, fazia o meu peito esquentar.
A televisão me chamou a atenção outra vez, me distraindo das brincadeiras que os meninos faziam. Outra notícia havia tomado conta da tela, dessa vez mais recente. Uma imagem borrada mostrando a cena do crime, onde os policiais encontraram o corpo destroçado de uma criança de uns dez anos, em um beco. Apesar da maior parte da cena estar borrada, ainda era possível distinguir o formato do corpo, deitado de um modo estranho no asfalto sujo.
Normalmente, teria virado o rosto e esperado até que a foto desaparecesse da tela, sabendo que ficaria enjoada ao ver o sangue — mesmo que fosse apenas uma foto -, porém, dessa vez, hesitei. Ao olhar para a imagem borrada do corpo daquela criança, notei, com certa surpresa, que eu havia ficado enjoada como de costume.
Me perguntei se o fato de ter visto tanto sangue ao vivo teria me feito, de certa forma, superar minha pequena fobia, porém, sabia que aquilo era bom demais para ser verdade. Também sabia que não era pelo fato de não conseguir ver nada mais do que alguns quadradinhos coloridos, com a censura que o jornal havia colocado no corpo do garoto.
O que me impediu de ficar enjoada, foi o fato de que, apesar de descreverem a brutalidade com que o assassino havia matado a criança, não havia sangue algum no chão. Qual seria a possibilidade de um assassinato tão brutal não espirrar sangue para todos os lados?
“Se eu não soubesse melhor, diria que isso é coisa de vampiro.” comentei, mais para mim mesma do que para qualquer um, encucada com a cena.
O telefone da casa tocou, encerrando todas as conversas de imediato. Sam se materializou em frente ao telefone em poucos segundos, atraindo a atenção de todo mundo na sala. O silêncio repentino que se fez, quando Sam atendeu o telefone, foi como uma brisa gelada em um ambiente quente.
Enquanto a pessoa do outro lado da linha respondia, e todos os meninos com suas super audições ouviam, algo mudou. O que antes pareceu uma brisa, se tornou um vendaval, que esfriou completamente a sala. Notei cada um dos meninos sentarem eretos, arrumando as posturas, e seus rostos se fecharem, enquanto focavam na conversa ao telefone.
Sam não respondeu; apenas escutou, pelo que pareceu tempo demais para a minha curiosidade.
“Quem é?” eu sussurrei na direção de Jacob, cutucando suas costelas com meu cotovelo. Jacob hesitou; Seus olhos fixaram nos meus por vários segundos. Toda a diversão que havia ali a poucos minutos havia desaparecido completamente.
Ele não parecia querer responder a minha pergunta.
“Entendi. Preciso falar com o conselho primeiro, mas acho seguro assumir que estão certos.” Sam respondeu, fazendo com que nós olhássemos de volta para ele. “Tudo bem.”
Ele bateu o telefone no gancho, um pouco mais forte do que eu esperava. Seu olhar se cravou em mim quase imediatamente, e se demorou ali, antes de passar para os demais.
“Não façam planos para esta noite.” Anunciou Sam, vestindo aquela sua máscara controlada, que sempre escondia todos os sentimentos que estaria sentindo no momento. “Nós temos um encontro.”
Me voltei para Jacob, procurando as respostas para as perguntas que Sam não parecia disposto a responder.
“Era Carlisle.” Ele disse de mal gosto, não parecendo feliz por ter que dizer o nome em voz alta. “Parece que eles descobriram algo novo sobre a ruiva.”
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